Amálgama: «prosumer»

Isto também passa

      Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, alguém que tenha lido a expressão «vórtice crísico», forjada pelo ex-presidente Ramalho Eanes? Com todo o respeito — é de estarrecer!
      Nem tudo, porém, é mau. Os jornais continuam de olhos extasiados nos luminosos estrangeirismos, mas, pelo menos, honra lhes seja, já vão explicando de que se trata: «O “jornalismo participativo” dos prosumers, pessoas que são simultaneamente produtoras e consumidoras de informação (caso dos blogues), tem uma importância crescente só ultrapassada pelo imparável movimento das fugas» («Guerrilha mediática», Cristina Peres, Expresso, 16.04.2011, p. 41). Já é um avanço, e avanço conspícuo. O próximo é deixarem de usar estrangeirismos escusados.
[Post 4727]

Anglicismos

Haja ouvidos e vento

      Ontem, Miguel Esteves Cardoso levantou-se menos inglês que nunca, e pôs-se a desancar nos anglicismos mais óbvios usados na imprensa, e em especial no jornal em que publica a sua crónica diária.
      «Ontem, a Standard & Poor’s cortou o rating português para BBB-, “a apenas um passo do nível denominado como junk”, dizia o PÚBLICO online. Podia ser pior: “a agência baixou também o rating atribuído à Grécia, para BB-, três níveis abaixo do português”. O FT.com adiantava que a S&P tinha tirado Portugal “da lista creditwatch negative”, o que se presume ser coisa boa e de pouco consolo.
      O downgrading do rating para quase junk pede que se pense mais em português. Desgraduar é só uma palavra, ao contrário da inglesa, que são duas coladas. Se existe a graduação do vinho e há anos em que o grau é menor, também existirá a desgraduação. Ou degradação. Ou desvalorização. Ou, mais estupidamente, despromoção.
      O rating ainda é mais fácil: é escalão ou cotação ou, melhor, por serem four letter words: grau, nota ou furo. Afinal, é uma avaliação quantificada, como as estrelas do PÚBLICO. Junk é americano para lixo (e ultimamente calão para qualquer genitália). Também se poderia traduzir zero, já que a agência classifica a Grécia como estando a dois graus abaixo de zero, enquanto Portugal se mantém a um grau acima de zero» («Embarquemos no junco», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.03.2011, p. 39).
      Nos noticiários da Antena 1, nunca ouvi a palavra junk — mas também era só o que faltava. Diziam «lixo», que é junk mas é português. O aportuguesamento devia ser sempre a última opção. O ideal seria encontrar termos em português para traduzir os estrangeirismos. Assim, os termos aventados por Miguel Esteves Cardoso são tão bons como outros. O problema é que são aventados — ou seja, e etimologicamente, atirados ao vento —, não são sugeridos ou recomendados por uma entidade que vele pela língua, porque a não temos.
[Post 4630]

Sobre «chance»

Já lá vai

      «Os jornais contaram que [Annie Girardot] se apaixonou por Renato Salvatori, cara de homem, o boxeur irmão de Rocco. Tivesse ela escolhido Rocco (o bonitinho Alain Delon), eu ficava a saber que eu não teria chances. Há poucos anos, por um comovedor livro da sua filha Giulia Salvatori, A Memória da minha Mãe, eu soube que ela tinha Alzheimer» («A memória que não perco dela», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 1.03.2011, p. 56).
      Para mim, é um dos mais detestáveis galicismos que vieram conspurcar a nossa língua. Felizmente, tudo passa, e este barbarismo tem os dias contados (excepto, talvez, no Brasil). Alternativas: acaso, alternativa, boa sorte, dita, encontro, felicidade, fortuna, ocasião, oportunidade, probabilidade... A determinada altura, alguém veio propor o aportuguesamento em «chança», mas Vasco Botelho de Amaral fez ver que «chança» significa «mofa, zombaria, chalaça», e, como adaptação de «chance», seria inútil.


[Post 4504]

Anglicismos

E cá?

      Na crónica de hoje de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias, ficámos a saber que os Franceses foram aconselhados a referir o iPad e aparelhos semelhantes como «ardoise». 
      «O londrino The Times fez ontem um artigo à volta de uma fotomontagem. Descrevo-a: numa sala de aula, garotos de há meio século mostram as suas ardósias (para os leitores mais novos: uma pedra preta onde se escrevia com giz — escrevia-se e apagava-se, hoje chamar-se-ia um objecto sustentável). Mas há uma menina que em vez da lousa segura algo parecido: um iPad. A fotomontagem ilustrava este assunto: a Comissão de Terminologia e Neologismos [Commission générale de terminologie et de néologie], polícia francesa da língua, proíbe que os dez milhões de funcionários franceses chamem “iPad” àquela magia plana e fina, um computador do tamanho de uma ardósia, que permite navegar na Internet, ler livros e jornais (esta semana, o DN aderiu a essa maravilha). E o que propõe a tal comissão como nome para combater o termo anglófono? “Ardoise”, ardósia. Não está mal lembrado. Primeiro, pela certeira evocação antiga. Segundo, porque sugere um sentimento de gratidão para com a Apple (“ardoise”, em francês, também quer dizer dívida). Terceiro, porque a Apple chegou a pensar chamar iSlate ao seu invento (“slate”, em inglês é ardósia). E, sobretudo, quarto, porque nenhuma língua deve deixar-se apagar. Para o que americanos chamam IT (Information Technology) os franceses inventaram a palavra “informatique” e conseguiram exportá-la: nós (e os americanos!) adoptámo-la. Às vezes, um pouco de teimosia vence batalhas dadas por perdidas» («O regresso da ardósia perdida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.02.2011, p. 68).
      Cá ninguém quer saber: não temos nenhuma entidade encarregada de velar pela língua e a apregoada defesa da língua são só palavras.
      (Na semana passada, vi uma tradução do inglês em que se tinha usado o vocábulo «pedra» para traduzir «slate», e, de facto, pedra também é lousa escolar, ardósia, mas é ambíguo.)
[Post 4498]

Como se escreve nos jornais

Atirou mal

      Estão a ver ali o «prime-time» hifenizado no texto de Fernanda Câncio? Muito bem. Agora vejam este excerto de outro artigo: «O presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia foi, de resto, o primeiro dos três convidados a entrar em estúdio. “Já era justo que o Nico tivesse um talk show em prime time na televisão portuguesa”, disse o autarca» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9). E agora leiam o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Prime time noun, primetime adjective.» Vai sendo mais necessário saber inglês do que português... Neste último artigo, temos prime time, talk show, stand up comedy, sketches e esta aberração: «Também Nuno Eiró está de regresso, após ano e meio afastado do pequeno ecrã. “Sou o sidekick do programa. Estou no exterior, tenho intervenções em estúdio... É um regresso com muito prazer porque é com o Nico”, atirou» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 58).
[Post 4490]

Como se escreve nos jornais

Mettre en poche

      «Não é à China, nem à Rússia, nem à Venezuela, nem ao Brasil; nem tanto, sequer, aos países da zona. É aos que historicamente culpam por todos os seus males e que forjaram cumplicidades com todos os ditadores em causa — mesmo os que, como Kadhafi, mandaram abater aviões civis europeus — em troca de petróleo, contenção da imigração e investimentos bilaterais, os que empocham sorridentes o dinheiro das oligarquias e fecham os olhos a todas as violações de direitos humanos que não apareçam em prime-time (só agora é que a Suíça percebeu que Mubarak e Kadhafi são facínoras, para decidir congelar-lhes as continhas?) que os líbios e os bahreinianos pedem apoio: a velha Europa e a velha América» («24.02.2011», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9).
      No Diário de Notícias, não há jornalista tão propenso ao barbarismo. Experimente, Fernanda Câncio, perguntar aí aos seus colegas se sabem o que significa «empochar». Não sei se há algum dicionário da língua portuguesa que acolha o verbo, tirante José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, p. 375), que condena o seu uso: «Empochar, v. tr. Galicismo de uso condenável, pois só há vantagem em o substituir por embolsar.» «O empochar, por embolsar, já se vai vulgarizando, e não tardará que digamos poche em vez de bôlsa» (Paladinos da Linguagem, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1922, p. 237). «Empochar. É galicismo inaceitável por embolsar» (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Editora Educação Nacional, p. 178).
      Para juntar o pior de outros e deste tempo, a jornalista também achou imprescindível o anglicismo prime-time. Tem receio de, se não escrever desta forma, não ser entendida...

[Post 4489]

Estrangeirismos

Com humanismo

      Jorge Fiel entrevistou o director-geral da Servilusa (abrenúncio!), António Balha e Melo. Ora vejam o atendimento: «Após a recepção da chamada no call center, é mobilizado um dos 36 técnicos comerciais, que fardado de fato cinzento, pin da Servilusa na lapela, camisa branca, gravata verde-alface, se desloca ao local do óbito num Ford Focus castanho. Mostra à família o catálogo que leva no portátil e aconselha nas opções. Assinado o contrato, é logo digitalizado e enviado por e-mail para o coordenador do serviço, que destaca uma assistente com formação em Humanísticas para tomar conta da operação até ao fim» («“Ninguém morre duas vezes”», Jorge Fiel, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 104).
      Aquilo da assistente com formação em Humanísticas é que me deixou, já não digo de pé atrás, porque nestes casos vão os dois ao mesmo tempo, mas intrigado. Como a seguir se lê que «dignidade, respeito e humanismo são o mantra do director-geral da Servilusa», temo que haja aqui confusão. Quanto a Jorge Fiel, que começou por ser revisor no Jornal de Notícias, não teve artes de evitar os estrangeirismos call center, pin e e-mail. No perfil que traçou de António Balha e Melo, porém, teve o bom senso de escrever que o entrevistado, «aos 49 anos, aceitou o desafio de um caçador de cabeças (Rafael Mora) para tentar salvar da morte a Servilusa». Vá lá, evitou o barbarismo headhunter.

[Post 4459]

Como se escreve nos jornais

Imagem tirada daqui
Não têm pena

      Patrícia Viegas, do Diário de Notícias, entrevistou Paola D’Agostino, tradutora, escritora e professora de Italiano que vive em Portugal desde o ano 2000, isto porque a «escritora integrou a manif anti-Berlusconi». A determinada pergunta, Paola respondeu: «Falo das raparigas envolvidas nos escândalos e a quem são feitas por vezes promessas que ninguém chega a cumprir. Elas oferecem o seu corpo e algumas são ministras e deputadas no Parlamento. Mara Carfagna, que também já foi velina, é agora ministra da Igualdade de Oportunidades — que é um ministério que merecia mais dignidade» («“Italianos perceberam que havia um proxenetismo de Estado”», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 56).
      Cara Patrícia Viegas, por acaso não se esqueceu de perguntar o que significa «velina»? Assim, sem qualquer explicação (e olhando para a fotografia da senhora ministra), começamos a formar no espírito uma certa ideia. Contudo, no Il Sabatini Coletti, lemos que «velina» é a «valletta di trasmissione televisiva che parodia i telegiornali». As vallettas italianas não são, como as nossas, coisas sujas, antes raparigas atraentes que servem de ajudantes do apresentador de um programa televisivo. (Quanto a «bunga-bunga», dispensamos esclarecimentos. É o nosso, não dicionarizado, «truca-truca».)
      Temi o pior, até porque já tinha ficado espantado com um cartaz na tal manif em que se podia ler «Berluscona». É que os manifestantes, todos com cara de italianos, já passaram por um processo de aculturação...

[Post 4437]

Estrangeirismos

Glück muss man haben!

      «É preciso sorte, também, recorda ainda Anselmo Borges. Por isso mesmo, há palavras cujo étimo assume as duas ideias em conjunto, felicidade e sorte. O glück alemão remete para ambas, a raiz da hapiness inglesa é happ, que quer dizer acaso ou fortuna, tal como acontece com o grego eudaimonia ou o francês bonheur» («A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?», António Marujo, «P2»/Público, 24.12.2010, p. 14).
      O uso da metalinguagem é um mistério insondável para alguns jornalistas... Adiante. Então não é Glück que se escreve em alemão? Já aqui referi o mesmo erro em relação a outra palavra alemã, «Kaiser». Ultimamente, porém, já vai aparecendo bem grafada: «Na idílica Taunus, na Alemanha, o hotel-castelo Kronberg apresenta mobílias exclusivas e uma colecção de antiguidades e pinturas da propriedade privada da mãe do último Kaiser, que lhe conferem um ambiente de tempos imperiais antigos. Por 119 euros, é possível dormir num dos mais impressionantes castelos alemães» («Vida de nobre por uma noite dormindo num castelo», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 10.06.2010, p. 63).
[Post 4248]

Léxico: «downday»

Dispensamos


      Como os jornalistas continuam embevecidos com estrangeirismos, e de preferência anglicismos, tenho de ir dando aqui conta de alguns. Downday é o último: «A Autoeuropa não vai utilizar mais nenhum “downday” (instrumento que permite parar a produção, sem que a fábrica tenha de pagar um dia normal de salário) até ao final do ano, cancelando já o próximo previsto para 4 de Outubro, segundo a comissão de trabalhadores» («Autoeuropa cancela “downdays”», Jornal de Notícias, 16.09.2010, p. 44).
      Em Junho, o mesmo jornal já tinha explicado melhor, dizendo que downday era a «dispensa de dias de trabalho».

[Post 3887]

Estrangeirismos

Também é doença, também é grave


      Se não registam «petanca», alguns dicionários, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, registam o termo inglês «quiz», o que leva alguns jornalistas a usá-lo como se fosse português: «No seu estilo informal, o director da Monocle lançava um miniquiz sobre os BRIC: Onde compraria uma casa de férias?» («Brasil, país do futuro: agora é para valer!», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 13.09.2010, p. 7).

[Post 3877]

Léxico: «senhoriagem»

Não maçaria nada


      «O jornal The Wall Street Journal dedicou um artigo a notas. E dedicou-se logo às maiores, de 500 euros. De 2007 para cá, desde a pré-crise, as notas de euro em circulação cresceram 11%, mas as de 500 cresceram 26%... O artigo explica que o aumento de notas de 500 ajudou a fortalecer o sistema financeiro da Zona Euro (tem a ver com uma coisa que se chama seigniorage, privilégio que têm os bancos centrais, com a qual não vos maço) mas também preocupa as autoridades policiais» («O ruir de uma lenda antiga», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 1.08.2010, p. 68).
      Não maçaria nada — só nos maçou o estrangeirismo. Ora abra aí, caro Ferreira Fernandes, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 1448. Pois é: eis senhoriagem: «1. Direito que se pagava em reconhecimento de um senhorio, como o que um monarca percebia pela cunhagem da moeda; 2. diferença entre o valor real e o nominal da moeda.» Não faltam, por essa Internet fora, exemplos de uso de «senhoragem», mas, com excepção do Dicionário Aulete Digital, os dicionários ignoram tal variante. De facto, se provém de «senhorio»... O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista somente (na página 928) «senhoriagem».

[Post 3753]

Estrangeirismos

Sem emenda


      Na Antena 1, acabo de ouvir o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, falar em «testes de resistência do sistema bancário». Nos jornais, escreve-se desta forma negligente: «Os “stress tests” que estão a ser feitos aos bancos portugueses indicam que o sistema bancário de Portugal é sólido, robusto e não tem problemas de capital, disse ontem o secretário de Estado do Tesouro em entrevista à agência Reuters. Carlos Costa Pina revelou que, até agora, as instituições mostram bons rácios de solvabilidade» («“Stress tests” indicam sistema sem problemas», Metro, 13.07.2010, p. 6).

[Post 3686]

Sobre «doula»

Ainda ontem


      Lê-se no Ciberdúvidas: «Sou revisora de texto numa revista cuja especialidade é a gravidez. Há pouco tempo deparei-me com a palavra “doula”, de origem grega, que é a mulher que acompanha a recém-mãe após o parto. Esta palavra é utilizada em diversas línguas. A minha questão é se faz parte do léxico português. Não constando em nenhum dicionário, deverá ser encarada como um estrangeirismo?» A consultora Ana Martins respondeu: «Sim, a palavra está dicionarizada. Cf. doula no Dicionário Aulete Digital. Há estrangeirismos que estão dicionarizados e há-os que não estão, dependendo da avaliação de frequência empreendida pelo lexicógrafo.» (Não teceu qualquer consideração sobre a aberração «recém-mãe», indigna de uma revisora, ao contrário do que, sem qualquer dúvida, faria um consultor como José Neves Henriques.)
      A transliteração para o alfabeto latino da palavra grega correspondente dá doulē. Foi num estudo, «Mothering the mother: how a doula can help you to have a shorter, easier and healthier birth», de Marshall Klaus e John Kennell, datado de 1993, que o vocábulo «doula» foi, à falta de um inglês para transmitir o conceito, usado. E foi através do inglês que nos chegou. Como não destoa da fonética nem da grafia da língua portuguesa, rapidamente está a ser integrado na língua e não tardará a chegar a outros dicionários. O Dicionário Aulete Digital devia ter registado, na etimologia, que nos vem do grego, sim, mas mediado pelo inglês. Em francês também se usa o termo «doula».

[Post 3658]

Uso de estrangeirismos

Imagem: http://commons.wikimedia.org/

Do Vermont à Porcalhota


      «Com uma área de 20 mil metros quadrados, o parque temático permite a prática de ski, snowboard, skate, inline (patins em linha) e BMX freestyle» («Esquiar na Amadora por 18 €», Bernardo Esteves, Correio da Manhã, 21.09.2009, p. 19). Apesar de o título usar o verbo esquiar, no texto o jornalista achou que ficava melhor em inglês, para não destoar de tudo o resto… O que o levou também a usar o vocábulo inline, se bem que tenha tido de o explicar (patins em linha). Em vez de pensar que podia, pelo menos, usar duas palavras portuguesas, não, preferiu tornar o texto parcialmente compreensível a um turista anglófono. Assim, esquiar no Vermont ou na Porcalhota fica mais parecido.

Sobre «botellón»


Noitadas e copos

      Depois da movida, era quase inevitável: também o botellón chegou a Portugal. Na imagem, vemos a reprodução de um folheto de divulgação de um megabotellón (incorrectamente escrito porque escrito por estudantes universitários?) em Coimbra. E no dia 11 de Setembro de 2008, lia-se o seguinte título no Jornal de Notícias: «Bares prometem travar “botellón” nos Clérigos». Mas desta vez a notícia vem mesmo de Espanha: «Chamada ao local, uma viatura da polícia foi imediatamente apedrejada por um grupo de jovens que se encontrava no local a participar num ‘botellón’, as populares festas ao ar livre habitualmente regadas com muito álcool» («Noite de violência às portas de Madrid», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 32). «Festas populares»? Botellón é o nome que se dá em Espanha ao costume de jovens, reunidos em grandes grupos, consumirem bebidas alcoólicas na rua.

Estrangeirismos

Dois light rails, s. f. f.


      «O plano prevê ainda ligações através de metro ligeiro (light rail) às zonas de mais difícil acesso pelo metropolitano, nomeadamente ao Alto da Ajuda» («Metro vai ter 33 novas estações», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 19). Não vá o leitor querer comprar um metro ligeiro no estrangeiro para pôr a circular no quintal, o jornalista acha indispensável indicar o nome em inglês. Nunca se sabe, não é?

«De baixo custo» e não «low cost»

Não custou nada, aposto

      «A companhia aérea de baixo custo Ryanair anunciou ontem o lançamento de três novas rotas a partir do Aeroporto Francisco Sá Carneiro e uma delas — Porto-Faro — representa a sua primeira ligação doméstica em Portugal» («Ryanair começa a voar entre o Porto e Faro», Aníbal Rodrigues, Público, 6.08.2009, p. 20). Só uma pergunta: custou muito, causou muitos engulhos escrever de baixo custo em vez de low cost? Os colegas da redacção gozaram muito? Continuem a ser assim sensatos.




Provedor do «Público» e estrangeirismos

Bom critério



      Na sua crónica de 7 do corrente, escrevia o provedor do leitor do jornal Público: «Encontrando-se o provedor (não nestas funções) a dialogar, meses atrás, com o músico espanhol Paco Ibañez para lhe preparar uma entrevista, foi em certo ponto surpreendido pelo interlocutor com uma sucessão de impropérios no mais puro vernáculo castelhano, proferidos em estado de grande agitação. Demorou alguns segundos até o provedor perceber que tão explosiva reacção se devera ao facto de ter usado a sigla inglesa “OK”. O cantor de protesto protestava contra esta “submissão” linguística ao “imperialismo americano”, em termos tão vivos que chegou a ameaçar não conceder a entrevista. Não havia equivalente em português? Sim, o “está bem” (mas quem é que hoje entre nós diz “está bem” quando tem à mão o mais sintético e eficaz “OK”?)» («Que língua fala o Público?», Joaquim Vieira, Público, 7.06.2009, p. 39).
      Bem, eu nunca digo «OK», mas talvez porque, ao contrário de Joaquim Vieira, não tenho o inglês como segunda língua. Também lhe posso dizer que «OK» não é uma sigla. Continua o provedor: «É inevitável que muitos estrangeirismos venham a ser adoptados pela língua portuguesa, quando a sua utilização estiver mais ou menos massificada, e que os media incorporem logicamente pelo menos alguns deles na sua linguagem antes de os filólogos os acrescentarem aos dicionários. Por isso, não fará sentido, como propõe o leitor Odílio Lopes, vasculhar o vocabulário tradicional para dizer “roupa íntima” em vez de “lingerie”, “fígado gordo” em vez de “foie-gras” ou até mesmo “passagem de ano” em vez de “réveillon” (ou ainda, como impunha Paco Ibañez, “está bem” em vez de “OK”), tudo expressões a caírem em desuso no português.» Não apenas não me parece que os filólogos sejam os especialistas mais indicados, como em relação a «passagem de ano» e «réveillon» não é isso que vejo, antes diria o contrário. E mais: habitualmente, o termo francês é incorrectamente grafado sem acento.
      Um critério do provedor, sobretudo se for verdadeiro e seguido, me agrada: «No seu caso, o provedor, ao redigir um texto, costuma pensar: “Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?” (para esta crónica, se não desistirem a meio, vão seguramente necessitar de recorrer com muita intensidade aos dicionários). Tudo o que pode pois recomendar aos jornalistas do PÚBLICO é que tenham idêntica atitude.»

«Chef» e «chefe»

Estamos na cozinha




      «O conceituado chefe de cozinha Vítor sobral deixa por agora o restaurante Terreiro do Paço, encerrado desde Fevereiro por causa das obras na Praça do Comércio, para se dedicar a um novo projecto, desta vez em Campo de Ourique» («Vítor Sobral troca Terreiro do Paço por um espaço de petiscos em Campo de Ourique», Ana Henriques, Público, 22.05.2009, p. 24). A locução chefe de cozinha ocorre com frequência. Já apenas chefe para designar o «grande cozinheiro encarregado da direcção da cozinha de um restaurante, um hotel, uma residência, notáveis pela qualidade da alimentação» (na definição do Dicionário Houaiss) é muito raro, preferindo-se-lhe o galicismo chef. (Em espanhol também se usa o galicismo chef ou, como única alternativa, maestro de cocina.) Durante muito tempo, na língua francesa apenas se usava a locução chef de cuisine, e só no século XIX se passou a usar em termos absolutos chef na mesma acepção. Talvez esteja na hora de fazermos o mesmo.


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