Género de «aluvião»

Opiniões & sensações

      Antigamente, qualquer apaga-lampiões sabia que a palavra «aluvião» era do género feminino. Depois, com o decurso do tempo, um número significativo de falantes — e alguns já não eram apaga-lampiões — passou a fazer o mesmo, o que obrigou os dicionaristas, que a sabiam historicamente do género feminino, como em latim, aluvio,onis, a admitir os dois géneros. Agora, já há quem jure que é «só» do género masculino. Assim evoluem as línguas. Mas claro, são meras opiniões de leigos. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, «os pareceres são como os raios laser: emitem-se. Cada português é um emissor privado. Privado de bom senso».



Léxico: corsa


Imagem: http://www.nesos.net/

Carros de cesto?

Sempre que se fala, na imprensa mas não só, nos carros de vime da Madeira, verdadeiros ex-líbris da ilha, nunca se vê referido o nome que têm. De facto, «carros de vime» ou «carros do Monte» são mais descrições do que outra coisa. Contudo, há muitos anos que conheço a palavra «corsa» para os designar. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, por exemplo, regista: «Corsa, f. Espécie de veículo, puxado por gente, e em que se transportam pessoas, na ilha da Madeira.» São feitos de vime e assentes em duas tiras de madeira ensebada e terão aparecido em 1849. Descem do Monte até ao Funchal por uma calçada estreita e muito íngreme, manobrados por dois carreiros, trajados de calças e camisa branca e chapéu de palha. Há, actualmente, 87 carros em serviço. Curiosamente, a imagem de cima, pertencente, tal como a de baixo, ao Museu Photographia Vicentes, tem como legenda «“Corsa” junto ao portão da “Villa Victória”, anexo do Reid’s Palace Hotel. Estrada Monumental, Sítio do Salto do Cavalo, Funchal. Posterior a 1894. Fotógrafo: Perestrellos Photographos», ao passo que a legenda da fotografia de cima é «“Carro de cesto”. Rua de Santa Luzia, Funchal (vendo-se à direita o muro do Convento da Encarnação). Primeiro quartel do século XX. Fotógrafo: Vicentes Photographos». Imagino que o autor das legendas desconheça que o vocábulo «corsa» também se aplica aos carros de cesto. Vamos dizer-lhe?

Tradução: «enforceable»

Língua desmandada


      Isto faz-me lembrar a questão da etimologia do vocábulo «mandarim» e da suposta influência do verbo português «mandar» na sua grafia. Dizia o original: «We need enforceable international law to help regulate our behavior.» «Precisamos de uma lei internacional mandatória para ajudar a regulamentar o nosso comportamento», verteu o tradutor. Nenhum dicionário, que eu conheça, regista o termo «mandatório»: quase todos saltam de «mandato» para «manda-tudo». Os melhores, pelo menos, porque os outros dão saltos maiores. O vocábulo «mandatório» que, de facto, vejo ser utilizado com alguma frequência, só pode ser o aportuguesamento desnecessário do inglês mandatory (com étimo no latino mandatorius). Em português dir-se-á, mais vernaculamente e neste âmbito jurídico-legal, «executória». Ou, se quisermos, «obrigatória».




Etimologias

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A imprensa mordaz e o dicionário mendaz

      Há na língua espanhola, e alguns tradutores já se terão deparado com ele, o vocábulo «ridículo» para designar uma bolsa exterior que no início do século XIX, com a moda dos vestidos de estilo império, e até mesmo um pouco antes, com o chamado estilo directório, se impôs. Na verdade, este nome foi-lhe posto, pela extravagância que lhe viam, pela mordaz imprensa francesa, pois o nome que adequadamente lhe tinham dado era «retícula» (réticule), do latim reticulum. Logo em 1812, o Dictionnaire Universel Boiste acrescentava esta acepção ao verbete «ridicule», como se pode ver aqui. Até aqui, nada de extraordinário, pois podia até pensar-se que estávamos perante mais um caso de deturpação popular. O que é estranho, isso sim, é que o conceituado Diccionario de la Real Academia registe que ridículo, na acepção da bolsa, tem como étimo o latim reticŭlus, «bolsa de red». Bem explicadas, as coisas não são assim, e ninguém pede tanta simplificação.

Tradução: «virtual»

Mundos paralelos

«Halliburton and other companies have security forces in Iraq now, virtual armies to help defend their people and property.» Parece simples — e é, de facto. O tradutor, contudo, complica: «A Halliburton e outras empresas têm hoje em dia forças de segurança no Iraque, exércitos virtuais para ajudar a defender as suas pessoas e as suas propriedades.» É essa mesmo a pergunta, caro leitor: o que é um «exército virtual»? Estamos a falar de videojogos ou a brincar? A acepção de «quase completo», «praticamente total» (na formulação do Dicionário Houaiss) é relativamente recente e semanticamente anglicizante. Não precisamos dela para nada. Sob pena de ninguém saber o que estamos a dizer. A não ser, evidentemente, que seja esse o nosso desiderato.

Léxico: jingoísmo


Por Júpiter!

Ignorance never settles a question.
Benjamin Disraeli (1804-1881)


      Cara Luísa Pinto, o vocábulo «jingoísmo» existe realmente e significa nacionalismo agressivo e belicoso. A origem do vocábulo está na Grã-Bretanha e no que parece ser um hipocorístico de Jesus entre os Ingleses do século XVIIIJingo — usado na interjeição By Jingo! Mais tarde, durante a Guerra Russo-Turca (1877–78), o compositor inglês George Hunt compôs uma canção cujo refrão, que se tornou popular, dizia: «We don’t want to fight/but by jingo if we do.../We’ve got the ships, we’ve got the men,/and got the money too!» A própria imprensa inglesa ajudou a difundir o vocábulo jingo (tal como jingoist e jingoism) para designar os nacionalistas exacerbados, sobretudo depois da intervenção inglesa na guerra, quando o primeiro-ministro Benjamin Disraeli enviou a armada em defesa de Constantinopla. A 3 de Março de 1878, a guerra acabou, tendo sido assinado o Tratado de Paz de San Stefano (actualmente, Yeşilköy) entre a Rússia e o Império Otomano, para formalizar o novo statu quo. O vocábulo «jingo» teve melhor futuro.
      Por curiosidade, transcrevo um trecho de uma das Crónicas de Londres, publicadas por Eça de Queirós numa «folha do norte», A Actualidade, em que o autor se refere ao tratado:

«Finalmente ontem, pelas três horas da tarde, em San Stefano, a paz entre a Turquia e a Rússia foi assinada. Ontem era na história imperial da Rússia um dia ilustre: era o aniversário da emancipação dos servos, do nascimento do imperador e da sua subida ao trono: e por um refinamento de vaidade czariana foi ontem o dia escolhido para completar, por uma assinatura num papel, o fim do Império Turco. Devia ter sido decerto para Alexandre II um momento de orgulho hiperbólico ouvindo debaixo da janela do Palácio de Inverno milhares de vassalos cantarem, com a cabeça descoberta, como no respeito de uma celebração religiosa, o hino do czar — o pensar que no dia em que fazia vinte e três anos que seu pai Nicolau vencido e humilhado morria de despeito, ele tomava a desforra das derrotas passadas, recuperava as províncias perdidas, rasgava o ofensivo Tratado de Paris, destruía o Império Otomano, humilhava grandes potências e ganhava um lugar entre os grandes conquistadores do século. Nesse momento verdadeiramente pôde crer na missão da Santa Rússia.
De resto em Sampetersburgo, ao que dizem os telegramas desta manhã, o entusiasmo tomou as proporções de um delirium tremens. O imperador levou três horas a ir do palácio ao teatro, no meio de uma multidão fanática uivando o hino imperial, ébria de orgulho nacional, aclamando Alexandre, o Libertador. Em San Stefano, o grão-duque Nicolau passou uma revista de cerimonial às tropas, e os arautos anunciaram, ao som das músicas triunfais, o fim da campanha. Depois te Deum, jantares, champanhe e hurras pela Santa Rússia! De resto, os Turcos, com a passividade e a resignação da raça fatalista, aceitam a derrota, que é uma determinação de Alá, e não parecem ter conservado rancor aos Russos. Os correspondentes citam como perfeita a confraternização dos soldados russos e turcos: vêem-se, junto às linhas de demarcação, conversando, jogando, cantando, dançando, fumando, numa patuscada de bons amigos: um correspondente telegrafa que anteontem, na estrada de Pera, encontrara dois fortes destacamentos de tropas russas e turcas, que, tendo-se encontrado no mesmo caminho, faziam a passeata em fileiras misturadas, os oficiais em grupo, formando adiante, as bandas unidas tocando com denodo A Filha de Madame Angot. Os Turcos não parecem protestar: de Istambul vêm todos os dias a San Stefano milhares de curiosos ver os Russos, apertar-lhes a mão, dar-lhes os parabéns de boa chegada: de resto, os negociantes de Constantinopla estão encantados com a presença daqueles milhares de consumidores, que duplicarão os preços dos géneros.
A única criatura viva que em San Stefano protestou foi um jumento. Este ilustre descendente do amigo de Sancho e do amigo de Maomet mostrou desde o começo das negociatas da paz uma inquietação que bem depressa se definiu num ódio asinino contra os Russos. E o burro de um cangalheiro — e apenas pressente um uniforme russo afila a orelha, firma-se nas patas dianteiras e escouceia com um patriotismo que deve fazer corar o sultão e os paxás. E, dizem os correspondentes, a grande curiosidade de San Stefano, e faz o divertimento dos oficiais de sua alteza o grão-duque Vitorino. Debalde se tem procurado convencê-lo da nova vantagem e do novo progresso que a Turquia, ou o bocadito da Turquia que resta, vai gozar sob o protectorado russo; o jumento, com a teima que faz a honra e a força da sua raça, responde com coices aos argumentos. Este jumento ficará na história. É, depois de Osman Paxá, a única alma viril do império. É o último patriota turco!» (excerto da Crónica XIII, datada de Londres, 5 de Março de 1878).


Léxico: «psi»

Mas existe
     


      Há, fora dos dicionários, palavras muito mais vivas e usadas do que milhares de outras que jazem nesses vastos cemitérios que são justamente os dicionários. A inclusão de determinado vocábulo nos dicionários e vocabulários, já o tenho aqui defendido, não pode ser o único nem sequer o principal critério para aferirmos da legitimidade do seu uso. Abra-se qualquer dicionário no verbete «psi». Que podemos ler aí? Pois que psi é um substantivo masculino e significa a vigésima terceira letra do alfabeto grego ψ Ψ. No quotidiano, o que podemos ver é que «psi» também se usa — é ouvir-se o Prof. Júlio Machado Vaz, por exemplo — no sentido de qualquer (psi) ou todos (psis) os terapeutas da psique: psicólogos, psicanalistas e psicoterapeutas. A imprensa também usa o vocábulo neste sentido, embora ainda com o escusado cordão sanitário das aspas: «Na cultura popular, o uso e abuso do sexo terá uma explicação científica. Ironicamente, o pai da psicanálise decidiu praticar a abstinência após o nascimento dos seus seis filhos, como medida de controlo de natalidade. Para os “psis” com tradição analítica, a sexualidade banalizou-se (ao ponto de se discutir quantas vezes se deve fazer) e é usada como arma de arremesso ou antídoto falível para afugentar o mal-estar» (Clara Soares, Visão, n.º 686, de 27 de Abril de 2006). O uso de psi nesta acepção teve origem na língua francesa, muito atreita a reduções, como já aqui referi. Começou, nesta língua, por se usar somente no registo familiar, e muitas vezes com um sentido irónico ou pejorativo. Mais tarde, no início da década de 1970, passou a significar «spécialiste de psychologie; en partic., spécialiste de psychothérapie, de psychiatrie» (in TLFI). Sem ironia.


Ortografia: «belas-artes»


Belas-Artes e malas-artes


      «A Faculdade de Belas Artes e o El Corte Inglés têm o prazer e a honra de convidar V. Exa. para: Apresentação do Livro de Actas do 1.º Ciclo de Conferências de “Ciências da Arte”: “As Artes Visuais e as Outras Artes — As Primeiras Vanguardas.”» Espera lá, mas não era a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, como se vê na frente do convite e mesmo no verso? Onde está o hífen? É irritante ver quase sempre sem hífen esta palavra composta. Até podem ser professores universitários a escrever, «Belas-Artes» e «tão-só» para ali ficam desligados e sós. Tão sós…
      A Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa respeita a ortografia; a Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, não.

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