Estrangeirismo: «budget»

Não havia necessidade

      Na Antena 1 (6.1.2006), a actriz Lia Gama, a propósito dos sucessivos governos, afirma, com ênfase, que simplesmente não tem havido «budget» para a cultura. O português «orçamento» é demasiado singelo, e havia mesmo o risco de o ouvinte poder confundir com essa coisa vil que é o dinheiro. Vade retro, Satana!


Pronúncia: beco

Nas ruas da amargura

      Entrevistado no programa Fátima (6.1.2006), na SIC, o responsável das ludotecas João de Deus, um projecto extraordinário de ajuda às crianças vítimas de exclusão social, disse que era preciso tirar aquelas crianças «do beco [/béco/] em que as lançámos» (cito de cor). A verdade é que o vocábulo «beco» se pronuncia com e fechado /bêco/, à semelhança de besta (/bêsta/).

Colocação do pronome pessoal reflexo

Todos se estatelam. Estatelam-se todos.

      Num artigo publicado ontem (5.1.2006) no Público, podia ler-se: «Todos os planos de edição da Palavra para 2006 mantêm-se.» Ora, o que a gramática exige é que o pronome pessoal reflexo se anteponha ao verbo em frases começadas por pronomes indefinidos: alguém, ambos, muito, pouco, qualquer, todos, tudo, vários, etc. Diz-se, nestes casos, que o pronome está em próclise. Logo, o jornalista deveria ter escrito: «Todos os planos de edição da Palavra para 2006 se mantêm.»

Mal-estar, mal-estares

O Expresso errou

     Se é comum ouvir «mau estar», será raro lê-lo. Contudo, na última edição da revista Única (30.12.2005), era assim mesmo que estava escrito, na secção «Gente», coordenada pela jornalista Isabel Lopes. Em causa estava o estádio de futebol de Graz, na Áustria, que voltou a ter o antigo nome de Estádio Libenau, depois do «mau estar causado por Schwarzenegger não ter concedido clemência a Stanley Williams». Eu compreendo que a notícia tenha perturbado o jornalista, mas a ortografia não tiraria autenticidade às suas palavras.

Pronúncia: Sabor

Língua-de-trapos

      Da comunicação social aos políticos, tem-se ouvido nos últimos tempos, a propósito da construção da barragem do Baixo Sabor, o nome do rio ser pronunciado como palavra grave, que não é. É aguda, com a primeira sílaba aberta e a última fechada: /Sàbôr/. José Neves Henriques, consultor do Ciberdúvidas, afirma que no século XII se pronunciava /Saabor/, e que é a contracção dos dois aa que explica o a aberto.

Verbo haver

Agora já percebi

      Foi Mário Castrim, numa das suas inesquecíveis críticas televisivas, que lembrou o caso do parlamentar que dizia: «Haviam muitos problemas…» E Brito Camacho, num aparte, acrescentar: «Haviam e hão, senhor deputado.»

Miniférias

Imagem: http://app.shop-control.com/

Língua de muletas

      O Diário de Notícias de hoje mostra uma fotografia de José Sócrates de muletas e escreve que o primeiro-ministro apareceu assim «na sequência da lesão sofrida no joelho nas recentes mini-férias numa estância de esqui na Suíça». Ora, o elemento mini liga-se directamente à palavra seguinte, sem hífen, excepto no caso de esta começar por h, em que se usa o hífen, ou por r ou s, em cujo caso dobra a consoante. As melhoras ao primeiro-ministro e ao jornalista.
      Assim: minibiblioteca, minidisco, minigolfe, mini-hospital, minifestival, mini-inquérito, minimercado, minimota, minirreactor, minissaia, minissérie, minissubmarino, minitrampolim… Sigo o Dicionário Houaiss.

Estrangeirismo: «teaser»

Desnudamentos

      Respigado no Diário de Notícias (27.12.2005): «Em Janeiro, a SIC vai exibir uma nova série produzida por Teresa Guilherme, cujo teaser já está no ar.» A sério!? A propósito, o que significa teaser, ao certo? Pego num qualquer dicionário de inglês-português e leio: «Pessoa que gosta de arreliar ou de brincar com os outros; maçador; (coloq.) coisa importuna; problema difícil; cardador.» Mete ovelhas ou reinação, já percebi, mas o que significa? Num assomo de intelectual preparado, lanço mão do Webster’s e lá vem: «Anything tempting or whetting the appetites.» É só isto, um engodo, um chamariz?
      Claro que o jornalista pode usar estrangeirismos, se lhe apraz, mas atenção: está a escrever para ser entendido. Ou não?

      Leio num dicionário publicitário online: «TEASER — Mensagem curta que antecede o lançamento de uma campanha publicitária, gerando expectativa para ela. Pode ou não ser identificada (ou seja, ter o nome da empresa ou marca).»

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