Locução «a sério»

À parva

      Ultimamente, entrou em voga a locução «à séria», usada e difundida por gente snobe (e snobe, etimologicamente, significa «sine nobilitate» [sem nobreza], não esqueçamos). Entre as pessoas simples — excepto as mais permeáveis à mediocridade exibida nos reality shows —, o despautério não criou raízes, felizmente.
      Felizmente também, alguma imprensa vai denunciando a snobeira, ainda que de forma demasiado subtil: «Passemos, então, a M.R.P. [Margarida Rebelo Pinto]. Não vejo como possamos acusá-la de fraude. Fraude, metaforicamente falando, significa vender gato por lebre. É verdade que tem mostrado desejo de ser reconhecida como escritora “séria” (ou será à séria?). […] Mas o que interessa é saber se, apesar das pretensões da autora, a devemos levar a sério (ou será à séria?)» («A falta que faz o “je ne sais quoi”», Ana Cristina Leonardo, Expresso/Actual, 20.05.2006, p. 58).

Léxico: xauter

Como as palmas das mãos

      Se numa cidade precisamos de guias, com maior e diversa razão precisamos deles num deserto. O vocabulário da língua portuguesa inclui uma palavra que designa o muçulmano que guia os viandantes nos desertos da Arábia — xauter (do árabe xater, homem perfeito).
      Curiosamente, o profeta nomeado por Deus para guiar aqueles que viviam a leste do monte Sinai, o povo de Mudyan e Aykah, chamava-se Xuaib, que significa «aquele que mostra o caminho certo».

Abuso do elemento mega-

Mania das grandezas

      Nos tempos que correm, já nada é grande ou muito grande ou mesmo enorme: agora, tudo é mega-qualquer-coisa. Venha lá de onde vier a mania, o certo é que são os jornalistas que a estão a difundir. Só temos de esperar, com paciência, que passe. Vejamos alguns exemplos.

«Para trás, ficam 13 anos de trabalhos de construção — a barragem arrancou em 1993 —, muita polémica e algumas pressões internacionais, devido aos estragos ambientais e ao impacto humano da megabarragem denunciados ao longo da última década e meia por inúmeras organizações ambientais e por múltiplos observadores (ver texto em baixo)», «Maior barragem do mundo já está construída», Diário de Notícias, 20.05.2006, p. 24.

«Megarrebelião de criminosos já matou 52 pessoas em São Paulo», Diário de Notícias, 15.5.206, p. 23.

«É que, depois da megaoperação de fiscalização lançada pela autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) na última semana de Abril, que levou à apreensão de mais de 800 mil litros de combustível, oito bombas de gasolina, na maioria em Lisboa, foram encerradas entre sábado e quarta-feira», «Meia centena de postos de combustível fechados em Lisboa», Francisco Neves, Público, 5.5.2006, p. 57.

«Megachurrasco e exposição sobre a Ota na feira de Alenquer», Público, 26.05.2006, p. 65.

Figura de retórica: paralipse

Não dizer dizendo

     Uma vizinha minha (não, não é a do «estendedal») usa, inconscientemente, uma figura de retórica de magnífico efeito, que é a paralipse. Esta figura consiste em fingir-se querer omitir o que todavia se vai dizendo. Como fala pelos cotovelos, diz-nos amiúde (isto não é um plural majestático: é, mais precisamente, no sentido de dizer a todos os presentes) «não querendo interromper, mas já o fiz…», o que irrita um pouco toda a gente. Nem quero falar, porque é mais privado, da mania que esta senhora tem de se pretender colega de faculdade de vários ministros, de gerações muito distantes entre si… Viram? Comecei por escrever «nem quero falar», mas falei: isto é uma paralipse.
      Também referida nos antigos manuais de retórica como paraleipsis, paralepsis, preterition e occupatio, a palavra chegou-nos através do latim paralipsis, mas o étimo é grego, de para, «lado», e leipein, «deixar». Entre nós é também conhecida como preterição.

Elemento pseudo-

Erros populares

      Ainda a propósito do vocábulo «jacobino», no site do CDS-PP fui encontrar a transcrição do que o deputado Nuno Melo afirmou na Assembleia da República sobre a proposta de alteração socialista do protocolo de Estado: «É um diploma que resulta de um impulso socialista nascido do pseudo laicismo jacobino.» Ora, como quase toda a gente sabe, unem-se por hífen os compostos formados com os elementos de origem grega auto, neo, proto e pseudo, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s. Logo, pseudo-aleatório, pseudo-epígrafe, pseudo-randómico, pseudo-sábio; contrario sensu: pseudolaicismo.

Léxico: engástrio

Imagem: http://easyweb.easynet.co.uk/
Teratologia

      Apesar de todos padecermos mais ou menos de dismorfofobia, certo é que também nos atrai o disforme, o anormal, o diferente. Há dias, um consulente do Ciberdúvidas quis saber «o termo linguístico correcto da ausência de pernas e braços ou/e da ausência de membros inferiores e superiores», que não conseguia encontrar no dicionário. Logo me lembrei de ter lido, há poucos anos, a notícia de uma mulher chinesa, com cerca de 40 anos, que na sequência de uma consulta médica, por suspeitar de gravidez ou de algum padecimento gástrico, foi fazer uma ecografia. Para espanto dela, e talvez mesmo horror — e êxtase do médico, que via assim concretizado o que estudara sobre teratologia (teratos, monstro; logos, estudo) nos manuais —, soube então que tinha dentro de si o seu irmão gémeo! É o que se designa por engástrio: monstro duplo em que um dos fetos está contido no abdómen do outro.
      A Antiguidade clássica transformou alguns destes seres em personagens fantásticas: Argos, Cérbero, Quimera, Equidna, Górgonas, Hidra de Lerna, Minotauro, Polifemo, Sereias, etc. Por um infausto acaso, a nossa realidade é mais pífia: de vez em quando, surge (surgia, melhor) a notícia de ter nascido no Entroncamento uma cabra com sete pernas ou um gato com três caudas.

Elementos cis- e trans-

Aquém e além, outra vez

cisalpino → transalpino
cisandino → transandino
cisatlântico → transatlântico
cisdanubiano → transdanubiano
cisgangético → transgangético
cisjordano → transjordano
cisjurano → transjurano
cispadano → transpadano
cispirenaico → transpirenaico
cisplatino → transplatino
cisrenano → transrenano
cistagano → transtagano
...

Ortografia: Pirenéus

Aquém e além

      Embora este erro seja relativamente comum na imprensa, o exemplo que dou chegou-me por outra via. «Já só lhe faltava reconquistar o condado da Sardenha e as terras catalãs de além-Pirinéus: o Rossilhão.» A grafia correcta deste topónimo é Pirenéus. Já vi professores (o que é que eu não vi?) errarem a grafia deste vocábulo. Como também já vi alunos acertarem na sua grafia. O adjectivo correspondente é transpirenaico: que fica situado para além dos Pirenéus.│Que atravessa os Pirenéus. 
Que se opõe ao adjectivo cispirenaico: que fica aquém dos Pirenéus.

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