Erramos e errámos

O texto do DN

      Eu tenderia a crer que o editor do Diário de Notícias queria dizer que erramos sempre, isto é, somos falíveis e reconhecemo-lo, e não que pontualmente, no caso em apreço, errámos. Há, porém, uma objecção a fazer: o editor afirmava que aquele era um exemplo de uma falha que poderia desencadear uma ligação mais forte com os leitores. Uma falha concreta. Logo, seguindo este raciocínio, deveria ter sido usado o pretérito perfeito do indicativo: «errámos». Repare, contudo, que neste caso que nos ocupa a compreensão da frase não fica comprometida por se usar uma ou outra forma.
      Quanto à boa prática do The Guardian, que cita, julgo que é a que o DN deverá seguir — prestando dessa forma, em simultâneo, um verdadeiro serviço público e formação contínua aos seus jornalistas. O que o Público faz tem um interesse muito restrito, e, no que respeita à língua, totalmente irrelevante.

Iliteracias

Revistas da moda (2)

      Ainda que a frase possa ser interpretada como o fez, a minha afirmação permanece intocável: aquela é a regra, frequentemente ignorada em Lisboa, mas não no Sul, por exemplo. O contexto da frase, parece-me, autoriza mais a minha interpretação, pois se «dantes brincávamos com bonecas» e agora «queremos brincar com bonecos», algo aconteceu entretanto. Não acontece, aconteceu: mudámos. Concordo, contudo, que noutros contextos pudesse ser como diz.
      Quanto à grafia de «make up», tem toda a razão, como eu a tenho — limitei-me a transcrever o que se pode ler na capa e no miolo da citada revista, provando assim que os jornalistas daquela publicação estropiam qualquer língua em que escrevam.

Pronúncia: arguido

Liberdades poéticas

      Perguntaram-me ontem como se deve pronunciar a palavra «arguido». Quem me perguntou afirmou ter ouvido Manuel Alegre, durante a campanha eleitoral, pronunciá-la como se não tivesse aquele u. Contudo, o correcto é pronunciar o u, o que se pode ver pelo facto de na variante brasileira do português se grafar com trema: argüido. Trata-se, é bem verdade, de uma excepção, a par de outras, como aguentar, cinquenta, equestre, frequência, frequentar, sequência, etc., à regra de não pronunciar o u quando a este se segue um e ou um i. No acordo ortográfico ainda em vigor, o de 1945, na sua Base XXVII, o trema foi, infelizmente, abolido. «O trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas.» E, a confundir Manuel Alegre, acrescenta o acordo: «Nem sequer se emprega na poesia.» Verdade seja dita que na Faculdade de Direito de Lisboa, onde se usa milhares de vezes, também ouvia, espantado, o Prof. Doutor Pedro Romano Martínez, e outros de que agora não me recordo, pronunciar esta palavra erradamente. «Ex ore tuo te judico», ou em tradução livre e recorrendo a um provérbio, pela boca morre o peixe.

Advérbios

Portuguesmente

      Referi, num dos últimos posts, o advérbio «portuguesmente», que por vezes ainda se vê mal grafado com acento circunflexo. Ora, de acordo com o estabelecido pelo Decreto n.º 32/73, de 1973, não se põem acentos (graves ou circunflexos) nas sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente (ex.: cortesmente, portuguesmente, rapidamente). Da mesma maneira, e foi ainda o mesmo decreto a estatuí-lo, para as formas derivadas com sufixos iniciados por z (ex.: avozinha, chapeuzinho, heroizito, mazinha, pezinho). Por serem erros tão vulgares, parece-me que nunca é excessivo referi-los.

Semântica

Pau seco não mata cabra

      A mediática subcomissária Paula Monteiro, da PSP, a prestar protecção policial aos trabalhadores que estão a demolir algumas barracas na Azinhaga dos Besouros, questionada por uma repórter da SIC sobre o uso da violência, responde: «A polícia nunca usa a violência; quando muito, usa a força física.» Pois é, e quem é que estabelece a fronteira entre uma coisa e outra? A partir de quantas costelas contundidas se pode afirmar que estamos perante violência? Uma moradora afirmou ter sido «puxada pelos braços» e «empurrada pelas costas» por agentes da PSP para sair da barraca onde se barricara: foi usada a força física.

Iliteracias

Revistas da moda

      Veio ter-me às mãos um exemplar da revista Gente Jovem, relativa a Dezembro de 2005. Sem estar bem paginada, tem contudo o atractivo das imagens, com muito make up, muito design, cool things, muita fashion. É caso para dizer que, tendo muitas, deveria ter mais, pois quanto menos escreverem mais preservados ficarão os leitores. Abstraindo de tudo o resto, na última página publica uma banda desenhada, da autoria de Alexandre Algarvio, com erros que se vão incrustar no cérebro do leitor, sobretudo tendo em conta que se dirige a um público jovem. Comecemos por esta fala de uma das personagens: «Vá minhas amigas podem pedir aqui à Mãe Natal o que querem no sapatinho!» E acabemos nesta: «Pois, mudamos muito… Dantes brincávamos com bonecas hoje queremos brincar com… bonecos!!!»
      Meus meninos, já deviam saber que o vocativo («minhas amigas») vem sempre isolado por vírgulas: «Vá, minhas amigas, podem pedir aqui à Mãe Natal o que querem no sapatinho!» Como não deveriam ignorar que a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1.ª conjugação (de tema em -a) se escreve com acento agudo (pronunciando-se com o a tónico aberto: /falámos/) para a distinguir da mesma pessoa do presente do indicativo (que se pronuncia com o a tónico fechado: /falâmos/). «Pois, mudámos muito… Dantes brincávamos com bonecas; hoje queremos brincar com… bonecos!!!»

Lapsos da língua

Vejam como é fácil

      Marta Crawford, no AB… Sexo de ontem, a propósito do alongamento do pénis por meios mecânicos, avisava: «Muito cautela, muito cautela.» E mais: «Não deve pôr os burros à frente dos bois.» É verdade: ao fim de três tentativas acertou no provérbio. Admito que não há-de ser fácil falar com naturalidade com um bacamarte daqueles nas mãos. E ainda não dizia coisa com coisa quando entrevistou Virgílio Castelo, coitada. Estava um tanto ou quanto atarantada.

Gralhas

Com domínio ou com desleixo?
      
      Seja por ignorância, seja para tentar eludir a responsabilidade, há quem confunda erros com gralhas. O caso que vou referir, ao que tudo indica, configura uma gralha, e só por excepção aqui tratarei destes casos ornitológicos. Num anúncio de página inteira no Correio da Manhã (17.12006), a Escola Superior de Actividades Imobiliárias (ESAI) publicitava dois cursos: «Curso Prático de Gestão e Administração de Comdomínios» e «Curso de Gestão e Administração de Comdomínios». Se foi assim escrito na ESAI, e logo duas vezes e num corpo muito grande, o revisor do Correio da Manhã e o paginador estavam muito ensonados.

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