Notas de rodapé

Critérios mais que discutíveis


      «Não foram encontrados danos cerebrais, nem foi detectada nenhuma doença do sistema nervoso central ou alguma anomalia ao nível do estatuto dos cromossomas» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 141).
      Acharam imprescindível uma nota ao nome do poeta «Archilochos» (não, não me parece necessário consultar os Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos para acertar), mas já quanto a «estatuto dos cromossomas», julgam que todos os leitores conhecem. Estão bem enganados.

[Post 4328]

Redacção

Complicando


      «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83).
      Claro que sempre podemos complicar a frase com mais sinónimos: «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos. As portas, que tinham quatro bisagras, ficariam agora definitivamente desiguais, pois já não se fabricavam borboletas daquelas. A fábrica de charneiras, onde tinha trabalhado um tio, fechara há muito. “Que porra!”, pensou Samir. “Agora vou ter de fazer eu um engonço novo na oficina do meu primo. Se a miúda vê que a chumaceira está partida, estou tramado.” Lembrou-se então que tinha alguns gínglimos na arrecadação, e foi para lá que se dirigiu. Procurou na caixa e não encontrou nenhuma macha-fêmea que se assemelhasse, ainda que vagamente. “No baú!” Encontrou um mancal que não destoava muito. Grato, deu um beijo sonoro no quício.»

[Post 4317]

Revisão

Vamos longe


      «A suite tinha 35 m2 e estava decorada em tons quentes de castanho» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 85). «A história desse cativeiro que decorreu por 3096 dias foi revelada pela própria em Setembro do ano passado, numas memórias que acabam de ser traduzidas para português, um livro em que conta quase tudo o que viveu para sobreviver à prisão num cubículo de 5 de uma cave e à subnutrição em que era mantida para evitar a sua fuga» («A intimidade dos 3096 dias negros de Natascha Kampusch», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 12.01.2011, p. 46).
      É deprimente ver (e os 13,95 euros que o livro custou ajudam a catalisar o processo) como até nos jornais, por vezes, se tem mais cuidado com a escrita. Serão estas questões a que actualmente só os leitores da área de ciências são sensíveis?

[Post 4314]

Colchetes

Quem escreveu?


      «Antes dele, o snooker [bilhar] era um jogo sombrio, disputado debaixo de muito fumo e álcool, em clubes nocturnos de qualidade duvidosa» («O polémico ‘Furacão’ que se tornou estrela de ‘snooker’», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 26.07.2010, p. 41).
      Os colchetes são de Rui Marques Simões? Sim? Então foram indevidamente utilizados. E, por outro lado, a explicação não devia dizer que o snooker é uma variedade de bilhar? E o sinuca é uma variedade de snooker, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou uma variedade de bilhar? Sinuca, como aportuguesamento de snooker, faz lembrar chulipa, aportuguesamento de sleeper, e chumeco, aportuguesamento de shoemaker.

[Post 4281]

«Colocar-se em fuga»

Duas vezes cegos


      Ou três: jornalistas, editores e revisores? «Após o crime, o condutor colocou-se em fuga, tendo anteontem sido detido pela Polícia Judiciária de Vila Real» («Jovem leva tiro a atravessar rua», Ana Isabel Fonseca/Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 16).
      Quanto aos jornalistas, creio que nada há a fazer. Quanto aos revisores, é uma vergonha que não façam nada. Afinal são pagos para corrigirem ou para respeitarem os erros crassos dos jornalistas? Não lhes quadra nada o que está para lá do prefixo re-, por isso recegos em vez de revisores.

[Post 4120]

Caracteres especiais

Mais um bom exemplo


      «Mais de 160 garrafas de champagne com cerca de 200 anos, recentemente descobertas no mar Báltico, foram recuperadas com o apoio técnico da Corticeira Amorim, que assegurou a substituição da rolha original por uma nova rolha de cortiça natural. O champagne, proveniente de um barco naufragado por volta de 1800, foi descoberto por mergulhadores em Julho a uma profundidade de 50 metros junto à costa do arquipélago Åland, uma região autónoma da Finlândia» («Rolha Amorim ajuda a preservar ‘champagne’ com 200 anos», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 38).
      Lembro-me sempre, nestes casos, de Fårö e especialmente de Nemanja Vidić, pois foi a propósito deste que um ignorante atrevido (sempre anónimos!) me ofendeu. Cada vez é mais vulgar — cada vez é mais fácil fazê-lo! — ver na imprensa estes caracteres especiais, como defendo. Arquipélago de Åland, pois claro.

[Post 4116]

Revisão

Não vale a pena?


      «A presidente-eleita do Brasil escreveu uma carta ao Papa em que afirma que deseja ter “uma relação fecunda” com a Igreja Católica. A missiva, escrita por Dilma mas analisada e revisada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Nascimento, é uma forma de mostra não ter ficado ressentida com Bento XVI, que antes da segunda volta pediu aos fiéis para não votarem em quem defendesse o aborto» («Aproximação a Bento XVI», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 33).
      Então agora já não revêem o que um correspondente escreve, ainda por cima um correspondente que não redige segundo as normas do português europeu?

[Post 4104]

Revisão

Conhecer os conhecimentos


      «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão conhecer melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Mostrei a frase ao revisor antibrasileiro, dada a propensão quase patológica que revela para não deixar passar repetições. Saiu, com muitas desculpas e que podia ser pior a emenda, etc., isto: «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão adquirir melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Hã?! Nem sempre é possível fazer a poda que ele imagina. E agora?

[Post 3990]

Revisão

É uma missão


      O revisor antibrasileiro mostrou, mais uma vez, como não deixa passar repetições de qualquer espécie. «Veja: “Está longe de estar”. O jornalista não conseguia dar volta a isto?!» A noite, porém, não foi marcada por estas saborosas prelecções, antes por uma queixa: «... E depois disse-me: ‘“Assim, não é de admitir, etc.”’ Para que é esta vírgula aqui a separar o sujeito do verbo?” “Assim” sujeito!» Bem, eu também fiquei abalado, um revisor experiente a dizer a outro semelhante barbaridade. Lembrei-me de outro. Da primeira vez que falámos, apesar de alguma incoerência, disse muita coisa acertada. «Por exemplo, “fazer com que”: nunca deixo passar tal disparate. Como eu costumo dizer, temos “coque”, não “com que”.» Riu-se. Da segunda vez, porém, tinha os reflexos um pouco embotados, e o nariz, qual tubérculo rugoso, purpúreo, distraía-me tanto como o entrecruzar de conversas e referências que me eram estranhas. No meio de tanta gente, ele tinha um propósito bem claro: comer o máximo de croquetes e beber tanto quanto aguentasse de portos. Deixei-o aportar na mesa das bebidas e eu naufraguei na multidão.

[Post 3953]

Revisão

Isso é empobrecer a língua


      Desrolhar. Desarrolhar. Será legítimo fazer tal emenda? Nem pensar. Tão correcto é a primeira como a segunda: são variantes. Ainda por cima, desarrolhar parece-se muito com o espanhol desarrollar. Outra coisa, claro, que desrolhar (que o Flip 7 não reconhece...) em espanhol é descorchar, pues ‘corcho’ es el tapón que se hace de corcho para las botellas, cántaros, etcétera. Sí, es un mensaje cifrado. Yo mismo desconozco su destinatario. Então agora comecei a escrever em espanhol?!

[Post 3946]

Revisão

Desunião ibérica


      E ainda um dia aparecerá um revisor com ganas de aspar qualquer vestígio de castelhanismo ou tudo que o semelhe na obra de Camilo. Dou-lhe já, a esse ignoto carrasco, como pábulo algumas frases mais suspeitas de Camilo, e coligidas somente nos Mistérios de Lisboa.
      «Imaginei-me com um braço quebrado, com uma gonilha ao pescoço, com oito dias de pão e água, com o ódio do padre eternamente irritado contra mim» (p. 52). Por causa da gonilha, que podia ser golilha, golilla. «A aparição improvisa da mãe a um filho, que sente pulsar no seu um coração cuja existência ignorava — uma surpresa assim, traz consigo um terror santo, que deve ser a preexistência do homem na presença de Deus» (p. 62). É ler Cervantes, se se quer ver «improvisos» e «improvisas». «Um, porém, prendia-me a atenção mais que os outros, por isso que o bruxulear da lâmpada projectava às vezes um relâmpago fugitivo por sobre a escuridade da moldura» (p. 84). Escuridad, obscuridad. «Minha mãe levantou-se, e caminhou com firmeza, mas calada, e recolhida, como se continuasse ainda a sua prática com os espíritos invisíveis» (p. 108). Não faltam, em Cervantes, pláticas, para nosso gosto (gusto?). «Apenas os vestígios da maceração desapareceram da face de D. Ângela de Lima, o conde, recebido em casa de seu futuro sogro, encontrou um sorriso nos lábios da filha» (p. 189). Também suspeito. Apenas, mal... «Alberto de Magalhães viera do Brasil. Quando, e donde fora, ninguém o sabia, nem ele dava lugar a perguntarem-lho» (p. 252). Ainda mais suspeito. «Vi-a chorar, cruzei as pernas, e roí as unhas com o donaire de um cínico enfastiado» (p. 305). A machadada final. Mas há mais, muito mais, mas esse negregado revisor sempre poderia socorrer-se da perspicácia do revisor antibrasileiro.

[Post 3918]

Crudelíssimo/cruelíssimo

Um Camilo corrigido


      Camilo escreveu «cruelíssimas», mas a revisora queria que fosse «crudelíssimas». «Estavam ambos suspensos, silenciosos, sublimes, e recopilando em um rápido pensamento uma síntese de dores cruelíssimas acordadas na reminiscência por aquele encontro» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, pp. 235-36).
      (E vejo que o Flip 7 não reconhece o verbo, agora caído em desuso, recopilar.)

[Post 3917]

«Ground Zero», de novo

Maior escolha


      Na edição de anteontem do Jornal de Notícias, podia ler-se que «2000 trabalhadores da construção civil dedicam-se à reconstrução da Zona Zero, sete dias por semana» («Tensões islâmicas marcam os nove anos do 11 de Setembro», Cláudia Luís, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 47). No Público, ainda continua a experimentar: «Promotor do diálogo inter-religioso, Akbar Ahmed defende salomonicamente que o polémico centro islâmico aprovado junto ao Ground Zero, em Nova Iorque, não deve ser construído naquele local — é um dos raros muçulmanos a ter esta posição» («Com a nova mesquita ao pé do Ground Zero, os muçulmanos estão a desafiar a identidade americana», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 10.09.2010, p. 4). «Em vez disso, vai encontrar-se com o imã responsável pelo controverso centro islâmico projectado para as imediações do Ground Zero, em Nova Iorque» («Pastor da Florida desiste de queimar o Corão e quer agora afastar mesquita do Ground Zero», Ana Fonseca Pereira, Público, 10.09.2010, p. 15). Tal como no Diário de Notícias: «A distância entre o futuro centro comunitário muçulmano e o ground zero é de 200 metros e esta proximidade gerou uma discussão sobre a responsabilidade do terrorismo islâmico no 11 de Setembro e os limites da tolerância religiosa na América» («Primeiras vítimas no caso da queima do Alcorão», Luís Naves, Diário de Notícias, 11.09.2010, p. 26). Mas também assim: «Perante a anunciada queima de exemplares do Alcorão, “represália” prévia de um pastor americano à hipotética construção de uma mesquita junto ao Ground Zero, por todo o Ocidente inúmeras almas horrorizadas perguntaram: o que aconteceria se muçulmanos queimassem a Bíblia ou a Tora?» («Os fogos do Alcorão», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 63).
      Um destes jornalistas é um dos 55 seguidores que tenho no Twitter, e por isso há-de, pelo menos, reflectir nesta falta de critério.

[Post 3872]

Revisão

Uma lição portuguesa


      O trivial: faltas de concordância, erros de pontuação e de ortografia, frases ilegíveis e falta de cultura. Um escreve sobre «um encontro que oporará dois crónicos candidatos», outro confunde «conjuntura» com «conjectura», aqueloutro escreve «beneficiência», estoutro assevera que a capital de Cabo Verde é a «Cidade da Praia», e por aí fora. «“Já se tornou um hábito”! Um hábito, dois hábitos, três hábitos...», murmura o revisor antibrasileiro. Contudo, o que o faz mesmo entrar em delírio é a palavra «soalheiro». Tratava-se de uma ficha de jogo, com o número de espectadores, a hora a que começou, faltas e outras informações de igual jaez e relevância. Naval-FC Porto. «Fim de tarde soalheiro», escreveu o inocente jornalista. Nisto, o revisor lança um grito triunfal e agarra no dicionário e quer ver, à viva força, no verbete «ensolarado», com que queria substituir aquele «soalheiro», algo como «diz-se do tempo em que há sol», mas, desobediente, o dicionário só lhe diz «que está ao sol; soalheiro». Já a matéria não nos obedece. Deve ser porque as ondas de calor interferem com as ondas telepáticas, refractando-as e dispersando-as no éter.

[Post 3787]

Revisão

Uma lição africana


      Mário Pinto de Andrade estava então radicado em Cabo Verde. Tinha mandado rever o texto de um discurso e, quando o revisor lhe entregou as provas, viu, satisfeito, que todas as desconcordâncias, todas as faltas de ortografia, todos os problemas de pontuação estavam resolvidos. Em boa hora (para ele, e má para o revisor), porém, aprofunda a análise e vê que o sapateiro, perdão, o revisor, se tinha atrevido a «corrigir-lhe» uma tirada marxista (ou será proudhoniana?). O intelectual africano tinha escrito «exploitation de l’homme par l’homme», mas o revisor quis que fosse «exploration de l’homme par l’homme». Não morreu então, mas explodiu, apopléctico, perguntando se o revisor já se atrevia a corrigi-lo e se não sabia que exploration se usa em relação à extracção de minério. Uns rapapés, umas humílimas escusas do revisor — e uma lição para a vida.

[Post 3786]

Nome de monumento

Espantoso


      «Através de uma confusão de fios telegráficos, avistei a catedral de Pedro-e-Paulo que, na bruma da manhã, parecia um pagode de uma Catai imaginária» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 193).
      É espantoso como por vezes nos jornais se escreve melhor do que nos livros: «Quando o grão-duque [Vladimir Kirillovich Romanov, primo do czar Nicolau II (1917–1992)] morreu, um ano mais tarde, a grã-duquesa [Leónida Romanov (1914–2010)] regressou a São Petersburgo para assistir aos serviços fúnebres realizados na Catedral de Pedro e Paulo, onde também ela será enterrada pelos primeiros dias de Junho» («A grã-duquesa vai voltar a casa», Leonor Pinhão, Domingo/Correio da Manhã, 30.05.2010, p. 39).

[Post 3546]

Revisores dos jornais

Ora tomem


      O provedor do The Washington Post, Andrew Alexander, lamentou que o número de erros ortográficos tenha aumentado no jornal. Já no Verão tinha escrito sobre o mesmo assunto, atribuindo então o problema ao facto de o jornal ter dispensado 30 dos 75 revisores que tinha. Agora, os revisores que ficaram têm trabalho a mais. E chovem as cartas dos leitores que protestam. O que esperavam? Também entre nós há editoras que dispensam os revisores, mas o produto final, indigno de ostentar o nome de livro, vale menos que uma bosta de búfalo na Índia.


[Post 3041]

Revisão

Até ao fim


      «Uma das primeiras foi a intervenção (algo aventurosa dada a proibição da sua entrada em França) no Congresso de Tours do Partido Socialista Francês (SFIO), em Dezembro de 1920, que por grande maioria decidiu a aceitação das “21 condições de admissão” na IC e a sua consequente transformação no Partido Comunista Francês» (Vozes Insubmissas. A História das Mulheres e dos Homens Que Lutaram pela Igualdade dos Sexos Quando Era Crime Fazê-lo, Isabel do Carmo e Lígia Amâncio. Revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2.ª ed., 2004, p. 179). «Adquire nestes anos um conhecimento aprofundado da teoria económica do marxismo e inicia uma colaboração regular na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit» (idem, ibidem, p. 185). «A intervenção no debate do ministerialismo foi ocasião de uma controvérsia com Jean Jaurès, que virá a ser o líder do Partido Socialista francês a partir da unificação deste, em 1905» (idem, ibidem, p. 188). «A primeira questão nasce em relação à greve geral desenvolvida em 1902 pelos trabalhadores belgas para a conquista do sufrágio universal, durante a qual o Partido Operário Belga estabelece um acordo parcial com o partido liberal, acordo que exclui as mulheres do direito de voto» (idem, ibidem, p. 189).
      Dúvidas, escusado seria dizê-lo, todos temos. Um revisor, porém, tem de tomar decisões e ser coerente até ao fim.

[Post 3034]

Revisão

Mais Cerebrum


      «Uma mesa como secretária, um par de cadeiras cromadas idênticas, que pareciam ter sido encomendadas através de um catálogo de muse, pilhas de CD, uma aguda ausência de livros» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, pp. 17-18). «Havia dois monitores de vídeo a funcionar, cada um deles com o Dr. Amen na imagem e um mostruário com os livros, as cassetes áudio, os cartazes informativos e os DVDs do Dr. Amen para serem vendidos» (p. 47). «“Um dos subtestes que usei para estudar os efeitos do MindSpa foi para a memória e os resultados subiram significativamente”, disse-me Ruth Olmstead, uma psicóloga que ajudou a desenvolver a máquina e que a usa na sua prática com crianças e, cada vez mais, com adultos com problemas de atenção, depois de eu ter passado cerca de quarenta minutos por dia, durante um mês, deitada no escuro com os olhos fechados por detrás dos “óculos” emissores de luz e ouvindo o que pareciam ser martelos pneumáticos e comboios do metropolitano, interrogando-me, não sobre se a minha memória estaria a melhorar, mas sobre se iria sofrer um ataque epiléptico, que, segundo li, era o que me poderia acontecer» (p. 22). «Não olhamos para o QI global, mas para um perfil de desempenho ao longo de sub-testes — explicou-me o Dr. Yaakov Stern, no dia em que eu o apanhei, depois de ter dado magníficas conferências no Instituto Neurológico de Columbia acerca da razão pela qual algumas pessoas têm longas vidas sem sinal de demência» (p. 68). «O Dr. Scott Small, com uma camisa verde-escura e uma gravata verde ainda mais escura — sem casaco — apressava-se ao longo da Rua 168, na alta de Manhattan, empurrando depois as portas de vidro do Instituto Neurológico da Universidade de Columbia» (p. 17). «Os resultados dos testes seriam mais reveladores, decidi, caminhando ao longo da Rua Trinta e Quatro, de este para oeste» (p. 84). «Quando tinha vinte e tal anos, passei alguns anos na Universidade de Oxford a ler romances do séc. XIX e a fazer tentativas aleatórias para escrever uma dissertação na área da teoria política» (p. 75). «De acordo com os investigadores da Duke University, dirigidos por um neurocientista com um nome maravilhosamente epónimo de Roberto Cabeza, os adultos mais velhos que têm tão bons desempenhos como os mais novos tendem “a recrutar a metade esquerda, de outro forma inútil, do córtex pré-frontal do seu cérebro de modo a manterem o seu desempenho”» (pp. 92-93).
      Os tradutores podem ser assim incoerentes, o trabalho principal deles é outro — mas não os revisores.

[Post 2961]

Revisor filológico

Que revisores são esses que...

      Acabo de saber pelo jornal O Figueirense que hoje à tarde, no Casino Figueira, António Bettencourt, que é o revisor filológico da obra, apresentará o último romance de António Lobo Antunes, Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar. Já tinha lido no diário i um artigo de Luís Leal Miranda («António Lobo Antunes: Anatomia de um romance», i, 1.10.2009) em que se falava da função deste revisor: «Para preservar a vontade do autor, todos os livros são passados a pente fino por um revisor filológico — de seu nome António Bettencourt. A função deste último par de olhos é verificar que todas as frases, parágrafos e páginas correspondem à última vontade do seu criador.» Bem, a minha função é mais a de verificar que todas as frases, parágrafos e páginas correspondem às regras gramaticais. A minha conversa é com a gramática e com os dicionários. Com quem conversa o revisor filológico?

[Post 2851]

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