Sobre «fronha»


Quando havia povo


      Alguns dicionários ainda registam fronha na acepção popular de «cara, rosto, máscara», que, quando calha, se ouve. Há anos, Tomaz de Figueiredo foi ouvir a senhora Maria da Conceição Gomes, a tia Maria Berrelha, que o escritor inscreveu no rol dos seus mestres de linguagem. E esta senhora, que sabia muito, «só ler é que não, sem que lhe faça e fizesse minga», explicou porquê fronha: «Uma fronha, sim, a máscara de Entrudo que enfiavam pela cabeça os estúrdios aldeões, fronha de croché, alguma de crivo — já luxo de bragal centenário —, e vazada, assim. A moça ou o moço da folia a ver para fora, ninguém a ver-lhe a cara às gradinhas ou aos buraquinhos, atrás daquele reposteiro de intriga e traição. E, lá dos buraquinhos e gradinhas, da trama de algodão ou dos espreitadoiros de linho, a narigar acusas, podres e marmanjarias, amores nada católicos, a crónica secreta dos sítios, o diabo a quatro. Mas também declarações de amores envergonhados, lá isso é verdade, aos ouvidos e em fala natural, meiga…» (Tomaz de Figueiredo. Dicionário Falado. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p. 242).

Ortografia: «baba-de-camelo»

Imagem: http://oglobo.globo.com/

Väkevä glögi e outras coisas



      Ontem bebi, pela primeira vez, uma caneca de oloroso e quente glögi, a bebida nacional finlandesa. Contudo, como este blogue não é sobre a minha vida, passo já ao que interessa. A leitora Teresa Silveira quer saber se o doce tradicional português se escreve baba de camelo ou baba-de-camelo, e porquê. Isto é, com ou sem hífens. Estamos claramente perante um composto que forma um sentido único ou uma aderência de sentidos, como exige o Acordo Ortográfico de 1945. Logo, baba-de-camelo. Tal como papo-de-anjo, orelha-de-abade, barriga-de-freira e toucinho-do-céu, por exemplo. A baba de camelo propriamente dita é algo, apesar de tudo, diferente: é a própria secreção do simpático mamífero ruminante. Que nunca vi em nenhum restaurante nem quereria degustar.

Joaquim Figueiredo Magalhães

Só não sabem é português


      Catarina Portas relembra uma conversa com Joaquim Figueiredo Magalhães (1916-2008), fundador da Ulisseia, falecido no passado mês de Novembro: «“Escolhi escritores como tradutores porque eram homens que sabiam português. É que se eu quisesse alguém que soubesse línguas, entregava as traduções ao porteiro do Avenida Palace, que sabia oito idiomas, só não sabia era português. Mas também preferia os escritores porque gostavam do que traduziam, traduziam por gosto.” E pagava bem as traduções, não se esquecendo de, em cada reedição, enviar um cheque, tanto a tradutores como capistas, no valor de um terço dos honorários iniciais» («O último livro da Ulisseia s. f. f.», Catarina Portas, Público/P2, 1.12.2008, p. 9. Texto na íntegra aqui).

Iliteracia

Para eles, é tudo grego


      Um grupo de insurrectos ordeiros (tomem lá um oxímoro) reuniu-se ontem na Praça da Figueira em solidariedade com o movimento grego, respondendo assim ao apelo da Assembleia de Ocupantes da Universidade Politécnica de Atenas. Empunhavam vários cartazes, e num deles lia-se «inssurectos», prova de que a concentração não foi feita pelos melhores alunos. Contudo, noutro cartaz lia-se «Somos todos gregos», o que desculpa o facto de não dominarem a ortografia da língua portuguesa.
      Meninos rabinos: não existe em português a sequência nss. Sim, a MorDebe e alguns dicionários estão errados. Qual «transsexual», qual carapuça!

«Cabeça de giz»


Sr. Lei


      Por vezes fala-se dos polícias sinaleiros como coisa do passado. No entanto, os cabeças de giz, como são conhecidos na gíria, ainda existem no País. Em Lisboa há quatro. De chapéu colonial, luvas brancas e apito na mão, ainda orientam o trânsito, se bem que já não de cima de um palanque pintado com riscas brancas e vermelhas.


 

Pronúncia: «Versalhes»

Sempre pensei que…


      Será, leitora distraída, a Pastelaria Versalhes de Maputo, pois a da lisboeta Avenida da República é Versailles, o que explica a pronúncia que se ouve. «Escreve-se Versalhes, mas vamos lendo Vèrsalhes — não vá alguém julgar que não sabemos francês» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 104).


Tradução: «hoist»

Fotograma do filme 20 000 Léguas Submarinas

Para cima!



      Ainda o filme 20 000 Léguas Submarinas. O Nautilus é bombardeado por um navio de guerra, o que provoca algumas avarias no submarino, pelo que se torna necessário usar o eixo de emergência. No original ouve-se o capitão Nemo ordenar aos seus homens: «Hands up with the hoist.» Na legenda lê-se: «Levantar o elevador.» Claro que hoist também é «elevador», «ascensor». Temos, no entanto, de adequar a tradução ao contexto. No caso, trata-se de um guincho ou guindaste. De resto, mesmo substituindo «elevador» por «guincho» a tradução é equívoca. «Icem-no com o guincho», «Levantem-no com o guindaste» seriam traduções mais correctas.

Sobre «X-acto»

Dissecado


      «“Sentia-me bem a fazer desenhos nos braços com um X-acto. Os colegas pensavam que estava a brincar, mas eu sabia que não e quanto mais me diziam para parar, mais fazia”» («Cerca de 60 mil jovens já se automutilaram», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 15.12.2008, p. 11). Eu também conheci um jovem que se automutilava, mas isso — espero que todos tenham percebido ao fim de três anos de blogue — não interessa para aqui, mas sim o destaque dado à palavra «X-acto». Para quê? Não é nem estrangeirismo nem uma marca comercial. Já foi. Deu-se uma evolução, pois quando falamos de um X-acto na verdade estamos a referir-nos quase sempre a uma lâmina do tipo X-acto. Grafar em itálico faz tanto sentido como os Brasileiros grafarem «faca olfa» em itálico. A esta mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria.

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