Russismo «dacha»

Как это сказать по-русски?

      Caro A. L., é como diz: dacha ou datcha (conforme prefere o Dicionário Houaiss, mas não, consabidamente, eu) é um russismo ou um russianismo*. Provém do russo дача. O tradutor do texto que me enviou optou, e muito bem, por «casa de Verão», locução ainda assim menos frequente, como se pode comprovar nos corpora do português, do que «casa de campo». Outra hipótese: «casa de veraneio». Dacha, dacha… o mais próximo que temos do estrangeirismo é «d’Acha», como no topónimo São Miguel d’Acha, que é uma freguesia do concelho de Idanha-a-Nova… Se puder usar uma palavra portuguesa, nunca use um estrangeirismo.

* Outros russismos ou empréstimos da língua russa: apparatchik, astracã, balaclava, balalaica, barine, boiardo, bolchevique, copeque, cossaco, culaque, czar, czaréviche, czarevna, czarina, duma, escorbuto, estepe, glasnost, gulag, kolkhoz, lapcha, matrioshka, mazute, menchevique, mujique, nomenclatura, parca, perestróica, pogrom, rileque, rublo, sajene, samoiedo, samovar, soviete, sucare, taiga, tarantasse, telega, terém, tróica, ucasse, verstá ou verste, vodca, entre outros.


Tradução: «écrivain public»

Saramagos, é isso?

«Dans les pays en développement, l’écrivain public est un personage important : il redige les lettres de ceux qui ne savent pas écrire (documents administratifs mais aussi messages personnels). Il traduit également dans la langue officelle du pays les messages de ceux qui ne parlent qu’un dialecte local. Aujourd’hui, on trouve aussi des écrivains publics dans certaines mairies françaises.» O tradutor resolveu verter assim, impunemente, para português: «Nos países em desenvolvimento, o escritor público é uma figura importante: redige as cartas dos que não sabem escrever (documentos administrativos, mas também mensagens pessoais). Traduz igualmente para a língua oficial do país as mensagens dos que só falam um dialecto local. Hoje em dia, encontram-se também escritores públicos em certas câmaras municipais francesas.» Eu conheci alguns destes «escritores públicos» em Portugal, a trabalhar nas autarquias e à porta do Arquivo de Identificação, na Gomes Freire. Contudo, entre nós, são redactores de cartas e de impressos da Administração Pública, que prestam os seus serviços aos cidadãos analfabetos, não são escritores públicos no sentido em que se usa esta locução. Em França até têm cursos universitários na Sorbonne (objectivos: «Cette formation se propose de former des professionnels de l’écriture capables de répondre aux besoins à la fois de la collectivité et des personnes privées, en apportant à tous publics une aide à la rédaction»), por exemplo, ao passo que cá basta(va) ser esperto e saber o abecedário.

Ortografia: bem-vindo


Mal-avindos

      Não há paciência para mensagens xenófobas, claro, mas português mal escrito também não é tolerável. Ou faz tudo parte da sátira? Até por respeito aos imigrantes, deviam escrever correctamente.

«Restício»?

Sobras

Eis a questão: por vezes, vê-se escrito e ouve-se a palavra «restício», como quem diz «resquício». Já a li na imprensa, o que, naturalmente, não é motivo de pasmo. Dir-se-ia um lídimo sinónimo do vocábulo «resquício» — se não fosse uma simples manifestação de ignorância. Como distinguir, contudo, quando tem um propósito jocoso e quando não? Em momentos de maior tolerância, até me questiono se não se pode pôr a par — em inventividade analógica — com «comício» e «bebício», como na expressão «comícios e bebícios». Mas não tem a mesma graça, e desconfio sempre da conscientia sceleris do falante.

Etimologias

Divagações

Já viram como os ingleses amantes da jardinagem, isto é, todos eles, produzem morangos nos seus jardins e hortas? Numa cama de palha, sobre a terra, com uma cobertura de tela esticada por quatro estacas. E daí serem chamados strawberries. Mas claro, os strawberries eram espontâneos por toda a Europa. Fico por aqui, não falarei de barberries, blackberries, blueberries, boysenberries, cloudberries, cranberries, gooseberries, huckleberries, lingonberries, raspberries… Se eu agora passar directamente para a abanação, ninguém estranhará, porque estaríamos no âmbito, por exemplo, do cultivo do café, já que a abanação é uma das fases e tem a finalidade, como o nome sugere, de retirar folhas, gravetos e outros objectos da planta. Na verdade, quero falar de outra abanação e demonstrar como a etimologia «intuitiva» pode descambar em grandes disparates. Exemplifico com o vocábulo abanação (vêem agora a ligação?) na acepção de pena de desterro por um ou dois anos imposta aos assassinos. Podia pensar-se que seria um castigo como o cifonismo, o crucifrágio, o esquartejamento, a estrapada, a rafanidose. Na abanação, o condenado levaria uns valentes abanões até jurar que se portaria bem no futuro. Explico apenas o que era a rafanidose: entre os Atenienses, era um dos castigos aplicados aos adúlteros e consistia em enfiar (digo bem?) um rábano de proporções castigadoras (ah, pois, nada de meiguices) no ânus do prevaricador.

Léxico: «repto»

Cousas d'antanho


      A propósito de toldos e nomes de empresas e similares, lembrei-me agora de outro facto linguístico curioso. É um verdadeiro desafio — porque é que o nome da Associação Reto à Esperança ficou meio traduzido? Faz-me espécie... Reto em espanhol, «provocación o citación al duelo o desafío». Em português é repto. Não seria pior, nem melhor, na verdade, se a metade traduzida fosse a outra: Associação Repto a la Esperanza. Mas não quero desanimá-los completamente: o vocábulo reto é a forma antiga, portuguesa, de repto. São, o primeiro com outro fenómeno pelo meio, palavras formadas por derivação regressiva, a partir do verbo reptar, «lançar desafio». Actualicense, ¡chicos! ¡Perdón!, senõres.

Léxico: «escaiola»

Imagem: http://www.romeartlover.it/Stones.html

Falso?



      Cara M. P., fake marble é isso mesmo, «falso mármore». Mas temos também o termo escaiola, que deve considerar na tradução que está a fazer. A escaiola é uma técnica (e o seu resultado) de preparação de gesso e cola ou cimento branco com que se consegue um revestimento liso e lavável que imita mármore ou outra pedra, usado em paredes, colunas e tectos. O vocábulo tem como étimo o italiano scagliuola, diminutivo de scaglia, e terá entrado no léxico português no século XIX, quando a técnica passou a substituir os revestimentos de azulejos, mais caros. Até nos palácios, como se pode ler neste artigo publicado no Diário de Notícias: «No átrio central [do Palácio Braamcamp, no Bairro Alto], os funcionários da câmara aguardam a chamada que os vai conduzir ao gabinete médico. Decorado com a “enganadora” técnica de pintura em escaiola, tem uns belíssimos mármores rosa e verdes (que afinal não o são). Cada sala do palacete está bem conservada e tem, nos tectos rendilhados, uma identidade própria» («Câmara ainda não definiu futuro do Palácio Braamcamp», Marina Almeida, 29.9.2006).

Tradução

Está-se mesmo a ver

«She thought she wanted a comfortable place to write, but she never identified with the more gentrified Tuscan country life.» Digam-me lá se esta não é uma tradução rilhafolesca: «Ela pensou que desejava um lugar confortável para escrever, mas nunca se identificou com a vida do campo mais gentrificada da Toscânia.» Não tem, qual bola, por onde se pegue.


Gentrification (n.), gentrify (v.):
Both the verb (meaning “to restore to middle-class standards and purposes a deteriorated part of a city”) and the noun (the process of doing so) have achieved standard status, though only relatively recently. Each also has a pejorative generalized use meaning “to uplift or improve status of speech, dress, or other manners.” (in The American Heritage®)

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