Como se escreve por aí

Tudo amarradinho


      «Na quinta-feira, o cônsul polaco no Porto atribuiu louvores ao chefe-principal João Cunha e ao agente-principal Rui Medeiros “pelo profissionalismo, dedicação e humanidade demonstrados na ajuda e proteção de um cidadão polaco”» («Polícia encontra jovem desaparecido havia nove meses», Alexandra Inácio, Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 10). Com hífenes, só se for em polaco, Alexandra Inácio. Vamos lançar um apelo, pode ser que algum linguista polaco nos ajude: Szanowni językoznawcy polscy, czy macie tam za dużo łączników?

[Texto 22 545]

«Moto-quatro» ou «moto quatro»?

Eu ligo

      «Salvu Vella, 61 anos, chega à torre de Santa Maria, na ilha de Comino, cavalgando numa moto-quatro. É a mesma torre onde o realizador Kevin Reynolds filmou uma adaptação do romance O Conde de Monte Cristo, em 2002. Salvu chega à hora combinada. Veste um macacão de padrão camuflado e um chapéu cinzento — indumentária que torna mais fácil distingui-lo de um qualquer turista» («O homem pós-moderno da ilha não deserta», Fábio Monteiro, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 12).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen, «moto quatro», mas creio que é melhor com hífen.
[Texto 3311]

Ortografia: «antiestalinista»

Por antonomásia

      «Isso custou-lhe inimizades internas. “Sempre fui profundamente anti-estalinista e tive alguns problemas com o partido por causa disso. Estive nitidamente a favor da insurreição de Praga e escrevi contra a invasão dos tanques soviéticos, das barbaridades que se fizeram. Eu era a favor da Primavera, do chamado socialismo de rosto humano”, disse, afirmando-se seguidor do panteísmo e depois de assegurar que, enquanto dirigente do PCP, sempre separou a escrita da militância» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Cara Isabel Lucas: anti-Estaline, mas antiestalinista. Parabéns, porém, pelo «partido» minúsculo e não, como se vê demasiadas vezes, maiúsculo, «Partido».
[Texto 3168]

Ortografia: «preto-e-branco»

E vê-se bem

      «Fotografias a preto e branco do tempo do centro histórico do pós-guerra mostram que da enorme estrutura [da Igreja de São Lourenço] apenas sobreviveu a fachada gótica com as suas duas torres» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
      No entanto, seja filme ou fotografia, a combinação do preto e do branco grafamo-la preto-e-branco.

[Texto 3079]


Ortografia: «coro alto»

Porquê?

      «Voltaram os andaimes ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha por causa do desprendimento de um brasão de pedra de grandes dimensões, que estava desde a década de 40 do século passado no topo do coro-alto» («Engenheiros testam ‘culpa’ do som na queda de brasão», Paula Carmo, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 22).
      Por vezes, vê-se assim, com hífen, mas não vejo razões para isso. Há séculos que se usa coro alto, e é assim que continuarei a escrever.
[Texto 2290]

«Lava-tudo»?

Bem...

      Se em tira-nódoas temos uma claríssima noção de unidade semântica, lexicalizada, não se poderá dizer o mesmo de lava tudo? Mas talvez não...
[Texto 1976]

Ortografia: «maus tratos»

Alegadamente

      «O crime chocou a Suíça, tanto mais que Cidália Carvalho, de 31 anos, e a filha, de 13 anos, já não viviam com o agressor há vários meses e as autoridades locais até já tinham promovido três acusações por maus tratos contra José Luís Carvalho» («Portugal procura ‘Audi’ em que fugiu homicida», Paulo Julião, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21).
      Lá se esqueceram do hífen em «maus tratos». Finalmente. Parabéns. Mas, Paulo Julião, você está tramado! Então também se esqueceu de antepor o adjectivo «alegado» a «homicida»? Arranje já um advogado, é o meu conselho.
[Texto 1785]

«Sociopoliticoeconómico»?

Tenham lá paciência

      «Helena Vasconcelos é crítica literária. Lançou em Fevereiro Humilhação e Glória (ed. Quetzal), um fresco sobre as mulheres das artes, letras e ciências que, ao longo dos séculos, marcaram as suas áreas. Nesta obra, as escritoras, artistas e investigadoras portuguesas, muitas das quais pouco divulgadas ou mesmo estudadas, surgem enquadradas nos sucessivos contextos sociopoliticoeconómicos internacionais, olhando-se para trás até nomes como Hipácia de Alexandria e Leonor de Aquitânia» (Público, 8.03.2012, p. 27). 
      Eh lá! O novíssimo Público anda a exagerar. Tudo fundido? Vá lá com um hífen: sociopolítico-económico. Ou mesmo, por respeitar mais a natureza dos elementos, com dois: sócio-político-económico.

[Texto 1195]

Sobre «água-de-colónia»

Não percebo

      «Nas locuções de qualquer tipo», lê-se na Base XV, 6.º, do Acordo Ortográfico de 1990, «sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).»
      Perfeitamente claro. Consultemos agora o Vocabulário Ortográfico do Português (VOC), onde podemos ler que se escreve «água de Colónia». «Apenas em Portugal», lê-se. Com a variante «água-de-colónia». (E «água de Colônia (apenas em Brasil)», mas esqueçamos o Brasil.) Podemos concluir que o vocábulo tem as grafias água-de-colónia e água de Colónia? Mas se o texto do acordo o inclui entre os que não perdem o hífen, por estarem já consagrados pelo uso!
[Texto 963]

Ortografia: «ecocidade»

Como calha, não é?

      «Engenheiros e técnicos ao serviço do empreendimento turístico de Vilamoura, no Algarve, começaram a deslocar-se de bicicleta, nomeadamente em visita a obras, para dar o exemplo. O maior resort da Europa quer apostar no uso das bicicletas partilhadas no quadro da sua estratégia de afirmação como eco-cidade» («Vilamoura quer ser uma eco-cidade, pessoal do resort já anda de bicicleta», Idálio Revez, Público, 15.01.2012, p. 37).
      E procurou saber como se devia escrever a palavra, caro Idálio Revez? Ou limitou-se, como me palpita, a ler um qualquer folheto publicitário? Se se deve escrever «ecoescola», pense agora como se deverá grafar esse termo.
[Texto 959]

Ortografia: «além-fronteiras»

Uma solução

      «E o deputado bloquista José Gusmão diz que a mensagem do primeiro-ministro é “o último a sair que apague a luz” e lembra que este conselho de Passos tem “precedentes”: o secretário de Estado da Juventude aconselhou os jovens desempregados a procurarem oportunidades “além fronteiras”» («Passos criticado por aconselhar professores a ensinar nos PALOP», Público, 19.12.2011, p. 11).
      Esperava, esperávamos todos, mais cuidado num jornal que luta — mas acordou demasiado tarde — contra o Acordo Ortográfico de 1990. É além-fronteiras que se escreve, e até está exemplificado no texto do AO45.
[Texto 856]

Prefixo «anti»

O elemento da direita

      No fim de Setembro passado, uma consulente, Elisabete Cataluna, perguntou ao Ciberdúvidas: «À luz do novo acordo ortográfico, o prefixo anti une-se sempre à palavra que antecede, excepto se esta iniciar com h ou com a mesma letra com que acaba o prefixo. Contudo, segundo averiguei, a palavra anti-stress continua a escrever-se com hífen. Porquê? Compreendo que seria impensável, em português, aceitar “antisstress”, mas creio que poderia ser aceitável aceitável “antistress”.» Respondeu Sandra Duarte Tavares: «Segundo o novo Acordo Ortográfico, usa-se sempre hífen quando o elemento da direita é um estrangeirismo, pelo que anti-stress deve ser grafado com hífen.»
      Dito assim, tão peremptoriamente, até parece que o texto do Acordo Ortográfico de 1990 consigna esta regra ­— mas já aqui desafiei a jornalista Ana Sofia Rodrigues a dizer onde encontrou essa regra, mas não me respondeu. (Querem prescindir do hífen? Escrevam, se tiverem coragem, «antistresse».)

[Texto 564]

«Info-excluído/infoexcluído»

Com ou sem

      «Eu ia dizer uma tolice, que era, se eu mandasse, as escolas abriam hoje a ouvir o discurso de Steve Jobs, em 2005, na Universidade de Stanford. É para ver como sou velhadas e tenho de pensar duas vezes para me dar conta que, ontem, os jovens foram ao YouTube ouvir esse discurso inspirador. Sendo que é melhor ter Jobs em pessoa, no meu ecrã, em vez de aula obrigatória. Eu, infoexcluído militante (desligar e voltar a ligar é o mais longe que vou na resolução dos problemas de computador), descubro na vida e obra de Steve Jobs o sentimento raro que já encontrei ouvindo – eu, ateu – uma missa de rito caldeu na Basílica de São Pedro» («O homem que cuidou dos pormenores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2011, p. 56).
      Nos dicionários da Porto Editora, a grafia registada é com hífen: info-exclusão. Neves Henriques chegou a sugerir que se preferisse inforexclusão para evitar o hiato.

[Texto 562]

Prefixo «contra»

Está na hora

      «Alega José Rocha Quintal que “não seria de bom senso avançar para o julgamento sem esses elementos”. Mas há outras questões a ter em conta, até porque o advogado de defesa do jovem admite pedir “contra-perícias”. E se se esgotar o prazo de prisão preventiva? “Haverá essa possibilidade. O Luís teria de ser colocado em liberdade para enfrentar o julgamento”» («Atraso de exame pára julgamento», Paula Carmo, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 16).
      A lógica deve ser esta: como é demasiado simples, deixam isso para os leitores. Não me parece bem, pois eu paguei o jornal — façam favor de escrever bem. Nos compostos formados com o prefixo «contra», só se emprega o hífen quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s.

[Texto 488]

Ortografia: «casa de banho»

Agora e sempre

      «Os motoristas da Carris enfrentam diariamente dificuldades para irem à casa-de-banho porque não existem instalações próprias nos terminais. Para contornar esta situação, a empresa estabeleceu protocolos com alguns cafés em troca de passes gratuitos» («Carris dá passes em troca de casas-de-banho», Marina Almeida, Diário de Notícias, 22.07.2011, p. 21).
      Há quem pense que é preciso aderir às novas normas ortográficas para nos vermos livres desta palermice (só de pensar que têm o aval de pares meus me arrepia) dos hífenes em vocábulos como este. Ora, isto nunca teve pés nem cabeça.
[Texto 340]

Prefixo «anti-»

Tudo de uma vez

      Há anos que ando a avisar que o prefixo anti- é seguido de hífen somente se o elemento seguinte começar por h, i, r ou s. Salvo em relação a nomes próprios, um caso que também já tratei, não há excepções. Só é de espantar quando o erro aparece em livros revistos (mal, claro). Nos jornais, só vai sendo de admirar quando acertam. No exemplo, triplamente: «Newt Gingrich: “A Administração Obama é antiemprego, antiempresas, antienergia americana”» («Barack Obama foi o alvo e Portugal entrou no debate dos candidatos republicanos», Kathleen Gomes, Público, 15.06.2011, p. 14).

[Texto 177]

Prefixo «co-» e hífen

Caos

      «A co-evolução do parasita e do hospedeiro, cada um dos quais fornece um ambiente em rápida mudança para a evolução do outro, requer um tipo de resposta especial e rápida, que o sexo pode proporcionar» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 51).
      Coevolução ou co-evolução? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não quer comprometer-se, e por isso, se regista «coeducação», não regista «coevolução». Depois do novo acordo ortográfico será mais simples. Antes, ou seja, agora e até 2016 (Maio ou Setembro, Fernando?), se o prefixo significa «a par», «juntamente», exige hífen — co-eleitor, co-esposa, co-eterno —, como se lê no sítio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde se previne: «A regra, no entanto, não se aplica facilmente e de forma coerente, razão por que, em caso de dúvida, é sempre melhor consultar um dicionário.» Consultemos então a edição portuguesa do Dicionário Houaiss, porque regista ambos os vocábulos. Lá está: «co-educação» mas «coevolução». Pergunto: não significa o prefixo, em ambos, «a par», «juntamente»?

(Já aqui tínhamos visto cogeração/co-geração.)
[Post 4755]

«Beira-»

Por corgos e alcantis

      Beira-mar, beira-campo, beira-rio. Não conheciam a segunda, «beira-campo»? Ficam a conhecer. E «beira-corgo»? Corgo ou córrego, o caminho apertado entre montes. Não, não: beira-corgo é o homem rural, rude, sem instrução. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que ainda não esgotou os lusismos, já chegou a este brasileirismo: «indivíduo atrasado, inculto; caipira». «Homem atrasado»… é forte.
      Eu nem queria estas divagações. Beira-mar, beira-campo, beira-rio… mas beira Tejo? O Acordo Ortográfico de 1990 não sistematizou o uso do hífen.
      Não temos «beira-corgo», mas temos beira Corgo, o afluente do Douro que nasce na serra da Padrela: «Não há dúvida: — a prosa de Camilo, opulenta e vigorosa, simples e fraterna, tu cá tu lá com o trágico e o idílico, é a expressão natural da voz do seu sangue — pelo sangue paterno, voz da montanha, ora arrogante como se rompesse do seio dos alcantis, ora terna, como se viesse das belgas da beira Corgo; pelo sangue materno, voz do mar — bramido de vaga, no tumulto do desafio ou da peleja; ciciar de espuma, brando roçagar de cetim aos pés de Ângela ou de Raquel…» (Camilo no Drama da Sua Vida, Alberto de Sousa Costa. Lisboa: Livraria Civilização, 1959, p. 60).
[Post 4731]

«Dívidas recorde»

Isso passa

      Ontem, num comentário ao texto «É brasileirismo?» de um anónimo que começava por me increpar por dizer mal dos revisores da imprensa diária e acabava com calúnias dirigidas à honra de minha mãe, pelo meio, e tudo numa escassa linha, ainda se me aconselhava a ir trabalhar. Em compensação, por assim dizer, no Público, onde anteontem se podia ler «número-recorde» e «taxa-recorde», o que condenei aqui asperamente, ontem já se escrevia assim: «Cortes cegos, dívidas recorde e reformas que ficaram a meio» (João D’Espiney e Alexandra Campos, Público, 25.04.2011, p. 10).

[Post 4726]

«Call center/call-center»

Perguntemos a quem sabe

      «Mande fazer uma son­dagem aí a umas 200 pessoas com o nosso call‑center a ver o que dá.» Sigo o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Call centre noun, two words; hyphen as adjective, eg, call-centre manager». O mesmo se recomenda, já aqui o vimos, em relação a fast food/fast-food.

[Post 4723]

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