A Schutzstaffel ou a SS

Escudo Protector

      «Operações e amputações sem anestesia, injecções directamente no coração de petróleo e outras substâncias tóxicas. Rotina para um médico das forças de elite de Hitler, as SS, como Aribert Heim. Mas ao contrário dos seus camaradas de maquiavelismo, Heim ainda está vivo e a monte. […] Aribert Heim foi médico SS no campo de concentração de Mauthausen, Áustria. Ali efectuou experiências em seres humanos, torturou e matou prisioneiros. Esteve escondido na Alemanha até 1962, ano em que fugiu, como muitos outros nazis, para a América do Sul» («Em busca do último dos monstros nazis», João Magalhães, Meia Hora, 16.7.2008, p. 8).
      Vamos ver se percebo: se em vez de escrever SS, o jornalista tivesse desdobrado a sigla, teria escrito «Schutzstaffel». E, logo, «a Schutzstaffel». Donde vem então o plural? Também ninguém diz «as PSP» quando a sigla se refere à Polícia de Segurança Pública.
      Por outro lado, o que é isso de «coração de petróleo»? Deveria ter escrito «injecções de petróleo e outras substâncias tóxicas directamente no coração». Mataria menos leitores...

Actualização em 9.10.2009

      «Dado que o seu pai [de Herta Müller, laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 2009] pertenceu à SS — tropa de elite chefiada por Himmler na II Guerra Mundial —, perpassa ainda pela sua escrita algum sentimento de culpa perante o passado obscuro da Alemanha» («Nobel premeia escritora corajosa», Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 9.10.2009, p. 41).

Grandes números

Um milhão, mil milhões, um bilião: 1 000 000, 1 000 000 000, 1 000 000 000 000

Já que falam nisso



      Numa mensagem de correio electrónico, o IPQ (Instituto Português da Qualidade) pergunta se «sabia que a designação correcta para o número 10 elevado a 9 (1 000 000 000) é mil milhões e para o número 10 elevado a 12 (1 000 000 000 000) é um bilião». Eu sabia, mas será que todas as pessoas sabem? Os tradutores, por exemplo, costumam meter os pés pelas mãos. A norma portuguesa sobre os grandes números é a NP 18:2006.

Folhear ≠ desfolhar

Folhas caídas

      O Meia Hora entrevista hoje a professora de Literatura Portuguesa Ana Paula Arnaut, autora da compilação de entrevistas (António Lobo Antunes — Confissões do Trapeiro, ed. Almedina) dadas entre 1979 e 2007 por António Lobo Antunes. Lê-se naquele jornal: «Durante a digressão de apresentação da obra, a autora falou com o Meia Hora e desfolhou-nos as páginas desta compilação» («“Através desta obra conseguimos perceber as diferentes maneiras de estar de Lobo Antunes”», 15.7.2008, p. 15). Regista qualquer dicionário: Desfolhar, verbo transitivo: 1 tirar as folhas ou as pétalas a; descamisar; descapelar; 2 sentido figurado extinguir pouco a pouco.
      É isto que os jornalistas pretendem, extinguir-nos a paciência pouco a pouco?

Revista em linha

OPS!

Foi ontem lançado o primeiro número da revista bimensal Ops!, de Manuel Alegre, que é aberta a todos os que têm um pensamento de esquerda. «Chegou a hora de resistir ao condicionalismo e à colonização ideológica», escreve Manuel Alegre no editorial («escreve o deputado-poeta», não resistiriam os jornalistas a escrever). Cada número da revista será dedicado a um tema, tendo o primeiro número como tema o trabalho e o sindicalismo. Pode descarregar o PDF.

Bibliotrónica Portuguesa

Colaborem

Dantes havia o livro único; agora, o livrónico. Sabia? Até às 17.34 de ontem, eu também não. Àquela hora, Carlos Costa, assessor do projecto Bibliotrónica Portuguesa, resgatou-me da minha ignorância. Na Bibliotrónica Portuguesa, que é um sítio dedicado à edição de textos em suporte electrónico, alojado na página do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, traduzem e-book por livrónico. Os textos editados e a editar têm de cumprir três condições: têm de ser textos em língua portuguesa; têm de ser textos cuja edição não ofenda os direitos de autor (domínio público ou cedência dos direitos); têm de ser editados de acordo com normas previamente explicitadas. Veja aqui.

Um anglicismo semântico

Evidentemente

Afinal, a estátua da Loba Capitolina, símbolo de Roma, é 1800 anos mais nova do que se pensava. Como é que se sabe? Para mim, foram provas científicas, com recurso ao carbono-14. Para Ricardo Nobre, «evidências científicas (o teste do carbono) acabam de pôr a descoberto mais um erro da Arqueologia». Evidência, no sentido de «prova», «indício», é um anglicismo inútil e que não merece contemplação. Claro que também vem do latim, através do inglês, mas mais de 50 % do léxico inglês provém do latim. Um caso bem diferente do vocábulo «paciente», aqui explicado por Adriana Freire Nogueira. Curioso é ver que a notícia para que remete Ricardo Nobre não usa a palavra «evidence».

Estudo de caso

Os limites da revisão

É interessante ver a língua evoluir à frente dos nossos olhos. Evoluir… ou espalhar-se? O artigo era a propósito do 5.º aniversário da MTV Portugal, e o título era «Caso-estudo de sucesso europeu» (Filipe Feio, Diário de Notícias, 6.7.2008, p. 70). No artigo, lia-se, entre outras coisas: «No target dos 15 aos 34 anos conquistou um share médio de 4,3% e, de acordo com dados da Marktest, entre Julho de 2003 e Junho de 2004, cresceu 50%, transformando-se num case-study de sucesso para a MTV Networks Europe.» Ou seja, o título usa um vocábulo que é a tradução de um estrangeirismo usado no corpo da notícia. Não será isto um pouco confuso? Primeiro, há muito que se usa «estudo de caso». Segundo, nunca vi senão case study, uma expressão, e não um vocábulo justaposto, «case-study». Neste caso, o revisor só tinha uma coisa a fazer, sem medo nem remorsos: emendar.

Comunidade de leitores

Com olhos de ler

Na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana, reúne-se a comunidade de leitores Com Olhos de Ler (pode ver aqui o blogue). No próximo dia 25 de Julho, das 21 horas às 23 horas, estará em destaque a obra O Amante, de Marguerite Duras, e poesia de David Mourão-Ferreira. No dia 29 de Agosto, a obra em análise será Fogo na Noite Escura, de Fernando Namora, e poesia de Manuel da Fonseca. O núcleo dinamizador é composto por Manuel Nunes, Maria da Graça, João Pequenão, Paula Martins e Cristina Carvalho. Informações pelo telefone 214 481 971, extensão 4403. Porque é que isto me interessa? Afinal sou munícipe de Cascais, não de Lisboa. Além disso, sempre as comunidades, a começar pela de Luiz Pacheco, me interessaram. Piscatória, científica, internacional, cigana, muçulmana, católica, educativa, médica, judaica, protestante…

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