Ortografia: «menino bem»

Ora sobra, ora falta


      «Tudo ia calmo no pátio, mais calmo do que o habitual, não havia gritaria nem serenata, só se ouviam as vozes e os gatos a miarem pelos cantos, uma vez por outra um carro que passava lá fora na Avenida de Ceuta, o tio Artur puxou a conversa, temos de levar o rapaz ao Atlético, e logo o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes respondeu, quando vier o Belém, quando vier o Belém, e riu-se, riram-se todos, o Victor não percebeu do que se riam eles, que mal tinha o Belenenses?, o Belém, e o tio explicou, quando vem o Belém há sempre sarrabulho, e o Victor perguntou porquê, e o Lúcio respondeu, ora, operários contra meninos-bem já se sabe que não pode acabar aos abraços, depois verás, depois verás» (Pés de Barro, Nuno Duarte. Revisão de Madalena Escourido. Alfragide: Leya, 2025, 3.ª ed., pp. 36-37). 
      Há-de ser confusão com «menino-bonito». Nunca vi o adjectivo invariável «bem» ligado por hífen neste caso. Mais valia ter guardado o hífen para outros casos em que é necessário e não o usou, como em «um tipo mal encarado» (p. 27), «passadeiras de madeira mal amanhadas» (p. 33), «o cardeal patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira» (p. 38), por exemplo.

[Texto 23 418]

Como se escreve por aí

Tudo amarradinho


      «Na quinta-feira, o cônsul polaco no Porto atribuiu louvores ao chefe-principal João Cunha e ao agente-principal Rui Medeiros “pelo profissionalismo, dedicação e humanidade demonstrados na ajuda e proteção de um cidadão polaco”» («Polícia encontra jovem desaparecido havia nove meses», Alexandra Inácio, Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 10). Com hífenes, só se for em polaco, Alexandra Inácio. Vamos lançar um apelo, pode ser que algum linguista polaco nos ajude: Szanowni językoznawcy polscy, czy macie tam za dużo łączników?

[Texto 22 545]

«Moto-quatro» ou «moto quatro»?

Eu ligo

      «Salvu Vella, 61 anos, chega à torre de Santa Maria, na ilha de Comino, cavalgando numa moto-quatro. É a mesma torre onde o realizador Kevin Reynolds filmou uma adaptação do romance O Conde de Monte Cristo, em 2002. Salvu chega à hora combinada. Veste um macacão de padrão camuflado e um chapéu cinzento — indumentária que torna mais fácil distingui-lo de um qualquer turista» («O homem pós-moderno da ilha não deserta», Fábio Monteiro, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 12).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen, «moto quatro», mas creio que é melhor com hífen.
[Texto 3311]

Ortografia: «antiestalinista»

Por antonomásia

      «Isso custou-lhe inimizades internas. “Sempre fui profundamente anti-estalinista e tive alguns problemas com o partido por causa disso. Estive nitidamente a favor da insurreição de Praga e escrevi contra a invasão dos tanques soviéticos, das barbaridades que se fizeram. Eu era a favor da Primavera, do chamado socialismo de rosto humano”, disse, afirmando-se seguidor do panteísmo e depois de assegurar que, enquanto dirigente do PCP, sempre separou a escrita da militância» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Cara Isabel Lucas: anti-Estaline, mas antiestalinista. Parabéns, porém, pelo «partido» minúsculo e não, como se vê demasiadas vezes, maiúsculo, «Partido».
[Texto 3168]

Ortografia: «preto-e-branco»

E vê-se bem

      «Fotografias a preto e branco do tempo do centro histórico do pós-guerra mostram que da enorme estrutura [da Igreja de São Lourenço] apenas sobreviveu a fachada gótica com as suas duas torres» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
      No entanto, seja filme ou fotografia, a combinação do preto e do branco grafamo-la preto-e-branco.

[Texto 3079]


«Off the record»

Isso é que é comunicar

      «A aceitação do off-the-record em declarações de um governante promove a irresponsabilidade do governante e do Governo, aumenta a opacidade da política, reduz a liberdade de imprensa e abre a porta ao tráfico de influências. Que alguém que escreveu um livro intitulado Teoria da Responsabilidade Política não perceba isto, é lamentável» («Pedro Lomba lança programa de irresponsabilidade política», José Vítor Malheiros, Público, 2.07.2013, p. 45).
      Tencionava ver essa primeira aparição (natural e não sobrenatural) de Pedro Lomba, o adjunto do adjunto, mas estava em viagem e não pude. Não o vi assim brandir — ou será «bramir»? — o estandarte da transparência. Vejo que correu mal porque foi pessimamente pensada. Acontece aos melhores.
      Quanto ao que nos interessa aqui: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «off the record». Sem hífenes, portanto. Só como adjectivo é que tem obrigatoriamente hífenes. E José Vítor Malheiros cita incorrectamente o livro de estilo do Público, em que se lê «off the record».

[Texto 3041]

«Informação-exame»?

Está tudo ligado

      Agora lê-se por aí, em todas as escolas e na Internet, «informação-exame de equivalência à frequência» desta e daquela disciplina. É o Despacho Normativo n.º 6/2012 («despacho-normativo», lia-se aqui, escrito por algum maluquinho do hífen): «Ao departamento curricular compete propor ao conselho pedagógico a Informação-Exame de equivalência à frequência de cada disciplina no ensino básico ou a Informação-Prova de equivalência à frequência de cada disciplina no ensino secundário, cuja estrutura deve ser análoga à informação-prova final ou à informação-exame elaborada pelo GAVE para as provas finais de ciclo e para os exames finais nacionais, respetivamente, da qual devem constar os seguintes aspetos: objeto de avaliação, características e estrutura, critérios gerais de classificação, material e duração».
      A dúvida é sobre aquele hífen a ligar «informação» e «exame». Faz algum sentido estar ali?

[Texto 2852]

Ortografia: «hip-hop»

Hyphenated word

      «Para Capicua, alter ego da rapper Ana Fernandes, existem dois lados da moeda que une as mulheres ao hip hop» («Porque o ‘hip hop’ também é das mulheres», João Moço, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 28).
      «Existem dois lados da moeda que une as mulheres»? A frase está avariada, mas não é disso que vamos falar, mas sim de hip-hop: é assim que vejo a palavra grafada em todos os dicionários de língua inglesa.
[Texto 2622]

Como se escreve nos jornais

Pobre hífen, pobres alunos

      «De acordo com o porta-voz do estado maior das tropas francesas, o coronel Thierry Burkhard, “importantes ataques aéreos” foram levados a cabo na noite de sábado para domingo na zona de Tessalit, 200 quilómetros a norte de Tidal» («Chefes islamitas do Mali refugiam-se nas montanhas», Diário de Notícias, 4.02.2013, p. 22).
      Então e eu não sei que já escrevi isto?! Os jornalistas do Diário de Notícias deixaram, vá lá saber-se porquê, de usar o hífen em palavras que não mudaram com o acordo. Já vi o mesmo fenómeno em professores de Português. Claro que há erros ainda mais graves. Ontem, mostraram-me um texto de uma professora de Português em que se lia que era docente «à pelo menos metade de uma vida». Não há vidas que cheguem para curar tamanha ignorância.
[Texto 2563]

Ortografia: «coro alto»

Porquê?

      «Voltaram os andaimes ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha por causa do desprendimento de um brasão de pedra de grandes dimensões, que estava desde a década de 40 do século passado no topo do coro-alto» («Engenheiros testam ‘culpa’ do som na queda de brasão», Paula Carmo, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 22).
      Por vezes, vê-se assim, com hífen, mas não vejo razões para isso. Há séculos que se usa coro alto, e é assim que continuarei a escrever.
[Texto 2290]

Dr. Hífen, traído

Nasceu um novo topónimo?

      Todos já ouvimos ou lemos Entre-Douro-e-Minho. Apareceu algo parecido. Foi nesta sinopse, que se pode ler no sítio da Leya, da obra Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de Paulo Feytor Pinto: «Neste livro apresentam-se todas as regras da ortografia em vigor em Portugal segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1990. Tal significa que inclui as regras que constituem novidade e que, por isso, estão devidamente assinaladas a vermelho, mas também as regras que se mantêm inalteradas. Além disso, diante da possibilidade de dupla grafia no conjunto dos países de língua oficial portuguesa, apresenta-se aqui a ortografia a utilizar em Portugal, em contextos formais, de acordo com a pronúncia da norma culta do português europeu, baseada no dialeto de entre-Lisboa-e-Coimbra, de acordo com o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.»
[Texto 2235]

«Sentido Algarve-Lisboa»

Nada de barras

      «Dois passageiros seguiam viagem nos bancos da frente e os colegas no banco traseiro, quando ao quilómetro 626 – um quilómetro após a Mimosa, no sentido Algarve/Lisboa – a viatura entrou no fatal despiste, por causas desconhecidas, que vão agora ser alvo de investigação pela GNR» («400 quilos de bobinas matam quatro funcionários da EDP», Roberto Dores, Diário de Notícias, 4.10.2012, p. 20).
      A indicar sentido, os topónimos são ligados por hífen, como já se têm lembrado de fazer: «Nos carris onde circulam os comboios no sentido Sintra-Lisboa (onde se deu o acidente) várias manchas de sangue, uma sola de sapato aparentemente feminino e umas luvas de enfermagem relatam o triste fim de Nádia, filha de Pedro Mário da Silva, ex-comandante dos Bombeiros de Agualva-Cacém e recém-empossado vice-presidente da Associação Humanitária da corporação» («Conversa ao telemóvel causa atropelamento», Isaltina Padrão, Diário de Notícias, 12.1.2008, p. 38).
[Texto 2171]

«Zona-tampão»

Sendo assim

      «No dia em que os rebeldes afirmaram ter bombardeado, com dois tanques, o aeroporto militar de Taftanaz (entre Idleb e Alepo), destruindo cinco helicópteros, e a televisão do Estado garantiu que as forças armadas destruíram “os quartéis-generais dos líderes dos grupos terroristas nos bairros de Chaar e Sakhour”, o Presidente sírio reapareceu em público para reafirmar a vontade decidida de vencer os rebeldes. Bachar al-Assad admitiu, em entrevista à televisão privada Ad-Dounia [sic] (considerada como favorável ao regime), que a vitória levaria ainda algum tempo. De caminho, rejeitou a ideia (francesa) de criar zonas tampão para proteger os milhares de deslocados, em fuga desesperada dos combates constantes» («Assad rejeita zonas tampão», A. M., Diário de Notícias, 30.08.2012, p. 26).
      Vasco Botelho de Amaral condenou esta expressão, mas, se se persiste em usá-la, pelo menos escreva-se correctamente: zona-tampão.
[Texto 2020]

«Caravela-portuguesa»

Physalia physalis

      No Diário de Notícias, ainda não sabem, mas uma coisa é certa: ou tem hífen ou não tem. «Foi ontem levantada a proibição de entrar na água imposta na sexta-feira em três praias da Costa de Caparica, devido à presença de muitas caravelas portuguesas no mar. Esta espécie de hidromedusa é perigosa porque tem células urticantes nos tentáculos, que em contacto com a pele podem causar alergias graves» («Levantada interdição às praias da Costa de Caparica», Diário de Notícias, 26.08.2012, p. 20). «Caravelas-portuguesas são mais perigosas do que tubarões» (Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 25.08.2012, p. 16). Os dicionários não se metem nisto. Registam «hidromedusa» (aliás, só o feminino plural, «hidromedusas») e, se se tratasse de uma sifomedusa, já desconheceriam.
[Texto 2004]

«Lava-tudo»?

Bem...

      Se em tira-nódoas temos uma claríssima noção de unidade semântica, lexicalizada, não se poderá dizer o mesmo de lava tudo? Mas talvez não...
[Texto 1976]

Ortografia: «bloco-notas»

Procura-se

      «Leonor, de seis anos, e Jenifer, de nove, são clientes habituais do escorrega, dos baloiços e da estrutura de escalada do pequeno parque infantil do Jardim Constantino. E mal veem o bloco notas correm a contar a história-do-menino-que-foi-metido-por-um-homem-na-casa-de-banho, entre sorrisos e o inevitável “vamos aparecer?”» («Menino violado ainda sem apoio psicológico», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 8.08.2012, p. 12).
      Com tantos hífenes mais à frente, esqueceu-se de usar um onde devia: bloco-notas. O que é curioso é que a palavra, que eu conheço desde sempre, não está registada nos dicionários. Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa o registam. Em nenhum, enfim.
      «Escreve muito rapidamente, com o pequeno bloco-notas apoiado na mão que tem o chapéu. Entre cada frase, olha a actriz que responde, e o olha, e responde, e o olha. As perguntas são breves, e sorriem, as respostas são breves, e riem» (A Guerra da Meseta, Artur Portela. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 80).
[Texto 1947]

«Beta-amilóide»

Alfa, beta, gama...

     «Já na Nature, o grupo do islandês Thorlakur Jonsson descreve uma mutação genética que, por uma vez, é positiva: os seus portadores estão mais protegidos contra a Alzheimer. A mutação ocorre no gene APP, precursor da proteína beta-amiloide, e diminui em 40% as hipóteses de acumulação da proteína no [sic] tecidos neuronais» («Cientistas caracterizam evolução da Alzheimer», Filomena Naves, Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 30).
      Certíssimo — segundo, abstraindo do acento, qualquer grafia. O pior é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registar que antes se escrevia «betaamilóide». Mas de ß-amilóide, que não é prático escrever —, só beta-amilóide, ou não? Já vimos aqui, no Assim Mesmo (que caminha alegremente para as 600 mil visualizações), esta questão.
[Texto 1815]

«Planeta anão»

Não vale a pena

      «Cinco luas – até agora – é uma boa marca para um planeta-anão, e os próprios astrónomos, que detectaram a nova lua graças a observações feitas com o telescópio Hubble, mostram-se surpreendidos com a complexidade do sistema de Plutão. A descoberta vem dar força à tese de que todas estas luas são restos de uma brutal colisão entre Plutão e outro corpo da cintura de Kuiper» («Descoberta quinta lua de Plutão», Diário de Notícias, 12.07.2012, p. 30).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «planeta anão», e eu também não vejo para que serve, no caso, o hífen.
[Texto 1813]

Ortografia: «maus tratos»

Alegadamente

      «O crime chocou a Suíça, tanto mais que Cidália Carvalho, de 31 anos, e a filha, de 13 anos, já não viviam com o agressor há vários meses e as autoridades locais até já tinham promovido três acusações por maus tratos contra José Luís Carvalho» («Portugal procura ‘Audi’ em que fugiu homicida», Paulo Julião, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21).
      Lá se esqueceram do hífen em «maus tratos». Finalmente. Parabéns. Mas, Paulo Julião, você está tramado! Então também se esqueceu de antepor o adjectivo «alegado» a «homicida»? Arranje já um advogado, é o meu conselho.
[Texto 1785]

«Sociopoliticoeconómico»?

Tenham lá paciência

      «Helena Vasconcelos é crítica literária. Lançou em Fevereiro Humilhação e Glória (ed. Quetzal), um fresco sobre as mulheres das artes, letras e ciências que, ao longo dos séculos, marcaram as suas áreas. Nesta obra, as escritoras, artistas e investigadoras portuguesas, muitas das quais pouco divulgadas ou mesmo estudadas, surgem enquadradas nos sucessivos contextos sociopoliticoeconómicos internacionais, olhando-se para trás até nomes como Hipácia de Alexandria e Leonor de Aquitânia» (Público, 8.03.2012, p. 27). 
      Eh lá! O novíssimo Público anda a exagerar. Tudo fundido? Vá lá com um hífen: sociopolítico-económico. Ou mesmo, por respeitar mais a natureza dos elementos, com dois: sócio-político-económico.

[Texto 1195]

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