Léxico: «chulipa»

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Olha o comboio!

    
     
Que as vigas transversais em que assentam os carris do caminho-de-ferro se chamam travessas, todos sabemos. Que essas travessas também têm o nome de dormentes, já menos gente saberá. Que, finalmente, aos dormentes se dá igualmente o nome de chulipas, poucos saberão. E porquê «chulipas», perguntam-me? É que em inglês as travessas têm o nome de sleeper. Por evolução fonética, temos chulipa. Ora diga lá em voz alta: sleeper → chulipa.

Léxico: mortodas

Barroco

Não se fala uma vez na palavra «barroco» que não se refira a sua etimologia. Desta vez, o Público adiantou-se: «Curiosamente o termo “barroco” é de origem portuguesa (significa pérola irregular) e começou por ser usado pontualmente em meados do século XVIII com uma conotação pejorativa, que incluía a noção de rebuscado, confuso e bizarro» («Mil Folhas», Cristina Fernandes, 15.4.2006, p. 18). É pena é nunca se referir — nem a propósito de música nem a propósito de nada — que os Europeus enganavam os povos africanos, dando-lhes em troca de bens preciosíssimos pérolas falsas, chamadas mortodas.

Etimologia: bispote

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Escatologias

Se não fossem as criancinhas (e como elas, as malandras!, gostam de vir mostrar às visitas a espiral fumegante que acabaram de esculpir), deixar-se-ia de usar o bacio → penico → doutor → vaso de noite → bacia da cama → travessa de ir à mesa → vasaréu → viasco → calhandro → caco → cabungo. Prefiro bispote. Sempre preferi por causa da etimologia — especulativa, imaginosa, sugerida por José Pedro Machado — que a dá como derivada do inglês pisspot. Não é genial? Deixo-lhes o presente…

Haplologia

Patinar nas sílabas

      Por muito que tente, não consigo pôr uma vizinha a dizer «estendal». Pelo menos com convicção. Diz sempre «estendedal». Eu bem lhe pergunto se acaso também diz «bondadoso», mas ela não compreende o meu argumento. Mas são palavras diferentes, contrapõe. Pois são, concordo, mas o fenómeno ― a haplologia, um caso particular de dissimilação ― que presidiu à sua formação é o mesmo: para evitar, por pouco eufónica, a sequência de duas sílabas semelhantes, elidiu-se uma delas, reduzindo-se a primeira. Veja: bondade + oso = bondadoso. Agora desculpe-me, é que são horas da Floribella, remata a conversa.

Outros exemplos de haplologia: formicida por formicicida; gratuidade por gratuitidade; idolatria por idololatria; idoso por idadoso; piedoso por piedadoso; saudoso por saudadoso; semínima por semimínima; tragicomédia por tragicocomédia e um extenso rol de designações de ciências, como mineralogia em vez de mineralologia. Viu bem, caro leitor: também o vocábulo «haplologia» poderia ter sido reduzido a «haplogia» — e só não foi porque é um termo, como se compreende, pouco usado. O grego haplo significa simples. Ora, só é necessário simplificar quando é muito utilizado.

Verbo pôr e seus derivados

Tudo coisas simples, pois…

Ontem, no Jornal da Noite, da SIC, podia ler-se em rodapé: «PSD acusa Governo de impôr “lei da rolha”.» Em segundos, a legenda piscou e desapareceu. Ainda tive esperança de que se tivessem dado conta do dislate, mas reapareceu igual e em todo o seu esplendor. Não bastava já porem-no de lado, preterindo-o a favor de meter. Quando é que aprendem que, no infinitivo, o verbo pôr é acentuado, porque se convencionou distingui-lo da preposição por, mas os derivados de pôr já não são marcados com acento? Antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.
Sem pôr de lado que a culpa poderá ser do insersor de caracteres (do operador da máquina chamada insersor de caracteres, entenda-se), vamos lá pôr a mão na consciência: acham bem que digam tantos disparates, escrevam tão mal, e nem peçam desculpa? Vou pôr isto por miúdos: estão a contribuir activamente, dia a dia, para a iliteracia do povo. Estão a imbecilizar as massas. Estão a fazer de nós os cafres que alguns já dizem que somos. Pôr o dedo na ferida dói, não é?

Citação

Divisa ou desculpa?

«Todos somos muito ignorantes. O que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas.»
Einstein

Plural das siglas

Que lindo serviço!

Leio na edição de Março da revista Escola (n.º 205, p. 22), do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL): «Prolongamentos/ATL’s… Não podemos cruzar os braços!» Admitindo que o título é da responsabilidade da autora do texto (de qualquer modo, a ficha técnica apresenta Luísa Pereira, quem sabe se professora, como revisora), Jacinta Vital, professora do 1.º Ciclo, estamos mal. Que língua é esta, afinal? Nem o inglês, senhora professora, usa apóstrofo para a formação do plural das siglas. Em português, as siglas não têm plural. Ainda assim, se quiser usar o s, elimine o nefando apóstrofo. (Como faz a Visão: «Serão as OPAs assim tão hostis?», «Os salários das OPAs», Clara Teixeira, pp. 110-114, 30.4.2006.)
É triste comprovar como até o pior (ou será o melhor?) jornalista (ou será revisor?) do jornal 24 Horas escreve melhor do que alguns dos nossos professores! Veja-se:
«Tramados pelas OPA», 24 Horas, 12.4.2006, p. 19.
O Público também tem uma prática consistente de grafar correctamente as siglas:
«Com as duas OPA — lançadas pela Sonaecom (proprietária do Público) e pelo BCP —, defendem as organizações, sai prejudicado o interesse dos consumidores e dos trabalhadores», Público, 12.4.2006, p. 37.
«CMVM recusa leilão nas OPA da PT e do BCP», Anabela Campos, Público, 6.4.2006, p. 46.
O Correio da Manhã escreve igualmente de forma correcta:
«Francisco Louçã, Ana Drago, António Chora e Miguel Portas lideram a campanha do bloco sobre os negócios das OPA que estará, nas próximas duas semanas, em todos os distritos do País, refere um comunicado dos bloquistas», «Jornal de rua sobre as OPA», Correio da Manhã, 11.4.2006, p. 24.
«É certo que para quem estava habituado à opulência o contraste podia ser doloroso, mas o antigo presidente sérvio dormia numa cela muito parecida à de uma residência universitária de topo, onde podia ver televisão e ouvir CD de músicos da sua preferência, como Frank Sinatra», Correio da Manhã, 12.3.2006, p. 38.
E o Expresso:
«E as OPA continuam…», «Diário de uma OPA», Caderno Economia, 18.3.2006, p. 10.

Ortografia: «gérmen»

Nomes felizes


      Antes de os paparazzi me esquadrinharem o caixote do lixo à procura de segredos: confesso, costumo pôr gérmen de trigo na sopa. Que extravagância, hein? Na embalagem — e as embalagens e os seus dizeres têm-me motivado ao longo dos anos a escrever às empresas cartas que muito me divertem — pode ler-se: «germen de trigo». Mas atenção: a empresa chama-se Ignoramus (propriedade, quem sabe, de um poeta falhado ou de um latinista aposentado), e por isso está, antecipadamente, desculpada.
      Se não quiserem escrever a palavra com acento, não escrevam. Não escrevam a palavra, digo. Escrevam «germe». Se se optar por escrever «gérmen», tem de ter acento. As palavras graves ou paroxítonas, como se sabe, não são graficamente acentuadas, mas há excepções, e as palavras que terminam em n é uma delas. Alguns exemplos:
  • abdómen
    acúmen
    albúmen
    alúmen
    ámen
    cacúmen
    certâmen
    cerúmen
    ciclâmen
    cáften
    discrímen
    dólmen
    durâmen
    Éden
    espécimen
    flúmen
    forâmen
    glúten
    hífen
    hímen
    lactúmen
    ligâmen
    líquen
    lúmen
    lúmpen
    molímen
    númem
    pólen
    regímen
    rúmen
    santiámen
    sémen
    tentâmen
    tégmen
    velâmen

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