Palavras que podíamos ter: «meridiação»

Não aconteceu


      Podíamos ter, em vez de «sesta» (afinal, tão espanhola como chinesa), «meridiação». Costuma dizer-se que a sesta é um costume tipicamente espanhol, mas a verdade é bem menos folclórica. Dormir um pouco depois do almoço é um hábito comum a muitos povos, sobretudo nas regiões mais quentes. Os próprios Romanos já o praticavam e tinham até um nome para esse repouso do meio-dia: merīdiātiō, -ōnis (embora não seja rigoroso afirmar, como já vi, que o termo foi criado por Plínio, o Jovem, ou por Suetónio; ambos apenas o documentam). Se o português tivesse herdado esse vocábulo latino, hoje talvez disséssemos, muito naturalmente: «Vou fazer a minha meridiação.» A forma seria perfeitamente regular. A língua, porém, seguiu outro caminho. Acabámos por ficar com sesta, palavra que remonta à hora sexta romana, a hora do dia em que tradicionalmente se interrompia o trabalho para descansar. A «meridiação» nunca chegou a fazer esse percurso, mas bem podia tê-lo feito. A «meridiação» nunca chegou a nascer em português. Nem em nenhuma outra língua.

[Texto 23 359]

Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]

Outro «ad hoc»

Nada a fazer

      «Na informação: o programa não fôra integralmente avançado e, na sala, havia uma (uma!) folha A4 com o nome das obras escrito à mão! Além disso, houve alterações de última hora, “anunciadas” (com aspas, pois foi quase inaudível) por Paulo Branco. Na preparação: o ensemble reunido para o Szymanowski (a cantora prevista afinal não veio...) pareceu “tresmalhado”, claramente subensaiado e visivelmente ad-hoc» («Informalidade não quer dizer ‘à toa’», B. M., Diário de Notícias, 19.11.2013, p. 47).
      É claramente melhor do que o inacreditável «ADOC» da colega, mas ainda tem ali uma excrescência: o hífen. O mais-que-perfeito «fora» não tem acento circunflexo. Não é que não precisasse, mas não leva.

[Texto 3546]

«Lateranense/latranense»

Quem manda...

      «Mas eu não quero “Concílio Lateranense”», mandou o autor dizer. «Como é que de “Latrão” o leitor vai deduzir “lateranense”? Tem de ser “latranense”.» Está bem, mas — e o latim? Tardio, decerto, mas latim. Desta língua é que nos chegou directamente «lateranense» para nos referirmos à Igreja de S. João de Latrão ou a qualquer dos cinco concílios ecuménicos que se realizaram nesta basílica (ou catedral? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lê-se que é catedral). Bem sei que não prova quase nada, mas não conheço nenhum dicionário que registe essa forma nascida na língua portuguesa.
      Entretanto, caros leitores espanhóis, acabei de mandar uma mensagem de correio electrónico para a vossa Real Academia, pois na entrada «lateranense» do dicionário da RAE aparece isto: «Perteneciente o relativo a la basílica de San Juan de Letrán, en Roma, o al concilio allí celebrado. Concilio lateranense. Padres lateranenses.»
[Texto 3542]

É latim!

Também isto merecia um estudo

      Acabei de ouvir no programa de José Candeias, na Antena 1, uma entrevista telefónica a uma estudante de doutoramento, Carolina Doran, que está a desenvolver o projecto, sobre tomada de decisão colectiva, na Universidade de Bristol. Apesar de estar lá vai para dois anos, ia eu pensando, nem uma cedência ou contágio do inglês. Contudo, quando disse o nome científico (em latim, não se esqueçam) da espécie das formigas com que está a trabalhar, Temnothorax albipennis, parecia que estava a seguir, com aplicação e zelo de neófito, os exercícios do «How to Speak in a British Accent».
[Texto 3526]

«Amicus curiae»

Conhecíamos os da onça

      «O Procure Saber [grupo composto por Roberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros] deve entrar no processo como “amicus curiae” (parte interessada). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a ONG Artigo 19 já atuam na ação por meio do mesmo dispositivo» («Direito à privacidade divide advogados», Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      No glossário jurídico do sítio do Supremo Tribunal Federal (STF), lá está a definição: «Intervenção assistencial em processos de controle de constitucionalidade por parte de entidades que tenham representatividade adequada para se manifestar nos autos sobre questão de direito pertinente à controvérsia constitucional. Não são partes dos processos; atuam apenas como interessados na causa. Plural: Amici curiae (amigos da Corte).»
[Texto 3405]

«Personæ non gratæ»

Não se meta nisso

      Milhares de professores contratados não colocados irão hoje inscrever-se nos centros de emprego. Vai daí, Mário Nogueira, da FENPROF, põe-se a falar em latim. Mal: «Vem confirmar que o Ministério da Educação tem os professores contratados como personas non gratas. E o que ainda é mais estranho e curioso é o próprio Ministério da Educação vir dizer que até tem mais de seis mil horários ainda para preencher.»
      O plural da expressão é personæ non gratæ. É difícil? Bem, ninguém o manda pôr-se a falar em latim, acho eu. Ou isso também conta para o regime de ponderação curricular?
[Texto 3262]

«O Opus Dei»

É obra

      «Na comissão de oito sábios nomeada em Julho pelo Papa Francisco para limpar a estrutura económica e administrativa do Vaticano há apenas um italiano. Na verdade, uma italiana, uma jovem laica de 30 anos, especialista em relações públicas e ligada à Opus Dei, bonita e, surpreendentemente, com um historial de declarações bombásticas no Twitter sobre a política do Vaticano, até sobre o próprio secretário de Estado, que estão a causar escândalo na Santa Sé» («A conselheira do Papa Francisco que falava de mais no Twitter», Clara Barata, Público, 24.08.2013, p. 24).
      Há livros de estilo de certas publicações que lembram — e lembram muito bem — que Opus Dei é do género masculino. E a fala-barato (ou escreve-barato, o que sempre é melhor, porque basta não a lermos) da ítalo-marroquina não é assim tão bonita, cara Clara Barata. Enfim, depende da perspectiva. Do perfil. Ao longe, talvez. Karima El Mahroug, a Rubyzinha, que ia atirando Berlusconi para a prisão, é mais bonita. E não escreve.
[Texto 3231]

«Deo optimo maximo»

É o que cada um quiser

      O português Pedro Paulo, barman a trabalhar no Hotel One Aldwych, em Londres, ganhou um dos mais importantes concursos de cocktails do mundo, o UKBG National Cocktail Competition, patrocinado pelo licor francês Bénédictine. O nome da bebida que preparou, One DOM, é também uma mistura: do nome do hotel e da divisa dos Beneditinos, Deo optimo maximo, mas que normalmente só é conhecida pela abreviatura D. O. M., inscrita nas garrafas daquele licor. «A Deus, que é muito bom e muito grande» é uma das possíveis traduções. Para Pedro Paulo, porém, é antes «Para Deus, para os mais corajosos, para os mais audazes».
[Texto 3169]

«Ex ante» e «ex post»

Não se é latim

      «Esta análise», escreve o nosso autor, «deverá ser efectuada tanto ex-ante, ou seja, antes da adopção do projecto como condição necessária à sua adopção, como ex-post, quer dizer, depois da sua execução, com vista a determinar possíveis desvios e a actualizar a avaliação.»
      Nem é preciso ser economista para ver que devia ser assim — mas será que é assim? Bem, mas não estamos aqui para discutir as PPP, mas a ortografia. Trata-se de latinismos, e por isso não levam hífen: ex ante e ex post. O Dicionário Houaiss regista ambas as locuções adjectivas. Ex ante: «baseado em suposição e prognóstico, sendo fundamentalmente subjectivo e estimativo». Ex post: «baseado em conhecimento, observação, análise, sendo fundamentalmente objectivo e factual».
[Texto 3107]

«Indecoris causa»

Tem graça, mas o título?

      «Há algumas dúvidas sobre a origem deste pensamento. Provou-se que não é nem de Miguel Relvas (doutorado “indecoris causa” por várias academias) nem de Milton Friedman, o papa dos mercados, nem sequer dos dois alunos de Excel e estatísticas falsas Rogoff e Reinhart (não confundir com o inventor das pílulas de alho que te ajudam a respirar melhor, só não respires para cima de mim)» («Irrevogável principiante velho», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 7.07.2013, p. 33).
[Texto 3060]

Quando calha, latim

Metades

     «Se esta tragédia fosse ficção — e parece que é — eu escrevia-lhe um final trágico como é norma das tragédias. Um suicídio, político ou literal (tanto faz), mas heróico e cheio de dignidade. Como o de Brutus, quando se retirou para a montanha depois de ser derrotado pelas legiões de Octávio e Marco António. Ou como o de Cato, que preferiu morrer a ser perdoado por César» («Um fim trágico como nas tragédias», Pedro Bidarra, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 17).
      Dois nomes em latim, dois em português. Nada mal, equidade absoluta. Só um génio como Camilo é que podia escrever inteiramente em português: «Os vocábulos liberdade, virtude, ciência e progresso das luzes, felicidade do género humano, saem-lhe continuamente da boca, mas um tal Bruto é um abjecto adulador; paixões, vergonhas devoram um tal Catão; tal apóstolo da tolerância é o mais intolerante dos mortais, e tal adorador da humanidade é um sanguinário perseguidor» (Os Mártires, Chateaubriand. Tradução de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1979, p. 113).
[Texto 3058]

«Statu quo»

O mesmo e o outro

      «Seara garante não estar a afrontar o poder judicial, mas anunciou o recurso para o Tribunal Constitucional. Diz que não tem dúvidas, como jurista e como professor de Direito, de que tem legitimidade para ser candidato» («Fernando Seara confirmou candidatura à Câmara de Lisboa», Pedro Benevides, Telejornal, 22.06.2013).
      Entre muitos gestos teatrais, foi perorando o candidato: «Quem pretender manter o status quo da ineficiência, do partidarismo, da instrumentalização do município para outros fins, designadamente para a construção de pequenos e grandes percursos políticos, aplaudem [sic] este acórdão e desejam [sic] que o mesmo seja mantido pelo Tribunal Constitucional.»
      Deve ser também como jurista e como professor de Direito que erra na expressão latina. E claro que não podia faltar o grande esteio do discurso actual, «o mesmo». Só costuma variar em género e número.

[Texto 3009]

Léxico: «belígero»

Camoniano

      «Para os amigos que frequentam Santa Olávia, Eusébio revela uma educação esmerada que o prepara para fazer boa figura em Coimbra: tem horror às brincadeiras belígeras de Carlos [da Maia] e passa os dias a decorar versos, preso às saias da titi» («A cartilha e o trapézio», Joana Meirim, Público, 8.06.2013, p. 50).
      Belígero, gosto. O elemento sufixal latino («sufixial», lê-se na 50.ª edição do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis) -gero significa que leva, que produz. É latinismo que se pode ver nos Lusíadas: «Destarte o Mouro atónito e torvado,/Toma sem tento as armas mui depressa;/Não foge; mas espera confiado,/E o ginete belígero arremesa.» E estão ali a ver «Mouro»? É uma sinédoque, isto é, está o singular pelo plural, e por isso conserva a maiúscula inicial.

[Texto 2944]

«Statu quo»

É melhor não

      «José Alberto Carvalho e Judite Sousa empreenderam nos últimos anos uma tal remodelação na abordagem de Queluz de Baixo à atualidade que se torna quase heroico só agora terem dado razões de queixa ao status quo cessante» («Queluz de Baixo», Joel Neto, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 52).
      Já tive oportunidade de o dizer mais de uma vez, mas cá vai de novo: está errado, mesmo que haja dicionários a dizerem que está correcto. Como é que o ablativo da expressão latina completa, in statu quo ante, passava a nominativo na expressão reduzida, não querem explicar-me? Não sabem, não inventem.

[Texto 2859]

Plural de «habitat»

Agora que pensamos nisso

      «Mais uma vez, o sucesso das espécies na tentativa de adaptação a um mundo mais quente não é linear. As alterações profundas nos habitats e a fragmentação dos territórios provocadas pelos seres humanos não ajudam nada» (Portugal a Quente e Frio, Filomena Naves e Teresa Firmino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 166).
     É assim, o plural de habitat escreve-se desta maneira? O Vocabulário Ortográfico Português diz que sim. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não diz nada. Uma coisa é certa: se o grafarmos como termo latino, não lhe podemos adjungir o s sem mais. E agora?
[Texto 2609]

«Auditor júnior»

Hierarquias

      «No início dos anos 1970, ser “auditor júnior” neste ramo era, grosso modo, ser “moço de recados”, “paquete”, “tarefeiro”, apurou o DN/Dinheiro Vivo» («Franquelim Alves começou como paquete aos 16 anos», João Pedro Henriques, Miguel Marujo e Paula Sá, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 10).
      Aqui, «auditor» é empregado na primeira acepção que os dicionários acolhem: o que ouve. Neste caso, ouvia os recados. Com 16 anos, que mais podia fazer? (Para mim, grosso modo ainda é latim.)

[Texto 2584]

Com o latim me enganas

A importância de se chamar Nemo

      «A decisão de chamar Nemo à tempestade de neve que atingiu os EUA e o Canadá está a causar polémica. Tudo porque o nome não é oficial, como acontece com os furacões, tendo sido escolhido pelo Weather Channel (o canal de meteorologia dos EUA). E porque a primeira ideia que vem à cabeça das pessoas quando se fala em Nemo é o peixe do filme de animação da Pixar, À Procura de Nemo. Na realidade, explicou ao The New York Times o responsável pelo nome, Bryan Norcross, a inspiração é a origem latina da palavra, que significa “ninguém”, como o Capitão Nemo, do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne» («Tempestade ‘Nemo’ gera polémica», Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
[Texto 2578]

«In corpore»

Tão cultos...

      «Um homem de 39 anos foi detido de Lisboa com 3400 gramas de cocaína no interior do organismo. “Esta foi a maior apreensão de cocaína transportada in corpore por um único indivíduo alguma vez detetada pelas autoridades em território português”, explicou a Polícia Judiciária (PJ) em comunicado» («Traficante que engoliu 3,4 quilos de droga bate recorde», Luís Fontes, Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 21).
[Texto 2271]

«Sine data»

Para variar

      «A empreitada, orçada em 16 milhões de euros, visa permitir que circulem na Linha Verde comboios com seis carruagens, algo que, uma vez prolongado o cais, vai continuar a não ser possível. Isto porque, para que tal acontecesse, seria necessário que a estação de Arroios fosse também intervencionada – um investimento que foi adiado sine data. [...] É que, para que possam efetivamente circular na Linha Verde comboios de seis carruagens, também a estação de Arroios terá de ser intervencionada – uma empreitada que foi adiada sine data pelos conhecidos constrangimentos financeiros do Metropolitano de Lisboa, E. P. E., bem como da conjuntura económica do País» («Obras no Areeiro sofrem novo atraso e só vão acabar em 2014», Inês Banha, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 21).
      Quase nunca se vê esta locução latina — que significa o mesmo que sine die —, mas desta vez foi logo um par no mesmo texto. (A jornalista gostou tanto da locução, que quase repetiu a frase. Ninguém deu por nada.) Agora vejam lá é como a pronunciam.
[Texto 2194]

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