Regência: consistir em

Senhores tradutores


      «Pegue-se numa folha inglesa. Telegrama que lá venha com a sintaxe “consisted of” é vertido pelos tradutores de agências portuguesas por “consistia de”. Se, pois, em Portugal sempre se disse “consistir em”, “constar de”, agora a notícia jornalística ou radiofónica impõe a sintaxe espúria — “consistir de”!
      A decência sintáctica anda quase sempre ausente, inclusivamente das notícias de coisas que pediriam exemplar correcção.»



Vasco Botelho de Amaral,
Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa,edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp.125-6.

Absolto?

Avô rico, neto pobre


      Cara Graça Pinto: deixe o seu avô dizer «absolto» à vontade. Afinal, está correctíssimo, ao contrário do que a leitora afirma. Quer um exemplo? Sirva este de Camilo: «Este não riu, quando lhe disseram que estava absolto do crime imputado em Portugal» (A Filha do Doutor Negro). E para que se não suspeite que o autor estava a guindar-se a cânones clássicos, lê-se na mesma obra: «Foram os réus absolvidos.» Se lhe pudesse dar um conselho (gosto muito desta figura de retórica…), dir-lhe-ia que devia falar mais com o seu avô.

Glossário: palavras japonesas

Algumas palavras japonesas no português

Andone m. Ant. Lâmpada japonesa.
Biombo m. Tapume ou tabique móvel, quase sempre de madeira, forrado de papel, couro ou lençarias pintadas; consta de várias peças unidas por bisagras ou dobradiças; sustém-se de pé e serve para dividir um quarto em dois, para evitar uma corrente de ar, encobrir uma cama, um lavatório, etc.
Bom m. Festa japonesa.
Butô m. Dança contemporânea japonesa que combina teatro e mímica.
Caiquio m. Juiz supremo, no Japão.
Caru m. No Japão antigo, alta individualidade, como ministro.
Catabira f. Espécie de cabaia de linho usada de Verão pelos Japoneses.
Catana f. Alfange ou terçado de origem japonesa e usado antigamente.
Cateringoto m. Ágape que alternadamente faziam em suas casas os primitivos cristãos japoneses.
Chanoiú m. No Japão, acto de preparar o chá.│Casa, no Japão, em que se toma o chá.
Chicandono m. Bonzo de elevada categoria, no Japão.
Cobu m. Erva marinha, comestível, do Japão.
Coco m. Medida japonesa para cereais equivalente a seis alqueires.
Congui m. Fidalgo japonês, que se atribui origem divina.
Conomom m. Árvore do Japão, cujo fruto serve para fazer cerveja.
Coqui m. Árvore frutífera do Japão, que produz o ébano do comércio.
Coto m. Espécie de saltério usado pelos Japoneses.
Coxoxu m. Pajem ou moço fidalgo, no Japão.
Cubo ou cubó m. Nome que, no Japão, depois da revolução de 1585, se deu ao imperador temporal, dando-se o de dairo ao espiritual.
Cungué m. Ministro ou secretário de Estado do Japão, no antigo regime.
Cura m. No Japão, armazém, celeiro.
Daico m. O nabo do Japão, vulgarizado em Portugal e na Galiza, e proveitoso principalmente para forragem.
Dáimio ou daimió m. Nome dado aos príncipes ou senhores feudais japoneses, que perderam os seus privilégios na revolução de 1868.
Dáiri ou dairo m. Nome que, depois da revolução de 1585, se deu no Japão ao imperador espiritual, por oposição ao de cubo, que se deu ao temporal.
Dárnua m. Fidalgo de primeira categoria, no Japão.
Decasségui ou decassêgui m. Que ou aquele que se fixa, mas apenas temporariamente, no Japão, para trabalhar.
Dongo m. Utensílio de serviço de chá no Japão.
Fachi m. ou fachis m. pl. Os dois pauzinhos com que os Orientais levam a comida à boca.
Faifema f. Galera do Japão, ordinariamente de vinte remos.
Faxeque m. Ant. Ministro da justiça, no Japão.
Forém m. No Japão, palanquim do micado.
Fotoques m. pl. Nome genérico de uma categoria de deuses no Japão.
Fucussa f. Tecido de seda japonês.
Futamono f. Lança de duas pontas no Japão.
Gabara f. Armazém ou adega, no Japão.
Geta f. Calçado de madeira, muito comum no Japão, composto por uma tabuinha horizontal pousando sobre duas outras verticais.
m. Medida japonesa, que corresponde a dois decilitros.
Goxo m. O m. q. micado.
Gromenare m. Saudação, cumprimento japonês muito respeitoso; zumbaia.
Groxo m. Vogal do Conselho de Estado, no Japão.
Gueixa f. Japonesa treinada desde jovem nas artes da dança, do canto e da conversação para entreter os fregueses de casas de chá, banquetes, etc., especialmente os do sexo masculino.
Guenroim m. Casa do senado japonês.
Guinai m. Ant. Designação antiga de bairro japonês.
Guisso ou guiço m. Conselheiro de Estado, no Japão.
Guisso m. Conselheiro de Estado, no Japão.
Guri m. Autoridade japonesa.
Haicai m. Pequena composição poética japonesa de dezassete sílabas, em que o poeta canta exclusivamente, de maneira suave e delicada, as variações da natureza e a sua influência na alma do autor.
Haraquiri m. Forma de suicídio ritual praticado no Japão, especialmente pelos guerreiros e pelos nobres, que consiste em rasgar o ventre à faca ou a sabre.
Iba f. Planta japonesa de que se extrai um suco escuro com que as mulheres pintam os dentes.
Ichibi m. Planta japonesa, cujas folhas se aproveitam nas cerimónias fúnebres.
Ichibu m. Antiga moeda de prata do Japão.
Ichimai m. No Japão, antiga moeda de prata.
Ieboxi m. Barrete japonês, usado pelos nobres.
Iene m. Unidade monetária do Japão.
Jiquiró m. Caixa em que se transportam comidas, no Japão.
Judo m. Método milenário de luta japonesa, universalmente considerado excelente exercício e dos mais eficazes processos de ataque e defesa pessoal.
Maquié m. Verniz de ouro ou de prata, no Japão.
Micado m. Soberano espiritual do Japão que exerce, actualmente, também, o poder temporal; deixou de ser omnipotente e hierático depois da guerra de 1939-1945.
Mixo m. Espécie de molho japonês.
Moche m. No Japão, bolo de arroz.
Nagi m. Bot. Árvore japonesa, de fruto semelhante à cereja.
Nanguinata f. Arma japonesa, espécie de montante ou terçado.
Nigáqui m. Bot. Árvore do Japão da família das Simarubáceas, cuja madeira se utiliza no fabrico de instrumentos agrícolas e cuja casca tem propriedades insecticidas.
Ninsia m. Sacerdote japonês, a que servem de guarda numerosos nobres.
Nio m. Deus inferior a quem está confiada a guarda dos templos, de acordo com o budismo japonês.
Nissei m. e adj. Que ou aquele que é filho de pais japoneses nascido na América.
Obã m. Pequena barra de ouro usada como moeda entre os Japoneses.
Origami m. (de ori, dobrar, e kami, papel). Arte de dobrar papel, de origem japonesa.
Quimono m. Roupão japonês. O m. q. quimão.
Ri m. Medida itinerária japonesa equivalente a cerca de 4 quilómetros.
Ronim m. Vagabundo, larápio, no Japão.
Samurai m. Antes do século XII, este termo designava apenas os funcionários da 5.ª e 6.ª ordens da corte imperial; a partir do século XII, designava os guerreiros ao serviço dos dáimios ou do xógum; gozavam de certos privilégios, como receber uma pensão, usar dois sabres, etc., que foram suprimidos em 1876.
Sansei m. e adj. Que ou aquele que é neto de japoneses nascido na América.
Saquê m. Vinho de arroz, transparente e capitoso, usado no Japão.
Sintó m. O m. q. sintoísmo ou xintoísmo.
Sotoba f. Tabuleta de madeira em que no Japão se inscreve, em caracteres sânscritos, uma sentença búdica e que, colocada junto de um túmulo, facilita a entrada do defunto no Paraíso.
Sui m. Espécie de molho japonês muito apimentado.
Sumo m. Luta popularíssima no Japão, que data dos mais remotos tempos feudais, em que era utilizada como exercício de preparação militar e treino para o combate.
Suqué f. Vice-governador de uma província, no antigo Japão.
Tachi m. Grande sabre japonês que se trazia com a armadura no período feudal.
Tanca m. Curto poema japonês que compreende cinco versos, sendo o primeiro e o terceiro de cinco sílabas, e o segundo, quarto e quinto de sete sílabas.
Tatami m. Tapete de palha de arroz com que se cobre o chão nas casas japonesas.
Taté m. Grande escudo de madeira, por vezes guarnecido de couro, antigamente em uso no Japão, e que o archeiro colocava diante de si antes de atirar.
Tio m. Medida itinerária do Japão.
To m. Medida de capacidade em uso no Japão, equivalente a 18,039 litros.│Relicário ou cofre dos Japoneses.
Tono m. Título honorífico no Japão.
Tori m. Portão típico japonês, geralmente colocado à entrada dos templos.
Toro m. Grande lanterna de bronze, de pedra ou de porcelana que serve para a ornamentação dos templos búdicos do Japão.
Tosso m. Beberagem japonesa cuja base é a canela.
Uchimono m. Denominação japonesa da alabarda usada outrora pelos soldados da escolta do dáimio (príncipe ou senhor feudal), e cuja lâmina era encaixada em bainha de pau lacado e esta por vezes metida em saco de seda.
Uchiva m. Designação japonesa do leque de bambu e papel.
Uruxi m. Espécie de verniz do Japão.
Xaca m. Ídolo principal dos Japoneses.
Xógum m. Título governativo do Japão medieval, que o imperador nipónico, conhecido por Micado e vulgarmente por Tenno, conferia a qualquer áulico valoroso, incumbindo-o de governar a nação em seu lugar.
Xogunato m. Dignidade ou cargo de xógum.
Zazo m. Ant. Supremo sacerdote entre os Japoneses.
Zarugante m. Vaso sonoro, de bronze, que substitui o sino em certos templos budistas do Japão.
Zenji m. No Japão, significa «nome privilegiado»; deu-se, em princípio, aos bonzos que se distinguiam pela sua sabedoria, mas depois veio a ser um título oficialmente outorgado àqueles que eram considerados como mais virtuosos.
Zori m. Sandália de palha usada nas varandas das casas japonesas para passar de um aposento para outro.
Zui-jin m. pl. Nome dado no Japão a duas estátuas colocadas uma em cima da outra em cada lado da porta principal dos templos sintoístas.
Zui-xin m. pl. No antigo Japão, guardas de corpo, armados de um arco e de um sabre, que certos funcionários de alta hierarquia eram autorizados a recrutar para sua escolta pessoal.

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Ortografia: «flexissegurança»

Suavérgico


      Caro J. A. Dias: também considero mais correcta a ortografia «flexissegurança», precisamente por manter intacta a palavra «segurança», pois ao optar-se por «flexigurança» perdemos a noção de qualquer das duas palavras que compõem o neologismo. Certo que é o que acontece com quase todas as amálgamas*, mas fazê-lo também é copiar servilmente o inglês flexicurity. Parece, no entanto, ser já a opção de alguns meios de comunicação, como o Diário de Notícias: «O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa considera “teórica” a discussão sobre a flexigurança, que facilita os despedimentos e aumenta o apoio no desemprego, afirmando duvidar da sua aplicação a países como Portugal. “Tudo é teoria. Só há dois países que o têm — Dinamarca e Holanda”» («Flexigurança. CIP não acredita na aplicação em Portugal», 17.1.2007, p. 8).



* Também conhecidas por palavras-portmanteau (ver E-Dicionário de Termos Literários) ou, no Brasil, palavras-valise (do francês mot-valise), como, por exemplo, portunhol, estagflação, etc. O inglês é muito mais produtivo em amálgamas, como pode ver aqui. Com esta acepção, a palavra «portmanteau» foi cunhada por Lewis Carroll na obra Alice do Outro Lado do Espelho (1872), na seguinte passagem: «Well ‘slithy’ means ‘lithe and slimy’ ... you see it’s like a portmanteau — there are two meanings packed up into one word.» Na tradução de Maria José Figueiredo: «Bem, “suavérgico” significa “suave e enérgico”. “Enérgico” é o mesmo que “activo”. É um “portmanteau” — são dois significados reunidos numa só palavra» (in Alice no País da Linguagem, de Marina Yaguello, 1997, Lisboa Editorial Estampa, p. 96).

Léxico: indilgar


Ventos de Espanha


Conhecem alguma coisa do Escalhão? Ah, não sabem sequer o que é o Escalhão? É uma aldeia, e dela, até há pouco, só conhecia o bom pão. Hoje, fiquei a saber que as suas gentes julgam ter inventado uma palavra: indilgar. É um verbo que significa trabalhar com desembaraço, actividade e diligência. À mulher que assim trabalha chamam indilgadeira. Dos homens nada se diz.
Em castelhano também existe o verbo indilgar (ou endilgar), que significa «encaminhar, dirigir, acomodar, facilitar». A proximidade geográfica explicará a semelhança.

Léxico: guimató e indona

Imagem: http://www.cigv.it/gallery/album02

Enciclopédia visual


E se um desconhecido lhe perguntasse que nome têm as arruelas (ou botoques, daí o nome dado pelos Portugueses) de madeira que os Botocudos introduziam em buracos abertos nas orelhas, o que faria? Podia mandá-lo dar uma volta ao bilhar grande ou dedicar-se a ler um dicionário de língua portuguesa. Não podia é, como já sabemos, ser um dicionário qualquer. São os guimatós.
Sim, bem lembrado, os elementos de algumas tribos africanas também faziam um orifício no lábio superior para prender e usar uma rodela — chamada indona.

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