Responsabilidade social

Aprender a dizer não

Depois de ter encontrado o jogo Aprender a Lêr, nova incursão a um hipermercado Feira Nova revelou mais jogos com erros da mesma empresa. Desta vez, o jogo — todos, num excesso imaginativo, são da marca «Toi» — chama-se Apanha Côcos. Dois erros: não apenas o vocábulo «coco» não tem acento circunflexo, como faz falta um hífen a ligar as duas palavras: apanha-cocos. Agora, a reclamação deve seguir não somente para a provedora do hipermercado Feira Nova, mas também para a própria empresa, a Pinto Guimarães & Barros, Lda.: jogostoipintogb@mail.telepac.pt. Queremos dar aos nossos filhos jogos, vendidos como didácticos, com erros?

Responsabilidade social

Aprender a denunciar

Na secção de brinquedos de um hipermercado, e concretamente nas prateleiras dos jogos didácticos, encontrei, oh horror!, um jogo com o nome, escrito em várias partes da caixa, Aprender a Lêr. A empresa fabricante do jogo é a Pinto Guimarães & Barros, Lda., que não se envergonha de comercializar um produto com tão grave defeito. Como também não se envergonha o hipermercado, o Feira Nova. Ainda têm a pretensão de nos ensinarem a ler. É, não tenho dúvidas em dizê-lo, um caso de grave irresponsabilidade social. É pena que entre as atribuições da ASAE não esteja a fiscalização destes casos. Denunciemo-lo, ao menos, à provedora deste hipermercado, pedindo que mande retirar das prateleiras aquele produto.

Léxico contrastivo: «malsucedido»

Tristes sucessos

Cá, temos muito receio de escrever «bem-sucedido», sentindo-nos, e com razão, à deriva, pois os dicionários ou são omissos em relação a este termo ou indiciam ter adoptado critérios crípticos. Já no Brasil, escrever «bem-sucedido» e «malsucedido» é corrente, já que ambos os adjectivos estão sancionados pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. «Um criminoso tentou roubar um carro onde estava uma família, obrigou o pai a sair do veículo, tentou fugir, perdeu o controle, capotou e caiu em um canal no Recife. O ladrão acabou sendo preso em flagrante após a fuga malsucedida» («Roubou carro e capotou», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6).

Léxico contrastivo: «Bálcãs»

Pois é

«Ao mesmo tempo em que a conflituosa província do Kosovo nunca esteve tão perto de conquistar a independência, a tensão na região dos Bálcãs cresce e a possibilidade de mais guerras é iminente. Com a vitória do ex-líder guerrilheiro albano-kosovar Hashem Thaci, pelo Partido Democrático do Kosovo (PDK), como primeiro-ministro no dia 17 ­ apesar da abstenção sérvia ­ o Kosovo anunciou que não aceitará nada menos do que independência» («Independência amedronta os Bálcãs», Marsílea Gombata, Jornal do Brasil, 25.11.2007, p. A28). Para os Brasileiros, o vocábulo é grave. Para nós, isso é grave, pois Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como agudo. A grafia brasileira autoriza uma pronúncia que se aproxima da de um anglo-saxónico. Da forma como, erroneamente, Nuno Rogeiro o pronuncia.

Léxico contrastivo: «gangorra»

Imagem: http://www.aqioestou.blogger.com.br/

Agora já sabem

«E que, como Poder Moderador, teve habilidade para imperar sobre a gangorra entre liberais e conservadores, dos gabinetes parlamentaristas. Durante quase cinco décadas de ambicionadas paixões políticas, ele manteve sempre um distanciamento que não estimulava intimidades ou camaradagens. Foi muito criticado pelo excesso de liberdade que garantia aos jornalistas. Era um sedento de afeição, solitário e introvertido, que se escondia atrás do cetro e das pompas» («Pedro II, monarca republicano», Murilo Melo Filho, Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. B3). Uma gangorra é, na definição do dicionário Aulete Digital, um «brinquedo constituído de uma prancha firmada numa base central de ajustamento oscilante, de modo que duas pessoas, geralmente crianças, podem sentar-se em cada uma das extremidades e lhe imprimir movimentos alternados de baixo para cima e vice-versa». Claro que no texto citado o vocábulo é usado em sentido figurado. Entre nós, chama-se sobe-e-desce ou cavalinho. Estranhamente, algumas pessoas a quem perguntei apenas conheciam o nome em inglês: see-saw ou teeter-totter.

Léxico contrastivo: «fumacê»

Ah, é isso?

      «Idolatrado pela população, o fumacê enfrenta resistência cada vez maior de especialistas e da prefeitura. A Secretaria Municipal de Saúde já transferiu 18 veículos com inseticidas ao Estado. Agora, os carros, que haviam sido doados pelo Ministério da Saúde, só entram em ação nos bairros em que a doença registra índices mais críticos. E, mesmo tendo mudado de mãos, agem apenas depois que os casos são notificados pelo município. […] O fumacê é uma bomba ambiental, porque agride idosos, alérgicos e crianças com asma, além de não combater os criadouros do mosquito. […] Os órfãos dos fumacês freqüentemente recorrem a dedetizadoras, mas a iniciativa privada também condena o impacto ambiental causado pelos veículos com inseticida» («Eficácia do fumacê no centro de polêmica», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A7). Na definição do Aulete Digital, «fumacê» é o vocábulo, redução de «fumaceira», da gíria para o «veículo dotado de aparelho que lança no ar fumaça de substância que mata mosquitos, especialmente os da dengue». Quanto a «dedetizadoras», é óbvio: de DDT.

Uso do itálico e das aspas

Cracatoa, seja

«A mais violenta das erupções do vulcão indonésio Krakatoa, ocorrida em 1883, faz parte das lendas dos velhos marinheiros, pois foi escutada a sul da Austrália e, mais longe ainda, em pleno oceano Pacífico» («Filho do ‘Krakatoa’», Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 2007, p. 27). Já que ninguém pergunta, pergunto eu: porque é que «Krakatoa» está em itálico? Pior só mesmo Maria Filomena Mónica grafar o nome de estabelecimentos comerciais entre aspas. Para quê? «Finalmente, convidou-me para tomar chá, no dia seguinte, no “Covered Market”. […] Foi assim que me encontrei no que viria a ser o meu local preferido, o café “Brown’s”, não o restaurante que, no final dos anos 70, surgiu em Woodstock Road, mas o local esquálido, situado no Mercado Coberto, onde se cruzavam camionistas, estudantes e mendigos» (p. 261 de Bilhete de Identidade, Alêtheia Editores, 4.ª ed., Lisboa, 2006). E para quem, impensadamente, já objectava, dedinho em riste, que, pensando bem, eram palavras inglesas, replico aduzindo o exemplo de duas páginas adiante: «Para quem considerava que a “Sá da Costa”, a “Buchholz” e a “Bertrand” eram boas, a “Blackwell’s” constituía um choque cultural.» Tirou-me a palavra da boca: choque, sim.

Africano ou negro?

Equívocos cromáticos

Passava pela Estrada de Benfica, a Baixa da freguesia, quando vi um ajuntamento perto da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Aproximei-me, movido pela curiosidade e pelos pés, que se encaminhavam para a padaria. «Ah, foram dois africanos que…», dizia uma senhora idosa. Claro que esta testemunha não tinha falado com os «africanos» nem ninguém lhe tinha dado qualquer informação, e os indivíduos, para ela como para mim, tanto podiam ser africanos como asiáticos ou americanos. Por algum desvio semântico, «africano» é — imprópria e equivocamente — sinónimo de «negro». Mais estranho ainda é ver-se o equívoco em obras literárias. A autobiografia de Maria Filomena Mónica, que é socióloga, Bilhete de Identidade, para quem admita o exemplo como de obra literária, acolhe o equívoco: «A uma mesa, vi um africano, mais velho do que eu, ao lado de dois ingleses, que pareciam ter dez anos, e um egípcio, de idade indefinida» (p. 257). Claro que a autora está a adiantar-se na narração: não viu logo tanto. Viu, mais precisamente, um negro, dois brancos e um indivíduo menos negro que o negro (graças à miscigenação da população do Egipto, de origem semítica ou berbere, com os Núbios, que, aliás, eram na Antiguidade vistos pelos Egípcios como inferiores, precisamente devido à cor da pele), que se veio a revelar egípcio. O negro, que por acaso era africano, era um ex-embaixador do Gana nas Nações Unidas. Os negros da Estrada de Benfica não eram, desconfio, africanos. A senhora era branca, sim, mas podia ser, não lhe perguntei, africana.

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