O termo «nação»

O dedo na ferida

A propósito do termo «nação», escrevia ontem Javier Ortiz na sua crónica habitual, «El dedo en la llaga», no Público: «O termo “nação” não apenas recebeu desde antigamente usos muito diversos, como cada dia que passa ganha sentidos mais imprecisos e subjectivos. O que desagrada muito aos que identificam “nação” com “Estado” ou não vêem na ideia de “nação” outra dimensão possível que não a jurídico-política. Para estes, falar da “nação árabe” — expressão muito comum entre os interessados — não tem sentido. Ultrapassa-os tanto o muito grande como o muito pequeno: tão-pouco compreendem que haja ameríndios que falem da “nação sioux”, por exemplo. Nos EUA, muitos afro-americanos definem-se como “nação”. E o mesmo acontece com não poucos latinos» («Las nuevas naciones», Público, 7.3.2008, p. 18, tradução minha).

RevPar e pax

Como?

«De acordo com um estudo da consultora imobiliária [Cushman & Wakefield], o preço médio por quarto disponível (RevPar) em Lisboa é de 58,74 euros, assente numa taxa de ocupação de 6,58 %» («Lisboa tem dos hotéis mais baratos do mundo», Global, 5.3.2008, p. 4). Desta vez, o jornal explicou o acrónimo que usou, o que ainda não é, como devia ser, prática corrente. Outras fontes indicam que o RevPAR é o rácio entre a receita dos quartos ocupados e os quartos disponíveis num determinado período. Como era de esperar, RevPAR vem do inglês: «revenue per available room». Estranho? Tanto ou tão pouco como pax para designar o passageiro aéreo ou o hóspede de hotel. São termos usados em todo o mundo.

Tradução: «canyon»

Quase acertavam

Como traduzir a palavra inglesa canyon? Isso mesmo: por «ravina», «vale profundo com rio», «desfiladeiro». Mas tratar-se-á exactamente do mesmo? É esse o problema da tradução. Neste caso, os Brasileiros têm uma forma aparentemente expedita de traduzir a palavra. O artigo do The New York Times, assinado por John Noble Wilford, dizia: «By dating mineral deposits inside caves up and down the canyon walls, the geologists said they determined the water levels over time as erosion carved out the mile-deep canyon as it is known today. They concluded that the canyon started from the west, then another formed from the east, and the two broke through and met as a single majestic rent in the earth some six million years ago» («Grand Canyon Still Grand but Older», 7.3.2008). O Jornal do Brasil traduziu assim: «Ao datar os depósitos minerais dentro das cavernas do cânion, os geólogos disseram que determinaram os níveis de água ao longo do tempo, à medida que a erosão esculpiu o cânion de 1.600 metros de profundidade como é conhecido hoje. Eles concluíram que um cânion começou no Oeste, outro, no Leste, os dois avançaram e se encontraram formando uma escultura majestosa e única na Terra, há 6 milhões de anos» («Grand Canyon é três vezes mais velho do que se pensa», 8.3.2008, p. A23). O Dicionário Houaiss, contudo, ao registar «cânion», afirma que é a forma não preferencial de «canhão». Logo, canhão é a melhor tradução de canyon.
O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista também a forma canhom: «Canhom, s. m. Formação orográfica, também chamada canhão.» Na língua espanhola há o termo cañón: «Paso estrecho o garganta profunda entre dos altas montañas, por donde suelen correr los ríos.»

Mapear e cartografar

Poupem-nos

Posso estar enganado, mas o «mapeamento» foi largamente divulgado (atenção, precipitados: eu escrevi «largamente divulgado») com o genoma. Agora, os tradutores não podem é querer à viva força que tudo seja «mapeado», não deixando nada para a cartografia. Então ele foi «to map that region» — mapear a região. Não pertencia, com certeza, aos Serviços Cartográficos do Exército. Mais um amador.

Léxico: «gestuário»

«O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.»
Samuel Johnson
Capitão Gancho

No gestuário da língua gestual espanhola, o nome «Zapatero» é transmitido fazendo quase um círculo com o indicador e o polegar sobre o olho direito. Agora, é notícia a iniciativa de mau gosto que foi o PP de Castela-La Mancha ter publicado na sua página da Internet uma imagem do terrorista Abu Hamza, por baixo da fotografia de Mariano Rajoy e ao lado da presidente do PP desta comunidade autónoma, Maria Dolores de Cospedal, com o gancho (garfio em espanhol, palavra que há menos de uma semana vi mal traduzida por «garfo». Quem não se lembra do Capitán Garfio?) a fazer o mesmo gesto. Conclui o Público: «Más flaco favor que a Zapatero hacen a su líder máximo y a su ‘lideresa’ regional colocando al terrorista bien pegado a ellos.»

Costumes espanhóis

Imagem: http://img207.imageshack.us/

Con aceite, como Dios manda


A correspondente do jornal espanhol Público nas Canárias, Concha de Ganzo, foi a Lanzarote entrevistar José Saramago. Pergunta a jornalista: «Rajoy propone que los inmigrantes firmen un contrato, en el que, entre otras obligaciones, tendrían que cumplir con las costumbres españolas. Como portugués que vive en Canarias, ¿qué le parece?» Responde Saramago: «Rajoy no es estúpido, pero se esfuerza mucho por parecerlo. Lo malo es que de vez en cuando lo consigue. Me satisface tranquilizar a don Mariano: en mis desayunos, siempre hay tostadas con aceite y azúcar, que es costumbre española, andaluza por más señas…» Costume que, a determinada altura da História, passou a fronteira. A conversa andou toda à volta da actualidade política espanhola, mas ainda houve tempo para perguntar: «¿Y qué pasará en la nueva obra de José Saramago?» «Se llamará El viaje del elefante y sobre ella no diré más. En otoño, se sabrá.» Talvez só tenha título, pois o escritor já confessou que começa as suas obras pelo título. Homem feliz.

Ortografia: «jihadista»

Então pensem

      Devemos grafar — e, pese o desleixo ignóbil de alguns jornais, há absoluto consenso na matéria — jihad como acabei de fazer, pois a palavra não é portuguesa. Não devemos, porém, fazer o mesmo com a derivada «jihadista». Por uma razão muito simples: esta é portuguesa. (Deixem lá o agá no meio! Também «chanfrado» o tem, e vocês importam-se, acaso? Revoltam-se?) Apesar de tudo, quem assim escreve devia parar um pouco e reflectir em casos de analogia. Stress *, por exemplo. É em itálico que a grafamos. Já a derivada «stressado» ninguém a grafa, e muito bem, em itálico. Com um exemplo tão claro, dispenso-me de aduzir outros. «Entretanto, confrontos entre jihadistas e o exército de Israel em Kissufim, na Faixa de Gaza, vitimaram um soldado israelita» («Faixa de Gaza encontra-se em “implosão humanitária”», Meia Hora, 7.3.2008, p. 8).


* Este sim, um estrangeirismo insubstituível, ao contrário do que afirma a equipa do Ciberdúvidas sobre os vocábulos background e kit. É desta maneira derrotista que defendem a língua portuguesa. De kit não digo nada, por achar desnecessário. Quanto a background, já vi alguns dos nossos melhores tradutores, nas mais diversas obras, vertê-lo para «pano de fundo» «enquadramento», «panorama», «antecedentes», «passado», «contexto», «origens», «ambiente», etc.

República Chechena da Ichequéria

Porque não?

Pergunta, e muito bem, o leitor J. J. L.: «Aquilo que em inglês se escreve Ichkeria, em francês, Itchkérie, em alemão, Itschkeria, em espanhol, Ichkeria, e em catalão, Itxkèria, como poderá (ou deverá) ser transcrito para português: Itchquéria, Ichquéria, Isquéria, Ichéria?» A minha resposta, e a esta hora já muitos leitores o saberão, porque ficou lá para trás, num comentário, foi: «Ainda não vi nenhuma tentativa de aportuguesamento deste topónimo, mas “Ichequéria” não me parece mal.» Parece-me a mais conforme à língua portuguesa. Mas, é claro, passados tantos anos, ainda se continua a escrever «Abkázia», quando seria mais natural (mesmo que se repute tolice não termos a letra capa no nosso alfabeto) a grafia «Abcázia», como eu já escrevi vezes sem conta na imprensa e na revisão de obras. «Conhecida a intenção da Ossétia do Sul, também a outra região separatista da Geórgia, a Abkázia, anunciou que pedirá ao resto do Mundo que reconheça a sua independência» («Estilo “Kosovo” estende-se à Ossétia do Sul e Abkazia», Meia Hora, 6.3.2008, p. 11).

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