Etimologia: aleivosia

Toma lá

A palavra «aleivosia», tão da predilecção de escritores oitocentistas, provém do árabe hispânico al’áyb, e este do árabe clássico áyb, que significa «defeito, pecha ou nota de infâmia». Vou socorrer-me de Eça de Queirós, na magnífica carta a Camilo Castelo Branco (que nunca lhe chegou a enviar), para explicar melhor o seu significado:

«Aleivosia é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único dicionário que me ampara nesta dura labutação do estilo, significa — “maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.” Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.ª quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.ª Ora aqui V. Ex.ª se ilude singularmente.»

Léxico: «quiçá»

Samicas


      Não fico apopléctico nem nada que se pareça, mas não gosto nem um pouco da palavra «quiçá» (do latim quid sapit, «quem sabe»). Sempre que posso, e às vezes posso, altero para «talvez», e pessoalmente nunca a usei. Eu sei, eu sei: estou a contribuir para a morte de uma palavra, logo eu, o divulgador de palavras raras e em desuso. Penitencio-me, mas não vejo solução de compromisso possível. A minha intervenção, todavia, não é nem podia ser cega: ainda há dias alguém traduziu o inglês antigo mayhap por «quiçá» e eu não cortei, como não podia deixar de ser. Pelo contrário, achei que era a escolha mais apropriada no contexto. Mas estou sempre a temer que alguém use «samicas». Sei lá, há gente tão arreigada ao passado…

Derivação por parassíntese

E é pra já!



      Recentemente, um consulente brasileiro do Ciberdúvidas ordenava: «Quero três exemplos de derivação parassintética para a palavra “novo”.» Assim, sem mais, como quem diz: «Suas bestas, seus macrocéfalos desmiolados, passem já para cá o dinheiro!» Acho que, nas mesmas circunstâncias, não lhe responderia. Mas enfim, como não é comigo, eu também respondo à intimação. O que o consulente queria, decifraram os especialistas do Ciberdúvidas, era que lhe indicassem palavras derivadas por parassíntese da palavra «novo». Ao ler a resposta, lembrei-me de uma entrevista que a escritora Luísa Dacosta deu ao Expresso, na qual confessava que incorporara palavras inventadas pelos seus alunos nas obras que escreveu. Uma dessas palavras era «renovescer», em vez de «renovar». As árvores, escreveu uma menina numa redacção, estavam a renovescer. Ou seja, houve adjunção simultânea de um prefixo e de um sufixo a uma base, geralmente um adjectivo ou um nome: re+novo+escer. Ouçamos os nossos alunos.

Léxico: tirefão

Imagem: http://j.liennard.free.fr/

Olha o comboio!

      É o meu contributo não tanto para o TGV, mas para a língua: os parafusos que fixam os carris às travessas — às chulipas, pois claro — chamam-se tirefões, do francês tire-fond. Também temos, mais próximo do étimo, tira-fundo.

Etimologia: abacate


Com a verdade me enganas
     

      É sábia aquela autora que recomenda que nunca se deve levar uma criança a um hipermercado. Esquecido desta lição de bom senso e do próprio nome da autora, fui às compras com um sobrinho, criança de tenra idade. Na secção da fruta, por força o mafarrico quis comprar abacates. Achei que não e tentei argumentar: «Não vês que isto não são frutos, mas os tomates de um macaco sul-americano?» Eu sei que nunca devemos mentir, mas não é inteiramente mentira. A palavra «abacate» vem do nauatle ahuacatl, que significa precisamente testículo. «E são verdes?!»

«Pari passu»

Incerta

      Ultimamente, o Centro Comercial Colombo deixa-me aqui na caixa do correio a revista que publica quinzenalmente, a Certa. Se calhar fazem mal. Vejamos a edição n.º 69, de 25 de Abril a 7 de Maio. «Londres a par e passo», titulam na página 36. O texto é de Miguel Satúrio Pires. Acontece, porém, que a expressão correcta é «pari passu», que é uma locução latina e deverá ser grafada como tal. Se quiser escrever português, escreva «a par», «a passo igual», embora o contexto me pareça pedir outra coisa. E a propósito desta, lembro-me da também locução latina «grosso modo», que é quase sempre pronunciada e escrita como se de português se tratasse. Grossa asneira!

As várias acepções

Imagem: http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/083681.html


Puro e duro



      Entre os usos das aspas não está — e se estivesse, escrever estaria muito acima das nossas forças — o de assinalar que estamos perante uma acepção secundária de um vocábulo. Para começar, desde logo, porque não existe essa coisa de «acepção secundária». Alguns vocábulos são polissémicos, mas as acepções nos verbetes desses vocábulos poderão ter uma ordem diferente de dicionário para dicionário. Para me reconduzir ao exemplo que quero usar, pensemos no vocábulo «havano». Se consultarmos uma qualquer edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se: «havano, adj. e s. m. o m. q. havanês; diz-se de um charuto fabricado em Havana ou semelhante a este (De Havana).» Se optarmos, porém, por consultar o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências, podemos ver que as acepções se repartem por dois verbetes diferentes, e bem. Vamos ao exemplo.
      «Era uma vez Luciano Liggio, aliás Lucianeddu, pintor de quadros, fumador de “havanos” e leitor de textos de Santo Agostinho» (Expresso/Única, «Pobre mafioso», texto de Rossend Doménech, tradução de Aida Macedo, 22.4.2006, p. 26). Para que servem aqui as aspas? Afinal são havanos ou não são? Se não são, porque são apenas charutos semelhantes ao havano, isso está previsto na definição: «charuto fabricado em Havana ou semelhante a este». Ou pretender-se-á insinuar que o mafioso fumava outras coisas? Nesse caso, seria o verbo fumar que precisava das aspas. Mas não é assim, e por isso as aspas são completamente escusadas. Devo dizer que este uso abusivo das aspas não é tão raro quanto se possa pensar. Comecem a reparar nisso.


Ortografia: Chernobyl?


Um país, três línguas?

«Flores e velas relembram acidente nuclear de Tchernobil», Público, 27.4.2006, p. 26.
«Cancros de Chernobyl estudados em Portugal», Diário de Notícias, 26.4.2006, p. 14.
«Filhos de Chernobil», Expresso/Única, 22.4.2006, p. 45.

Parece, contudo, que não devia ser nada disto, mas Chornobyl, transcrito do vocábulo ucraniano Чорнобиль, com a ajuda da tabela de transliteração do alfabeto cirílico, acima. Seja como for, eu escrevo sempre «Chernobyl», embora não me repugnasse, naturalmente, escrever «Chernobil», por razões óbvias. Nunca escreveria, contudo, como faz o Público, «Tchernobil». E porquê, pergunta? É verdade que a primeira consoante é africada (1) (a mãe da minha sogra, beirã nascida em 1890, dizia convictamente «tchave»), mas que não tem actualmente representação gráfica nem linguística na nossa língua (2). O mais provável é o Público estar a seguir, como também faz em relação a «Tchetchénia», cegamente a transliteração francesa (3): «Le bilan de Tchernobyl s’alourdit en Europe», Le Figaro, 21.4.2006.

(1) Diz-se da consoante oclusiva de oclusão imperfeita.

(2) É de Paul Teyssier a afirmação (que não consigo localizar: será do Manual de Língua Portuguesa, da Coimbra Editora? Fica a dúvida) de que em galego-português e em leonês ocidental a consoante inicial seguida de l palatal deu origem à africada [ts], que foi transcrita em galego-português por ch, donde, por exemplo, chaga ([tsaga]), chave ([tsave]) e chama ([tsama]).

(3) Num site inglês, vejo (e traduzo): «CHERNOBYL, ver CZARNOBYL. Pequena cidade junto do rio Pripet, na Ucrânia, a 20 verstás [medida itinerária russa equivalente a 1067 metros] da confluência do Dnieper e a 120 de Kiev […].» A segunda forma pretende representar a africada, que nós não temos.

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