Léxico contrastivo: «carro-chefe»

Gen-ética

«Nem carteira de identidade, nem mapa astral, nem curriculum vitae. Agora, e cada dia mais, o código genético será a forma mais comum de determinar quem é uma pessoa e qual será o seu futuro. Já é possível descobrir com antecedência se um indivíduo terá filhos saudáveis, responderá bem a tratamentos, sofrerá com efeitos colaterais a drogas ou terá determinadas doenças. Enquanto a genética se torna o carro-chefe da medicina, a perspectiva é de que num futuro breve as terapias sejam personalizadas, e os remédios feitos especialmente para um bom processamento em cada organismo» («As promessas da nova ‘gen-ética’», Cristine Gerk, Jornal do Brasil, 17.2.2008, p. A30). Carro-chefe é, em sentido figurado, o elemento de mais realce principal num conjunto, numa obra ou num empreendimento qualquer, por ser o mais importante, o mais significativo, o mais apreciado, etc., como regista o Dicionário Houaiss. Em sentido próprio, é o carro alegórico mais importante de um desfile. De realçar também, neste texto, o jogo linguístico proporcionado pelo título: gen-ética.

Calão

O calão hipócrita

A propósito do calão, escrevia o Prof. Vasco Botelho de Amaral: «Não é menos lamentável do que o calão reles, obsceno ou vil aquele a que chamarei hipócrita. Esse também é sujo. Se um larápio da alta sociedade se abotoa com boa soma de contos de réis, não é com o limpo termo desvio que se lhe tira a imundície à roubalheira. Desviar por roubar é tipo de calão hipócrita, e ridículo, de certo modo. Isto é, o calão hipócrita, além de corromper a expressão, é tão condenável como o reles» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 66).

Léxico: «escumadeira»


Na cozinha

Anteontem, Martine Rousseau e Olivier Houdart, revisores do Le Monde, andavam às voltas com a origem do nome em francês do utensílio de cozinha que se vê em cima. Mas meteram os pés pelas mãos, porque o nome que estavam a atribuir a este utensílio — maryse — pertence de facto ao raspador de massa entre nós chamado salazar, de que já aqui tratei. Em francês não sei, mas em português o que temos acima é, seguindo de perto a definição do Dicionário Houaiss, uma escumadeira, um utensílio, geralmente de metal, mas modernamente também de plástico, formado por uma concha muito rasa com furos, presa a um cabo longo, usada para retirar a espuma que se forma durante a preparação de alguns produtos, como o açúcar refinado, a aguardente de cana, etc., e daí o nome, ou para retirar algo de um líquido quente, como pastéis, bolinhos fritos em óleo, etc.
Mas pensemos: depois de sabermos que maryse é uma marca registada (nom déposé, em francês), e, logo, um vocábulo com a mesma evolução semântica do vocábulo «gilete», por exemplo, que interesse tem aprofundar?
Com caixas de comentários multitudinárias, os disparates não faltam. Uma leitora aventa a hipótese de a designação ser a amálgama dos nomes Marie, Lise e Louise. Sim, e depois? Serão as três filhas do Sr. De Buyer, o empresário que registou um produto com essa designação? As suas três irmãs solteironas? As três amantes? Há leitores aparvalhados em todo o lado, isso sim.

Classificação das nuvens

Nas nuvens

Tudo o que se pareça com um glossário tem sempre interesse, pois a nossa vida é balizada pelo nome que damos às coisas. «A estrutura do livro segue um sentido ascendente: a primeira parte é dedicada às nuvens baixas (Cumulus, Cumulonimbus, Stratus, Stratocumulus); a segunda é sobre as nuvens médias (Altocumulus, Altostratus, Nimbostratus); a terceira é para as nuvens altas (Cirrus, Cirrocumulus, Cirrostratus); e a última é para inventariar outras categorias. Os nomes em latim da classificação clássica — estabelecida por Luke Howard em 1802 e fixada definitivamente no Atlas Internacional das Nuvens em 1896 — podem assustar quem não está familiarizado com as nomenclaturas científicas, mas ao fim de meia dúzia de páginas deixam de ser um obstáculo» («Da beleza efémera», José Mário Silva, Expresso/Actual, 9.2.2008, p. 45). Tudo verdade, mas as nuvens também tem nome em português, que é a tradução do latim. Assim, nuvens altas: Cirro, Cirrocumulo, Cirrostrato; nuvens médias: Altostrato, Altocumulo; nuvens baixas: Estrato, Estratocumulo, Nimbostrato; nuvens com desenvolvimento vertical: Cumulonimbo, Cumulo.
De acordo com a página na Internet da licenciatura em Meteorologia, Oceanografia e Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, «as nuvens altas são sempre antecedidas do prefixo cirro porque apresentam sempre um aspecto ténue e fibroso; as nuvens médias apresentam o prefixo alto; a designação estrato entra nas nuvens de maior extensão horizontal, enquanto a designação cumulo entra nas de maior desenvolvimento vertical; as nuvens capazes de produzir precipitação identificam-se com o termo nimbo».

Tradução: «capa»

Não posso mais

Uma coisa que me irrite, mas que me irrite mesmo, muito e sempre? Só uma coisa? Está bem: que nas traduções de obras espanholas a palavra «capa» surja quase sempre traduzida como… «capa»! Homessa! Diacho! Co’os demónios! «Capa», em espanhol, é «aquello que cubre o baña alguna cosa». Una capa de nieve é, para nós, «uma camada de neve»; una capa de pintura é «uma camada de pintura»; una capa de azúcar é «uma camada de açúcar»; una capa de oro é «uma camada de ouro». É verdade que uma parte da indústria portuguesa, o sector pró-espanhol, nos propina tintas de «subcapa». Es curioso, sin embargo —y es aquí donde quería llegar—, que, pese a lo que he planteado, na pintura da madeira, o sistema seja por «multicamada», o que se aplica entre o primário e a tinta alquídica é a subcapa. Mas, quanto a capas e a confusões, ficamos por aqui.

Tradução

Imagem: http://www.snell-pym.org.uk/

Mais barrotes


      Se pensam… estão bem enganados. Matt James estava hoje em Shepherds Bush, Londres, a transformar um quintal cheio de ervas daninhas em jardim. Logo à saída da porta de casa para o quintal, estava um estrado de madeira, deck, em inglês, a que a tradutora julga não poder dar-se outro nome que não deck. Estrado, pois. Matt James construiu também uma airosa pérgula com tubos de aço de secção quadrada (steel square tube), a que a tradutora mais de uma vez chamou «barrotes».

Léxico: «nominho»

Nominho ao Algarve


    Tenho uma prima em 2.º grau, moçoila rural vai para dez anos transplantada para uma cidade do interior, que, ainda que não particularmente atreita a «inhar» a realidade (perdoe-se-me o neologismo, acabado de inventar: com ele pretendo significar o uso de diminutivos), nunca diz «até logo», mas sempre «até loguinho». A prima R., sorte a nossa, não escreve para os jornais e revistas. Não escreve nada. Talvez nunca tenha escrito, mas isso não o afianço, sequer uma carta à revista Maria («O meu namorado tem dois pénis. Que me aconselham a fazer?»).
Há, contudo, diminutivos com um significado pleno, autónomo da palavra de que derivam. Atente-se neste exemplo: «Para aliviar os pais, José trouxe para Lisboa a irmã Conceição, que logo caiu nas graças de Salazar e lhe deu o nominho de Micas» («A filha adoptiva de Salazar», José Pedro Castanheira, 17.11.2007, Expresso/Actual, p. 62). Em Cabo Verde (ver aqui, aqui e aqui) e no Brasil, é comum usar o vocábulo «nominho» para hipocorístico. A ter tradução, a palavra inglesa nickname teria em «nominho» a correspondência perfeita. Mais uma vez, não o vejo dicionarizado, excepto na MorDebe.

Ortografia: «cartunista»

Tapeçaria de Portalegre sobre desenho de Almada Negreiros (1962)
no topo da Sala de Audiências principal do Palácio da Justiça de Aveiro

Antes isso


Primeiro, era cartoonista, um aportuguesamento tolerável — ou quase. Depois, alguém achou que se devia dar o passo seguinte, e ficou cartunista. Pois, claro: os dois oo valiam como u. Agora, porém, leio no Meia Hora: «Polícia prende cinco suspeitos de planear morte de cartonista». Na verdade, quando li a palavra «cartonista», lembrei-me de Almada Negreiros, que, à semelhança de outros grandes artistas plásticos portugueses, fez modelos de cartão para a execução posterior de diversos trabalhos artísticos, como tapetes, mosaicos, etc., que é o que significa a palavra. Só depois de ter lido o início da notícia decidi o começo do texto: «As autoridades dinamarqueses [sic] detiveram ontem cinco homens em Aarhus suspeitos de planear um ataque ao cartonista que desenhou as caricaturas de Maomé, publicadas num jornal da Dinamarca em Setembro de 2005 e desencadeando uma onda de protestos em todo o Mundo entre a comunidade islâmica» (Meia Hora, 13.2.2008, p. 6). Vejo-me, pela primeira vez, na contingência de desejar que seja meramente desleixo, que não convicção de quem escreveu e de quem reviu.

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