Soluções de outras línguas

Nem de propósito

     

      O mimetismo acrítico produz monstros. Em certo jornal, cujo nome agora me esquece, alguns jornalistas escrevem (mas talvez nunca chegue a público), por exemplo, «era-Queiroz». Assim mesmo, com hífen. Relembro-o a propósito de uma frase que acabo de ler: […] was an organization founded in 1997 and similar in scope to the Reagan-era Committee on the Present Danger». É como eu costumo dizer: se tivermos de copiar, que temos, que copiemos então o que são soluções de outras línguas para suprir falhas da nossa língua.

Léxico: «caixola dos ferros»


Tirado a ferros


      Sobretudo os médicos rurais tinham uma mala deste tipo. Esta, de couro inglês, uso-a quando vou parturejar alguma vaca em derredor. Dentro, levo a caixola dos ferros. Estou a brincar. Vejam como escreve Tomaz de Figueiredo, o escritor que uma vez afirmou, no prefácio ao Dicionário Falado, que «tudo as palavras podem dizer»: «Também vestido à trouxe-mouxe (com aquele sobretudo abandado a seda — lembras-te, Francisquinha?) e a caixola dos ferros apanhada também às carreiras, lá arrastara a prima D. Maria do Socorro o Dr. Fortunato a ver o mano Francisquinho, a quem deixara de guarda, sob o travesseiro, o rosário bento pelo Papa que o mano lhe trouxera de Roma…» (Uma Noite na Toca do Lobo. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 14). Caixola é uma pequena caixa, vocábulo que alguns dicionários dão erradamente como somente usada no Brasil, e os ferros são os instrumentos médico-cirúrgicos. Não confundir caixola com o parónimo cachola, que os médicos deixaram de ter depois que o Governo arrepiou caminho na ideia de lhes impor a exclusividade ao Serviço Nacional de Saúde.

«Hífens» e «ciclámens»

Aqui está



      Ainda se lembrará, caro Fernando Ferreira, dos hífens. Pois aqui está: Tomaz (ou, para os mais comichosos, Tomás) de Figueiredo a escrever — e ninguém me convence que se enganou duas vezes seguidas — ciclámens: «A ver se o Pedro, pela Páscoa, apresentava bons canteiros de tulipas, bons ciclámens… Que ela até lhe prometera um fato se lhe apresentasse boas tulipas, bons ciclámens, para a mesa do dia de Cruz…» (Uma Noite na Toca do Lobo, pp. 25-26). Estará por ciclâmens, estará, mas não saberia o autor, cuidadoso como poucos, o que estava a fazer? Vão-se somando as excepções…

Tradução: «Beltway»

Não é tudo o mesmo
     


      Tem toda a importância, caro L. C.: beltway é uma coisa, Beltway, outra. Contudo, suponho que não quererá saber qual a tradução da primeira, pois qualquer dicionário de inglês-português a regista. Beltway, então. Os dicionários definem-na assim: «The political and social world of Washington, D.C., viewed especially as insular and exclusive “understanding better than Beltway insiders what really interests voters — L. I. Barrett”» (in Merriam-Webster). Traduza por altas esferas e todos, tenho a certeza, compreenderão.


À volta de «stoma»

Já vê porquê


      O leitor Armando Pereira pergunta-me porque não encontra nos dicionários a palavra «ostomizado», uma vez que «é uma dura realidade com que vivem milhares de pessoas». Bem, pode ser por várias razões: porque nem todos os vocábulos estão registados, apesar de usados quotidianamente; porque não consultou todos os dicionários; porque a palavra não é assim que se escreve, etc. Sendo um neologismo, é natural que ainda não esteja registado. Contudo, talvez pese o facto de ser uma palavra mal formada. O correcto seria estomizado, pois todas as palavras portuguesas derivadas do grego stoma têm um e prostético e não um o: estomatite, estomocefalia, estomocéfalo, estomódio, estomogástrico, estomografia… E temos outros neologismos a partir do grego stoma, como «estomoterapeuta» (usado largamente no Brasil, mas também já registado na MorDebe), em que se respeitou a regra. Ao contrário do que aconteceu com o termo «merologia», aqui não houve a sensatez necessária para não copiar o inglês. Nesta língua diz-se ostomy e ostomate.

Abuso do pronome relativo «qual»

Qual qual!


      Não há mesmo nada de novo sob o Sol. «Ultimamente, chegou à Imprensa, para substituir o que, grande reforço de qual. Já repararam? Não há período em que não entre o qual cozido ou frito. Um rapaz, o qual trabalhava na serralharia. A mãe, a qual lhe trouxe o almoço. A namorada, a qual tinha ciúmes» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 72). Aqui há tempos conheci um militar constrangedoramente ignorante — agora talvez apenas um indivíduo constrangedoramente ignorante, pois já não há empregos para a vida — que em cada frase cometia a proeza de encaixar pelo menos um «do qual». Mais estranho ainda: só por acaso havia concordância em género com o antecedente. Podia dizer: «Esta vida estúpida e vazia que levamos, do qual nos arrependeremos no fim, afasta-nos da leitura.» Não, não, a estrutura era essa, mas mais despropositada, e o conteúdo assemelhava-se mais a isto: «O jogo do Benfica, no sábado, foi o máximo, da qual comemorei com cinco bejecas.»


Ortografia: «microindústria»

Como microempresa


      É como diz, cara Luísa Pinto: enquanto alguns dicionários e prontuários referem explicitamente que as palavras formadas com o elemento micro- nunca devem apresentar hífen entre este e os restantes elementos, outros não dizem nada. No âmbito do Acordo Ortográfico de 1990, a questão está, felizmente, tratada de forma explícita. Assim, a Base XVI (Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação), n.º 1, b), estipula: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.» Logo, a contrario sensu, será microindústria.


Pronúncia: «Euribor»

Imagem: http://www.euroresidentes.com/

No Sul e no Norte



      Chegámos ao ano da crise. Segundo notícia divulgada ontem, as palavras «Euribor» e «petróleo» foram as mais pesquisadas no portal Sapo durante o ano de 2008. Quanto a esta última, não há nada a dizer. No que diz respeito a «Euribor», já é diferente. Euribor é o acrónimo de Euro Interbank Offered Rate e é uma palavra aguda e não grave, como todos os dias ouço os jornalistas pronunciar.

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