Extras! Extras! Extras!

Eles sabem


      «Pós-operatório de transplante capilar inclui despesas extras de R$ 4.000» (Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 22.04.2026, p. B13).

[Texto 22 865]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 702]

«Coloração rosa intensa»

Dúvidas persistentes

      «A licitação da pedra preciosa, de forma oval e com uma coloração rosa intenso (ver foto), durou apenas cinco minutos, num despique entre potenciais compradores e com o futuro proprietário na sala a manter-se no anonimato» («Diamante rosa ‘vale’ 55,1 milhões de euros», Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 56).
      Então, o adjectivo «intenso» está a qualificar que substantivo? Só pode ser «coloração», o único presente. Coloração rosa intensa.
[Texto 3516]

«Gramática do Português»

Com 16 mil exemplos

      Acabam de me chamar a atenção para uma notícia do Diário Digital: é publicada hoje a Gramática do Português, «resultado de 13 anos de trabalho coordenado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa», com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. «“É uma gramática descritiva e explicativa acessível que responde a dúvidas que não são esclarecidas nas atuais gramáticas”, afirmou a investigadora Maria Bacelar do Nascimento, num encontro esta semana com jornalistas. A obra, que faz a ponte “entre a tradição gramatical” dos séculos XIX e XX e “os resultados da investigação linguística contemporânea”, destina-se “a um público com nível de instrução acima da média”, mas com explicações “tão simples quanto possível”.»
[Texto 3409]

«Havia semanas»

Nataniel sabia

      «Teresa, menos por cansaço do que para fugir àquelas palavras com que a aturdiam havia semanas, afrouxou em vão a marcha; impossível deixar de ouvir a voz de falsete do pai» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, pp. 13-14).
[Texto 3356]

«Por que misteriosa razão»

Não é misteriosa, não

      «Mas, mais grave do que tudo o resto, porque misteriosa razão, cinco anos depois do “escândalo BPN”, os tribunais não o puseram ainda no banco dos réus, com o bando de cúmplices que o serviu?» («A nossa mansidão», Vasco Pulido Valente, Público, 29.09.2013, p. 56).
      Escreve-se, quase toda a gente sabe ou sabia, «por que razão», ou seja, por (preposição) + que (pronome relativo), e, logo, «por que misteriosa razão», mas a mansidão leva-os a não mexerem na prosa do Sr. Pulido. Por mim, está bem.
[Texto 3332]

«Os milhares»

Desconcordância

      «Rio elogiou o sucesso da movida, e as milhares de pessoas que atrai, ligando-a à regeneração do espaço urbano num conjunto de artérias da Baixa da cidade, aos esforços de animação iniciais feitos pela própria autarquia que está prestes a deixar de dirigir» («Rui Rio teria “dificuldade para manter o ritmo” de obras de... Rui Rio», Abel Coentrão, Público, 28.09.2013, p. 15).
      Abel Coentrão, então já não sabe de que género é a palavra «milhar»? Costumava ser do género masculino. Sim, podíamos tratar de matéria mais interessante, mas não sem antes resolver o básico, não é?

[Texto 3331]

«Havia um bom bocado»

O passado no passado

      «Já o crespúsculo começara, havia um bom bocado, quando Derek saiu com a bicicleta da estrada e meteu pela relva seca do monte» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 85).
[Texto 3197]

Não é senão isso

De além-tumba

      «É um facto que a mitologia rural da Morgadinha — com a sua natureza bondosa, o seu ciclo agrário constante, os animais cordatos, os bois puxando os carros, a harmoniosa hierarquia das classes sociais, a ventura da pobreza — não era se não isso: uma mitologia que consagrava o campo como prolongamento do paraíso, onde a vida saudável se combinava com as virtudes humanas» («O campo», António Pinto Ribeiro, «Ípsilon»/Público, 2.08.2013, p. 27).
      Já vimos (à exaustão, julgava eu) que é senão que se escreve nestes casos. Graciliano Ramos diz, de além-tumba, como é. «Em seguida modifiquei e venci a reacção molesta e acusei-me de precipitação: Nunes Leite devia estar doente, devia ser doente. Não era senão isso. O lençol de água a correr como fonte e o brado lamentoso indicavam desequilíbrio, pois não havia razão para tais excessos» (Memórias do Cárcere, Vol. 1, Graciliano Ramos. Lisboa: Editorial Caminho, 1993, p. 93).
[Texto 3136]

«País a quem»?

Assim vai a língua

      «O rei português D. Pedro IV morreu há 168 anos no Brasil, país a quem deu a independência e onde se tornou imperador» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
      Dantes sabia-se que o pronome relativo (ou interrogativo) «quem» só se aplica a pessoas ou a alguma coisa personificada. Agora, é o que se vê. E isto com jornalistas, imagino com a maioria da população.

[Texto 3091]

«Haveria de»

Mais avarias

      «No pós-guerra chegou a considerar-se a hipótese de não reconstruir a cidade, deixando-a como uma memória do horror da guerra. Nuremberga, contudo, haveria de ser reconstruída, embora se tenha optado por reabilitar apenas os edifícios mais emblemáticos» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
[Texto 3078]

Colocação dos pronomes átonos

Apanhe-o agora

      «O queixo caiu-me ao chão.» É uma frase da edição portuguesa das Cinquenta Sombras de Grey (p. 252), de E. L. James. Sabia, João Miguel Tavares? Imagine que estava escrito assim: «O queixo me caiu ao chão.» Ainda estaria certo? Agora a sua frase de hoje no Público: «Eu devo confessar que o queixo caiu-me aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar» («Eleições? Foram no sábado», Público, p. 44).
      A conjunção subordinativa «que» atrai o pronome para uma posição pré-verbal. Logo, correcto é desta maneira: «Eu devo confessar que o queixo me caiu aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar.» A colocação dos pronomes átonos é «um dos pontos mais complicados da sintaxe portuguesa», lê-se na Gramática da Língua Portuguesa de Pilar Vásquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz (Lisboa: Edições 70, 1971, p. 493). Complicado para quem, para os estrangeiros? Para os jornalistas?

[Texto 3068]

«Haveria de»

Soa a «avaria»

      «Parece que Ferreira de Castro na selva “se fez homem” e à “selva”, como húmus, haveria de voltar. [...] Levou tempo a escrever sobre a selva. Sabia que ela estava dentro de si e que haveria de contar a exploração dos homens, o horror da solidão da Amazónia, verdejante de excesso de calor, os urros como entidade viva, o pesadelo do coração das trevas, que Joseph Conrad também descreveu» («Casas-museu. Dois lugares para a memória de Ferreira de Castro», Raquel Ribeiro, Público, 7.07.2013, pp. 16-17).

[Texto 3062]

«Porque/por que»

Isto é grave

      «“O melhor é pedir a Deus que lhe explique, porque nós não temos explicação”, responde, num impulso, a cirurgiã pediátrica quando questionada sobre como Gilberto Kássimo Silva, 13 anos, sobreviveu com um tiro na cabeça, no dia 1 de janeiro. “Bartolo”, nome porque é conhecido no bairro da Quinta da Fonte (Sacavém), vive já há mais de seis meses com a bala, que lhe entrou pela boca, alojada no tecido muscular encostado às vértebras que ditam a mobilidade dos membros inferiores e superiores» («‘Bartolo’, o ‘imortal’, vive com uma bala na cabeça», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 12).
      Valentina Marcelino, Valentina Marcelino, então agora é assim que se escreve? Ora veja: «Também nas imediações do Rato (que, ao que se sabe, tirou o nome por que é conhecido não de nenhuma praga de roedores que o tivesse afectado, mas sim de um tal Luís Gomes de Sá e Menezes, por alcunha o Rato, fundador do convento das religiosas da Trindade — as Trinas, como normalmente eram referidas — que se encontrava onde actualmente se ergue a Igreja de N.ª S.ª da Conceição) surgiu o primeiro bairro industrial» (Esta Lisboa, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 1993, p. 52).
[Texto 2999]

«Terá abrido fogo»

Mas estava assustado

      Tiroteio em São Miguel d’Acha. Anteontem, no Jornal das 8 da TVI, o alferes da GNR Tiago Delgado, ainda com ar assustado, afirmou: «Um dos indivíduos que tinha fugido terá regressado numa moto. Os militares, ao avistarem a moto, estranharam porque o indivíduo até estaria sem capacete. Ao tentarem abordá-lo, o indivíduo imediatamente sacou de uma caçadeira e terá abrido fogo sobre os militares.» É o particípio passado regular do verbo «abrir» — mas caiu em desuso. O alferes Delgado, com vinte e tal anos, devia saber isto.
[Texto 2370]

Conjunção subordinativa causal

Pois

      «A conjunção pois não tem sido classificada como conjunção [subordinativa] causal», escreveu o consultor do Ciberdúvidas numa consulta datada de 6 de Março deste ano. Tem a certeza? Veja lá, é que eu tenho a certeza do contrário — e provo-o já: Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições Sá da Costa, 1984, pp. 381-82) integram-na entre as conjunções subordinativas causais, o que abonam com uma frase de Érico Veríssimo de Um Lugar ao Sol: «Tio Couto estava sombrio, pois aparecera um investigador da polícia perguntando por Gervásio.» Lá está a iniciar oração subordinada denotadora de causa.
[Texto 2369]

«Sofás creme»

Está nas gramáticas

      «O mobiliário que decorava o átrio era Luís XV, ou imitava bem, com sofás cremes e cadeiras forradas a couro branco» (O Codex 632, José Rodrigues dos Santos. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 115).
      A maioria dos nomes das cores são, como se sabe, adjectivos, que, é óbvio, se flexionam normalmente e concordam com os nomes que qualificam. Alguns, porém, são substantivos, e nesse caso não se flexionam. Logo, sofás [de cor] creme.
[Texto 1995]

«O que não falta é/são»

Elas gostam de apanhar

      Quem é que disse que não podíamos ir para trás? Para a frente é que não podemos, porque não sei que disparates os jornalistas vão escrever amanhã. Mas ia escapando um de lesa-sintaxe: «E se estiver na região e o tempo não for um problema, então mais vale levantar-se bem cedo e rumar até ao Luso, onde o que não faltam são espaços verdes e a água fresca jorra livremente nas bicas da fonte do centro da vila» («Levar o farnel na cesta e pôr a mesa ao ar livre», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 2.08.2012, p. 48).
      Então agora já não somos capazes de identificar o sujeito da frase, a isso chegámos ou nisso estamos?
      «— Mas claro! Na praia, o que não falta são rapazes bonitos, verdadeiros Tarzans. É ou não é? E quero saber o seguinte: quando você vê um, nessas condições, você não me compara com ele? Confessa! Sim ou não?» (Elas Gostam de Apanhar, Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 123).
[Texto 1959]

«Devido a»

Toda a verdade

      «— Devida a — Perguntou-se-me se é portuguêsa a forma devido a. Pelos jornais, revistas e livros modernos são de cotio frases assim redigidas: — não fui devido à chuva, — fiquei devidos aos negócios, — etc.
      Segundo o filólogo Mário Barreto o uso de devido a “é coisa recente”, mas “pode defender-se, considerando esta forma como preposicional.”
       Em português de lei temos as formas — em virtude de,em atenção a,em conseqüência de, por causa de, por obra de, por amor de,graças a, resultante de, — por e outras que tais.
      Mário Barreto, que muito a preceito sabia as coisas da língua, fez uso de devido a, como locução preposicional, nêste passo: — “Posteriormente, devido à relação com cerrar, disse-se e prevaleceu em castelhano cerrojo”. (Através, 127.)
      Sandoval de Figueiredo nos seus Vícios de Linguagem, pág. 155 e 156, diz que é galicismo a expressão devido a. Mas deixa de o ser “quando devido se emprega como particípio passivo: Isto foi devido a, estas coisas são devidas a, etc. — “O gênero masculino... é devido à influência do vinho”. (Mário Barreto: Novíssimos, 37) — “Estas imperfeições eram devidas à criação quase monástica que recebera”. (Rebêlo: H. de Port., I, 5)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 30)
[Texto 1778]

«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]

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