Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]

Outro «ad hoc»

Nada a fazer

      «Na informação: o programa não fôra integralmente avançado e, na sala, havia uma (uma!) folha A4 com o nome das obras escrito à mão! Além disso, houve alterações de última hora, “anunciadas” (com aspas, pois foi quase inaudível) por Paulo Branco. Na preparação: o ensemble reunido para o Szymanowski (a cantora prevista afinal não veio...) pareceu “tresmalhado”, claramente subensaiado e visivelmente ad-hoc» («Informalidade não quer dizer ‘à toa’», B. M., Diário de Notícias, 19.11.2013, p. 47).
      É claramente melhor do que o inacreditável «ADOC» da colega, mas ainda tem ali uma excrescência: o hífen. O mais-que-perfeito «fora» não tem acento circunflexo. Não é que não precisasse, mas não leva.

[Texto 3546]

«Lateranense/latranense»

Quem manda...

      «Mas eu não quero “Concílio Lateranense”», mandou o autor dizer. «Como é que de “Latrão” o leitor vai deduzir “lateranense”? Tem de ser “latranense”.» Está bem, mas — e o latim? Tardio, decerto, mas latim. Desta língua é que nos chegou directamente «lateranense» para nos referirmos à Igreja de S. João de Latrão ou a qualquer dos cinco concílios ecuménicos que se realizaram nesta basílica (ou catedral? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lê-se que é catedral). Bem sei que não prova quase nada, mas não conheço nenhum dicionário que registe essa forma nascida na língua portuguesa.
      Entretanto, caros leitores espanhóis, acabei de mandar uma mensagem de correio electrónico para a vossa Real Academia, pois na entrada «lateranense» do dicionário da RAE aparece isto: «Perteneciente o relativo a la basílica de San Juan de Letrán, en Roma, o al concilio allí celebrado. Concilio lateranense. Padres lateranenses.»
[Texto 3542]

É latim!

Também isto merecia um estudo

      Acabei de ouvir no programa de José Candeias, na Antena 1, uma entrevista telefónica a uma estudante de doutoramento, Carolina Doran, que está a desenvolver o projecto, sobre tomada de decisão colectiva, na Universidade de Bristol. Apesar de estar lá vai para dois anos, ia eu pensando, nem uma cedência ou contágio do inglês. Contudo, quando disse o nome científico (em latim, não se esqueçam) da espécie das formigas com que está a trabalhar, Temnothorax albipennis, parecia que estava a seguir, com aplicação e zelo de neófito, os exercícios do «How to Speak in a British Accent».
[Texto 3526]

«Amicus curiae»

Conhecíamos os da onça

      «O Procure Saber [grupo composto por Roberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros] deve entrar no processo como “amicus curiae” (parte interessada). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a ONG Artigo 19 já atuam na ação por meio do mesmo dispositivo» («Direito à privacidade divide advogados», Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      No glossário jurídico do sítio do Supremo Tribunal Federal (STF), lá está a definição: «Intervenção assistencial em processos de controle de constitucionalidade por parte de entidades que tenham representatividade adequada para se manifestar nos autos sobre questão de direito pertinente à controvérsia constitucional. Não são partes dos processos; atuam apenas como interessados na causa. Plural: Amici curiae (amigos da Corte).»
[Texto 3405]

«Personæ non gratæ»

Não se meta nisso

      Milhares de professores contratados não colocados irão hoje inscrever-se nos centros de emprego. Vai daí, Mário Nogueira, da FENPROF, põe-se a falar em latim. Mal: «Vem confirmar que o Ministério da Educação tem os professores contratados como personas non gratas. E o que ainda é mais estranho e curioso é o próprio Ministério da Educação vir dizer que até tem mais de seis mil horários ainda para preencher.»
      O plural da expressão é personæ non gratæ. É difícil? Bem, ninguém o manda pôr-se a falar em latim, acho eu. Ou isso também conta para o regime de ponderação curricular?
[Texto 3262]

«O Opus Dei»

É obra

      «Na comissão de oito sábios nomeada em Julho pelo Papa Francisco para limpar a estrutura económica e administrativa do Vaticano há apenas um italiano. Na verdade, uma italiana, uma jovem laica de 30 anos, especialista em relações públicas e ligada à Opus Dei, bonita e, surpreendentemente, com um historial de declarações bombásticas no Twitter sobre a política do Vaticano, até sobre o próprio secretário de Estado, que estão a causar escândalo na Santa Sé» («A conselheira do Papa Francisco que falava de mais no Twitter», Clara Barata, Público, 24.08.2013, p. 24).
      Há livros de estilo de certas publicações que lembram — e lembram muito bem — que Opus Dei é do género masculino. E a fala-barato (ou escreve-barato, o que sempre é melhor, porque basta não a lermos) da ítalo-marroquina não é assim tão bonita, cara Clara Barata. Enfim, depende da perspectiva. Do perfil. Ao longe, talvez. Karima El Mahroug, a Rubyzinha, que ia atirando Berlusconi para a prisão, é mais bonita. E não escreve.
[Texto 3231]

«Deo optimo maximo»

É o que cada um quiser

      O português Pedro Paulo, barman a trabalhar no Hotel One Aldwych, em Londres, ganhou um dos mais importantes concursos de cocktails do mundo, o UKBG National Cocktail Competition, patrocinado pelo licor francês Bénédictine. O nome da bebida que preparou, One DOM, é também uma mistura: do nome do hotel e da divisa dos Beneditinos, Deo optimo maximo, mas que normalmente só é conhecida pela abreviatura D. O. M., inscrita nas garrafas daquele licor. «A Deus, que é muito bom e muito grande» é uma das possíveis traduções. Para Pedro Paulo, porém, é antes «Para Deus, para os mais corajosos, para os mais audazes».
[Texto 3169]

«Ex ante» e «ex post»

Não se é latim

      «Esta análise», escreve o nosso autor, «deverá ser efectuada tanto ex-ante, ou seja, antes da adopção do projecto como condição necessária à sua adopção, como ex-post, quer dizer, depois da sua execução, com vista a determinar possíveis desvios e a actualizar a avaliação.»
      Nem é preciso ser economista para ver que devia ser assim — mas será que é assim? Bem, mas não estamos aqui para discutir as PPP, mas a ortografia. Trata-se de latinismos, e por isso não levam hífen: ex ante e ex post. O Dicionário Houaiss regista ambas as locuções adjectivas. Ex ante: «baseado em suposição e prognóstico, sendo fundamentalmente subjectivo e estimativo». Ex post: «baseado em conhecimento, observação, análise, sendo fundamentalmente objectivo e factual».
[Texto 3107]

«Indecoris causa»

Tem graça, mas o título?

      «Há algumas dúvidas sobre a origem deste pensamento. Provou-se que não é nem de Miguel Relvas (doutorado “indecoris causa” por várias academias) nem de Milton Friedman, o papa dos mercados, nem sequer dos dois alunos de Excel e estatísticas falsas Rogoff e Reinhart (não confundir com o inventor das pílulas de alho que te ajudam a respirar melhor, só não respires para cima de mim)» («Irrevogável principiante velho», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 7.07.2013, p. 33).
[Texto 3060]

Quando calha, latim

Metades

     «Se esta tragédia fosse ficção — e parece que é — eu escrevia-lhe um final trágico como é norma das tragédias. Um suicídio, político ou literal (tanto faz), mas heróico e cheio de dignidade. Como o de Brutus, quando se retirou para a montanha depois de ser derrotado pelas legiões de Octávio e Marco António. Ou como o de Cato, que preferiu morrer a ser perdoado por César» («Um fim trágico como nas tragédias», Pedro Bidarra, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 17).
      Dois nomes em latim, dois em português. Nada mal, equidade absoluta. Só um génio como Camilo é que podia escrever inteiramente em português: «Os vocábulos liberdade, virtude, ciência e progresso das luzes, felicidade do género humano, saem-lhe continuamente da boca, mas um tal Bruto é um abjecto adulador; paixões, vergonhas devoram um tal Catão; tal apóstolo da tolerância é o mais intolerante dos mortais, e tal adorador da humanidade é um sanguinário perseguidor» (Os Mártires, Chateaubriand. Tradução de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1979, p. 113).
[Texto 3058]

«Auditor júnior»

Hierarquias

      «No início dos anos 1970, ser “auditor júnior” neste ramo era, grosso modo, ser “moço de recados”, “paquete”, “tarefeiro”, apurou o DN/Dinheiro Vivo» («Franquelim Alves começou como paquete aos 16 anos», João Pedro Henriques, Miguel Marujo e Paula Sá, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 10).
      Aqui, «auditor» é empregado na primeira acepção que os dicionários acolhem: o que ouve. Neste caso, ouvia os recados. Com 16 anos, que mais podia fazer? (Para mim, grosso modo ainda é latim.)

[Texto 2584]

Com o latim me enganas

A importância de se chamar Nemo

      «A decisão de chamar Nemo à tempestade de neve que atingiu os EUA e o Canadá está a causar polémica. Tudo porque o nome não é oficial, como acontece com os furacões, tendo sido escolhido pelo Weather Channel (o canal de meteorologia dos EUA). E porque a primeira ideia que vem à cabeça das pessoas quando se fala em Nemo é o peixe do filme de animação da Pixar, À Procura de Nemo. Na realidade, explicou ao The New York Times o responsável pelo nome, Bryan Norcross, a inspiração é a origem latina da palavra, que significa “ninguém”, como o Capitão Nemo, do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne» («Tempestade ‘Nemo’ gera polémica», Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
[Texto 2578]

«In corpore»

Tão cultos...

      «Um homem de 39 anos foi detido de Lisboa com 3400 gramas de cocaína no interior do organismo. “Esta foi a maior apreensão de cocaína transportada in corpore por um único indivíduo alguma vez detetada pelas autoridades em território português”, explicou a Polícia Judiciária (PJ) em comunicado» («Traficante que engoliu 3,4 quilos de droga bate recorde», Luís Fontes, Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 21).
[Texto 2271]

«Sine data»

Para variar

      «A empreitada, orçada em 16 milhões de euros, visa permitir que circulem na Linha Verde comboios com seis carruagens, algo que, uma vez prolongado o cais, vai continuar a não ser possível. Isto porque, para que tal acontecesse, seria necessário que a estação de Arroios fosse também intervencionada – um investimento que foi adiado sine data. [...] É que, para que possam efetivamente circular na Linha Verde comboios de seis carruagens, também a estação de Arroios terá de ser intervencionada – uma empreitada que foi adiada sine data pelos conhecidos constrangimentos financeiros do Metropolitano de Lisboa, E. P. E., bem como da conjuntura económica do País» («Obras no Areeiro sofrem novo atraso e só vão acabar em 2014», Inês Banha, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 21).
      Quase nunca se vê esta locução latina — que significa o mesmo que sine die —, mas desta vez foi logo um par no mesmo texto. (A jornalista gostou tanto da locução, que quase repetiu a frase. Ninguém deu por nada.) Agora vejam lá é como a pronunciam.
[Texto 2194]

Latim

Tinha de ser

      A repórter Arlinda Brandão, da RTP, foi ouvir Vítor Ferreira, o organizador da exposição O Mundo dos Dinossauros, na Cordoaria Nacional. «Aqui de novo o Velociraptor, não é, e um dos animais, que era o Spinosaurus, um dos animais mais violentos da altura, apesar de não ser dos maiores, porque, como pode ver pela dentição, era uma dentição onde encaixava [sic] os dentes perfeitamente e entrava uns dentro dos outros e portanto a vítima era esmagada.» E como é que o entrevistado pronunciou o nome do dinossauro? À inglesa, pois claro.
[Texto 600]

Tradução: «quinquies»

E outro

      «De forma muy especial, el art. 391-quinquies cpp, etc.», lia-se no original. E os tradutores, agora aos pares, verteram assim: «De forma muito especial, o art. 391.º -quinque CPP, etc.» Há quem afirme, mas eu nunca vi, que também entre nós se usam os numerais (bis, ter, quater, quinquies, sexies...) latinos para as alíneas, mas vulgares são estas. Logo, «art. 391.º, e), do CPP».
[Texto 550]

«Alma mater»

De alma penada

      Se alguém apresenta certa característica peculiar, dizemos que é a sua marca de água (ou marca d’água, como decerto os Brasileiros preferirão) ou a sua marca registada? Pois é, consultem um dicionário, por exemplo, o da Porto Editora, e depois dizem-me. Ah, as expressões... No Império dos Sentidos, da Antena 2, Paulo Alves Guerra volta não volta refere-se à pessoa que criou ou dinamiza um determinado acontecimento cultural (festival de música, por exemplo), agrupamento (Shostakovich Ensemble, por exemplo), etc., como a alma mater do referido acontecimento ou agrupamento. Caro Paulo Alves Guerra, então a expressão latina não é usada hoje em dia exclusivamente para designar a universidade que nos formou? A mãe que nos alimentou ou nutriu. A expressão começou a ser usada na língua inglesa logo no início do século XVII, ao que parece. A propósito, vale a pena lembrar que alumnus (alumni) em inglês, não é aluno — mas ex-aluno. Mais um falso amigo a fazer escorregar em falsas traduções.
[Texto 541]

«Stricto sensu/statu quo»

Não liguem

      Acabo de ler aqui numa revisão, e mais de uma vez, strictu sensu e status quo. É demasiado latim derrancado para ficarmos calados ou quietos. Do último já tinha tratado, tendo então escrito que devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o «estado em que as coisas estavam antes da guerra». Quanto ao primeiro, é stricto sensu que devemos escrever, também no caso ablativo. É o inglês a ensinar-nos a escrever latim... (Numa reunião em que estive recentemente, com economistas e engenheiros, nem sequer um dizia outra coisa que não fosse «aitem»...) Leio, com estupefacção, na página 182 da 2.ª do Livro de Estilo do Público, que é strictu sensu que se deve escrever. Na versão em linha, ainda não foi — nem nunca será, decerto — corrigido o erro, que, ironicamente, se encontra na secção «Erros e vícios de linguagem mais frequentes». Aí está uma boa ilustração.
[Texto 294]

«Grosso modo»

Grosserias

      «Daí também que a região onde os Mouros se estabeleceram tenha ficado conhecida como a região saloia. E apesar de não ser muito clara nem bem delimitada, esta zona abarca por tradição, e grosso modo, Mafra, Sintra e Loures» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 30.03.2011).
      A pronúncia da expressão latina grosso modo é a peculiar do latim: /gròsso mòdo/. Se Mafalda Lopes da Costa ou quem quer que seja pretender falar em português, usará, para dizer o mesmo, «aproximadamente», «mais coisa, menos coisa», etc. Bem sei que no Prontuário Sonoro se pronuncia como a jornalista o fez. Na desgraça é sempre bom não estarmos sós, dizem os egoístas.

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