«Prof/profe», de novo

Não custa nada

      «Os dez passos dos profs para o bloqueio» (Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 2).
      Cá está: se se grafar profe no singular, o que é mais conforme à língua portuguesa, teremos um plural regular: profes. Tentem.
                                                          
[Post 4485]

«Rinos»?

Menos sofisticados


      ... e por isso recomendam que os bebés com menos de um ano não vão para a creche. E porquê? «Il atrappe les virus des copains avec leur cortège de rhinos, bronchiolites, etc.» O problema é a tradução: como incluir, sem notas de rodapé, todas as inflamações e outras afecções em que entra como elemento de formação rin(o)? «Cortejo de rinos»? Ao contrário da língua francesa, e já aqui lembrámos mais de uma vez esta característica, o português é um pouco avesso a reduções vocabulares.

[Post 3662]

Profe/profes

Retrocesso


      «Professores da região de Lisboa, Algarve e Santarém foram aconselhados a não usar havaianas, calções de praia, decotes e sapatos de salto alto durante os exames nacionais» («‘Profs’ aconselhados a não usar chinelos», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 23.06.2010, p. 14).
      No dia 1 de Março deste ano, dei aqui conta da que se pode considerar a melhor grafia desta redução — profe/profes —, e a fonte era o mesmíssimo Diário de Notícias. Entretanto, esqueceram-se. À conta disso, vejam como a grafaram: ‘profs’.
      Nos livros verifica-se o mesmo: «Meteram-me numa cadeira, depois apareceu um prof e Speedicut fez jus ao seu nome, dando às de vila-diogo» (Flashman — A Odisseia de Um Cobarde, George MacDonald Fraser. Tradução de Susana Serrão e revisão de Sofia Dias. Parede: Saída de Emergência, 2010, p. 18).

[Post 3634]

Redução vocabular: «lipo»

Gosto


      Para quem quer fazer uma lipoaspiração, a revista Activa de Abril dava uma dica: «Exija que o procedimento seja feito por um cirurgião experiente na técnica escolhida.» Como é que este conselho se põe em prática, conseguem dizer-me? Bem, mas não é para se rirem como eu me ri que aqui trago o artigo. Trago-o pelo título: «As novas lipos» (Isabel Vidal, Activa, Abril de 2010, p. 100). Acho que só um grande grau de familiaridade com esta realidade pode levar um falante a referir-se assim à lipoaspiração. É mais uma redução vocabular. O vocábulo em si, como já aqui vimos, por vezes também oferece alguma dificuldade.

[Post 3591]

Ortografia: «hétero»

LGBT


      «Dez filmes gay que todos os hetero deviam ver antes de morrer» (Luís Leal Miranda, i, 15.05.2009, p. 48). Ao optar-se por escrever assim, substantivando um elemento de formação de palavras, neste caso hetero- (do grego héteros, «outro; diferente»), temos de ter consciência de que é perante uma palavra plena que ficamos, logo, flexionável. Ou o jornalista escreve ou diz «dois olho» ou «dois palerma»? Então, já vê. Não é a primeira vez que aqui falo deste processo linguístico denominado redução. Lembro-me, em particular, do termo híper, redução de «supermercado». A acentuação destas reduções segue a regra oficial, pelo que será hétero(s), esdrúxulo.
      Também nas traduções, infelizmente, se vê o mesmo erro: «Em geral ficam um rapaz hetero, talvez um homo e umas nove raparigas» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 15).

A propósito de «manif», de novo

E ainda

      Faltou dizer algo importante sobre a redução vocabular «manif», que abordei aqui. Sim, senhores, é palavra plena e não abreviatura, como o Diário de Notícias grafou, mas — e a flexão em número? Não será manif/manifs, claro. (Nem será, caro Fernando, prof/profs.) Vamos lá afeiçoá-las ao português: manife, profe. Agora sim, podemos pluralizá-las correctamente: manifes, profes. É a opção do Expresso. Será a opção de muitas pessoas a partir de hoje.

Redução vocabular


Manif

      A palavra «manif» não é uma abreviatura. Logo, não pode ter ponto de abreviatura. Nem precisa de ter aspas, como este jornal já fez: «Costa foi “apertado” pela convocatória da manif que não tinha assinado», lia-se na edição do Diário de Notícias de 18.4.2008. Trata-se de um processo de abreviação ou redução vocabular, como se vê nas palavras «foto», «metro», «micro», «moto», «pneu», «porno», «quilo», etc. E quem é que, excepto na metalinguagem, usa aspas nestas palavras?


[Ver também aqui e aqui.]

Léxico: «psi»

Mas existe
     


      Há, fora dos dicionários, palavras muito mais vivas e usadas do que milhares de outras que jazem nesses vastos cemitérios que são justamente os dicionários. A inclusão de determinado vocábulo nos dicionários e vocabulários, já o tenho aqui defendido, não pode ser o único nem sequer o principal critério para aferirmos da legitimidade do seu uso. Abra-se qualquer dicionário no verbete «psi». Que podemos ler aí? Pois que psi é um substantivo masculino e significa a vigésima terceira letra do alfabeto grego ψ Ψ. No quotidiano, o que podemos ver é que «psi» também se usa — é ouvir-se o Prof. Júlio Machado Vaz, por exemplo — no sentido de qualquer (psi) ou todos (psis) os terapeutas da psique: psicólogos, psicanalistas e psicoterapeutas. A imprensa também usa o vocábulo neste sentido, embora ainda com o escusado cordão sanitário das aspas: «Na cultura popular, o uso e abuso do sexo terá uma explicação científica. Ironicamente, o pai da psicanálise decidiu praticar a abstinência após o nascimento dos seus seis filhos, como medida de controlo de natalidade. Para os “psis” com tradição analítica, a sexualidade banalizou-se (ao ponto de se discutir quantas vezes se deve fazer) e é usada como arma de arremesso ou antídoto falível para afugentar o mal-estar» (Clara Soares, Visão, n.º 686, de 27 de Abril de 2006). O uso de psi nesta acepção teve origem na língua francesa, muito atreita a reduções, como já aqui referi. Começou, nesta língua, por se usar somente no registo familiar, e muitas vezes com um sentido irónico ou pejorativo. Mais tarde, no início da década de 1970, passou a significar «spécialiste de psychologie; en partic., spécialiste de psychothérapie, de psychiatrie» (in TLFI). Sem ironia.


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