Léxico: «binómio»

A coisa mete cães



      Suponhamos que um extraterrestre — ou, para os maluquinhos da realidade, da verosimilhança, um brasileiro — topava com este trecho de uma notícia: «Desde o início da tarde até ao cair da noite as buscas — feitas no leito do rio até à foz por bombeiros e binómios da PSP — revelaram-se infrutíferas, mas vão prosseguir hoje» («Não chovia tanto há 24 anos», Carla Marina Mendes e João Moniz, Destak, 19.2.2008, p. 6). O que pensaria o nosso extraterrestre — ou o nosso brasileiro, para os maluquinhos da verosimilhança? Isto passou-se muito, muito depressa e debaixo do nosso nariz. Primeiro, eram os «binómios cinotécnicos»: equipas de um homem e um cão. Um guarda da GNR, por exemplo, e um golden retriever. Coisa esquisita, mas algum nome haviam de ter. Depois, há muito pouco tempo, passou a ser «binómio homem-cão». Agora, o vocábulo surge despojado de outro apoio: «binómio».


Tradução: «pescante»

Imagem: http://picasaweb.google.com/canibalitops10/Feria2/

Assim não


Nas traduções, acho sempre lamentável que se não acompanhe a riqueza lexical do original. Assim, se o original, espanhol, diz «pescante», porque havemos de empobrecer o texto traduzindo por «assento»? Será a intenção paternalista — que pessoalmente reputo execrável — de ajudar o leitor ou, mais simplesmente, a ignorância do tradutor? O espanhol, valha-me Deus, também tem «asiento»! Pescante é, em português, «boleia». Quanto a pescante, na definição do DRAE: «En los carruajes, asiento exterior desde donde el cochero gobierna las mulas o caballos.» Quanto a «boleia», na definição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Assento do cocheiro.»

Léxico: «maritorne»

Criada inglesa com crista

Minha senhora


Não, não, não: o vocábulo espanhol maritornes não tem de aparecer em itálico ou entre aspas num texto em português. Concedo: não estará o seu significado presente em nós como estará (estará?) na mente de um espanhol medianamente culto. Contudo, não é por esse padrão que se aferem as coisas. «Maritorne», regista o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, é a «criada suja, reles, ordinária». Mais marcantes na cultura universal são, como bem sabemos, as personagens de Dom Quixote e Sancho Pança, com vocábulos derivados há muito usados e dicionarizados. Ainda assim, a personagem Maritornes faz parte do elenco e serviu igualmente como estereótipo. No DRAE, lê-se: «maritornes. f. coloq. Moza de servicio, ordinaria, fea y hombruna.»
Há um estudo de 2004 do Instituto de la Mujer, De mujeres y diccionarios. Evolución de lo femenino en la 22.ª edición del DRAE, da autoria de Eulàlia Lledó Cunill (coord.), M.ª Ángeles Calero Fdez e Esther Forgas Berdet, no qual se inventariam as palavras que neste dicionário se referem às mulheres. As autoras lamentam que as mulheres dedicadas a servir não saiam muito bem paradas, e concretamente em relação a maritornes, consideram que a coisa sai agravada pela «sarta de tres adjetivos a cual más cruel». (Realmente, a enfiada de adjectivos da definição espanhola é mais cruel do que a da definição portuguesa: ordinária, feia e marimacho.) Lá encontramos também atropellaplatos, a criada ou fregona desajeitada, mondonga, a criada rude, chopa, a criada, mas com um sentido depreciativo, etc.
Quando li a obra Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, não pude deixar de reparar no facto de algumas criadas serem tratadas como gente inferior, destituída de inteligência, cuja existência apenas se compreende para satisfazer a comodidade dos patrões. Para a autora, os aspectos exteriores — inequivocamente marcas de um opróbrio, mas sem dúvida superficiais — eram mais significativos, pelo que afirma: «Em casa, andavam [as criadas] fardadas, embora sem exageros: não serviam à mesa de luvas, nem usavam “crista”» (p. 111).

Léxico contrastivo: «carro-chefe»

Gen-ética

«Nem carteira de identidade, nem mapa astral, nem curriculum vitae. Agora, e cada dia mais, o código genético será a forma mais comum de determinar quem é uma pessoa e qual será o seu futuro. Já é possível descobrir com antecedência se um indivíduo terá filhos saudáveis, responderá bem a tratamentos, sofrerá com efeitos colaterais a drogas ou terá determinadas doenças. Enquanto a genética se torna o carro-chefe da medicina, a perspectiva é de que num futuro breve as terapias sejam personalizadas, e os remédios feitos especialmente para um bom processamento em cada organismo» («As promessas da nova ‘gen-ética’», Cristine Gerk, Jornal do Brasil, 17.2.2008, p. A30). Carro-chefe é, em sentido figurado, o elemento de mais realce principal num conjunto, numa obra ou num empreendimento qualquer, por ser o mais importante, o mais significativo, o mais apreciado, etc., como regista o Dicionário Houaiss. Em sentido próprio, é o carro alegórico mais importante de um desfile. De realçar também, neste texto, o jogo linguístico proporcionado pelo título: gen-ética.

Calão

O calão hipócrita

A propósito do calão, escrevia o Prof. Vasco Botelho de Amaral: «Não é menos lamentável do que o calão reles, obsceno ou vil aquele a que chamarei hipócrita. Esse também é sujo. Se um larápio da alta sociedade se abotoa com boa soma de contos de réis, não é com o limpo termo desvio que se lhe tira a imundície à roubalheira. Desviar por roubar é tipo de calão hipócrita, e ridículo, de certo modo. Isto é, o calão hipócrita, além de corromper a expressão, é tão condenável como o reles» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 66).

Léxico: «escumadeira»


Na cozinha

Anteontem, Martine Rousseau e Olivier Houdart, revisores do Le Monde, andavam às voltas com a origem do nome em francês do utensílio de cozinha que se vê em cima. Mas meteram os pés pelas mãos, porque o nome que estavam a atribuir a este utensílio — maryse — pertence de facto ao raspador de massa entre nós chamado salazar, de que já aqui tratei. Em francês não sei, mas em português o que temos acima é, seguindo de perto a definição do Dicionário Houaiss, uma escumadeira, um utensílio, geralmente de metal, mas modernamente também de plástico, formado por uma concha muito rasa com furos, presa a um cabo longo, usada para retirar a espuma que se forma durante a preparação de alguns produtos, como o açúcar refinado, a aguardente de cana, etc., e daí o nome, ou para retirar algo de um líquido quente, como pastéis, bolinhos fritos em óleo, etc.
Mas pensemos: depois de sabermos que maryse é uma marca registada (nom déposé, em francês), e, logo, um vocábulo com a mesma evolução semântica do vocábulo «gilete», por exemplo, que interesse tem aprofundar?
Com caixas de comentários multitudinárias, os disparates não faltam. Uma leitora aventa a hipótese de a designação ser a amálgama dos nomes Marie, Lise e Louise. Sim, e depois? Serão as três filhas do Sr. De Buyer, o empresário que registou um produto com essa designação? As suas três irmãs solteironas? As três amantes? Há leitores aparvalhados em todo o lado, isso sim.

Classificação das nuvens

Nas nuvens

Tudo o que se pareça com um glossário tem sempre interesse, pois a nossa vida é balizada pelo nome que damos às coisas. «A estrutura do livro segue um sentido ascendente: a primeira parte é dedicada às nuvens baixas (Cumulus, Cumulonimbus, Stratus, Stratocumulus); a segunda é sobre as nuvens médias (Altocumulus, Altostratus, Nimbostratus); a terceira é para as nuvens altas (Cirrus, Cirrocumulus, Cirrostratus); e a última é para inventariar outras categorias. Os nomes em latim da classificação clássica — estabelecida por Luke Howard em 1802 e fixada definitivamente no Atlas Internacional das Nuvens em 1896 — podem assustar quem não está familiarizado com as nomenclaturas científicas, mas ao fim de meia dúzia de páginas deixam de ser um obstáculo» («Da beleza efémera», José Mário Silva, Expresso/Actual, 9.2.2008, p. 45). Tudo verdade, mas as nuvens também tem nome em português, que é a tradução do latim. Assim, nuvens altas: Cirro, Cirrocumulo, Cirrostrato; nuvens médias: Altostrato, Altocumulo; nuvens baixas: Estrato, Estratocumulo, Nimbostrato; nuvens com desenvolvimento vertical: Cumulonimbo, Cumulo.
De acordo com a página na Internet da licenciatura em Meteorologia, Oceanografia e Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, «as nuvens altas são sempre antecedidas do prefixo cirro porque apresentam sempre um aspecto ténue e fibroso; as nuvens médias apresentam o prefixo alto; a designação estrato entra nas nuvens de maior extensão horizontal, enquanto a designação cumulo entra nas de maior desenvolvimento vertical; as nuvens capazes de produzir precipitação identificam-se com o termo nimbo».

Tradução: «capa»

Não posso mais

Uma coisa que me irrite, mas que me irrite mesmo, muito e sempre? Só uma coisa? Está bem: que nas traduções de obras espanholas a palavra «capa» surja quase sempre traduzida como… «capa»! Homessa! Diacho! Co’os demónios! «Capa», em espanhol, é «aquello que cubre o baña alguna cosa». Una capa de nieve é, para nós, «uma camada de neve»; una capa de pintura é «uma camada de pintura»; una capa de azúcar é «uma camada de açúcar»; una capa de oro é «uma camada de ouro». É verdade que uma parte da indústria portuguesa, o sector pró-espanhol, nos propina tintas de «subcapa». Es curioso, sin embargo —y es aquí donde quería llegar—, que, pese a lo que he planteado, na pintura da madeira, o sistema seja por «multicamada», o que se aplica entre o primário e a tinta alquídica é a subcapa. Mas, quanto a capas e a confusões, ficamos por aqui.

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