30.7.26
Pobres espectadores
[Texto 23 376]
Pobres espectadores
[Texto 23 376]
É dos nervos
[Texto 23 330]
Conta-me histórias
[Texto 23 278]
Não devia ser assim
[Texto 23 216]
⋅ ── ✩ ── ⋅
P. S.: Diga-se também que Ana Sá Lopes escrever, nesta mesma crónica, três vezes «azul escura» e «semi-obscuro» não é confusão com coisa nenhuma, já que com o Acordo Ortográfico de 1990 nada disto mudou. São erros ou descuidos ou convicções perdoáveis num cidadão que conduz táxis ou que é talhante num supermercado, não num jornalista.
Faltam dois dias
[Texto 23 208]
É como se vê
Na quarta-feira vi, na RTP2, o primeiro episódio da série italiana Um Tempo Após Outro (Un’Estate Fa, 2023), de Davide Marengo e Marta Savina. Como envolve linguagem e conceitos jurídicos, a probabilidade de haver erros na tradução era muito alta. Como de facto. Quando Elio Santamaria está na iminência de levar um murro bem assente, de que será salvo in extremis pela intervenção de um traficante de droga, diz: «Articolo 582, percosse volontarie.» Nas legendas, da responsabilidade de Florinda Lopes (assim como a tradução), aparece isto: «Art. 582.: agressões voluntárias.» Não significa rigorosamente nada para o espectador português, não temos tal figura. É verdade, mas irrelevante para a tradução, que a personagem mistura duas figuras penais próximas do direito italiano. Ao citar o artigo 582.º do Código Penal, refere-se na realidade ao crime de lesões pessoais («lesioni personali»), isto é, à produção de danos físicos ou psíquicos noutra pessoa. Contudo, usa a expressão «percosse volontarie», que remete antes para o crime de «percosse» (artigo 581.º), correspondente grosso modo às vias de facto ou agressões sem lesão relevante. A confusão é plausível numa personagem jovem e sob tensão, sobretudo porque ambas as figuras pertencem ao mesmo campo semântico da agressão física. De volta à tradução, havia duas opções: «Artigo 582.º, ofensas à integridade física dolosas.» Ou, mais verosímil perante a situação de tensão e a condição de caloiro de Direito que a personagem seria, assim: «Artigo 582.º, agressão dolosa.» A tradução correcta exige reconhecer que o italiano está a assinalar o dolo e depois encontrar a categoria equivalente no nosso ordenamento, não apenas o correspondente vocabular.
[Texto 23 021]
⋅ ── ✩ ── ⋅
P. S.: Mas encontrei mais erros. Como este, ainda menos desculpável: «O fato, inspetor, é que não me lembro de nada daquele verão», diz Elio Santamaria ao inspector Zancan, à saída da missa. Um dia, só semialfabetizados saberão, sem qualquer espécie de hesitação, que se escreve «facto», porque tradutores, jornalistas e outros que ganham a vida a escrever é o que se vê. Mais uma coisa: escreve-se 581.º, não 581., assim amputado. Para onde mando a factura?
Nós é que ficamos
«Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6).
E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.
[Texto 23 020]
E não há esperança
«Estrelas em ascenção à boleia da história de amor de Kennedy Jr.» (Margarida Cerqueira, Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 31).
Ainda um dia (hoje?) em que não tenha nada de mais importante para fazer, Margarida Cerqueira, experimente consultar um dicionário. Verá coisas extraordinárias, que não lhe vou revelar, e coisas banais, como esta de a palavra se escrever «ascensão». De verbos terminados em «-ender», retenha, temos substantivos derivados com «-são». Logo, ascender, ascensão. Simples, não é? Partilhe, diga ao seu editor.
[Texto 23 006]
Antes que se consolide
«Em comunicado enviado posteriormente às redações, a GNR explica que a fuga “foi facilitada pela intervenção de cerca de duas dezenas de cidadãos que se encontravam no local e que criaram uma barreira física, impedindo o encalce imediato por parte dos militares”, os quais ainda fizeram “disparos de advertência para o ar”, mas não lograram travar o fugitivo» («Tiros para o ar durante fuga de tribunal», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 14.05.2026, p. 39).
Claro que já vi demasiadas vezes este erro, mas hoje, João Carlos Rodrigues, vai aprender. Vai aí uma grande confusão nessa cabeça. A expressão é uma e só uma, sem variantes, ir no encalço de, que significa «seguir a pista de; perseguir». Era o caso. Quanto a «encalce», que não fique por esclarecer, é simplesmente uma forma do verbo encalçar, que significa «ir no encalço de; seguir de perto». Basta seguir aqui o seu colega: «O detido, algemado, fugiu pela porta principal do tribunal. Os militares arrancaram no seu encalço, mas, já no exterior, voltaram a ser agarrados por pessoas que ali permaneciam» («Invadiram tribunal para permitir fuga de cadastrado detido», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 14.05.2026, p. 16).
[Texto 22 980]
Então agora é assim?
O porta-voz da PSP, Sérgio Soares, que participou hoje no programa Consulta Pública, na Antena 1, lamentou o caso dos alegados maus-tratos nas esquadras do Rato e do Bairro Alto, em Lisboa. Sérgio Soares frisou que a PSP denunciou o que aconteceu e tem colaborado com a investigação. Era o que faltava que não colaborasse, digo eu. «É lamentável», afirmou, «que existam estas alegações e estes indícios. De referir que a Polícia de Segurança Pública, logo que teve conhecimento das alegadas suspeitas de polícias no cometimento de situações graves, que consideramos, aliás, muito graves, deu início à respectiva denúncia ao Ministério Público, à autoridade judiciária competente...»
Então agora são alegadas suspeitas? Já não são apenas os factos, as próprias suspeitas são meramente alegadas? A formulação acaba por insinuar — involuntariamente, decerto — que nem sequer está assente a existência de suspeitas reais. Como se alguém tivesse apenas alegado que havia suspeitas, mas essas suspeitas ainda carecessem elas próprias de confirmação. Reveja bem isto, senhor subintendente Sérgio Soares.
[Texto 22 967]
É a grande compreensão que têm
«À luz do que se sabe, diz [a infecciologista e ex-secretária de Estado para a Promoção da Saúde Margarida Tavares], “podemos questionar se é preciso uma quarentena tão prolongada e a ser cumprida numa unidade de saúde. Penso que poderia haver uma recomendação para que as pessoas permanecessem em casa e se abstivessem de contatos próximos. Era muito mais humano, as pessoas serem aí vigiadas diariamente por um profissional de saúde”» («“Alarme social prova que países ainda não estão preparados para casos de saúde pública”», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 11.05.2026, p. 5).
Isto é que é uma compreensão profunda da língua e do Acordo Ortográfico de 1990, Ana Mafalda Inácio. Convém que reveja urgentemente a matéria.
[Texto 22 965]
E pronto, é isto
«Fizeste borrada da grossa com as reformas, Andrezito» (João Miguel Tavares, Público, 7.05.2026, p. 40). Há sempre alguém a fazer borrada, quando não burrada. Em sentido figurado, são mais ou menos o mesmo. A mesma merda, digamos. De borrada diz a Porto Editora que é a «coisa mal feita». Deve ter pretendido exemplificar com a própria definição, porque correcto é como está na 2.ª acepção de chachada: «coisa malfeita».
[Texto 22 954]
⋅ ── ✩ ── ⋅
P. S.: Pode ser falha minha, Porto Editora, mas não estou a ver, por mais voltas que lhe dê, a jocosidade da designação «escama-peixe».
Também na costa, mas noutra
O 4.º e último episódio da 1.ª temporada da série Vigilantes (Brigade Anonyme), na RTP2, andou todo à volta do desaparecimento de um adolescente, Lucas. Depois de ver que a última mensagem de um dos envolvidos fora enviada de Pontaillac, Charlie pergunta à mãe de um deles onde era. «C’est une plage sur la côte. Mon beau-frère a un carrelet là-bas.» Nas legendas (de Susana Serrão), a opção foi por «palheiro». Pouco feliz. «O meu cunhado tem lá um palheiro...» «Descreva o palheiro, se faz favor», pede Castaneda. «C’est une des cabines sur pilotis. C’est vers la pointe, c’est le plus loin quand on vient de la plage et il y a des volets verts.» Fez-me lembrar uma tradução de um romance norte-americano de que falava Jorge Colaço cujo protagonista, nas palavras do tradutor, «sofrera as passas do Algarve». Enfim... Susana Serrão, bastava optar por «cabana de pesca», por exemplo.
[Texto 22 941]
Sim, boa sorte
No 3.º episódio da série Vigilantes (Brigade Anonyme), Castaneda recebe uma nova chamada de pais em pânico: Adèle Hayat, a filha de 20 anos, desapareceu antes de embarcar num avião para se juntar a eles em Ajaccio. Quando descobriram que a última pessoa que estivera com ela era Damien, um empregado do Grande Hotel, em Royan, a equipa foi lá apertar com ele. Conversaram e, vendo que era inocente, Castaneda despede-se: «OK, on va te laisser travailler. Bon courage.» Pois, mas o que estava nas legendas, de Susana Serrão? «Podes voltar ao batente. Boa sorte.» Boa sorte também para os espectadores, pode ser que 0,5 % percebam isto.
[Texto 22 934]
Da teoria à prática
«Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13).
Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.
[Texto 22 899]
Princípio de Muphry, é isso
«Causou polémica a afirmação da comentadora da SIC, Maria João Tomás, de que Jesus era “palestino”. Na língua portuguesa, dizer que um palestiniano é “palestino” equivale a designar um francês como ‘franço’, ou um português como ‘portuga’. Mas não se pode exigir que uma professora universitária domine a própria língua. Sobretudo quando domina algo muito mais importante: a solução dos problemas mundiais» («Jesus até foi islâmico – e votaria em Seguro», João Cerqueira [escritor], Nascer do Sol, 30.01.2026, p. 41).
Eu não sei como não cai o céu quando se fazem afirmações tão estúpidas. Só ali as vírgulas a isolarem o nome da comentadora da SIC já dizem muito sobre o domínio da língua. Vamos lá ver: não se tem de ter sempre um cuidado acrescido quando estamos a fazer uma crítica? Então e não havia a porra de um dicionário, de um vocabulário, de uma enciclopédia, a internet? Veja se não encontra «palestino»/«Palestinos» imediatamente a seguir a «palestiniano»/«Palestinianos» na página 746 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Em todos os dicionários, aliás. Também não deixa de me espantar que nos jornais se publiquem textos deste jaez. Há-de dizer-se que decorre da mera liberdade, mas no caso parece mais que é dar corda para alguém se enforcar. Em última instância, no entanto, quem se lixa sempre são os leitores, que pagaram e têm de ler estes disparates e que, em alguns casos, por falta de preparação, por falta de discernimento, os vão repetir.
[Texto 22 878]
Tudo na mesma
«“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.
[Texto 22 850]
Ou é a prosa que é adormecente?
«Quanto à difusão, Bacelar Gouveia enfrenta sentimentos contraditórios. Por um lado, está satisfeito, porque o livro (lançado em Fevereiro, com chancela da Almedina) “tem vendido bem”, mas por outro está convencido de que este tema “não interessa às pessoas”: “Nós não temos em Portugal uma questão linguística, reconheço, mas temos pequenas questões linguísticas: o acordo [ortográfico] é uma questão controversa; o modo de escrever; a linguagem inclusiva, que tem muito que se lhe diga; ou a parte da informática, que aqui não está tratada. O problema é que em Portugal há pouco diálogo científico e as elites universitárias, aqui tenho uma visão muito pessimista, são muito frágeis e estão muito adormecentes.” Há, segundo Bacelar Gouveia, razões para isso: “O processo de Bolonha veio burocratizar o trabalho universitário, os professores gastam metade do seu tempo a preencher relatórios e a fornecer estatísticas, e não têm tempo para ler, escrever e pensar”» («“O uso generalizado e até abusivo do inglês começa a ser inadmissível”», Nuno Pacheco, Público, 17.04.2026, p. 30).
As elites universitárias, seja lá isso o que for, «são frágeis e estão adormecentes»... O que me parece é que é muito má ideia usarmos palavras que não conhecemos bem.
[Texto 22 836]