Tradução: «athletic supporter»

Suspensório escrotal (athletic supporter) usado pelos jogadores de beisebol

Genitália


Mesmo que seja conhecido de alguém como «suporte atlético», temos honestamente de convir: pouca gente saberá do que se trata. Mas foi assim que o tradutor optou por verter a locução athletic supporter (que é o mesmo que jock, jockstrap). Certo é que para os Espanhóis — e até está registado no DRAE — a peça de vestuário se chama suspensorio. Ora, também no Brasil lhe dão o nome de «suspensório», mas não qualquer suspensório: «suspensório escrotal». Entre nós, encontrei numa tabela de comparticipação da ADSE um «suspensório testicular/trousse escrotal». Sim, porque isto não é só para atletas, mas também para homens herniados. Assim, também se podia chamar-lhe bragueiro ou mesma funda. Consoante as características específicas e o objectivo, imagino que tanto se possa encontrar um suspensório escrotal numa loja de material ortopédico, como na Decathlon ou na Sexilândia. Com ou sem concha.

Léxico: «hemaditrose»

Imagem: http://www.frugalsites.net/

Paixão de Cristo


      
«Horas antes da sua morte, Jesus suava sangue. É dos poucos casos registados de hemaditrose, um fenómeno raro que acontece a pessoas sob uma tensão e pânico extremos. […] Zugibe, ex-patologista-chefe do Instituto de Medicina Legal de Nova Iorque, desmente várias teorias clássicas, algumas delas no filme A Paixão de Cristo: Jesus só carregou o tronco horizontal da Cruz e não a totalidade e só a parte de trás do seu corpo foi açoitada [com um chicote de três tiras, com uma bola de chumbo em cada extremidade, denominado flagrum, na imagem em cima]» («Autópsia revela causa da morte de Cristo», Destak/Sábado, 28.2.2008, p. 6).
        

Antepositivo eco-


Ecos


      «A câmara de Óbidos apresenta hoje o projecto OB2 — Óbidos Sustentável, que visa pôr em prática medidas de eficiência energética nos edifícios e contribuir para o reconhecimento de Óbidos como a primeira eco-vila de Portugal» («Município quer ser eco-vila», Global, 27.2.2008, p. 8). «O projecto OB2 — Óbidos Sustentável, apresentado hoje, vai transformar Óbidos na primeira eco-vila do país ao pôr em prática medidas de eficiência energética nos edifícios da localidade. Essa eco-eficiência passa pela concepção com orientação a Sul, pela redução dos consumos de energia, minimização dos impactos dos materiais e redução do consumo de água» («Óbidos é a primeira eco-vila», Metro, 27.2.2008, p. 2). A gota de água foi ver que há um projecto «Eco-Escolas». No Ministério da Educação não há verba para um mísero dicionário de língua portuguesa. Nem nas redacções de alguns jornais. De uma vez por todas: nunca o antepositivo eco- (com uma excepção, mas não vos quero baralhar as circunvoluções) se liga por hífen ao elemento seguinte. Nunca. E, num tempo de tanta ecologia, pelo menos verbal, era bom que escrevessem como deve ser.


Léxico: «caucasiano»

Do Cáucaso

No é todos os dias, pelo menos fora do âmbito da antropologia, que se usa a palavra, razão mais do que suficiente para a registar quando surge na imprensa. De facto, só estamos habituados a vê-la nas legendas de filmes policiais. «A mulher brasileira que chega a Portugal e acaba na prostituição é caucasiana, maior de idade, na sua maioria sem antecedentes nesta actividade, tem o curso médio ou superior, vem por própria iniciativa e fá-lo por motivos financeiros. Estas são as conclusões de um estudo autorizado pelo ex-ministro da Administração Interna António Costa a partir de uma proposta do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Entre Novembro de 2006 e Fevereiro de 2007, foram inquiridas 536 brasileiras, de norte a sul do país, em casas de alterne e noutros pontos de prostituição» («Maiores, sem antecedentes e com grau académico», André Barbosa, Metro, 27.2.2008, p. 2). Caucasiano, para os leitores menos informados, diz respeito à divisão étnica ou ramo e significa branco.

Léxico: «vioxene»

Estava-se mesmo a ver

No Ciberdúvidas, querem descobrir a pólvora. Um leitor perguntou se existe em português a palavra «bioxene». O consultor A. Tavares Louro começa por afirmar que «os sons da língua original não são facilmente adaptáveis à língua portuguesa», para concluir que, «no entanto, a grafia /viaxene/ parece-nos a mais adequada». Bem, a verdade é que o aportuguesamento do francês vieux-chêne já existe há muito tempo. E, correcto ou incorrecto, fixou-se em duas formas: bioxene e vioxene. Mais esta, na verdade, do que aquela. E foi munido desta última que eu, mais do que uma vez, fui à drogaria do Sr. Zé Mariano comprar o produto. «Queria 100 gramas de vioxene, Sr. Zé Mariano.» Nunca o homem, na dúvida, me pediu: «Escreva lá isso.» Não. Ia buscar, embrulhava numa folha das Páginas Amarelas e pesava.
São assim, os académicos. Para umas coisas, dão a voz ao povo, para outras, arvoram-se em porta-vozes do povo.

«Snorkel»!

A Lagoa de Sherman, de Jim Toomey, in Metro

De focinho no ar


Engano o vosso. Não quero imprecar o tradutor (não referido, de resto) que usa um estrangeirismo facilmente substituível. De passagem, ainda assim, digo-o: bem podia ter usado «tubo de respiração», que nós perceberíamos. Mas não, repito. O que quero dizer é que, já agora, se usam estrangeirismos, que os escrevam correctamente. Escreve-se «snorkel» e não «snorkle». E sim, é um tubo de respiração à superfície. Embora, ao que parece, inventado por mecânicos holandeses, o tubo — não para este fim, mas o tubo dos submarinos, e é a primeira acepção, cronologicamente — foi baptizado pela Marinha alemã no início da década de 1940: Schnorchel, da gíria dos marinheiros para «nariz», «focinho». Só em 1949 foi anglicizado para snorkel.

Léxico: «tremendismo»

Fiquem com esta

Depois de, no Fórum Novas Fronteiras, o primeiro-ministro ter usado a palavra «tremendismo», alguém tinha de vir explicar o seu sentido. Coube a vez a José Júdice, na sua coluna no Metro: «O primeiro-ministro, numa deambulação poética àquele rigor de linguagem próprio dos engenheiros, acusou os críticos do Governo de “tremendismo”. O vocábulo pode parecer novo no léxico dos insultos políticos nacionais e inusitado num homem com vasta experiência em pré-esforçados e resistência de materiais, mas tem um antigo registo de patente aqui ao lado em Espanha. Já em 1947 o filósofo castelhano Antonio de Zubiaurre reclamava para si a utilização pela primeira vez do vocábulo “tremendista”, nem “casual nem frívola”, explicava, uma vez que pretendia fundir num só conceito todos aqueles excessos que dantes exigiam um parágrafo inteiro de adjectivação. “Tremendismo”, assim, é simultânea e concomitantemente a expressão abrangente de tudo o que é abissal, horrível, espantoso, imenso, doloroso, explosivo, sideral, cósmico, com uns pós de “cruas ingerências anatómicas”, especificava Zubiaurre, como sangue, ossos, pele, veias, entranhas. Resumindo, dizia o filósofo, o tremendismo representa o “estalo, violentíssimo, do vulcão” («O tremendismo», José Júdice, Metro, 27.2.2008, p. 12).

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