Tradução: «morale» (I)

Fotograma do filme 20 000 Léguas Submarinas

Desmoralizador


      Tive de rever, para um trabalho, o filme 20 000 Léguas Submarinas, realizado por Richard Fleisher, com James Mason, Kirk Douglas e outros. No original ouve-se: «False alarms were common, and they didn’t help our morale.» Nas legendas em português, da responsabilidade de Paula Pereira, lê-se: «Os falsos alarmes eram comuns e só serviam para abater a moral.» Já aqui o escrevi uma vez: o facto de em inglês serem duas palavras diferentes, moral e morale, devia levar os tradutores a reflectir na língua de chegada. Em português, a primeira será traduzível por «a moral» e a segunda por «o moral».

Ortografia: «catrapus»

Truz-truz!

[In media res]… razão por que sou tão atento às onomatopeias e às interjeições. Em suma, escreva catrapus, escreva catrapós, não escreva catrapuz, como se vê neste exemplo: «— Deus odeia os mentirosos — e bateu três vezes na mesa. Catrapuz! Catrapuz! Catrapuz! Manley baixou a cabeça e começou a soluçar; Sears ajoelhou junto à cadeira dele. — Conta-me como a Betty gritou e suplicou, Ruivo. Conta-me, depois conta a Deus» (James Ellroy. A Dália Negra. Terceira edição. Tradução de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Presença, 2006, p. 138). Talvez por isso esteja em itálico… «— Ele o que precisa é de uma auga de unto — volveu o outro. — Queres tu tomá-la, Miguel? É um stante, enquanto se arranja» (João de Araújo Correia. Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 76). Agora a sério: pode ser confusão com a ortografia de truz.

Selecção vocabular; possessivos


A potes

Pergunto a mim próprio quantas crianças, de norte a sul do País, conhecem o bacio ou penico por pote. Avalio por mim, que, por uns breves instantes, fiquei perplexo perante o título Ruca Aprende a Usar o Pote, mais um título da infindável colecção referente a esta personagem da série televisiva. Tão perplexo como a personagem quando vê o objecto: «O Ruca pegou no pote e colocou-o na cabeça, para imitar um chapéu.»
A ficha técnica ajuda-nos a perceber tudo: o título original é Caillou — Le pot. A tradução e adaptação é de Sara Costa, a quem mando este recado: segundo certos estudos (Rice e Wexler, 1996, e Restrepo e Kruth, 2000, v. g.), a omissão do pronome possessivo é uma marca clínica de crianças com distúrbio específico da linguagem — mas de crianças falantes do inglês e do francês! Os tradutores portugueses devem desbastar, se querem escrever português de lei, os pronomes possessivos, marca sobretudo do inglês. Os revisores devem acompanhá-los ou substituí-los nesta nobre tarefa.

«Certamente que», de novo

Certamente que viram

Sirva como exemplo esta frase da noveleta O Terrorista de Berkeley, Califórnia, de Pepetela (2.ª edição. Revisão de Rui Viana Pereira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 22), já aqui citada para outros fins: «Certamente que as estrelas empalideceram quando ela fez a fotografia viajar pelas galáxias.» Retomo assim uma questão já abordada aqui, desta vez aduzindo a análise de Olívia Maria Figueiredo e de Eunice Barbieri de Figueiredo no Dicionário Prático para o Estudo do Português (Porto: Asa Editores, 2003, p. 26): «Quando um advérbio constitui o centro de uma oração, pode ter como complemento uma subordinada: Certamente (tenho a certeza) que ele te ama.»

Léxico: «retranca»


Agora sim

A partir de agora, ao recontarem um filme de piratas, já não precisam de dizer que o capitão Blood se pendurou do «pau» e se lançou sobre quatro bucaneiros inimigos. Para o interlocutor não ficar na retranca, acrescentem que andam a ler o blogue do Helder Guégués. Assim mesmo. «“O indivíduo estava a manobrar a retranca [vara de madeira na base da vela, perpendicular ao mastro] e terá sido atingido acidentalmente na cabeça por esta estrutura da embarcação”, disse ao DN fonte da Marinha» («Buscas para encontrar tripulante», Luísa Botinas, Diário de Notícias, 1.12.2008, p. 20). Boa prática, já aqui a recomendei, esta de explicar os termos desconhecidos.

Sobre «Zimbabwe»

Expliquem lá


      É verdade que o Diário de Notícias também opta por grafar Botswana, mas nunca deixa de me fazer espécie que escreva Zimbabwe, quando a esmagadora maioria da imprensa opta pelo nada forçado aportuguesamento Zimbabué. Por outro lado, grafa sempre Missuri, e Havai, e Baamas. Não queria chamar-lhe incoerência — mas é isso que chamo.

Actualização em 17.12.2008

      A Academia Brasileira de Letras recomenda que se escreva «Zimbábue, respeitando-se a pronúncia do termo, acentuado por se tratar de paroxítono terminado em ditongo crescente, como em tênue».

«Anticrise»

Estímulo ortográfico

      As televisões não deixam de falar no pacote de apoio à economia, o novo filão informativo. O pior é que, sempre desleixadas e fazedoras de semianalfabetos, escrevem «anti-crise». A primeira página do Público de hoje vem lembrar até a certos revisores que afinal a incúria não é completa e há quem se importe.

Sobre «mawlawi»


Nisto penso

A imagem acima reproduz uma página do Regulamento (CE) n.º 803/2008 da Comissão, de 8 de Agosto, que instituiu certas medidas restritivas específicas contra determinadas pessoas e entidades associadas a Osama Bin Laden, à rede Al-Qaida e aos talibãs. Como se vê, até em documentos oficiais se opta por maulavi em vez de mawlawi. Uma vez que são ambos títulos, e com origem próxima, quem opta por escrever mulá/mulás também deverá escrever, esperamos, maulavi/maulavis. De resto, já o tenho dito, não podemos esperar que todos os vocábulos estejam nos dicionários. Nem comungo da ideia de que a «ânsia de aportuguesar as palavras» seja «uma irritante obsessão». Como toda a gente já saberá a esta hora, isso não me bole com os nervos, antes o contrário.

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