Tradução do inglês

E onde é isso?

«Tal como no resto da União Europeia, o número de muçulmanos residentes nos dez países membros mais recentes (Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Látvia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia) é difícil de precisar, essencialmente por causa da imigração ilegal.» Quem discorda de semelhante afirmação? Mas onde fica a Látvia? Já não estranhava que alguns tradutores escrevam «Beijing», «Burma», «Anvers», etc. «Látvia» nunca tinha visto. Já agora, porque não em letão: Latvijas Republika?
«As with the rest of the EU, the number of Muslims residing within the ten newly acceded states (Cyprus, the Czech Republic, Estonia, Hungary, Latvia, Lithuania, Malta, Poland, Slovakia, and Slovenia) is difficult to pinpoint primarily because of illegal immigration.»
A propósito, já está em linha o Dicionário de Gentílicos e Topónimos.

Pronúncia: distocia

Abortos linguísticos

Em conversa com uma fisioterapeuta, desta vez não a propósito de pólipos mas de partos, lá tive de ouvir mais um abastardamento da língua: /distócia/. Quem sabe se ela não escreve mesmo assim, com acento agudo? Já vi. Isto faz-me lembrar uma pergunta que certa vez uma consulente fez ao Ciberdúvidas: «Lista de palavras falsas esdrúxulas.» Isto é que é doçura… A merecer a resposta que teve: «Tal lista depende da ignorância de cada um!» O vocábulo «distocia» é grave; logo, pronuncia-se /distocia/. (Já aqui falei, também a propósito da linguagem médica, dos compostos em -emia, que são sempre graves.) Vem do grego, sim, como o seu antónimo, «eutocia», mas através, provavelmente, do francês, e nesta língua não há proparoxítonos. Claro que há excepções, pelo que dou a palavra a Vasco Botelho de Amaral (sempre tão referido e sempre tão pouco divulgado): «Cabe notar [o autor di-lo a propósito do vocábulo «Oceania»] que em português houve sempre hesitações na acentuação de palavras em ia, principalmente quando se trate de sufixo.
A terminação -ia em grego é tónica; e no latim, átona. E aconteceu até que umas palavras se fixaram como graves e outras como esdrúxulas. Por exemplo, temos em português: filosofia, homilia; mas, por outro lado, ficou-nos história.
Isto não se dá só com os nomes comuns. Por um lado, diz-se Hungria, Normandia, Lombardia, Berbéria, Alexandria, Antioquia, Turquia, Samaria. Por outro, temos Áustria, Itália, Suécia, Somália, Dalmácia, Capadócia, Fenícia, Ásia, etc.» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp. 77-8).

Jogo de palavras

Imagem: http://sailorinthedesert.blogspot.com/

Novo-riquismo linguístico

Muitas muçulmanas francesas usam lenço na cabeça. Não o funéreo chador (do persa چادر, que aparece transliterado, consoante a língua, como chaddar, chuddar, tchador, tschador…) negro das oprimidas mulheres afegãs, que as cobre da cabeça aos pés, mas colorido e moderno. Como são ricas, chamam-lhe — improváveis leitoras de José Sesinando — «tchadior», numa referência ao estilista Christian Dior.

Semântica: gandaia

Não é bem assim...

«Então porque é que os patinhos amarelos surgem na capa de uma das mais prestigiadas revistas americanas, a “Harper’s” (Janeiro)? A resposta vem em 22 páginas de texto da autoria de Donovan Hohn. E que texto, meu Deus! Uma extraordinária reportagem de investigação sobre uma odisseia marítima que serve também de trave mestra de um poderoso ensaio a um tempo filosófico e ecológico. E, ainda, um estupendo elogio à arte da gandaia (vasculhar as praias à procura de objectos lançados pelo mar) («20 mil patinhos à deriva», Miguel Calado Lopes, Expresso/Única, 20.1.2007, p. 92). Dito assim, até parece que esta é a definição de gandaia: vasculhar as praias à procura de objectos lançados pelo mar. Mas não é, e qualquer dicionário o confirma. A gandaia é a procura no lixo de coisas que tenham algum valor — na praia ou nutro sítio qualquer. Também significa, e o étimo espanhol, gandaya, é esta ideia que exprime, andar daqui para ali, sem ocupação. Daí, em português, as acepções de ociosidade, vadiagem, mandriice. Aqui em Benfica — um pouco longe da praia, convenhamos — há um gandaeiro que aparece assiduamente à boca da noite. Empurra um carrinho de mão também ele construído de despojos e, previdente, vem munido de uma lanterna para esquadrinhar o lixo que encontra junto dos ecopontos.

Tradução do espanhol

Benfazer mas mal obrar

Há tempos, chegou-me esta frase: «El Osiris, Señor de los Muertos, el Ounofer o Bienhechor, reina en un limbo pálido, gris, debajo del suelo en el Oeste, hacia el Poniente.» O tradutor português entendeu vertê-la assim, para vergonha de todos nós: «Osíris, Senhor dos mortos, Uennefer ou Bienhechor, reina num limbo pálido, cinzento, debaixo do solo no Oeste até Poente.» Para quem tem somente umas tinturas da matéria, claro que «Bienhechor» é tão estrambótico como «Uennefer» — e vá de deixar ir assim. Pode ser que o leitor não perceba. Com sorte, talvez o revisor repare. Não, não, estas últimas reflexões não as atribuo à consciência do tradutor. Na verdade, trata-se tão-só de ignorância. Sim, temos mesmo o vocábulo «hechor» em português, não sabia, caro leitor? Só falta encontrar no mesmo léxico o «bien» e macheá-los. Sim, «hechor» está — premonitoriamente, diria eu — no glossário sobre equinos e asininos. É o burro que se reserva para fecundar éguas, destinadas à criação de burras. Hechor de hechar, lançar o burro às éguas.

Informação


O Fundo Antigo da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) está agora disponível online, aqui. É constituído por um acervo histórico e literário de obras — 70 mil páginas digitalizadas — maioritariamente publicadas antes de 1945.

Verbo «colmatar»

Lacunas

      Recentemente, um leitor lamentava o uso que actualmente se faz do verbo colmatar, com significados tão distantes dos que os dicionários registam e a própria etimologia autoriza. Contudo, já Vasco Botelho de Amaral, na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa (edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946), registava outros desvios, mostrando-se tolerante. Leia-se.

«“O inimigo fez uma infiltração nas nossas linhas, mas foi imediatamente colmatada.”
Infiltração colmatada” — repito para vincar bem a ruga semântica.
Vejamos as andanças elásticas desta palavra. Colmare, em italiano, é encher até ao cúmulo, acumular, e colmata, terreno atulhado, aterro. Consta que do nome dos aterros que se faziam na Toscana passou a palavra ao francês, colmatage, colmater. Posto que a sua acepção simples esteja em aterro, terraplenagem, o certo é que o galicismo colmatagem ganhou, em terminologia militar, o significado de aterro por depósito lodos, depósito este que constitui, ou constituía, bom obstáculo ao avanço das tropas inimigas. Ora, tendo presentes todos os matizes de significado de colmatar, colmatagem, a nossa imaginação admite a elasticidade de “infiltrações imediatamente colmatadas”. Mas a verdade é que se tem de reconhecer, no fundo deste género de estilo militar, a necessidade de, nos comunicados, se usar de linguagem um tanto imprecisa, vaga ou, pelo menos, linguagem um pouco sibilina, como convém ao segredo das operações castrenses.
Os dicionários portugueses, e a maior parte dos estrangeiros, não nos dão estes sentidos de colmatar, colmatagem, de colmater, colmatage, etc. E até achei inocente este comentário que vem em Cândido de Figueiredo — “Em vez de colmatar, e deriv., mais português é atulhar, entupir”.
Inocente, porque mal pensava o Mestre, no seu tempo, na esperteza dos comunicados de guerra futuros onde se falaria de “infiltrações colmatadas”. Se se dissesse “infiltrações atulhadas ou entupidas”, lá se ia a elasticidade preciosa da colmatagem…» (pp. 161-2)

Léxico: «incuso»

Imagem do Papa Pio XII (1876-1958)

Uma só face lavrada


      Um leitor pergunta-me que nome se dá às moedas ou medalhas cunhadas de um só lado. Usa-se habitualmente o adjectivo incuso. Logo, moeda incusa, medalha incusa.

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