Semântica: «ladrão»

Língua pérfida

Antigamente, só havia ladrões no exército. Agora, há-os em todo o lado. É uma injúria, esta afirmação, diz? E o leitor acha que eu sou ingénuo? Explico (e quebro o protocolo de leitura): os mercenários que faziam parte da escolta dos imperadores romanos chamavam-se latro (latronis), e servir no exército dizia-se latrocinare. Como é que de soldados, latrones, é certo, passaram a ladrões propriamente ditos? Com a dissolução do Império Romano, o salário (salário porque eram pagos em sal, tal como os cartéis da droga pagam em cocaína aos seus mercenários) destes mercenários começou por ser irregular, até que deixou de ser pago. Nesta altura, e porque tinham o direito de usar armas e necessidade de se alimentarem como todos os mortais, passaram a salteadores, ficando assim fixado o significado actual da palavra «ladrão». Percebem agora a afirmação inicial? Já muito diferente é a frase, que joga com a ambiguidade, que me enviaram recentemente: «Os autarcas portugueses são os mais católicos do mundo: não assinam nada sem levar um terço.»

Caixa automático (ATM)

Imagem: http://download.humor.orange.es/

O caixa da caixa


      Recentemente, alguém me deixou aqui nos comentários a estranheza por se dizer «o caixa automático» (a ATM, Automatic Teller Machine) e não «a caixa automática». Como acabei de ver o mesmo erro numa tradução do espanhol, aproveito e dou a minha opinião. «Los cajeros automáticos han cambiado notablemente la forma de trabajar del sector bancario.» O tradutor verteu, autorizado pelo Dicionário Houaiss e pelo Dicionário da Academia: «As caixas automáticas mudaram notavelmente a forma de trabalhar do sector bancário.» A explicação para se usar o masculino estará, como sugere o consultor do Ciberdúvidas Carlos Rocha, no facto de durante muito tempo ser uma profissão desempenhada maioritariamente por homens, pelo que seriam os caixas. Logo, quando se automatizou o serviço, bastou acrescentar o adjectivo: o caixa automático. Já não concordo é com o argumento de que deve mudar-se para «caixa automática» porque «máquina» é do género feminino. Curiosamente, também os Espanhóis têm cajeros (do latim capsarĭus) e cajeras, e quase de certeza mais cajeras que cajeros, e a expressão deles é cajero automático. Mas claro que há caixas automáticas: um vizinho meu tem um Citröen C5 com caixa (de velocidades) automática.

Apostila ao Ciberdúvidas: derivação

Leiam-se

      Um estudante de Luanda, Celso Corte Real Correia, quis saber a diferença entre derivação regressiva e derivação progressiva, e acrescentou: «Parece-me que a essência de ambas é a mesma, ou seja, de verbos derivam os nomes.» No dia 10 de Abril, teve resposta da consultora do Ciberdúvidas Carla Viana, que, em relação concretamente à derivação progressiva, afirmava: «Na derivação progressiva incluem-se a derivação sufixal (por exemplo, os substantivos formados a partir de verbos pelo acréscimo de um afixo, como conhecimento = conhecer + -mento, com alteração da vogal temática -e > -i), a derivação prefixal e a derivação parassintética.» O mesmo estudante voltou a consultar o Ciberdúvidas sobre o mesmo assunto e a resposta do consultor Carlos Rocha foi surpreendente: «A expressão “derivação progressiva” não está consagrada nos estudos gramaticais, embora se consiga compreender que será o contrário de derivação regressiva: esta consiste em fazer derivar uma palavra de outra através da perda de elementos (por exemplo, desinências), enquanto aquela será o processo que acrescenta elementos a uma palavra para formar uma nova.»
      Não está consagrada? Com a resposta da consultora Carla Viana ficáramos com a convicção de que estava. Leio no Dicionário Prático para o Estudo do Português, da autoria de Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo (Edições Asa, Porto, 2003): «A derivação própria pode ser progressiva ou regressiva:
— ao processo de adição de um prefixo ou sufixo dá-se o nome de derivação progressiva: trabalhotrabalhador; cultoinculto; nacionalizardesnacionalização.» (p. 161).

Léxico: «Macaronésia»

Ilha do Macarrão


      Cara Luísa Pinto, a Macaronésia existe mesmo, ainda que num mapa vulgar não a veja indicada. A região biogeográfica conhecida pela região da Macaronésia, designação atribuída no século XIX pelo geógrafo e botânico inglês Philip Baker Webb, inclui as ilhas Selvagens e os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e a costa de Cabo Verde, o chamado «enclave macaronésio africano». É um termo usado sobretudo pelos estudiosos da natureza (mas ultimamente também por políticos no sentido de região com interesses económicos comuns) para expressar um conceito fundamentalmente biogeográfico e botânico, pois, ao que parece, toda esta região partilha muitas características biológicas e contém comunidades de plantas e animais únicas. Há mesmo um Centro de Estudos da Macaronésia — Ciências da Vida e da Terra (CEM), o que demonstra bem a importância do conceito. O étimo do vocábulo «Macaronésia», esse encontramo-lo no grego makáron, «feliz, afortunado» e nesoi, «ilhas», isto é, «ilhas Afortunadas», o termo usado por antigos geógrafos para as ilhas a oeste do estreito de Gibraltar. O historiador Plínio, o Velho (23-79), identificou, na obra História Natural, as ilhas Afortunadas com as Canárias.

Apostila ao Ciberdúvidas

Não ligue

«Il a raison, mais il n’est pas des nôtres. Silence»
Montherlant

Uma professora de Aveiro, Maria Vitória Bóia Mouro, perguntou, em má hora, ao Ciberdúvidas se existia a palavra «responsabilizante». Resposta do consultor, F. V. da Fonseca: «Não encontro registado o termo, sem dúvida sinónimo de responsabilizador, “que responsabiliza ou que implica responsabilidade”.» Que eu saiba, no Brasil fala-se português, e o excelente, e sem paralelo em Portugal, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que pode consultar aqui, regista: «responsabilizante adj. 2g

Tradução: «médecine douce»

Disparates suaves

Desta vez, o tradutor teve consciência de que a tradução que propunha não seria a mais correcta, assinalando então a vermelho a palavra «suaves». O que estava em causa era a tradução da expressão francesa «médecine douce». «Les médecines douces», dizia o original. «As medicinas suaves», atirou, a medo, o tradutor. Mas não. «Médecine douce/officielle. Cette autre médecine existe (...) on l’appelle médecine douce parce que, à la différence des traitements d’urgence que privilégie la médecine officielle, elle veut aller dans le sens de ce que le corps réclame (Le Nouvel Observateur, 7 avr. 1980)» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). É a nossa medicina alternativa. «L’Altra Medicina» dos Italianos. A «Heilpraktik» dos Alemães.

Tradução: «carotte»

Imagem: http://www.dt.insu.cnrs.fr/carottier/

A importância das cenouras


      O texto tinha como título «La mémoire de la glace» e dizia: «Dans les échantillons de glace (carottes) prélevés par les chercheurs se trouvent conservées les traces de l’histoire climatique de la planète : périodes de réchauffement, de refroidissement, teneur en gaz carbonique, en oxygène, etc. L’Antarctique est ainsi un gigantesque laboratoire pour étudier l’évolution des climats, et pour comprendre, et peut-être prévenir, les conséquences des pollutions atmosphériques causées par les pays industrialisés.» O tradutor — e que Deus lhe valha! — verteu assim: «Nas amostras de gelo («cenouras») recolhidas pelos investigadores encontram-se conservados vestígios da história climática do planeta: períodos de aquecimento, de arrefecimento, nível de dióxido de carbono, de oxigénio, etc. A Antárctida é assim um gigantesco laboratório para estudar a evolução dos climas e para compreender, e talvez prevenir, as consequências das poluições atmosféricas causadas pelos países industrializados.» «Cenouras»? Nem com aspas as engolimos. Mas sim, podia ser, pois «les carottes, naguère mal protégées, s’érodaient à la remontée et prenaient une forme légèrement conique : d’où la similitude avec la racine et le nom» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). Mas em francês, não em português. Qualquer dicionário bilingue — e o que cito é o Grande Dicionário Francês/Português, editado pela Bertrand — dirá: «carotte s. f. Massa de terra extraída pelos instrumentos de sondagem». Pois em português também é simples: carote. Sem ser engenheiro, conheço a palavra e o conceito há muitos anos. Em certas estruturas, extraem-se carotes de betão para análise. Dos fundos marinhos, extraem-se carotes de sedimento para análise.
      De vez em quando, fala-se da falta de maturidade, apesar das regras no acesso ao Centro de Estudos Judiciários, dos juízes. Contudo, não é só com estes profissionais (embora as decisões destes tenham repercussão na vida dos indivíduos e da sociedade em si) que nos devíamos preocupar. Um recém-licenciado que leu mal (ou mal leu) três livros e se põe a traduzir também é perigoso.

Tradução. Nortenho e nortista

Perderam a tramontana


      Pode não ser somente um erro das traduções, mas é nestas que o encontrei já diversas vezes. Está-se a falar, por exemplo, da Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão (1861-65). Esta opôs, como se sabe, o Norte, abolicionista, ao Sul, escravagista. Opôs, pois, os sulistas aos… os sulistas aos… aos nortenhos!? Em espanhol sim, o vocábulo norteño refere-se ao que pertence ou está situado no Norte de qualquer país. Em português, não é assim. Se dessem uma olhadela num qualquer dicionário da língua portuguesa, leriam: «Nortenho, adj. Relativo ao Norte de Portugal.│S. m. Natural ou habitante do Norte de Portugal.» Ainda temos os norteiros, os nortenses e os nortistas — mas cada um no seu sítio. Isto faz-me lembrar um outro caso de tradução que me foi relatado. Tratava-se de um romance inglês, ambientado na Inglaterra do século XIX. Pois o tradutor pôs a personagem principal a passar não por agruras mas «as passinhas do Algarve». Ainda se fosse do Allgarve…

Arquivo do blogue