Léxico contrastivo: «zerar»

Reduzir a zero

«O setor da construção civil apresentou ao governo um projeto para estimular a construção e financiamento de moradias populares e zerar o déficit brasileiro de 7,9 milhões de habitações em 12 anos» («Projeto prevê zerar déficit habitacional em 12 anos», O Povo, 17.11.2007, p. 23). Em Portugal, seríamos menos económicos a escrevê-lo: «Projecto prevê reduzir a zero o défice habitacional em 12 anos». Segundo o dicionário Aulete Digital, são as seguintes as acepções do verbo zerar: «Quitar (conta, dívida, etc.).│Reduzir a zero.│Compensar.│Dar ou receber nota zero.»

Acordo Ortográfico

As contas de Bechara

As contas de Evanildo Bechara sobre o Acordo Ortográfico são outras. Em entrevista ao jornal O Globo (caderno «Prosa e Verso», 1.9.2007), começa por lamentar que não haja grandes revoluções (tinha de haver?) nas alterações que se vão fazer. Pior ainda: «O outro [ponto] é que as modificações no sistema brasileiro são em maior número do que as que os portugueses vão ter que fazer.» Em rigor, afirma, Portugal «só vai ter duas modificações: vão deixar de usar as consoantes mudas e eliminar o “h” inicial em palavras como “úmido”. O Brasil fez mais cedências». Está dado o mote. Deixa, contudo, conselhos sábios: «Seria bom que se economizasse mais na acentuação.» E explica: «Se você pegar um livro escrito antes da reforma de 1911, e esse mesmo texto na ortografia atual, portuguesa ou brasileira, vai ver que o texto tinha muito menos acentos antigamente.» Os acentos, afirma, surgiram numa «época em que a rede escolar era muito mais frágil do que hoje. Era necessária uma reforma em que a maneira de grafar as palavras ajudasse as pessoas a pronunciá-las corretamente». O que o novo acordo estabelece em relação ao hífen também não lhe parece satisfatório: «A reforma estabelece 13 regras para utilização do hífen. É um avanço, já que hoje Portugal tem mais de quarenta regras e sub-regras. Mas isso ainda poderia ser resolvido com quatro ou cinco regrinhas muito simples, que tivessem como critério básico impedir pronúncias erradas.»

Conjugador

Acabaram-se as desculpas

      Eis o LX Conjugator. Pese embora o nome, é um serviço em linha gratuito para a conjugação completa de verbos portugueses com características invulgares, como a opção de conjugação pronominal.

Júri e jurado

Não aprendem

«Durante 25 anos, foi [Moisés Bensabat Amzalak] júri dos concursos para a carreira diplomática do Ministério dos Negócios Estrangeiros e, em 1959, é o delegado do Governo, num congresso da NATO» («O fantasma de Amzalak», Miguel Carvalho, Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 2007, p. 51). É um erro muito frequente e absolutamente lamentável numa revista como a Visão.

Léxico contrastivo: «mutirão»

Outros encontros

«O Banco do Brasil promove, quinta e sexta-feira, o Mutirão da Cidadania Empresarial em Campos. O evento, que acontece no Sesi/Guarus, das 14h às 20h, tem o objetivo de orientar empreendedores informais sobre a melhor maneira de regularizar o seu negócio. O encontro conta com a parceria e o apoio da Secretaria de Fazenda de Campos, da Inspetoria de Fazenda do Estado do Rio, da Receita Federal e do INSS. A expectativa dos organizadores é levar esse mutirão a 1.000 municípios do país, contemplando todos os estados brasileiros» («Mutirão para sanear contas empresariais», Carolina Bittencourt, Jornal do Brasil/Niterói, 17.11.2007, p. 2). Segundo o Aulete Digital, trata-se, no contexto, de mobilização de pessoas, colectiva e gratuita, para executar um trabalho. Num jornal português, utilizar-se-ia, provavelmente, a palavra «encontro» para dizer o mesmo.

Léxico contrastivo: «manzuá»

Caçoeiras e manzuás

«No palco improvisado sobre a jangada, com vista para o mar da Caponga (Cascavel 60 quilômetros de Fortaleza, litoral leste), o ministro da Aqüicultura e Pesca, Altemir Gregolin anunciou para uma platéia atenta de pescadores: o Ceará é o estado que mais contribuiu com a política de combate à pesca predatória da lagosta, em prática desde julho passado. A política da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap) é desenvolvida em duas frentes: a compra de caçoeiras (redes de pesca) e compressores (material usado no mergulho) e a capacitação de pescadores para a manufatura de manzuás (armadilha reconhecida legalmente)» («Governo compra 1.300 km de caçoeira», Ana Mary C. Cavalcante, O Povo, 8.11.2007, p. 27). Não, não: caçoeiras temos nós. Vem, como parece óbvio, de «cação». Não temos é manzuás (que tem a variante munzuá e étimo quimbundo), que é um artefacto semifixo de pesca, uma espécie de covo, que não exige a permanência do pescador, usando-se para a pesca de várias espécies de siris e para caranguejos e lagostas. É confeccionado com palhetas de cana-brava e tem uma entrada. No seu interior são colocadas duas trouxas de isco, feitas de folhas de cacaueiro e atadas com fibras de bananeira ou de imbiruçu. E é só esperar.

Léxico contrastivo: «pardal»

Pardais ou abutres?

«Amparada na multiplicação de pardais e da área em que atua a Guarda Municipal, a prefeitura aposta pesado na arrecadação de multas para equilibrar suas contas no ano que vem. Quase metade do orçamento da Secretaria de Transportes vem de infrações que devem ser aplicadas aos motoristas cariocas em 2008» «O milagre da multiplicação de pardais nas ruas do Rio», Renato Grandelle, Jornal do Brasil/Cidade, 14.11.2007, p. A8). Na linguagem popular, que chegou aos jornais e neles se instalou, é o equipamento — radares electrónicos — instalado nas vias públicas para fotografar infracções de trânsito.

O ou a diabetes?

O… a… hum… diabetes



      «Entre as principais complicações ocasionadas pelo diabetes, cita Inês, estão problemas renais, neuropatia diabética (alteração da sensibilidade), retinopatia diabética (alteração da retina que pode levar a cegueira). A principal dica da médica para evitar diabetes é manter o “peso adequado”. “O foco está na mudança de estilo de vida para prevenção, não só do diabetes, como de outras doenças. A principal dica é manter o peso adequado. As pessoas gordas têm maior tendência a desenvolver a doença”, ressalta Inês» («Prevenindo o diabetes», O Povo, 11.11.2007, p. 9). Pode haver razões ponderosas para a considerarmos do género feminino, e em especial o facto de nos ter vindo do francês, língua em que também é deste género, mas não podemos ser fundamentalistas: alguns dicionários registam ambos os géneros, e temos de admiti-lo quando a vemos escrita, como neste artigo do jornal brasileiro O Povo, como sendo do género masculino.
      Mais uma citação, desta vez do respeitável Jornal do Brasil, não vão os meus leitores pensar que escolhi mal o jornal. «O que era uma doença simples de tratar passou a ser comum e hoje é uma pandemia. O diabetes atinge 10 milhões de brasileiros e 246 milhões de pessoas no mundo. Estima-se que até 2025, 15 milhões tenham a doença aqui. No exterior, o número ultrapassará 330 milhões. Hoje, no Dia Mundial do Diabetes, especialistas ressaltam os números alarmantes e afirmam que a conscientização para a mudança de hábito é a maior arma para a redução das estatísticas» («Diabetes atinge 10 milhões de brasileiros», Marsílea Gombata, Jornal do Brasil/Vida, 14.11.2007, A24).
      Maria Filomena Mónica, na obra Bilhete de Identidade, escreve: «Sentia agora o peso da idade. Os diabetes tinham-se agravado. Ouvia cada vez pior.» Como cito a 4.ª edição (mas será reimpressão, como sabemos), é de supor que não seja lapso.


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