Topónimo: Samatra

Livro sem Estilo

      «Os habitantes da ilha indonésia de Sumatra viviam ontem horas de grande tensão depois de um novo alerta de tsunami, o segundo do dia e o quinto na zona depois de uma violenta réplica de magnitude 6,8 do sismo de grau 8,4 na escala de Richter, o mais forte deste ano, que matou quarta-feira 10 pessoas e causou 40 feridos, de acordo com um novo balanço divulgado ontem» («Novo sismo e cinco alertas de tsunami na ilha de Sumatra», Público, 14.09.2007, p. 20). A grafia correcta deste topónimo é Samatra.

Dicionários

Aulete Digital

Confesso: não conhecia o projecto Aulete Digital. Só ontem me avisaram da sua existência. É, apraz-me dizê-lo, um projecto exaltante. Trata-se da edição digital do dicionário de Caldas Aulete. É, na sua versão original, em alguns aspectos, um dos melhores dicionários da língua portuguesa. O dicionário, nesta versão, está em actualização permanente — actualização em que o próprio leitor pode participar. É a oportunidade, pois, de algum William Chester Minor da lexicografia portuguesa se revelar.
Na verdade, quando o seu autor, o professor, lexicógrafo e político Francisco Júlio de Caldas Aulete (1826-1878), morreu, apenas os verbetes correspondentes à letra a estavam concluídos, tendo o trabalho sido continuado por António Lopes dos Santos Valente (1839-1896) e outros lexicógrafos. A primeira edição data de 1881, tendo-se seguido outra em 1925 e uma última em 1948, com reimpressão em 1952. Esta edição brasileira é da editora Lexicon Obras de Referência.

Pluralização dos apelidos

Só com Mossos d’Esquadra


      Ora vejam aqui os Bourbons pluralizados em espanhol e em catalão, como também se deve fazer em português. «Posteriormente, la manifestación, encabezada por dos pancartas contra los Borbones, ha cortado varias calles céntricas de Girona hasta uno de los puentes que da acceso al Pabellón de Fontajau, donde el Don Rey Juan Carlos I preside un acto con unos mil empresarios gerundenses» («Centenares de personas queman fotos de los Reyes en la plaza del Ayuntamiento de Girona», El País, 14.09.2007). «Posteriorment, la manifestació, encapçalada per dues pancartes contra els Borbons, ha tallat diverses carrers cèntrics de Girona fins a un dels ponts que dóna accés al Pavelló de Fontajau, on el Rei Joan Carles I presideix un acte amb uns mil empresaris gironins» («Centenars d´independentistes es manifesten en contra de la presència del Rei a Girona», Diari de Girona, 14.09.2007). Mas depois vieram os Mossos d’Esquadra e barraram o caminho aos manifestantes, coisa que eu não posso fazer aos jornalistas portugueses que escrevem, todos os dias, «os McCann».


Léxico: chofar

Público e notório

O novo ano judaico, 5768, começou ontem. «Na festa de Rosh Hashanah, toca-se o shofar, a trompeta feita com chifre de carneiro. São lidos textos e orações relacionados com a análise dos actos que se fizeram ao longo do ano, explica Samuel Levy, ex-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa» («Toneladas de tâmaras para o Ramadão e maçãs com mel para Rosh Hashanah», António Marujo, Público, 14.09.2007, p. 20). Pois é, mas shofar está aportuguesado como chofar. Por exemplo, no Dicionário Houaiss: «chofar s.m. buzina de chifre de carneiro (ou de qualquer animal, excepto a vaca) empr. pelos antigos hebreus nos seus rituais e ainda us. nas sinagogas no término do Yom Kippur (dia do perdão), antes e durante o Rosh Hashana (ano-novo), na proclamação do ano sabático etc. ETIM heb. shōphār ‘id.’»

«Clítoris» e «clitóris»

Variantes


      Uma leitora habitual, que não quer ser identificada, pergunta-me como prefiro: «clítoris» ou «clitóris»? Antigamente, os dicionários de língua portuguesa apenas registavam a primeira forma — clítoris. A variante brasileira, contudo, já era então a segunda — clitóris. Agora, porém, as duas variantes convivem amenamente nos dicionários publicados em Portugal, sem ofensa para ninguém nem desprimor para a excrescência. Rebelo Gonçalves, que registou «clítoris», preferia «clitóride». Eu prefiro — e sempre disse, sem ninguém se atrever a rir, fosse por receio de traumatismos, fosse por receio da minha língua afiada, que nesta matéria conta muito — clitóris.

Quénia e Moisés

Imagem: http://www.biografiasyvidas.com/

Equívocos


Porque é que o Moisés de Miguel Ângelo tem — agarre-se bem, leitor — cornos? Especulações místicas à parte, porque simplesmente houve um erro crasso na tradução do Êxodo 34,29, em que o hebraico karan, raios emanados pelo rosto do herói, se tornou keren, chifres («cumque descenderet Moses de monte Sinai tenebat duas tabulas testimonii et ignorabat quod cornuta esset facies sua ex consortio sermonis Dei»). Na excelente biografia de Wangari Muta Maathai*, Prémio Nobel da Paz em 2004, também se dá conta de um dos equívocos linguísticos em que a História é rica: «Conta-se que os exploradores Johan Ludwig Krapf e Johann Rebmann, deparando com a montanha [monte Quénia] em 1849, perguntaram ao seu guia, um membro da comunidade camba, que carregava uma cabaça: “Como chamas a isto?” Pensando que os dois alemães se referiam à cabaça, respondeu: “Chama-se kĩĩ-nyaa”, «Quénia», como era pronunciada pelos Britânicos. Este tornou-se o nome da montanha e, mais tarde, o nome do país.»



* A publicar brevemente pela Editorial Bizâncio e com tradução de Fernando Dias Antunes.

Maravilhamento e reter

Língua virtual

Só ouvi durante cinco minutos: Eduarda Maio entrevistava, na Antena 1, Nelson Zagalo, professor e investigador na Universidade do Minho, a propósito do «Second Life». A determinada altura, o entrevistado usou — e desculpou-se, «porque não existe» — a palavra «maravilhamento». Engana-se. Antes de ir à minha vida, ainda o ouvi responder a Eduarda Maio: «Não reti os números.» E aqui não hesitou nem se desculpou. Não retive mais nada; prefiro, perante as incertezas e os erros da segunda, a primeira vida.

Sistema Imperial Britânico

Mártires do imperialismo

      É notícia hoje no Público: «A Comissão Europeia (CE) decidiu ontem abandonar os seus esforços para instaurar completamente o sistema métrico no Reino Unido. “É uma notícia fantástica, a de que alguém finalmente tomou uma decisão com uma onça de senso comum”, disse à AFP Neil Hoerron, da associação Mártires do Sistema Métrico. A decisão foi tomada de comum acordo pelos 27 países-membros e proposta inicialmente pelo comissário europeu da Indústria, Guenter Verheugen. “Quero pôr fim a uma amarga batalha que dura há décadas e que, do meu ponto de vista, é completamente inútil”, disse à BBC. Depois de um período de consulta pública no princípio do ano, a CE concluiu que as poucas excepções em que o sistema imperial é usado não prejudicam o comércio internacional. Essa era a razão pela qual se esperava que o Reino Unido se convertesse ao sistema métrico. Foi em 1965 que o Painel do Comércio britânico decidiu adoptar o sistema métrico num prazo de dez anos, estabelecendo uma comissão para supervisionar o processo. Porém, as constantes adaptações geraram grandes protestos, como o de Steve Thoburn que, em 2000, inspirou o movimento dos “mártires métricos” com o seu acto de desobediência civil: continuou a gerir o seu comércio com base no sistema imperial. A partir de agora, o Reino Unido poderá, por exemplo, continuar a medir oficialmente as distâncias em milhas (1609 metros), ou as cervejas e leite em pints (568,26 mililitros)» («Reino Unido livre do sistema métrico», 12.09.2007, p. 20).

Arquivo do blogue