Etimologias

Divagações

Já viram como os ingleses amantes da jardinagem, isto é, todos eles, produzem morangos nos seus jardins e hortas? Numa cama de palha, sobre a terra, com uma cobertura de tela esticada por quatro estacas. E daí serem chamados strawberries. Mas claro, os strawberries eram espontâneos por toda a Europa. Fico por aqui, não falarei de barberries, blackberries, blueberries, boysenberries, cloudberries, cranberries, gooseberries, huckleberries, lingonberries, raspberries… Se eu agora passar directamente para a abanação, ninguém estranhará, porque estaríamos no âmbito, por exemplo, do cultivo do café, já que a abanação é uma das fases e tem a finalidade, como o nome sugere, de retirar folhas, gravetos e outros objectos da planta. Na verdade, quero falar de outra abanação e demonstrar como a etimologia «intuitiva» pode descambar em grandes disparates. Exemplifico com o vocábulo abanação (vêem agora a ligação?) na acepção de pena de desterro por um ou dois anos imposta aos assassinos. Podia pensar-se que seria um castigo como o cifonismo, o crucifrágio, o esquartejamento, a estrapada, a rafanidose. Na abanação, o condenado levaria uns valentes abanões até jurar que se portaria bem no futuro. Explico apenas o que era a rafanidose: entre os Atenienses, era um dos castigos aplicados aos adúlteros e consistia em enfiar (digo bem?) um rábano de proporções castigadoras (ah, pois, nada de meiguices) no ânus do prevaricador.

Léxico: «repto»

Cousas d'antanho


      A propósito de toldos e nomes de empresas e similares, lembrei-me agora de outro facto linguístico curioso. É um verdadeiro desafio — porque é que o nome da Associação Reto à Esperança ficou meio traduzido? Faz-me espécie... Reto em espanhol, «provocación o citación al duelo o desafío». Em português é repto. Não seria pior, nem melhor, na verdade, se a metade traduzida fosse a outra: Associação Repto a la Esperanza. Mas não quero desanimá-los completamente: o vocábulo reto é a forma antiga, portuguesa, de repto. São, o primeiro com outro fenómeno pelo meio, palavras formadas por derivação regressiva, a partir do verbo reptar, «lançar desafio». Actualicense, ¡chicos! ¡Perdón!, senõres.

Léxico: «escaiola»

Imagem: http://www.romeartlover.it/Stones.html

Falso?



      Cara M. P., fake marble é isso mesmo, «falso mármore». Mas temos também o termo escaiola, que deve considerar na tradução que está a fazer. A escaiola é uma técnica (e o seu resultado) de preparação de gesso e cola ou cimento branco com que se consegue um revestimento liso e lavável que imita mármore ou outra pedra, usado em paredes, colunas e tectos. O vocábulo tem como étimo o italiano scagliuola, diminutivo de scaglia, e terá entrado no léxico português no século XIX, quando a técnica passou a substituir os revestimentos de azulejos, mais caros. Até nos palácios, como se pode ler neste artigo publicado no Diário de Notícias: «No átrio central [do Palácio Braamcamp, no Bairro Alto], os funcionários da câmara aguardam a chamada que os vai conduzir ao gabinete médico. Decorado com a “enganadora” técnica de pintura em escaiola, tem uns belíssimos mármores rosa e verdes (que afinal não o são). Cada sala do palacete está bem conservada e tem, nos tectos rendilhados, uma identidade própria» («Câmara ainda não definiu futuro do Palácio Braamcamp», Marina Almeida, 29.9.2006).

Tradução

Está-se mesmo a ver

«She thought she wanted a comfortable place to write, but she never identified with the more gentrified Tuscan country life.» Digam-me lá se esta não é uma tradução rilhafolesca: «Ela pensou que desejava um lugar confortável para escrever, mas nunca se identificou com a vida do campo mais gentrificada da Toscânia.» Não tem, qual bola, por onde se pegue.


Gentrification (n.), gentrify (v.):
Both the verb (meaning “to restore to middle-class standards and purposes a deteriorated part of a city”) and the noun (the process of doing so) have achieved standard status, though only relatively recently. Each also has a pejorative generalized use meaning “to uplift or improve status of speech, dress, or other manners.” (in The American Heritage®)

Léxico: «mandaçarre»

Mais uma pérola


      Li recentemente um texto sobre a vida de um pescador de pérolas filipino, mais concretamente de Banjao, na ilha de Mindanau. O texto não o dizia, mas a verdade é que a língua portuguesa inclui no seu vasto léxico um vocábulo para designar o pescador de pérolas da Ásia — mandaçarre. Karel Pamay, o pescador entrevistado pelos missionários combonianos José Rebelo e David Domingues, «explica que, por aquelas bandas, os meses melhores para a pesca das pérolas são os de Verão — Abril e Maio —, e o momento mais propício as noites de lua cheia; certamente porque a água aquece e as ostras desovam. As conchas encontram-se a cerca de 30 metros de profundidade. Karel consegue suster a respiração por dois minutos, o suficiente para mergulhar. Os seus óculos de mergulho (goggles) são muito especiais — feitos de casca de árvore, as lentes são dois pedaços de vidro colados com uma cola natural, extraída de uma árvore; e são amarrados por fios. Uma invenção original, que bem merecia uma patente» (in revista Audácia).


Nomes

Quanto custa um acento circunflexo?

Nunca pensei vir a escrever sobre este assunto, mas ter lido o seguinte texto de Frances Mayes fez-me mudar de opinião. «What is up with the Mantova restaurants? Something contagious happened with the naming. One translates as the Black Eagle, others as the White Griffon, the Swan, Two Ponies, White Goose» (A Year in the World, Journeys of a Passionate Traveller, Broadway Books, 2006). Em Lisboa, é em relação às pastelarias que me interrogo: o que leva os proprietários (será a maioria, como uma vez me disseram, originária de Castelo Branco? Se sim, em que é que isso influencia a questão?) a dar o nome de Flor das Avenidas, Flor da Pampulha, Flor de Benfica, Flor da Ajuda, Flor... às suas pastelarias? Porquê «flor»? E — mais grave ainda, e o que me levou também a escrever — porquê «flor» com acento circunflexo? São resquícios gráficos das pétalas? Ou simples analfabetismo? E os proprietários das empresas que fazem os toldos não podem aconselhar honestamente os clientes? Ou serão eles, na verdade, os responsáveis por tais erros?

Etimologia: «mandarim»

Manda que obedeces


      Mandarim ou mandari m. Funcionário letrado, recrutado por concurso, da administração civil e militar na China, no Aname e na Coreia.
      Talvez, como sugerem alguns linguistas, na mudança de t para d se possa ver alguma influência do verbo português mandar, mas a verdade é que há algum consenso na filiação do vocábulo no malaio măntări, corruptela do sânscrito mantrī, «conselheiro, ministro ou chefe de Estado». Que do português tenha passado, logo no século XVI, para o inglês e para outras línguas ocidentais não surpreende. Certo é que não é caso único e — o que é de realçar, no caso — admitido pelos próprios linguistas ingleses, espanhóis e italianos, por exemplo. Supor-se que provém, como alguns afirmam, do verbo português mandar é pura fantasia.

Ter lugar?

Não cabe

Leia-se o que dizia Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 128, a propósito da expressão «ter lugar» (do francês «avoir lieu»), ainda hoje tão em uso: «Um exemplo, entre muitos: Quase se vai esquecendo dizer que isto ou aquilo se efectua, se realiza, ocorre, se celebra. Ter lugar é o estribilho usado nas notícias. Terá lugar um baile, tem lugar o espectáculo, teve lugar a cerimónia, terá lugar o funeral, etc., etc. Ter lugar em português é — ter cabimento, ou cabida, vir a propósito, etc. Aquilo que se realiza, se efectua, se celebra, dizer-se que “tem lugar” parece disparatado e ridículo. Pois faz parte da linguagem alambicada e bárbara…»

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