Uso do itálico e do hífen

Larry Craig dispensa o hífen


      «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto. Craig sairá a 10 de Setembro» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, Público/P2, 2.09.2007, p. 7). Vejamos. Nos vocábulos em cuja formação entra o prefixo anti-, usa-se o hífen antes de h, i, r, s. Logo, não se usa antes de g. Antigás ou antigásico, antiglobalização, antigovernamental, antiguerra… Mas, lembra-me o leitor benévolo, o vocábulo gay não é português. Pois não, viu bem. Assim, que híbrido é este, com o prefixo anti- em romano e o vocábulo gay em itálico? De resto, leio este título no The New York Times: «Four Men Plead Guilty in an Antigay Attack». A jornalista deveria ter escrito «antigay», pois «anti-gay» não é português nem inglês.

Ortografia: «bolçar»

Bolsar: como assim?



   Eu sei: parece uma obsessão minha, pois é a terceira vez que abordo a questão. É raro ver a palavra bolçar bem escrita. Desta vez foi José Diogo Quintela, na Crónica do Costume, a propósito, ao menos isso, de um bebé: «O vexame. A falta que um bolsado no ombro faz» («Mulheres: como assim?», «P2»/Público, 2.09.2007, p. 3). O texto tem, é verdade, erros bem mais graves, mas ficarão para outra ocasião.
   Mas até em grandes escritores, infelizmente, e livros revistos, se vê o erro: «Zarpou de Lisboa o vapor encardido que me leva, enquadrado por Dona Balbina, a governante, e por Carolina, minha irmã, e durante horas escondo a cabeça esgrouviada no regaço daquela, bolsando nele o que me resta da ligeira refeição que fizemos em terra» (Camilo Broca, Mário Cláudio, D. Quixote, Lisboa, 2.ª ed., 2007, p. 49. Revisão de Fernanda Abreu).

Ensino do Francês

Allons bon !

São dados do Público de ontem: «No ano lectivo de 1995/96, houve nas escolas portuguesas mais de 45 mil alunos do 2.º ciclo do ensino básico a escolher Francês como primeira língua estrangeira. Dez anos depois, foram apenas 1407, em todo o país. Os números, relativos ao ensino regular, são do Ministério da Educação» («Francês seduziu apenas 1400 dos 237 mil alunos do 2.º ciclo», Bárbara Simões, 3.09.2007, p. 3). Está na hora de o Governo português tomar alguma medida em relação a esta situação e — vale a pena referi-lo sempre que se fala do ensino de línguas, vivas ou mortas, em Portugal — valorizar o ensino/aprendizagem do Latim. Porque o mundo e a vida não são apenas economia.

Compostos com quase-

Quase, quase

      Numa reportagem sobre a Cova da Moura («Turistas vão à Cova da Moura», Público/P2, 4.09.2007, pp. 4-5), escreve Marina Chiavegatto: «Nesta quase-freguesia as portas ficam abertas e pode-se ver o interior das casas.» Em inglês é relativamente comum ligar por hífen este anteposto (já em latim advérbio que funcionava também como prefixo) à palavra que se segue: quasi-delict, quasi-duet, quasi-medieval, quasi-official, quasi-scientific, quasi-war… Em português, e registados pelo Dicionário Houaiss, temos os seguintes: quase-alijamento, quase-contrato, quase-delito, quase-domicílio, quase-equilíbrio, quase-estático, quase-flagrância, quase-posse e quase-usufruto. Eu próprio já li e usei outros compostos com quase (quase-morte, por exemplo) que não fazem parte desta lista. Sou de opinião que o termo criado (?) pela jornalista do Público se enquadra legitimamente na ideia que os referidos compostos pretendem transmitir.

Estrangeirismos

O Magreb à mesa

Os estrangeirismos, é sabido, inundam os jornais. Alguns são escusados e, pior ainda, muitos já estão aportuguesados e o jornalista parece ignorá-lo. «Família, família, família... É à mesa que os rostos se revelam, e o realizador franco-tunisino Abdellatif Kechiche serve(-nos), para esse efeito, pratadas de couscous. A barriga, diz-se, é o mais próximo do coração» («Uma pratada de couscous em Veneza», Vasco Câmara, Público/P2, 4.09.2007, p. 10). O vocábulo couscous aparece quatro vezes no caderno P2, mas a forma registada nos dicionários da língua portuguesa, e aquela que o jornalista deveria ter usado, é «cuscuz». Mais: o vocábulo entrou primeiro na língua portuguesa, no século XV, e só depois, no início do século XVI, na língua francesa. O equivalente espanhol não prescindiu do artigo definido árabe al: alcuzcuz. Pouco usado e com etimologia no francês, o espanhol também regista cuscús.

Léxico: cecograma

Chega uma carta

A leitora Luísa Pinto pergunta-me o que são cecogramas. O termo (do latim caecus, «cego», e do grego γράμμα, «carácter») foi adoptado pelo Congresso de Viena de 1964 e é um neologismo que designa as impressões em relevo para uso dos cegos e a própria remessa da correspondência que usa esse tipo de impressão. Os cecogramas, que podem ter até 7 quilogramas, estão isentos de taxas postais.

Glossário: dos muçulmanos

Almacave m. Ant. Cemitério dos mouros.
Almádena f. Torre alta das mesquitas.
Almançor m. Ant. Epíteto muçulmano; vitorioso, invencível.
Almuadem m. Mouro que, no alto das almádenas, chama os muçulmanos à oração. (Ver muezim.)
Alquibia f. Ponto do horizonte para onde os muçulmanos se voltam quando rezam.
Axá m. Oração que os muçulmanos fazem antes de se deitarem.
Bismela f. Cerimónia árabe, invocação de Alá antes de se empreender algum acto, ou de matar um animal para comer.
Cádi m. Magistrado civil e religioso entre os muçulmanos.
Dadá m. Prelado do convento, entre os muçulmanos.
Daroês m. Religioso muçulmano que faz parte de uma comunidade.
Faqui m. Jurisconsulto muçulmano.
Hacer m. Oração que os muçulmanos fazem a Deus antes do nascer do Sol.
Hafiz m. Entre os muçulmanos, título dado aos teólogos que sabem o Alcorão de cor.
Hagi m. O muçulmano que fez uma peregrinação a Meca, cidade santa do Islão — acto religioso que cada verdadeiro crente deve realizar ao menos uma vez na vida, a não ser que seja menor, louco, ou escravo.
Hanifita m. Membro de uma das quatro seitas, consideradas ortodoxas, da religião muçulmana.
Háquimo m. Médico entre os muçulmanos.
Hatama m. Lugar do Inferno, onde, segundo o Alcorão, capítulo 104, são lançados os difamadores.
Huri f. Mulher formosa do paraíso de Mafoma, destinada na vida futura a desposar o muçulmano fiel ao culto.
Imã m. Um dos títulos que os califas se atribuíram como chefes supremos dos povos muçulmanos.│Cada um dos chefes das quatro seitas ortodoxas do islamismo.│Oficiante das orações diárias na mesquita.
Mirabe f. Pequeno compartimento ou edícula sem imagem, dentro de uma mesquita, destinado a orientar os crentes na direcção de Meca.
Moade m. Sacerdote muçulmano.│O m. q. moádi.
Moçafe ou moçafo m. O m. q. Alcorão.│Torre de onde os muçulmanos chamam os fiéis à oração.
Mocamo m. Entre os mouros, mesquita ou lugar sagrado.
Muezim m. Gal. O m. q. almuadem.
Mufti m. Nome dado aos doutores principais da lei do Alcorão, no Próximo e Médio Oriente.
Namaz ou namazi m. Oração que os muçulmanos são obrigados a fazer cinco vezes ao dia.
Salaio m. Imposto indirecto sobre o pão cozido a que eram obrigados os mouros, depois da conquista de Lisboa pelos Portugueses.
Tabi m. Nome dado, na literatura muçulmana, aos transmissores de tradições que viveram imediatamente depois dos companheiros do profeta.
Zebil f. Fonte nas mesquitas onde os muçulmanos fazem as suas abluções.
Zecate f. Esmola que todo o muçulmano é obrigado a dar.
Zeilis m. pl. Seita religiosa árabe, contrária ao islamismo, cuja lei, diz, será abolida com a vinda de um novo profeta, escolhido por Deus entre os Persas.
Zemis m. pl. Indivíduos não muçulmanos submetidos à autoridade osmanli e às leis civis e penais do islamismo.
Zendique m. Ímpio, homem sem fé religiosa, na linguagem dos muçulmanos.

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Nomes de plantas

Na serra de Sintra, com o dicionário

Apesar de termos várias serras em Portugal, sempre achei espantoso, m’espanto às vezes, como os dicionários — não, certamente, o Dicionário da Academia, m’avergonho — registam o nome de espécies vegetais que são exclusivas da serra de Sintra. Abro o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, e é ver: arre-dom-macho, bom-pastor, casceta, laboreira, marcavala, morcos-diabo, nuticana, ourovale, opática, opitimo, roça-marinha, sataria, tauncho, turvi, zenepro…

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