Como se traduz por aí

Sim, boa sorte


      No 3.º episódio da série Vigilantes (Brigade Anonyme), Castaneda recebe uma nova chamada de pais em pânico: Adèle Hayat, a filha de 20 anos, desapareceu antes de embarcar num avião para se juntar a eles em Ajaccio. Quando descobriram que a última pessoa que estivera com ela era Damien, um empregado do Grande Hotel, em Royan, a equipa foi lá apertar com ele. Conversaram e, vendo que era inocente, Castaneda despede-se: «OK, on va te laisser travailler. Bon courage.» Pois, mas o que estava nas legendas, de Susana Serrão? «Podes voltar ao batente. Boa sorte.» Boa sorte também para os espectadores, pode ser que 0,5 % percebam isto.

[Texto 22 934]

Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

Léxico: «dia aberto»

Uma ida à Casa Sonotone ajudava


      Ontem vi o filme Brincar com o Fogo (Jouer Avec Le Feu, de Muriel Coulin e Delphine Coulin, 2024) e achei curioso que o tradutor (que não sabemos quem foi) optasse por «portas abertas» em vez do agora preponderante «dia aberto». Eis o que a personagem, que é a real detentora do cargo, Béatrice Pérez, disse: «Chères étudiantes, chers étudiants, chers parents, en tant que doyenne de la Faculté des Lettres, je suis honorée et fière de vous souhaiter la bienvenue aux portes ouvertes de la Sorbonne.» Tanto mais que nas legendas saiu desta forma pouco natural, até mesmo agramatical: «Caras alunas, caros alunos, caros pais, enquanto diretora da Faculdade de Letras, tenho a honra e o orgulho de vos dar as boas-vindas ao Portas Abertas da Sorbonne.» Na verdade, há uma via intermédia, e porventura a mais conforme à nossa língua, que passa por, aparentemente, se inspirar no inglês open day e no francês portes ouvertes, que é «dia de portas abertas». Seja como for, já bem enraizado nos nossos hábitos linguísticos está ➜ dia aberto evento em que uma instituição, sobretudo escola, universidade ou empresa, abre as suas instalações ao público para dar a conhecer o seu funcionamento, actividades e serviços.

[Texto 22 871]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Mas sabemos o nome da legendadora, que deixou passar uma coisa sem pés nem cabeça. À chegada a casa, depois de terem ido ao dia aberto na Faculdade de Letras da Sorbona, pai e filho mais novo, Louis, deparam-se com a surpresa de Fus ter preparado a refeição. Há ali uma troca rápida de falas breves, interjeições — «Oh, la vache!», «Ah ouais!», «Ah!», «Tu t’es chauffé», «J’ai mes petits secrets!», «Fus le cuistot!», «Dis donc...» —, com esta última, uma observação do pai, a aparecer assim nas legendas: «Elá...» Aqui, a culpa também é, obviamente, da legendadora, Patrícia Pimentel. No contexto, é qualquer coisa como «com que então...», ainda a expressar a surpresa de o filho, que já andava desencaminhado, ter preparado a refeição. (Fez-me lembrar a bojarda no anúncio dos Gato Fedorento para a Portugal Telecom (ainda alguns dos meus leitores não teriam nascido), em que aparecia «épa». Mas pronto, eles é que são bons.) Como é que a tradutora, com mais meios, não conseguiu ver isto?


Tradução: «guardien de la paix»

Espetanços contra o espectador


      No filme Os Novos Vizinhos (Les Gens d’à côté, André Téchiné, 2024), Lucie (Isabelle Huppert) resume assim a Yann (Nahuel Pérez Biscayart) o seu percurso inicial na polícia: «Comecei como guardien de la paix aos 24 anos. Depois estive 3 anos na polícia administrativa e depois trabalhei com sem-abrigo, nas estações da Gare du Nord e da Gare de L’Est.» Isto, claro, nas legendas, et le spectateur qui ne comprend pas le français, tant pis pour lui. Não é isso, não é SÓ por estar ali aquele pedacinho em francês: está mal traduzido. Mas o que é isso de «polícia administrativa»? Bem, terão de perguntar à tradutora, Cláudia Brito. Vamos ao que a personagem diz, vamos ao áudio: «J’ai commencé gardien de la paix à 24 ans. Plus tard, j’ai fait police-secours à Paris pendant trois ans, puis je me suis occupée des sans-abris dans les gares. Gare du Nord, gare de l’Est.» Transpondo — não é o que se deve fazer na tradução? —, tanto quanto possível, para a realidade portuguesa, seria mais ou menos assim: «Comecei como polícia aos 24 anos. Mais tarde, estive três anos na intervenção rápida em Paris e, depois, ocupei-me de sem-abrigo nas estações: Gare du Nord e Gare de l’Est.»

[Texto 22 852]

Tradução: «lactante»

Vê-se de tudo


      «Dos agentes de la Guardia Civil fuera de servicio salvaron la vida a una niña de 16 meses que se encontraba en parada cardiorrespiratoria en el municipio de Alhama de Murcia. Los agentes practicaron primeros auxilios, aplicando la maniobra de Heimlich adaptada para lactantes. Gracias a ello, la niña comenzó a ventilar de forma autónoma antes de la llegada de la ambulancia. En la imagen, los guardias, con la menor» («Dos guardias civiles fuera de servicio salvan la vida a una niña», La Razón, 16.04.2026, p. 45). 

      Vamos pôr as coisas assim: muitos desses que julgam que estão habilitados a traduzir do castelhano apenas porque, antes do 25 de Abril, os avós iam comprar caramelos a Badajoz iam espalhar-se aqui. É que em castelhano lactante tanto designa o bebé, a criança que mama, como a mulher que amamenta. Em português, precisamos de duas palavras: lactante é a mulher que amamenta, e à criança que mama damos o nome de lactente. Por um daqueles acasos em que a minha vida (ou a de todos?) é pródiga, justamente na semana passada revi uma obra em que a autora usava o termo errado.

[Texto 22 833]

Tradução: «péniche»

O contrário do que ali se intuía


      Quinto episódio da série Na Sombra. O mais electrizante até agora, a faltar um para o fim. Le Major, claramente nervoso, confessa a César e a Marylin: «C’est moi qui suis allé à la péniche où j’ai retrouvé le fils Pinguet.» Nas legendas: «Fui à barcaça, onde me encontrei com Pinguet Filho.» Ora, a embarcação está atracada em Issy-les-Moulineaux, um daqueles troços do Sena onde abundam péniches habitadas, muitas delas permanentemente atracadas e integradas no tecido urbano. São batelões convertidos, alguns luxuosíssimos. Chamar barcaça a isto... Há-de ser a pior escolha, muito, muito atrás, pela conotação, de «batelão», «barco», «casa-barco», e em último caso — oh, sim, dêem-me um tiro! — o termo original, péniche, que encontro em algumas traduções, para dar a cor local. Não há volta a dar, a palavra «barcaça» torna-se mesmo desajustada no contexto, já que remete de imediato para rudeza, trabalho pesado, até alguma degradação material, tudo o contrário do que se sabe (César fora lá antes, de noite) e do que se intui.

[Texto 22 817]

Tradução: «unoaked»

Estava aqui a pensar


      Com que então uma garrafa de Comboio do Vesúvio unoaked… Ainda algum pacato e desprevenido português se atraganta antes mesmo de o levar aos lábios. Vejamos: se unoaked também é, apesar de consolidado, ambíguo em inglês, porque não sugerirmos nós um termo legitimamente português? Em rigor, unoaked não significa sempre «vinho sem qualquer contacto com madeira». Muitas vezes quer apenas dizer «vinho sem marca sensorial de carvalho», excluindo o uso de barrica nova, mas admitindo madeira neutra, contacto breve ou soluções técnicas equivalentes. O termo funciona menos como descrição processual do que como rótulo de estilo, e essa ambiguidade é hoje plenamente aceite no discurso enológico anglo-saxónico. Ora, se toleramos essa elasticidade no inglês, não há razão para exigir ao português uma precisão cirúrgica que o próprio original não tem. A dificuldade não é conceptual, é lexical: o inglês dispõe de um adjectivo curto, transparente e estabilizado; o português refugia-se em perífrases correctas, mas pesadas, como «vinho não estagiado em madeira» ou «vinho sem contacto com carvalho». É aqui que se pode, e talvez se deva, atirar o barro à parede. Desmadeirado é morfologicamente irrepreensível, semanticamente claro e dialoga directamente com um adjectivo já consagrado, amadeirado. Tal como unoaked, pode ser lido tanto em chave técnica como sensorial; tal como unoaked, não resolve todas as subtilezas do processo, mas comunica eficazmente um perfil de vinho. Nenhum termo nasce perfeito nem imune a objecções. Nasce porque alguém o usa, outro o entende e um terceiro já não estranha. Se aceitamos unoaked numa garrafa do Douro, talvez esteja na hora de experimentar também um vinho desmadeirado, ao menos na língua.

[Texto 22 803]

Como se traduz por aí

Não temos cá disso


      Quarto episódio da série Na Sombra. Francœur, apertado por escândalos e suspeitas, propõe a Marie-France Trémeau uma candidatura conjunta, à americana. O Eliseu para ele, para ela o Matignon. Ela, embora replique de imediato que não acredita nestas soluções bicéfalas, não deixa de ponderar ali mesmo. Mas diz também: «Quand tu auras vu ma liste de courses, je ne sais pas si ta proposition sera toujours une si bonne idée.» Nas legendas, estava assim: «Quando tiveres visto a minha “lista de compras”, a tua proposta talvez não tenha sido uma ideia assim tão boa.» E esta «lista de compras» já tinha aparecido noutro episódio. Para um francês, a expressão francesa não é obscura, a sua equivalência literal é que não existe em português. É um caso clássico de assimetria idiomática. 

      Temos de ver que é um filme, em geral o espectador não anda para a frente e para trás para perceber, nem pára para ir consultar um dicionário. Tem de se optar sempre pela formulação mais clara, mais directa. Por isso, eu optaria por uma solução assim: «Quando vires a minha lista de exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou até mais simples: «Quando vires as minhas exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou ainda: «Quando vires as minhas contrapartidas, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» É que, para aceitar, ela vai querer os ministérios mais importantes, como o do Interior e o da Justiça, entre outras exigências relacionadas com a linha política.

[Texto 22 802]

Tradução: «permanent»

Encore faut-il savoir écouter


      Terceiro episódio de Na Sombra. Ça commence à chauffer. Já na posse das imagens não editadas (os tais brutos...), César Casalonga e Marylin vêem que Le Major, alguns minutos antes de o sistema informático vir abaixo, segredou qualquer coisa a um dos informáticos. Qualquer coisa não, César leu inequivocamente nos lábios: «Vai agora.» E que informático era esse? O indivíduo que lhes tentara vender os discos rígidos com a prova da fraude. Caligny, que assistia à projecção a um canto da sala, também reconheceu o indivíduo do incidente na ponte. César e Marylin decidem então marcar um jantar com Le Major para o confrontarem. Quando César lhe mostra, no telemóvel, o fotograma em que Le Major aparece a segredar ao ouvido do informático, Le Major deixa-se rir e diz: «Conheço esse tipo de vista. Estava sempre lá, um militante.» «Permanente ou militante?», pergunta Marylin. Isto, claro, nas legendas, mas a tradução está errada e compromete seriamente a compreensão. 
      Ao traduzir desta forma a fala de Marylin, tinham de soar todos os alarmes e levar o tradutor a pensar bem, a voltar atrás. Vamos ao original. Le Major: «Ce type, je le connais sans le connaître. Il était là comme un permanent, un militant.» Ao que Marylin, e com razão, dispara logo: «Un permanent ou un militant?» Ou seja: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era funcionário do partido, um militante.» A própria hesitação da personagem autorizava o tradutor a verter assim: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era, sei lá, funcionário do partido, militante.» E, claro, a pergunta de Marylin só podia traduzir-se assim: «Funcionário ou militante?» Tudo isto, Karim Vieira Mesmoudi, porque permanent, no contexto, é clarissimamente o «membre d’un parti, d’un syndicat, etc., rémunéré pour se consacrer entièrement à son organisation», como se lê no Larousse ou em qualquer dicionário de francês.
[Texto 22 793]

Léxico: «kernel | núcleo»

O sistema foi-se abaixo


      Na terça-feira, vi na RTP2 o primeiro episódio da série francesa Na Sombra (Dans L’Ombre), de Pierre Schoeller e Guillaume Senez. A primeira cena passa-se no 1.º de Dezembro de 2024 e decorre numa sala de guerra (aparece mesmo uma folha colada na porta: «War room»), onde uma equipa de informáticos e assessores acompanha o escrutínio para as primárias do Partido Conservador. Às tantas, o sistema vai-se abaixo. «On perd le kernel.» «Estamos sem kernel», diz um dos informáticos. E o termo inglês até aparece em itálico nas legendas, extraordinário. Infelizmente, apesar de ser um termo comum no campo da informática, não o vamos encontrar nos nossos dicionários. Não está na Infopédia, por exemplo. Encontramos lá, isso sim, o termo sinónimo português núcleo, muito menos usado: «INFORMÁTICA componente básico de um sistema operativo, que assegura a interacção desse sistema com outros programas e com o hardware do dispositivo». Só que «componente básico» é vago e pode induzir em erro: parece sugerir uma peça essencial do hardware (como o processador ou a memória), quando na verdade se trata da camada central de gestão do sistema operativo. 

      Assim, sugiro, com a recomendável remissão mútua, ➜ kernel/núcleo INFORMÁTICA parte central do sistema operativo que gere os recursos do sistema (memória, processos, dispositivos) e assegura a comunicação entre o hardware e o software

      Voltando às legendas, o tradutor/legendador, Karim Vieira Mesmoudi, devia ter optado por «núcleo» ou, até melhor: «O sistema foi-se abaixo.» Fidelidade como princípio absoluto, só nas relações conjugais e outras que tais, não na tradução.

[Texto 22 778]

Trump, o palavrão e a jornalista

Prudente, mas ingénua


      «“Terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irão. Não haverá nada igual!”, exclamou, deixando antever que os alvos serão, como já tinha referido anteriormente, as infraestruturas do país. De forma mais drásticas e usando vocabulário menos próprio (que não vamos reproduzir), foi mais longe: “Abram o raio do Estreito, seus sacanas loucos, ou vão viver para o inferno”, ameaçou» («Trump usa palavrão para exigir abertura do Estreito de Ormuz», Daniela Espírito Santo, Renascença, 5.04.2026, 13h18).  

      É ver a jornalista toda deliciada por poder escrever que Trump usou um palavrão. Que não vão reproduzir, mas deixando bem à vista o texto original — «Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell – JUST WATCH!» Parece que não sabe que os Portugueses — incluindo, pois claro, os jornalistas — conhecem melhor o inglês do que a sua própria língua. Caralho.

[Texto 22 749]

Como se traduz por aí

Não chegam ao céu


      E quando o original diz algo tão banal como «Then he called up» e o tradutor resolve a coisa com esta elegância: «Vozeou»? Quantas vezes não encontro estas tretas? E sempre me vêm à mente vozes de animais. Como zorrar. Não façam isto.
[Texto 22 669]

Miguel Ângelo, pois claro

Aleluia!


      «Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32). 

      Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»

[Texto 22 656]

Tradução: «pediment»

Despublica!


      «– É pequena para a idade. – Não era verdade, mas ninguém o contradisse. – Terá de crescer. Aproxima-te – disse Roberval, e parei diante dele, tão perto que podia tocar no armário. Como queria fazê-lo! As pequenas gavetas eram perfeitas para as minhas mãos. Quem me dera que o meu guardião me desse aquele brinquedo! Ele, que era o guardião de todas as coisas. O armário imitava um palácio em miniatura. Na fachada, estavam gravados pedimentos e pilares, ladeando as gavetas com embutidos de marfim. O que teria o meu guardião lá dentro? Joias? Papéis? Relíquias sagradas?» (excerto do romance histórico Isola, de Allegra Goodman, pré-publicado no Público, «Dois capítulos do romance histórico Isola, da norte-americana Allegra Goodman», 18.03.2026, 12h01).

      Um termo estranho — temo-lo, sim senhor, mas que até eu desconhecia — devia logo fazer disparar alarmes, quando não na tradutora, no revisor. Pois, mas não. No original, lê-se isto: «Its façade was carved with pediments and pillars framing drawers inlaid with ivory.» Ou seja: «A fachada estava esculpida com frontões e pilares que enquadravam gavetas incrustadas de marfim.» Em português, «pedimento» é sinónimo (completamente obscuro, esquecido, arcaico) de «pedir; petição» e, segundo a Porto Editora, também termo geológico. O vocábulo inglês pediment (séc. XVII) «frontão, remate triangular de fachada» ← alteração de formas anteriores periment, peremint (séc. XVI), é de origem incerta; provavelmente deformação dialectal de pyramid («pirâmide»), por associação à forma triangular; posteriormente reinterpretado por influência erudita de ped-, «pé» (latim pes, pedis), o que levou a aproximações secundárias ao latim pedamentum, «apoio, escora», e ao italiano pedamento, «base, fundamento», embora estas ligações não sejam etimologicamente seguras. Seguro é que é um erro monumental de tradução.

[Texto 22 654]

Tradução: «to gain traction»

Ouvida na rádio no sábado


      «Uma teoria relacionada a questões climáticas também ganhou tração ao longo do dia. Em um primeiro momento, a REN (Redes Energéticas Nacionais), responsável pela distribuição de energia em Portugal, chegou a dizer que um fenômeno atmosférico raro na Espanha, produzido por variações extremas de temperatura no interior do país, tinha causado o apagão» («Apagão paralisa serviços e leva caos a Portugal e Espanha», Folha de S. Paulo, 29.04.2025, p. A35). 

      Mais um decalque semântico bastante directo do inglês to gain traction, que é comum nos meios de comunicação e no discurso político e empresarial anglófono. Em inglês, gain traction tem origem no sentido físico de traction (aderência ou força de fricção que permite o movimento, por exemplo, de pneus ou rodas), mas passou a ser usada metaforicamente com o sentido de «começar a ter aceitação, apoio ou eficácia». Em português de sempre, dir-se-ia antes que uma ideia ganhou força, ganhou adesão, começou a vingar ou tornou-se mais plausível/aceite.

[Texto 22 583]

Como se traduz por aí

Alguém e ninguém


      Último episódio de Equipa de Limpeza. Michèle e Solange percorrem parte de França numa muito chamativa carrinha Ford Econoline 150 com a inscrição «God Save The Gouines» na lateral. Vão aos hotéis do Grupo Sargas persuadir as colegas a fazerem greve. Como o dinheiro não abunda, dormem na carrinha. A inscrição merece um breve esclarecimento: gouines é um termo francês tradicionalmente insultuoso dirigido a mulheres lésbicas, mas que foi em parte reapropriado por muitas delas em tom afirmativo ou irónico. A frase pinta assim um slogan provocatório, algo como «Deus salve as lésbicas», que combina bem com o espírito combativo das duas viajantes — embora, diga-se, apenas Michèle seja lésbica. Logo na primeira noite, assistimos ao seguinte diálogo. Michèle: «Estou a bocejar, mas de certeza que não vou conseguir dormir.» Solange: «Espero que não ressones.» Michèle: «Não sei. Há muito tempo que não durmo com alguém. Eu gaguejo.» Ora, esta última frase é simplesmente absurda no contexto. Absurda. Depois de uma pequena confidência, Michèle percebe que se expôs demasiado e põe fim à conversa. O verbo que julgo ouvir no original é dégueuler, num uso coloquial do francês popular (por exemplo, «j’en dégueule»), que significa literalmente «vomitar», mas que figuradamente pode significar «deitar tudo cá para fora», «dizer demasiado», «despejar o que se tem para dizer». A escolha encaixa perfeitamente na personalidade de Michèle: uma mulher brusca, dura, marcada por um passado pesado (cumpriu oito anos de prisão) e cuja linguagem é directa e crua. A legenda «Eu gaguejo» não é apenas uma tradução infeliz: é um erro crasso. Tudo indica que a tradutora/legendadora, Rita Neves, julgou ouvir o verbo bégayer («gaguejar»); mas qualquer tradutor minimamente atento teria percebido de imediato que a frase não faz sentido naquele contexto e teria voltado ao áudio para confirmar o que efectivamente ali é dito.

[Texto 22 557]

Como se traduz por aí

Nunca leu um anúncio imobiliário


      No 8.º episódio da série francesa Extra, na RTP2, Antoine vai falar com o cunhado, não apenas para tentar tirar nabos da púcara, mas para lhe pedir desculpa, o que faz anunciando-lhe que vai ampliar e remodelar o anexo onde Xav vive. Puxa do telemóvel e diz: «Olha, fiz uns planos.» Quer dizer, isto segundo a tradutora, Teresa Silva Ribeiro, que se esqueceu de que, neste sentido, dizemos «plantas». («Tu vois, j’ai fait des plans.») Corrigindo: «Olha, fiz umas plantas.» Xavier replica: «É a tua cena agora, não é?» Antoine sorri e prossegue, na versão da tradutora: «Sim. Então, como vês, é tudo térreo, com duas exposições.» Duas exposições... Aquilo vai ser o quê, um museu no anexo? («Alors, je te montre. Là, tu vois, tout est de plain-pied. C’est traversant.») Corrigindo: «Então, deixa-me mostrar-te. Aqui, como vês, é tudo no mesmo piso. Tem duas frentes.» Tudo isto nos primeiros cinco minutos do episódio. Não sei, talvez um breve estágio na ERA ou na Remax resolvesse o problema.

[Texto 22 551]

Tradução: «sous-traitante»

Fica para a próxima


      Na série francesa Equipa de Limpeza (Frotter-Frotter, no original), exibida na RTP2, uma das camareiras, ao comprovar que não lhe foram pagas horas extraordinárias, afirma: «Vou falar com o Roullet.» Roullet é o gerente do hotel. A supervisora, Solange, corrige-a: não é com o hotel que devem tratar do assunto, mas com a empresa que as contratou e que lhes paga o salário, a Clean Up. A primeira insiste: «Não me importo de ir desancar o subempreiteiro.» 

      O problema é terminológico e é duplo. Em primeiro lugar, «subempreiteiro» é termo técnico próprio do âmbito da construção civil, relativo à subempreitada. Num contexto de prestação de serviços de limpeza hoteleira, a figura jurídica pertinente não é a subempreitada, mas a subcontratação ou a externalização de serviços. Em segundo lugar, mesmo no plano da subcontratação, o hotel não é o subcontratado. Pelo contrário: a Clean Up é que presta o serviço ao hotel, paga os salários e organiza o trabalho; ela é que corresponde, em francês, à sous-traitante, isto é, à empresa subcontratada. O hotel é a entidade contratante (donneur d’ordre), não o subcontratado. Há ainda um elemento interno que torna a opção da legenda particularmente infeliz. Num almoço do pessoal, o próprio gerente explica que o serviço de limpeza é «externalizado» — no original, ouve-se on l’externalise. A legenda traduz, e bem, por «subcontratado». Estamos, portanto, claramente perante um serviço que o hotel decide externalizar, confiando-o a uma empresa terceira. Não há aqui nenhuma lógica de empreitada. 

    A tradução e legendagem portuguesa, da responsabilidade de Rita Neves, ao optar por «subempreiteiros», desloca o enquadramento para o domínio errado e agrava a confusão, tanto mais que a própria série fornece, noutra cena, a chave terminológica correcta. Num registo rigoroso, a réplica poderia ter sido algo como: «Não me importo de ir falar com os do hotel», «Não me importo de ir falar com a direcção» ou, querendo manter alguma precisão técnica, e já que a personagem parece especialista em mopas e normas, «Não me importo de ir falar com a entidade contratante.»

[Texto 22 519]


Es heißt „Baviera“ auf Portugiesisch – merkt’s euch, ihr Zapfer!

Coisa de cervejistas


      Vou vendo — e corrigindo sempre — Bavária em vez de Baviera. É bem verdade que Rebelo Gonçalves, na página 155 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, diz ser preferível a primeira, mas já então notava que o uso consagrou Baviera. Então, deixemos tudo como está. Aliás, Rebelo Gonçalves não acertou sempre.

[Texto 22 411]

Definição: «co-gestão»

Poupem-me


      Se algum tradutor der de caras com uma codetermination, peço que não a verta à letra. Não se trata de «co-determinação», forma que até aparece por aí, é certo, mas que não é nossa. O termo correcto, claro e consagrado é outro: co-gestão. É assim que surgem os conselhos de empresa, é assim que se fala da presença de representantes dos trabalhadores nos órgãos de gestão, é assim que se traduz há décadas em textos da União Europeia e nas próprias práticas sindicais portuguesas. De caminho, bem podemos pensar numa definição mais ampla e clara do que a da Porto Editora, que acerta no essencial mas fica aquém. Assim, proponho ➜ co-gestão participação formal dos trabalhadores nos órgãos de gestão de uma empresa, especialmente por meio de representação em conselhos de administração ou conselhos de empresa, com graus variáveis de influência sobre as decisões estratégicas e, por vezes, sobre os resultados económicos da actividade empresarial.

[Texto 22 408]

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