Senão e se não

Distingamos

      O leitor Pedro Pereira pergunta-me se na frase que se segue, que leu no jornal Público, não se deveria ter usado senão em vez de se não. «Como por certo notará, os destaques da maioria, se não da totalidade, dos textos de opinião são excertos do texto ligeiramente reduzidos, já que o corpo de letra utilizado é maior.» A resposta é não. Ora, segundo as regras, estando o verbo subentendido, estamos perante uma conjunção condicional a introduzir uma oração na negativa. É como se se tivesse escrito: «Como por certo notará, os destaques da maioria, se não for da totalidade, dos textos de opinião […].»

Tradução

Vocações erradas

      Um dos meus temas preferidos, os meus leitores já sabem isso, é a leviandade com que se faz alguma tradução em Portugal. É preciso ver que alguns textos não têm, por opção meramente economicista, suponho, revisão. Este exemplo chegou-me recentemente às mãos. Se por um lado demonstra cabalmente que os dicionários que temos não são os melhores, também deixa ver claramente que há muitos curiosos a ganhar a vida nesta área. Vejamos o que diz o original: «En esta simpática escena, el perrito faldero parece ser el único que presta atención a los músicos, mientras dos abates y un monje juegan una partida de naipes ignorando por completo al conjunto.» O pouco discernimento do tradutor deu isto: «Nesta simpática cena, o cão efeminado parece ser o único que presta atenção aos músicos, enquanto os dois abades e um frade jogam às cartas ignorando completamente o conjunto.» Ora, um perro faldero é, na definição do Diccionario de la Real Academia Española, «el que por ser pequeño puede estar en las faldas de las mujeres».

[Perrito faldero: cão de regaço; totó, fraldiqueiro.]

Alcatraz e albatroz

Nem mais

      Agora que Zacarias Moussaoui está na prisão de Florence, Colorado, prisão de segurança máxima também conhecida por «Alcatraz das Rochosas», apetece-me falar das palavras «alcatraz» e «albatroz».
       Alguns preferem «albatroz» a «alcatraz», mas fazem mal: a primeira deriva da segunda. «Albatroz» é uma corruptela inglesa do vocábulo português «alcatraz», que vem do árabe al-ġaţţās (mergulhador). Isto faz-me lembrar uma pessoa que conheço. Por vezes, vem contar-me, com ar de sabichão e como novidade, factos que eu lhe contara. De início chamei-lhe a atenção para o lapso, mas depois passei a ignorar. Vendo bem, até tem uma vantagem: a de refrescar-me a memória.

Galicismos

Preservativo

      Recentemente, alguém me perguntava, e não estava a brincar, se «ainda existe essa coisa dos galicismos». Perguntei-lhe se conhecia o Movimento 560. Ah, sim, estou a ver, exclamou, você não me dá chance! Como é que adivinhou que esse é o galicismo que mais odeio!?
      Vejamos uma citação do truculento frade José Agostinho de Macedo: «Os galicismos introduzidos na língua, e acrescidos por quem os pretendeu expungir, e que os maus mestres e tradutores do francês para cá nos acarretaram, desafiavam o riso aos homens sisudos, e que se não deixavam contaminar, tendo a devoção de lerem todos os dias, ao levantar da cama, uma ou duas páginas dos nossos bons livros portugueses, único preservativo contra a peste francesa.»
      Eça de Queirós, por sua vez, num artigo intitulado «O Francesismo», de As Últimas Páginas, escreveu: «Há já longos anos que eu lancei a fórmula: — Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo. A secura, a impaciência, com que ela foi acolhida, provou-me irrecusavelmente que a minha fórmula era subtil, exacta, e se colava à realidade como uma pelica. E para lhe manter a superioridade preciosa da exactidão, fui bem depressa forçado a alterá-la, de acordo com a observação e a experiência. E de novo a lancei assim aperfeiçoada: — Portugal é um país traduzido do francês em calão. E desta vez a minha fórmula foi acolhida com simpatia, com rebuliço, e rolou de mão em mão como uma moeda de ouro bem cunhada.»


Publicidade das autarquias

Gramática, 0, Estética, 1

      Já tinha visto na televisão, mas o facto de o leitor Hugo Santos me ter enviado uma mensagem a alertar para o facto determinou-me a dizer alguma coisa a este respeito. Trata-se da publicidade que a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo está nesta altura a fazer à Feira da Luz, cujo cartaz se vê em cima. Alguém decidiu que os hífenes é uma coisa fora de moda, que só atrapalha a caminhada quase — não fora os malditos hífenes — inexorável para o desenvolvimento local. Talvez seja, quem sabe, um estádio intermédio para um aglutinado: Montemoronovo. Francamente! Ainda se o nome fosse Porcalhota, ou Picha, ou Cachaporra, topónimos que existem ou existiram (excepto talvez o último, escolhido por efeitos retóricos), eu compreendia que quisessem mudar. Juízo!

Pontuação

Tudo na mesma

      «Duas dirigentes da Associação Solidariedade Imigrante, foram ontem detidas e levadas para a esquadra da Brandoa para identificação» («Amadora nega que demolições na Aziganha [sic] se devam à CRIL», Alexandra Reis, Público, 31.08.2006, p. 49). Claro que não vou referir-me ao metagrama, até porque não acredito que escasseie pábulo para fazer estes textos que aqui vou publicando. A jornalista anda, vê-se, a ler Alexandre Herculano, que afirma no volume V dos Opúsculos: «Uma das cousas em que maiores incorrecções e incertezas aparecem no comum dos escritos, é a pontuação.» Herculano (que, a propósito, se lê /Hêrculano/, pois com e aberto é a cidade de que sempre se fala a par de Pompeia), um dos melhores cultores da língua portuguesa, em parte esquecido, ou lembrado pelas piores razões («Foi cá uma seca ter sido obrigado a ler Eurico o Presbítero», já ouvi um professor de Português desabafar), pontua esta frase de uma forma que, no português contemporâneo — e pena é que a esmagadora maioria de quem escreve ainda não o saiba —, é inadmissível. Refiro-me ao sujeito longo a ser separado por vírgula do seu predicado.

Legendas

Imagem: http://www.clubcultura.com/
Volver a probar
     
      Fui à antestreia (e não «ante-estreia», como se vê escrito muitas vezes) do filme Volver, de Pedro Almodóvar. Gostei muito, sim senhor. Já as legendas, da responsabilidade de Fátima Chinita, as poucas vezes que as li, não me pareceram incontestáveis, pelo contrário. Dois exemplos: traduzir rosquilla por «donut» não faz qualquer sentido. E quanto a «língua de sogra» para verter barquillo, nem pensar. Terá querido escrever «língua-de-sogra», o que é diferente. E mais: se tivesse deixado «barquilho» não teria sido má opção. No meu caso pessoal, conheci primeiro a palavra «barquilho». Vendo bem, conheci primeiro a palavra barquillo.

Patronímicos

Dos nomes

      Suscita sempre algum interesse tudo o que se relaciona com os nossos nomes. É sabido que na Idade Média havia o costume de juntar ao nome de baptismo o nome próprio do pai (curiosamente, nos países árabes é, ainda hoje, o oposto: os homens árabes começam a vida com uma denominação como «filho de X» — bin ou ibn X — e, depois de terem tido um filho, podem adoptar a denominação «pai de Y» — Abu Y) para distinguir pessoas diferentes, mas que tinham o mesmo nome. Surgiram então os chamados patronímicos. Distinguem-se pela terminação -es, e antiga -ez, correspondente, já adivinharam, ao genitivo latino -ci. Temos, assim, José Fernandes, que significa José, filho de Fernando, etc. Mais tarde, deixaram de ser usados com esta função de filiação, passando a ser meros nomes. Eis alguns patronímicos e os nomes de que derivaram:

Álvares — Álvaro
Antunes — António
Fernandes — Fernando
Gonçalves — Gonçalo
Lopes — Lopo
Mendes — Mendo
Nunes — Nuno
Pais — Paio
Ramires — Ramiro
Rodrigues — Rodrigo
Sanches — Sancho
Soares — Soeiro
Vasques — Vasco
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