Pronúncia: «chanceler»

Mas que raio...


      Então, lá vou ter de dizer isto mais uma vez: o que se passa para que muitos dos nossos jornalistas não saibam pronunciar correctamente a palavra «chanceler»? A última vez que sofreu uma sonora silabada foi pela boca da jornalista Sandra Sousa, no Jornal 2, da RTP2, na segunda-feira da semana passada. Mas qual é a dificuldade? E não ouvem os outros falantes?

[Texto 22 338]

Uma «direcção» esquisita

Vamos silenciá-la

     Para descansar da questão galega, fui à Decathlon, em Alfragide. Embora conheça o caminho de olhos fechados, liguei o GPS, um TomTom, porque a última vez que o usara não funcionava bem. A própria palavra «Decathlon» não sai muito escorreita da voz clara e bem audível de Joana, uma das vozes por que podemos optar, mas isso é o menos, desculpável até, pois trata-se de uma indicação secundária. Muito pior é não abrir a vogal de «direcção», muito longe de /dirɛsɐ̃w/, conforme transcrição fonética do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. Faz impressão. A viagem já não corre bem. Não serão (diabos os levem) estragos causados pelo Acordo Ortográfico de 1990?

[Texto 3466]

Pronúncia: «Garrett»

Ninguém se mete com Garrett

      Na Antena 1, estão hoje a recordar o incêndio do Chiado, ocorrido em 1988. E como pronunciam o nome Garrett? Pois *Garré. Já aqui lembrámos que Garrett dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.
      Escreveu Gonçalves Viana: «Se o nome fosse francês, que não é, nenhum francês, ao vê-lo escrito com dois tt finais, deixaria de pronunciá-lo gàréte [garréte]. A extravagante pronunciação garré é que não pertence a língua nenhuma conhecida, e só prima pelo ridícula que é.» E mais, acrescenta Gonçalves Viana, «o próprio poeta sempre pronunciou o seu apelido como se em português se escrevesse garréte, com a surdo na primeira sílaba, o acento tónico na 2.ª, e o t perfeitamente proferido. Assim lho ouvi eu várias vezes, assim o pronunciavam todos os seus contemporâneos».
[Texto 3204]

Pronúncia de «intoxicação»

Pronúncia intoxicada

      «O restaurante espanhol El Celler de Can Roca, de Girona, foi eleito o melhor do mundo. O restaurante catalão é gerido na sala e na cozinha por três irmãos e tem três estrelas no Guia Michelin. Foi premiado numa selecção dos 50 melhores restaurantes a nível internacional realizada pela conceituada revista britânica Restaurant. Nos últimos dois anos, ocupou a segunda posição. O restaurante Noma, da Dinamarca, que liderou a classificação nos últimos três anos, perdeu o lugar em Fevereiro quando 63 clientes sofreram uma intoxicação alimentar» (Carla Trafaria, Bom Dia Portugal, 30.04.2013).
      Já todos ouvimos a palavra «intoxicação» ser erradamente pronunciada, como se o x valesse ch e não ks (como em anexo, crucifixo, maxilar, prolixo...). Ora, desta vez, a jornalista optou por uma terceira forma: /intossicação/. Se a conhecerem pessoalmente, digam-lhe.
[Texto 2795]

«Corrector/corretor»

Por mim

      José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista, no Telejornal de ontem (20h41): «As tentativas de manipulação da taxa Libor pelo UBS envolveram o pagamento de subornos a vários correctores e podem vir a provocar outros processos contra o banco, caso os clientes afectados reclamem.» Grafo assim, com c, a palavra para indicar a forma como o jornalista a pronunciou, mas a verdade é que, também na RTP, deceparam os cc e os pp, pelo que seja o operador na bolsa seja o que corrige, para eles é tudo igual. O Prontuário Sonoro, também da RTP, regista a pronúncia de «corretor» (/kurrétór/), um duplo disparate. Não serei eu, com toda a certeza, que lhes enviarei mais correcções ou sugestões, pois vai para um mês que lhes comuniquei o erro crassíssimo do «uxorcida» e até hoje não o corrigiram. Uma vergonha. Talvez aquilo melhore quando for comprado pela Newshold.
[Texto 2447]

Pronúncia de «cônjuge»

Impressionante!

      E no mesmo Jornal das 8 da TVI, a jornalista Judite de Sousa contribuiu activamente para divulgar entre as massas uma calinada das grandes: «Uma marcha que acontece no dia em que as Mulheres Socialistas apelaram à mudança da lei que permite ao assassino de um cônjugue ser herdeiro da vítima e ter direito a pensão de sobrevivência.» Tão experiente, e sai-nos com uma destas. Saiba a jornalista que essa palavra não existe. Existe «cônjuge», que só tem uma forma de ser pronunciada: /côn–ju–je/. Um conselho: consulte o Prontuário Sonoro da RTP.
      Aproveitemos também para lembrar que «cônjuge» é um substantivo sobrecomum, isto é, tem um género determinado e invariável, masculino, neste caso, para designar as pessoas de um ou outro sexo: seja homem ou mulher, diz-se sempre «o cônjuge».
[Texto 2371]

Pronúncia: «ressurreição»

Bem nos parecia

      Já uma vez, no Assim Mesmo, aqui, tratei da pronúncia do vocábulo «ressurreição», assunto de que o padre Américo F. Alves não pôde fugir: «Ressurreição deve pronunciar “ressurreição”, com “e” mudo. Nada justifica que o digníssimo vocábulo se aproxime, fonologicamente, de “rèpública” (com e bem aberto). Enquanto re de república vem do substantivo res-rei, o re de ressurreição é apenas um prefixo, muito frequente na formação de palavras, como: repetição, ressurgir, relembrar, recomeçar, recolher, etc., etc. Não existe o verbo rèssurgir nem o substantivo rèssurgimento; mas ressurgir, ressurgimento, ressuscitar, ressurreição» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, p. 80).

[Texto 1294]

Lloret de Mar

Ainda dizem que 
são todos iguais

      Ela sabe e até ensina: «Praia, piscina, álcool, drogas e discotecas. Há quem não durma e teste os limites. Estudantes são unânimes: estes dias são únicos. O maior defeito de Lloret de Mar (que se diz lhuréte, já agora) é que a noite “acaba cedo”» («“Estamos aqui para apanhar um esgotamento”», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 28). Mas o que ouvimos no Forvo não pode ser transcrito como «Lhuréte».
[Texto 1289]

«Anóxia/anoxia»

Ao seu dispor

      «Uma enorme bolha preta quase tapa a vista de quem entra no Salão Nobre. “É uma bolha de desinfestação por anóxia, perfeitamente segura para os visitantes, onde o mobiliário é colocado para matar os bichinhos da madeira”, esclarece Nunes Pereira [director do Palácio da Pena]» («Aberto para obras», Marina Marques, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 29).
      «Anoxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso», escreveu certa vez D’ Silvas Filho. Não faltará quem afirme: «Anóxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso.» Alguns dicionários registam as duas formas.
[Texto 1101]

Como vai o ensino

A escola moderna

      Acabou há minutos o programa Em Nome do Ouvinte, na Antena 1, que teve como convidada a linguista Regina Rocha. A propósito de dúvidas, a linguista disse que ainda há pouco um colega, professor de Direito no ensino secundário, lhe tinha perguntado se se dizia /prolicho/ ou /prolicso/.
[Texto 846]

Léxico: «recuperador»

Boa noite, Zé

      «Os pescadores foram salvos pelos recuperadores-salvadores da Marinha. Esses militares descansam na Base Aérea do Montijo, onde se encontra a Sandra Claudino» (José Rodrigues dos Santos, Telejornal, 2.12.2011). A repórter entrevistou o comandante do helicóptero usado no salvamento e o recuperador. Antes, porém, disse: «Boa noite, Zé. Estamos no hangar da Base Militar aqui do Montijo, como disseste.» «Recuperador», de que já nos ocupámos aqui, continua, nesta acepção, ausente dos dicionários. Quanto a «hangar», foi alvo de uma silabada da repórter, que a pronunciou como se se tratasse de uma palavra grave, quando é aguda ou oxítona. É grave, porque é cacoépia. Cara Sandra Claudino, lembre-se, já não digo da palavra «Gibraltar», porque também é habitualmente mal pronunciada, mas de «altar».

[Texto 754]

Garrett

Digam-lhe, que ela é nova

      «No Cartaxo, [o Presidente da República] citou uma conversa de Almeida Garrett com o dono do café da terra para deixar um aviso.» E a repórter da RTP, Daniela Santiago, quis que o nome do escritor rimasse com café: Garré. Este bem dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.
[Texto 558]

Acordo Ortográfico

Tu és Pedro, e sobre esta pedra

      Há minutos, Pedro Rolo Duarte, no programa Hotel Babilónia, da Antena 1, usou a palavra «estupefacção». E pronunciou — coisa que eu nunca tinha ouvido em dias da minha vida — sonoramente o primeiro c: estupefaCção. Estupefacto fiquei eu. Bem, sendo assim, não está capaz de aplicar as regras do Acordo Ortográfico. Agora leia-se esta afirmação do consultor D’Silvas Filho no Ciberdúvidas: «Os cientistas que estudaram o novo AO resolveram uniformizar foneticamente as sequências consonânticas. Assim, consegue-se mais facilmente saber se a consoante se escreve ou não: cai se for muda na pronúncia. Por exemplo, em Portugal, deve escrever-se estupefacto porque o c se pronuncia, mas estupefação porque nesta palavra já não se pronuncia o c.» (A primeira frase é um tudo-nada esotérica, acho eu, e não é tanto pelos «cientistas».)
[Texto 489]

Pronúncia: «euro»

Mais um

      Está agora a ser emitido, na Antena 1, o programa Visão Global, que tem como comentador permanente o ex-embaixador José Cutileiro. A moeda da União Europeia foi já referida mais de uma vez. Ora, José Cutileiro pronuncia a vogal da sílaba átona de «euro» como u. Eu tinha escrito, há uns tempos, que a jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, devia ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com o a soar, dada a posição de átona final, como u (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...).

[Texto 181]

«Estereótipo» e «inêxito»

O interesse dos debates

      Maria Flor Pedroso acaba de usar, na Antena 1, a palavra «estereótipo», mas deslocou a tónica para a sílaba -ti-, e logo, talvez também escreva «estereotipo». Não demorará muito e todos os dicionários registarão, sem indicação de forma preferencial, as duas variantes.
      Estes debates das legislativas são também uma fonte de interesse linguístico. Ontem, Bagão Félix falava em «êxitos e inêxitos». «Inêxito» não é nada de novo, mas ouve-se muito poucas vezes. Poderá ter-nos chegado do Brasil na década de 1950. «Ser ou não ser, perseguindo com irremediável inêxito um critério de opção sem que, mau grado o inêxito, se possa desistir — é trágico: Antero» (Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda, Mário Sacramento. Porto: Editorial Inova, 1970, p. 193).
[Texto 100]

Como se fala na rádio

Aljubarrota rima com bancarrota

      «À semelhança da padeira de Aljubarrota ou da heroína da Sertã, esta é uma figura em torno da qual a História e a lenda também se confundem. Segundo a tradição popular, no local onde se encontra Ferreira do Alentejo existia no século IV uma próspera e pacata povoação chamada Siga. Devido à sua posição estratégica no Baixo Alentejo, a Siga romana era muito cobiçada por hordes de bárbaros que se aventuravam nessa época por toda a Península Ibérica» (Histórias Assim Mesmo, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 11.05.2011).
      Singa, e não Siga, como se pode ler, por exemplo, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no dicionário de Bluteau. «Hordes» em francês, pois claro, que em português é hordas, que é o nome que se dá a tribos de tártaros ou de outros nómadas.
      E agora o que não se vê: o o do topónimo Aljubarrota é fechado, /Aljubarrôta/, e não aberto, como Mafalda Lopes da Costa pronunciou. Costa Lima, Vasco Botelho de Amaral, Rebelo Gonçalves, José Manuel de Castro Pinto, entre outros, é a pronúncia que registam ou recomendam.
[Texto 3]

Pronúncia

Ainda ganha um prémio

      É quase inacreditável, eu sei, mas basta ouvir: na emissão de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (Antena 1, 8.04.2011), dedicado à lenda das maias de Portalegre, Mafalda Lopes da Costa, das seis vezes que disse a palavra «Portalegre», quatro soaram «Porto Alegre». (Ainda se se tratasse de Estremoz...) A determinada altura, disse também que o rei Lísias foi ver da filha, Amaia, «e só encontrou o corpo».

[Post 4717]

«Sede de poder»

Corta!

      «Em geral», escreveu aqui uma vez Montexto, «na fala só a repetição torna a irregularidade ou o deslize realmente censurável.» Estamos de acordo. Nada disso, porém, se aplica ao programa Lugares Comuns (Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 18.04.2011), cujo guião é escrito antecipadamente e pode ser revisto e, ao que julgo, não sendo em directo, pode ser regravado. A emissão de hoje era sobre a expressão «jovem turco». Mafalda Lopes da Costa explicava então que é aquele que tem «sède de poder». Assim mesmo, /sède/local onde funciona um tribunal, uma administração ou um governo, local onde uma instituição tem a sua direcção ou administração... Não, não, não, cara Mafalda Lopes da Costa: /sêde/, desejo vivo, ardente, imoderado — de poder, de cultura, de vingança...

[Post 4700]

Pronúncia. Dissimilação

Afinal, é de mau gosto

      Comecemos por dizer, com Vasco Botelho de Amaral, que as disputas à volta da pronúncia são insensatas. E façamos como ele: falemos, mais uma vez, de pronúncia. No último Câmara Clara, com o tema «Gainsbourg e os outros franceses», uma das obras referidas foi Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro. Paula Moura Pinheiro, no que pode ter sido lapso, mas isso não interessa, pronunciou a palavra «príncipes» sem dissimilação. A pronúncia normal, como se sabe, é com dissimilação, tal como se faz com os vocábulos «vizinho», «ministro» e outros. Só refiro o caso porque ainda na semana que passou uma professora de Português me confessava que nunca tinha compreendido porque se havia de pronunciar dessa forma. Vou revelar-lhe um segredo, cara M.: não tem de pronunciar dessa forma. «Não quere isto dizer que os que pertençam a regiões, onde fique natural a manutenção dos ii, sejam obrigados à dissimilação. Apenas o que me parece especioso é, sob color de gôsto de sonoridade, cair-se no mau gôsto de ajanotar a fala quotidiana» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 266).

[Post 4533]

«Herculano», pronúncia

Repita lá

      No programa Páginas de Português desta semana, que acabei de ouvir, alguém (um actor, decerto) leu a carta premiada do mês, na rubrica «Uma Carta É Uma Alegria da Terra». O texto referia Alexandre Herculano. «Olha o Hérculano...», ouviu-se. Leiam e digam-lhe, por caridade.

[Post 4532]


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