Pronúncia: «alopecia»

Alô! Malato

      Ainda só duas vezes vi, por infausto acaso, o concurso televisivo A Herança, apresentado por José Carlos Malato. A primeira vez calhou-me em sorte ouvir o apresentador falar de «palavras homólogas», e rapidamente me pus a salvo noutro canal. Na sexta-feira passada, reincidi e ouvi-o perpetrar uma silabada: /àlôpécia/. Pronunciou assim o vocábulo quatro vezes. Embora a pronúncia de «alopecia» seja controversa, ninguém, que eu saiba, defende a pronúncia com o o fechado. Em Portugal, de qualquer modo, julgo que a tendência é para julgá-la grave, o que seria exigido pela origem grega do vocábulo. Contudo, o latim, língua de intermediação, autoriza a acentuação como esdrúxula.
      O vocábulo «alopecia» provém do grego alopexia, de alopex, raposa, através do latim alopecia. Verificando que este animal costuma perder muito pêlo, os Gregos passaram a designar a queda de cabelo no homem com este termo, seja por doença, seja por velhice.

Ortografia: isquémico

Esquemas mentais

      O 24 Horas tentou hoje explicar-nos «o que é uma cardiopatia esquémica» (3.3.2006, p. 9). Como a jornalista, Rute Coelho, escreveu cinco vezes «esquémica», deduzo que é o esquema mental dela a funcionar e não uma gralha. Como qualquer dicionário poderia elucidar a jornalista, escreve-se «isquémico», «isquemia», e, logo, «cardiopatia isquémica». Imagino que a opinião do cardiologista Daniel Ferreira, do Hospital Amadora-Sintra, tenha sido recolhida por telefone. Uma vez que «esquémica» era o mais parecido ao que a jornalista conhecia, «esquema» e «esquemático», foi assim que escreveu. Não se lembrou de consultar um dicionário, de papel ou na Internet — como era seu dever como profissional. A meu ver, a língua é tão digna de protecção como as fontes, ou não?
      O termo «isquemia» provém do latim científico, embora formado a partir de um vocábulo grego, e chegou-nos através do francês ischémie (o inglês, mais próximo do latim, é ischemia). Designa uma paragem ou insuficiência do fornecimento de sangue a um tecido ou a um órgão. Pode ser devida a vasoconstrição, a obstrução ou compressão arteriais.

Actualidade: ensino do Inglês

Para inglês ver

      Foi ontem divulgado um estudo em que se conclui que os estudantes britânicos costumam dar muito mais erros ortográficos e de sintaxe do que aqueles que têm o inglês como segunda língua. O estudo foi feito por Bernard Lamb, especialista em genética do Departamento de Ciências Biológicas do Imperial College, e concluiu que os estudantes britânicos não conseguem expressar-se correctamente. Entre os erros mais comuns, Lamb indicou que 78 % dos estudantes britânicos colocaram apóstrofo no pronome possessivo «its», enquanto somente 25 % dos alunos estrangeiros cometeram esse erro. Para o especialista, isto deve-se ao facto de os estudantes estrangeiros «terem mais aulas de gramática, mais correcção de erros e mais ênfase na forma correcta de escrever em inglês».
      Se José Sócrates sabe disto, em vez de 20 milhões de euros, irá gastar o dobro com o Programa de Generalização do Ensino de Inglês no 1.º ciclo. Convém, de qualquer modo, esperar, pois pode haver algum especialista ocioso que se dedique a demonstrar que os estudantes chineses escrevem e falam melhor a língua portuguesa do que os estudantes portugueses.


Neozelandês

Ooops

      É cada vez mais comum ver incorrectamente escrita a palavra «neozelandês». A última vez foi no jornal Público (1.3.2006, p. 42): «A sala de cinema hardcore dos reclusos neo-zelandeses.» Tentando entrar na mente do criminoso, creio que a explicação para o erro se pode encontrar no facto de Nova Zelândia se escrever em duas palavras. Será esta a razão?

Lago Constança

Imagem: http://ontology.buffalo.edu/

Já meteram água

      Ainda fui ao quiosque devolver o jornal, mas não aceitaram reembolsar-me. Escrevia a jornalista Ângela Marques na página 19 do Diário de Notícias de 27 de Fevereiro: «A Suíça partilha o lago de Constância com a Alemanha e a Áustria.» Com todo o respeito (ou, à mestre Gil, salvanor), não me parecem muito bons em geografia. O que é que a Vila Poema, a antiga Punhete, tem que ver com isto? A nossa Constância foi a determinação dos seus habitantes no apoio à causa liberal, o que foi recompensado por D. Maria II ao mudar o nome da localidade. O lago Constança — repita comigo, Ângela: Constança — (Constance em francês, Bodensee em alemão) é, de facto, partilhado pela Suíça, a Alemanha e a Áustria. Já sei: também assim foi dito na RTP1 e era o que estava escrito na notícia da Lusa. E depois? Querem ver que o jornalista perito em línguas mortas, como o português, não estava na redacção?!
 

Fluido e fluído

Lábil, untuoso…

      Ora cá está um dos erros mais persistentes. Trata-se de uma tradução, mas esse é um pormenor irrelevante, no caso em apreço. «His walk, she thinks, is smoother, more fluid than usual.» Lá vem a tradução: «O seu andar parece-lhe mais leve, mais fluído do que o habitual.» Parece perfeito, não é? Se estivermos distraídos, é. Passo a passo, vamos lá: «fluido» é o quê? É um adjectivo. Então, será «fluido», tal como seria se se tratasse do substantivo, e como a vogal tónica é o u, o i não leva acento. A forma com acento agudo, «fluído», é o particípio passado do verbo «fluir» (como puído, saído, caído, etc.) Como é óbvio, a prosódia destas formas (nominal e verbal) é diferente. Um exemplo em que se usa, respectivamente, o substantivo e o particípio passado: «O azeite, o precioso fluido mediterrâneo, tem fluído bem, apesar de um pouco coalhado por causa do frio.» (conversa de um lagareiro dado a leituras…)

Léxico: «barbecue»

Bem passado

      Foram os Espanhóis que divulgaram o termo «barbecue» (barbacoa, em espanhol), que vem do aruaque barbicu, a grelha feita de ramos de árvore verdes sobre a qual os índios Aruaque (de cuja língua provém «canibal», através da evolução ou confusão caribal→canibal), das Antilhas, assavam a carne. Está registada na língua inglesa logo no final do século XVII. Cristóvão Colombo, ao contactar com este povo, percebeu «caniba» em vez de «cariba» («corajoso» ou «selvagem», em aruaque), e «caniba» está muito próximo de «canis», cão em latim. Ora, canis fazia lembrar os Cinocéfalos, homens de um olho só e focinho de cão que devoravam os seres humanos. Assim surgiu o termo «canibal» conotado com a antropofagia. Há mais versões sobre a etimologia de «canibal», mas esta é a que me agrada mais.

Etimologia: Quaresma

Quarenta

      A Quaresma, sabemo-lo, começa hoje, Quarta-Feira de Cinzas, e termina no Domingo de Ramos. De onde vem esta palavra, «Quaresma»? Bem, «Quaresma» vem do latim quadragesima. Na verdade, é a abreviação de «quadragesima dies», que são os quarenta dias antes da Páscoa (se exceptuarmos os domingos). Assim, quadragesima era um adjectivo em latim. «Quadragesima die Christus pro nobis tradetur» (No quadragésimo dia, Cristo será entregue por nós). Foi no século IV que a Igreja adoptou a Quaresma como o período de seis semanas antes da Páscoa, num domingo a que se dá o nome de Domingo da Quadragésima. Em espanhol diz-se «Cuaresma», em francês, «Carême», em italiano, «Quaresima». Para os anglo-saxónicos a palavra é «Lent».
      Talvez a duração da Quaresma não passe de um simbolismo, pois que o número quarenta está muito presente na Bíblia. Vejamos: o dilúvio afectou a Terra por quarenta dias («Porque dentro de sete dias, vou mandar chuva sobre a Terra, durante quarenta dias e quarenta noites, e exterminarei na superfície de toda a Terra todos os seres que Eu criei», Génesis, 7,3-4); Moisés esteve quarenta dias no deserto («Moisés entrou pelo meio da nuvem e subiu à montanha, e ali esteve Moisés durante quarenta dias e quarenta noites», Êxodo, 24,18); os exploradores enviados a Canaã por Moisés demoraram-se quarenta dias: («Ao fim de quarenta dias, regressaram de explorar a terra», Números, 13,25); os médicos empregaram quarenta dias no trabalho de embalsamamento do corpo de Jacob (« Ordenou aos médicos, seus servidores, que embalsamassem seu pai; e os médicos embalsamaram Jacob, empregando nisso quarenta dias, que são os dias precisos para o embalsamamento», Génesis, 50,2); Elias vagueou quarenta dias pelo deserto («Elias levantou-se, comeu e bebeu; reconfortado com aquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus», Livros dos Reis, 19,8); Jesus Cristo aparece aos Apóstolos durante quarenta dias, já depois da paixão («A eles também apareceu vivo depois da sua paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições, durante quarenta dias, e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus», Actos dos Apóstolos, 1,3); Jesus ficou quarenta dias no deserto («Em seguida, o Espírito impeliu-o para o deserto. E ficou no deserto quarenta dias», Evangelho segundo São Marcos, 1,12-13).

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