Formas de tratamento


Fernanda Serrano

Seria preciso investigar a imprensa portuguesa, como já aqui sugeri, para tirar a limpo certos factos, entre os quais a evolução das formas de tratamento. Suspeito que esta forma — usar apenas o apelido — de a imprensa se referir a uma mulher não tem muitos anos. Mais: desconfio que é recente e tem no Diário de Notícias o grande seguidor. Na primeira página podia ler-se: «Serrano livre do cancro da mama após 9 meses». Atribuí, contudo, pese embora já ter visto muitos outros exemplos neste jornal, esta forma de referir uma mulher a desatenção, que não a falta de espaço. Na página 60, confirma-se que é uma opção: continua a omitir-se, de forma deselegante, descortês, militar, o primeiro nome de uma mulher.

Sobre «prequela»

Encurralados

«Nos excertos aparecem actores como Zachary Quinto, o Sylar de Heroes, que interpreta Mr. Spock, ou Leonard Nimoy, o Spock original, que regressa na prequela. A acção do filme decorre quando a tripulação da Enterprise era mais nova» («Novo ‘Star Trek’ estreia-se em Maio de 2009», Diário de Notícias, 12.11.2008, p. 52).
Ainda que quiséssemos, pretensão vã, banir o vocábulo, restava um problema: se argumentarmos que está mal formado em português e advogarmos o uso do original, estamos a esquecer-nos de que também em inglês ele está mal formado. Ou isso não interessa? De facto, o termo é útil. «Prequel: a film, book or play which develops the story of an earlier film, etc. by telling you what happened before the events in the first film, etc: Jean Rhys’s novel Wide Sargasso Sea is a prequel to Charlotte Bronte’s Jane Eyre» (in Cambridge Advanced Learner’s Dictionary).

Topónimo: Curia


Cúria Romana?

O partido do nome errado organizou a 2.ª Universidade da Europa no lugar da Curia, freguesia de Tamengos, concelho da Anadia. O Meia Hora, porém, achou que seria na Cúria. O computador altera, e deixa-se estar. Se tivesse sido necessário escrever Cúria, talvez tivesse saído Curia. Atenção, Sílvia Lobo. Recomendo uma ida a banhos, agora na época baixa, lá mesmo, na Curia. Onde o tempo é bem-estar.

Locução «dar direito»

Assim fala o ti’ Zé das Couves

      Joana de Sousa Dias, no noticiário das 6 da manhã na TSF, informou que o Ministério da Educação enviou para as escolas um despacho com uma clarificação sobre o regime de faltas. Acrescentou ainda, repetindo de forma desastrosa o que o entrevistado dissera: «O secretário de Estado da Educação garante que as faltas não dão direito a sanções nem implicam chumbos.» Tolerável num caloiro de Direito, imperdoável numa jornalista. Terminologia jurídica à parte, a locução dar direito é sempre sentida pelos falantes como algo positivo, uma retribuição, um prémio. Uma sanção é precisamente o oposto.

Sílabas átonas

Pronúncia é poesia

Júlio Machado Vaz e Inês Meneses, em mais uma emissão de O Amor É…, falaram de poliginia e poliandria. Mas não é disto que eu quero falar, mas sim sobre como algumas palavrinhas são maltratadas. Por exemplo, «aliás». Pequenina, mas trissílabo. Logo no início, Júlio Machado Vaz usou-a, mas abriu bem, mas mesmo bem o primeiro a, /àliás/. Como sempre faz. Como muita gente faz.
Escreveu, e com razão, João de Araújo Correia na obra que tenho citado: «Pronunciar bem uma sílaba átona é apenas animá-la para que se entenda. Não é preciso excitá-la, dando-lhe café ou óleo canforado» (p. 29). E na página a seguir: «Em caso de dúvida, emudece a vogal. Ainda que peques, sorrir-te-á comovido o anjo da tua língua.» «Pronúncia é poesia», escreveu este autor.

Democrata e democrático

Bem pensado

Realmente, mesmo sem hífen, isto não soa a português de lei. «Se houvesse língua portuguesa, não haveria Partido Social-Democrata. Poderia haver Partido Social Democrático» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 117). Razão tinham Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota, que em 6 de Maio de 1974 o fundaram com o nome de Partido Popular Democrático (PPD). Nem sempre as alterações vão no bom sentido.

Traduzir nomes próprios

Sim, não, talvez

Quem é que, actualmente, não escreve Júlio Verne? Ninguém, tanto quanto vejo. O meu autor desta semana, João de Araújo Correia, escreveu: «Nossos avós traduziam os nomes próprios. Diziam Emílio Zola e Júlio Verne em vez de Émile Zola e Jules Verne. Os próprios estrangeiros, residentes em Portugal, concordavam com a tradução. Houve, no Porto, o Emílio Biel, o Ernesto Chardron e, mais chegada ao nosso tempo, a ínclita Carolina Michaelis» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], pp. 104-5).

Família e familiares

Antes órfão

Acabo de ler que alguém considerava, numa carta à família, que seria melhor não ter nascido, «dado ser um fardo para os familiares». Logo me lembrei de Camilo ter zurzido em quem se referira à família como os «seus familiares». Ora, a palavra «familiar» designou durante muito tempo o oficial ao serviço da Inquisição. João de Araújo Correia, na obra que hoje já aqui citei, escreveu: «Nunca dizes família. Dizes sempre familiares, sem saber, bem ao certo, o que são familiares» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 115).

Arquivo do blogue