Ortografia: «montanha-russa»

Tectónica da ortografia

      Que cataclismo, que movimento tectónico arrastou uma montanha russa para o Algarve? Lemos no Diário de Notícias: «Três minutos de adrenalina na maior montanha russa de água» (Paula Martinheira, «Boa Vida», p. IV). Não deveria então ter escrito «montanha de água russa»? Estou a brincar. «Montanha russa» surge quatro vezes no corpo do artigo. Contudo, na chamada da primeira página, lemos: «Maior montanha-russa de água da Europa está em Quarteira». Quem escreve não percebe que uma montanha russa não é o mesmo que uma montanha-russa? Que displicência estival é esta? Agora querem competir com o Público, é?

Infinitivo pessoal: mitos e regras

Intuição, sim, mas com estudo

      Há entre nós a ideia, que alguns erigem em dogma, de que o infinitivo impessoal ou não flexionado apenas se usa quando a frase apresentar um só sujeito e, a contrario, o infinitivo pessoal se usa nas frases com dois sujeitos. É a chamada doutrina Soares Barbosa, que por influxo directo veio da Gramática Filosófica* alojar-se nos nossos cérebros. Jerónimo Soares Barbosa (1737-1816), um gramático racionalista, inventou, baseado em escassos exemplos, essa regra prática. Vejamos, contudo, o que diz o filólogo M. Said Ali na obra Dificuldades da Língua Portuguesa: «Quando Soares Barbosa estatui que, para se usar o infinitivo impessoal, é preciso ter ele o mesmo sujeito que o verbo da oração regente, e exemplifica com eu quero fazer, tu quiseste fazer, nós queremos fazer, há realmente uma cousa que deve assombrar ao filósofo moderno. Desde quando a frase eu quero fazer comporta dois sujeitos, um para cada verbo? Desde quando há aí duas orações, uma regente, outra regida?» Depois de aduzir dezenas de exemplos facilmente comprováveis, que um dia aqui darei, Said Ali resume a sua análise nas seguintes regras:

      «Infinitivo SEM FLEXÃO:
1.º sempre que o verbo indicar a acção em geral, como se fora um nome abstracto, ou quando não se cogita da pessoa, ex.: estudar (= o estudo) aproveita. É o caso mais comum.
2.º nas linguagens compostas e perifrásticas, sendo apenas lícita a flexão no caso de vir o infinitivo afastado de seu auxiliar a ponto de tornar-se obscuro o sentido se esse auxiliar não for lembrado novamente pela flexão.
      Infinitivo FLEXIONADO:
1.º sempre que o infinitivo estiver acompanhado de um nominativo sujeito, nome ou pronome (quer igual ao de outro verbo, quer diferente).
2.º sempre que se tornar necessário destacar o agente, e referir a acção especialmente a um sujeito, seja para evitar confusão, seja para tornar mais claro o pensamento. O infinitivo concordará com o sujeito que temos em mente.
3.º quando o autor intencionalmente põe em relevo a pessoa a que o verbo se refere.
Por outros termos: determinam o uso do infinitivo flexionado: a presença do nominativo sujeito, e, portanto, a simples concordância obrigatória; o realce necessário do sujeito para facilitar a compreensão (infinitivo de clareza) e, finalmente, o realce intencional para pôr em relevo a pessoa de quem se trata (infinitivo enfático).»

* Pode descarregar aqui a edição original da Gramática Filosófica. A análise do infinitivo pessoal encontra-se nas páginas 208 e ss. De qualquer modo, transcrevo, actualizando a ortografia, como fiz com a citação da obra, a 6.ª edição, de Said Ali (uma oferta do leitor JRC, a quem renovo o meu agradecimento), o passo que mais interessa: «Este infinitivo pessoal é outro substantivo apelativo verbal com as mesmas propriedades que o impessoal; e o que tem de particular é o enunciar a coexistência de um atributo em um sujeito diferente do da oração antecedente (p. 208).»

Utilidades

Imagem: http://educom3.sce.fct.unl.pt/
Aprender mais

      A Biblioteca Digital Camões tem, agora sim, alguns textos e obras interessantes que se podem descarregar. Veja aqui.

Tradução: «invertir»

Até um catarríneo sem cauda

      Um dos erros mais confrangedores nas traduções de espanhol para português é o de ignorar — como se faltasse contexto — que o verbo «invertir» e palavras da mesma família também significam «investir». Vejamos dois exemplos do mesmo tradutor, na mesma obra mas num lapso temporal alargado. «Un cuadro de Van Gogh es ahora sinónimo de inversión.» Que traduziu assim: «Um quadro de Van Gogh é agora sinónimo de inversão.» Depois de ter aprendido, com a revisão, que tinha feito um trabalho completamente inepto, surgiu-lhe, por infausto acaso, outra frase com o mesmo verbo: «El idealismo de Hegel fue invertido por la dialéctica materialista de Feuerbach y el materialismo histórico de Marx y Engels lo transformó en el programa de acción del socialismo revolucionario y del movimiento obrero a partir de la I Internacional.» Ah, agora o tradutor já não iria ser expungido pelo ominoso deleatur do revisor! E vá de traduzir: «O idealista Hegel foi investido pela dialéctica materialista de Feuerbach e o materialismo histórico de Marx e Engels transformou-o no programa de acção do socialismo revolucionário e do movimento operário a partir da I Internacional.»

Invertir (Del lat. invertĕre). 1. tr. Cambiar, sustituyéndolos por sus contrarios, la posición, el orden o el sentido de las cosas. U. t. en sent. fig. Invertir una tendencia. 2. tr. Emplear, gastar, colocar un caudal. 3. tr. Emplear u ocupar el tiempo. 4. tr. Mat. En una razón, intercambiar numerador y denominador.

Divagações

Quando souberem, avisem-me

      «DIAP tem inquérito-crime sobre o caso Infante Santo», Carlos Rodrigues Lima e Filipe Morais, Diário de Notícias, 27.07.2006, p. 26.
      «Sob [sic] os dois autarcas, que asseguram a gestão do município alentejano entre 2001 e 2004, recaem indícios de crimes de peculato, peculato de uso e abuso de poder. O relatório da auditoria da IGF, que fora pedida [sic] em Janeiro de 2005 pelo actual presidente da câmara, Pedro do Carmo, foi já remetido ao Ministério Público do Tribunal de Ourique, para a abertura de inquérito crime» («Inspecção de Finanças diz que houve crime e desvio de fundos em Ourique», Paula Sanchez, Diário de Notícias (edição online), 17.07.2006).
      «Tribunais a meio-gás com 40% dos juízes de férias», Inês David Bastos, Diário de Notícias, 27.07.2006, p. 2.
      «Melanie C e James Blunt a meio gás», Paula Martinheira, Diário de Notícias (edição online), 19.06.2006.

Rossio ao sul do Tejo

Desnorte

      «Nascido a 1 de Março de 1915 em Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes), António Rosa Casaco ingressou na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 1937, com apenas 21 anos, como agente praticante» («Rosa Casaco secreto até na morte», Expresso, 22.07.2006, p. 28). As palavras que ligam compostos toponímicos grafam-se com minúscula se forem locuções com palavras invariáveis: Viana a par de Alvito e Rossio ao sul do Tejo, por exemplo. Castro Pinto, no seu Novo Prontuário Ortográfico, também regista «Rossio ao Sul do Tejo». Não regista, contudo, o topónimo Viana a par de Alvito, o que não lhe deu oportunidade de pôr em paralelo ambos os topónimos e concluir da necessidade de, em ambos os casos, as locuções serem grafadas em minúscula.

Acertos e desacertos

Está mal

      «A colónia de monachus monachus, nome científico destes animais simpáticos e brincalhões, ascende neste momento na Madeira a 30 exemplares e tem registado nos últimos cinco anos um crescimento constante», «Lobos-marinhos da Madeira crescem e também aparecem», Ana Basílio, Diário de Notícias, 26.07.2006, p. 21.

      «O índice de raios ultravioleta (UV) para as restantes regiões do país vai estar “muito alto”, com grau 10 em quase todo o país», «Amanhã há níveis extremos de radiação ultravioleta», Público, 15.07.2006, p. 28.


Está bem

      «Quase ao pôr do Sol de 21 de Novembro, o tenente Robert Maynard, comandando duas chalupas e 60 homens, encontrou Teach ancorado em Ocracoke», «O mito do Barba-Negra», Joel K. Bourne, Jr., National Geographic, Julho de 2006, p. 80.

      «Há 50 anos, a crise do Suez marcou o fim da era dos impérios e a entrada do Médio Oriente na lógica de equilíbrio de poderes da Guerra Fria», «Crise do Suez marca fim da era dos impérios», Luís Naves, Diário de Notícias, 26.07.2006, p. 12.

Jornais. Tradução

Don’t count on it, Público

      «O Líbano reclama o território, mas Israel argumenta que é com a Síria que as Shebaa Farms devem ser negociadas», «O Partido de Deus e o Estado hebraico», Público, 13.07.2006, p. 15.

      «Quintas de Shebaa. Ocupada por Israel em 1967, esta região agrícola situada entre a Síria e o Líbano tem sido motivo de polémica. Apesar da retirada israelita do Sul do Líbano, em 2000, o Estado hebraico recusou entregar as Quintas de Shebaa ao Líbano, que as reclamam [sic] como suas, afirmando tratar-se de território sírio. Damasco, por seu lado, afirmou que a região pertence ao Líbano. O impasse mantém-se», «Líbano de A a Z. Dos fenícios à Revolução do Cedro», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 19.07.2006, p. 4.

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