Abuso do pronome relativo «qual»

Qual qual!


      Não há mesmo nada de novo sob o Sol. «Ultimamente, chegou à Imprensa, para substituir o que, grande reforço de qual. Já repararam? Não há período em que não entre o qual cozido ou frito. Um rapaz, o qual trabalhava na serralharia. A mãe, a qual lhe trouxe o almoço. A namorada, a qual tinha ciúmes» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 72). Aqui há tempos conheci um militar constrangedoramente ignorante — agora talvez apenas um indivíduo constrangedoramente ignorante, pois já não há empregos para a vida — que em cada frase cometia a proeza de encaixar pelo menos um «do qual». Mais estranho ainda: só por acaso havia concordância em género com o antecedente. Podia dizer: «Esta vida estúpida e vazia que levamos, do qual nos arrependeremos no fim, afasta-nos da leitura.» Não, não, a estrutura era essa, mas mais despropositada, e o conteúdo assemelhava-se mais a isto: «O jogo do Benfica, no sábado, foi o máximo, da qual comemorei com cinco bejecas.»


Ortografia: «microindústria»

Como microempresa


      É como diz, cara Luísa Pinto: enquanto alguns dicionários e prontuários referem explicitamente que as palavras formadas com o elemento micro- nunca devem apresentar hífen entre este e os restantes elementos, outros não dizem nada. No âmbito do Acordo Ortográfico de 1990, a questão está, felizmente, tratada de forma explícita. Assim, a Base XVI (Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação), n.º 1, b), estipula: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.» Logo, a contrario sensu, será microindústria.


Pronúncia: «Euribor»

Imagem: http://www.euroresidentes.com/

No Sul e no Norte



      Chegámos ao ano da crise. Segundo notícia divulgada ontem, as palavras «Euribor» e «petróleo» foram as mais pesquisadas no portal Sapo durante o ano de 2008. Quanto a esta última, não há nada a dizer. No que diz respeito a «Euribor», já é diferente. Euribor é o acrónimo de Euro Interbank Offered Rate e é uma palavra aguda e não grave, como todos os dias ouço os jornalistas pronunciar.

Símbolo de percentagem


A bem da clareza

      Cá está: à semelhança dos próprios números, também os símbolos se não devem elidir. Ainda que ao lermos possamos dizer «Consumo de tabaco baixou entre 10 e 15 %», temos de escrever, como fez o Diário de Notícias, «Consumo de tabaco baixou entre 10 % e 15 %». Se repararem, não é todos os dias, sobretudo na imprensa, que vemos as coisas feitas desta forma.

Tradução: «technical requirement»

Exigências e pedidos


      Não me perguntem quantas vezes vejo, mas de vez em quando vejo a locução inglesa technical requirement traduzida por «requerimento técnico». Acaso já se deram ao trabalho de consultar um dicionário para verem o que significa «requerimento»? «Acto ou efeito de requerer»; «petição por escrito, segundo certas fórmulas legais», «pedido». Parecido, sim, com a palavra correcta: «requisito».



Tradução: «senior editor»

Seniores e juniores, hã?


      Obrigado pelas suas palavras, caro António Martins. Sim, este blogue fez ontem três anos, e este é o 1942.º texto que aqui escrevo.
      Vamos agora ao que interessa: tudo o que inclui «sénior» cheira logo a escusada inglesice. Até já pode ter lido e ouvido «editor sénior», mas a designação editor principal (ou editor-chefe) é genuinamente portuguesa e muito usada. Era o que faltava, tantos seniores: senior officers, senior members, senior sisters, etc.

Pronúncia: «vacina»

Outro surto

      Com a sazonal epidemia de gripe, recomeça outro problema associado: os médicos e demais profissionais da saúde a pronunciarem /vàcina/. Mais benigna só a própria doença. Claro que, ao longo do ano, sempre temos os, inconscientes embora, propugnadores do desemudecimento da língua a dizerem /bàctéria/. Haja saúde para os aturar a todos.


Tradução: «chief of staff»

O Rahm de Benfica


      Logo de manhãzinha, vejo passar, com o lumeiro do cigarro a anunciá-lo à distância, o sósia de Rahm Emanuel com o seu cão. À noite, vejo-o vir buscar a mulher, num grau variável de bebedice, ao café, onde esteve o dia inteiro. Mas não é deste casal que quero falar, mas sim da tradução de chief of staff. Alguma imprensa e blogues deixam-no assim, dando-o por intraduzível, o que não me parece bem. O Diário de Notícias também vê as coisas de outra maneira: «O jornal Chicago Tribune revelou sábado que o chefe do Gabinete da futura administração, Rahm Emanuel, conversou com o governador do Ilinóis sobre os candidatos ao lugar de Obama no Senado e deu-lhe uma lista de nomes “aceitáveis” aos olhos do Presidente eleito» («Corrupção em Chicago arrasta chefe do Gabinete de Obama», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 15.12.2008). Mas já vi traduzido por — agarrem-se bem! — «chefe do Estado-Maior da Casa Branca».

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