A língua do povo

Por assim dizer

Anos 90. Tratava-se de uma reportagem sobre a prática de sexo anal na população portuguesa. A repórter de uma das televisões, num qualquer lugarejo remoto do País, aproximou-se de duas senhoras idosas e perguntou a uma delas se praticava sexo anal com o marido. Como seria de esperar (ou não, como se verá a seguir), a senhora não sabia o que era isso de «sexo anal», e já não foi mau que não tivesse respondido, como nas anedotas, que, nessa matéria, só tinha planos quinquenais, como os da ex-União Soviética. A vizinha, contudo, ajudou a interpelada: «A menina quer saber se charingavas às avessas com o teu homem.» Querem mais inventiva do que isto? Provavelmente analfabetas, a mundividência delas era entretecida de outras palavras, diferentes das que expressavam a experiência da repórter.

Tradução: «adelantado»

Porque iam à frente

Caro João Lopes, pode traduzir o espanhol «adelantado», que eram também os conquistadores que por título real concentraram o comando político, militar e administrativo nos territórios das Américas, por «adiantado», porque assim está dicionarizado: «Adiantado s. m. (Do part. pas. do v. adiantar). Antigo governador de província ou comarca fronteiriça, com poderes militares ou civis, em Portugal e Espanha. “O adiantado de Galiza […] entrou pela província de Entre Douro e Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo” (Herculano, Lendas, I, p. 220)” (Dicionário da Academia). Deixar o termo original, «adelantado», neste caso, não presta um bom serviço ao leitor.

Léxico: serendipidade

Quase por acaso

      Foi interessante ver a alegria genuína de Paula Moura Pinheiro, no programa Câmara Clara, ao confessar aos telespectadores que tinha acabado de aprender uma palavra com Nuno Crato. E, como era uma aprendizagem fresca, pediu a Nuno Crato que esclarecesse a definição. Tratava-se do vocábulo «serendipidade», muito caro aos cientistas e divulgadores de ciência. Só os dicionários mais recentes a registam, como o Houaiss: «serendipidade s. f. 1 aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. 2 p. met. cada uma dessas coisas felizes ou úteis. Etim. ingl. serendipity (1754) ‘id’ < Serendip ou Serendib (do ár. Sarandīb), antigo nome do Sri Lanka, + suf. ingl. -ity, palavra cunhada, em 1754, por Horace Walpole (1717-1797, escritor inglês), a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis faziam sempre descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam.»

À-vontade e à vontade

Crítica da crítica

      «Dito isto, Monica Ali parece mais à-vontade quando escreve, por exemplo, sobre a anárquica família Potts, a residir na aldeia, ou sobre Stanton, escritor em crise de inspiração, do que quando arrisca discorrer sobre camponeses comunistas, mesmo se actualizados por um caso de homossexualidade entre eles» («Polifonia em tons de azul», Ana Cristina Leonardo, Expresso/Actual, n.º 1757, 1.07.2006, p. 7). Este é um erro muito comum: nesta frase, não se deveria ter usado o substantivo «à-vontade», mas sim a locução adverbial «à vontade», que significa «descontraidamente» ou «sem constrangimento». Exemplificando: «Dito isto, Monica Ali parece mais à vontade quando escreve.» «Dito isto, Monica Ali parece ter mais à-vontade quando escreve.» Neste último exemplo, o que se diz é que o sujeito tem mais naturalidade, mais descontracção quando escreve.

«Vira-casaca» e «turncoat»

Somos todos iguais

É muito interessante que o nosso tão português «vira-casaca» tenha uma tradução perfeita no inglês «turncoat» («a disloyal person who betrays or deserts his cause or religion or political party or friend, etc.»), não é? «Vira-casaca, s. 2 gén. Indivíduo que muda frequentemente de credo político ou de ideias, conforme as suas conveniências» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).

Dicionário de chinês

Império do Meio

O leitor Rui C. Castro pergunta-me se conheço algum dicionário de chinês-português que recomende. Bem, eu não sei chinês, com muita pena minha — será uma das línguas do futuro —, mas na minha posse tenho, oferecido pelo meu amigo tenente-coronel José Manuel Pedroso, um amante da língua e cultura chinesas, o Dicionário Chinês-Português de Análise Semântica, da autoria de Joaquim A. de Jesus Guerra, S. J., publicado em 1981 pelos Jesuítas portugueses. Tem 1120 páginas e no prefácio o autor afirma: «A presente obra parece um Dicionário Chinês-Português; é, porém, com mais exactidão, uma Chave Universal de Análise Semântica. Universal, ou seja, para todas as línguas; sem excepção, cuido eu. E nisto representa — os leitores que ajuízem — uma útil descoberta.» Sim, os leitores que ajuízem.

Há e à

Coisas simples

Quanto a substituir o «há» por «existe» ou «existem», a tua professora tem razão, Andreia. « estudantes que procuram saber mais.» «Existem estudantes que procuram saber mais.» é a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo haver. O à, por sua vez, é a contracção da preposição a com o artigo definido feminino (a + a), que se fundiram numa só palavra. Esta fusão é assinalada, como em todas as contracções semelhantes*, pelo acento grave (`). «A Andreia vai à piscina todos os fins-de-semana.»

* Na língua portuguesa, há somente sete palavras que têm acento grave, todas elas formas contraídas com a referida preposição: à, às, àquele, àquela, àqueles, àquelas, àquilo.

Sândi e cadeia fónica

Ora vejamos

Em resposta à dúvida do leitor J. Gomes, devo dizer que não conheço outra forma de transcrever uma cadeia fónica a não ser recorrendo ao Alfabeto Fonético Internacional (AFI), porque é biunívoco, isto é, a cada símbolo corresponde apenas um som. Veja o que se passa, por exemplo, com a representação das vogais, que todos aprendemos que são cinco: a, e, i, o, u. A realidade, porém, é que o português apresenta, isto está bem estudado pelos linguistas, catorze vogais, sendo que nove são vogais orais e cinco vogais nasais. Para transcrever, pois, uma cadeia fónica e perceber como os sons se influenciam mutuamente, a ortografia oficial portuguesa seria insuficiente. Somente com recurso ao AFI se poderia, graficamente, perceber que à marca do plural (v.g., os carros; os aviões) correspondem três sons diferentes. Este fenómeno designa-se sândi (palavra do sânscrito), cuja definição encontra nesta entrada do Dicionário Houaiss:

«sândi s. m. (1877 cf. MS) Fon modificação que afecta foneticamente o início e o final de uma palavra ou de um morfema, quando combinado com outro elemento na cadeia; p. ex: no port. a alteração fonológica (e gráfica) em que é de? > quede? e a alteração da pronúncia da forma absoluta livros no sintagma livros escolares/livrozescolares

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