Tradução do inglês


Parafuso com anel

Ficámos a saber: foi Arabella Tanios, sobrinha de Emily Arundell (e nas legendas da RTP Memória apareceu sempre «Arundel»), quem estendeu um arame no topo das escadas, entre o rodapé e um balaústre, para que Mrs Arundell caísse. E onde é que Arabella prendeu o arame? Florinda Lopes, a tradutora, quis que fosse a uma aselha, mas o que vimos é exactamente o que está na imagem acima. No original é nail. «“The thread which you merely deduce from a nail in the skirting board!” I interrupted.» Sempre conheci por camarão fechado. No Brasil, é conhecido por pitão. «Aselha», ma chère amie, é uma laçada, um nó corredio ou uma presilha, tira de pano que tem, numa extremidade, uma casa onde entra um botão para prender. Aselha.

Tradução

Tradução automática

Se eu volar sobre el cordón de la vereda porque vem lá um qualquer veículo que quase me atropela, onde estou eu? (Não vale: num sítio qualquer, falo é espanhol.) Estarei num país de fala castelhana, sim. Mas no campo ou na cidade? Pista: o veículo é um autocarro. Claro: voar sobre o lancil do passeio. Para certos tradutores, contudo, é voar sobre o cordão da vereda. O leitor mais proclive a enigmas que se desenrasque. ¡A la mierda!

Passagem ≠ passamento

De passagem

Confirmadíssimo: nenhuma das inúmeras acepções do termo «passagem» significa «morte». Confusão da tradutora, Florinda Lopes. Mas (re)começo do início, por complacência com os leitores. No episódio de ontem na RTP Memória, que tem hoje continuação, Poirot foi chamado a deslindar mais um assassínio. Trata-se do episódio Testemunha Muda (Dumb Witness), em referência ao fox terrier Bob, que assistiu ao crime. A determinada altura, uma das irmãs espíritas, não me perguntem qual, Isabel Tripp ou Julia Tripp, diz a Poirot, que aceitou um convite para as visitar: «A Emily [Arundell] sabe que se culpa pela sua passagem e acha uma tolice, M. Poirot.» Passage em inglês, sim. Em português, passamento. Morte. Falta de leitura. De dicionários e de obituários.

«Nelson» e «Nélson». «Triplo salto»


Vamos contá-los

Muito curioso: o Diário de Notícias, entre outros jornais, escreve sempre «Nélson Évora». O Record, «Nelson». No que se refere aos nomes próprios, já sabem, respeito sempre (até para que sempre me respeitem) a forma como os escrevem quem os tem. A fonte mais acessível é o sítio do atleta, em que se pode ler «Nelson Évora».
Estabelece a Instrução n.º 38 do Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (1947): «Para ressalvar de direitos, poderá ser mantida a grafia dos nomes próprios adoptada pelos seus possuidores na assinatura, bem como a grafia original de firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos inscritos em registo público.»
A primeira página do Record que ilustra este texto é paradigmática. Por um lado, grafa «Nelson Évora», por ser, estou convencido disso, o nome do atleta; por outro, grafa «Nélson», o lateral-direito do Benfica. Não, não é a minha influência a fazer-se sentir. Não concordo com tudo, de resto. Porquê «triplo-salto»? É, tanto quanto sei, o único jornal que escreve assim. O que é que o atleta faz? Dá três saltos: primeiro, segundo, terceiro. Triplo salto. Só há uma obra a registar a ortografia «triplo-salto»: o Novo Prontuário Ortográfico de José Manuel de Pinto Castro.

Símbolos. Medidas de tempo

Ah, pois

A propósito do texto «Só se for na China» (e espero que o leitor já tenha encontrado o poste, seja lá qual for a intenção), devo acrescentar que, ainda que o correcto seja não afastar o símbolo da parte numérica — 36’ —, esta indicação da medida de tempo é incorrecta, pois os símbolos e ’’ representam minuto e segundo enquanto unidades de ângulo plano e não de tempo. Logo, o correcto é escrever, por exemplo, 4 h 32 min 3 s (com afastamento de até um carácter) e não 4:32 h ou 4 h 32’ 3’’. Ora, basta ler qualquer jornal desportivo ou secção de desporto de um generalista para vermos esta forma incorrecta.

Plural dos nomes próprios

Muito bem

«Os Mukaseis escreveram ainda um livro de memórias, publicado em 2004, intitulado Zephyr, do nome de código de Mikhail» («Um espião que prestou grandes serviços à Rússia», Diário de Notícias, 22.08.2008, p. 37). O excerto faz parte de um obituário e os Mukaseis são Mikhail Mukasei e Elizaveta Mukasei. São dois, logo, Mukaseis. Sim, com qualquer nome: o Bush, os Bushes.

Transliteração de nomes

Respeitinho

      Sim, sou apologista de se escrever os antropónimos tal como são nas línguas originais. (No alfabeto latino, naturalmente.) Nos jornais, é claro, pensa-se de forma diversa. Um exemplo. O defesa sérvio Nemanja Vidić, actualmente a jogar no Manchester United, vê o nome desvirtuado para Vidic nos jornais portugueses. Podia ser pior, claro. Contudo, o correcto é ser grafado com o diacrítico no c, a indicar palatização (produção de som pelo contacto da língua com o palato) fraca.
 


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