Erros de sempre e para sempre

O habitual


      «A detenção do espanhol aconteceu no dia 4 de dezembro, em Olhão, explica a Polícia Judiciária em comunicado, em articulação com a Guarda Civil. Sob o foragido, de 55 anos, pendia um mandado de detenção europeu pelos crimes de peculato e falsificação» («Figura de Hollywood e foragido em Espanha, foi apanhado no Algarve», Jornal de Notícias, 12.12.2025, p. 22).

[Texto 22 732]

Erros de sempre e para sempre

Só veneno


      Fiquei com alguma vontade de ir ver a peça Veneno ao Teatro Aberto. Lê-se na página do teatro na internet: «Num diálogo de grande intensidade emocional, a peça Veneno (2009), da autora neerlandesa Lot Vekemans, revela os mistérios da alma humana e os modos complexos, muito diversos, como cada pessoa procura manter a esperança ao lidar com os revezes da vida.» Só espero que a autora, que vem cá assistir à estreia, não saiba português. Ou, vá, que saiba ainda menos do que o autor do texto. Vezes não são revezes, como se costuma dizer. Mentira: não diz nada. O que eu queria dizer é que não vou contar nada à autora. Ou será que vou mesmo? Of ga ik het toch doen?

[Texto 22 689]

Léxico: «sinedóquico»

Entre ignorância e omissão


      Há quem tenha descoberto anteontem que, afinal, «já» não se diz Holanda, mas sim Países Baixos. Aprenderam metade, felizmente e decerto por acaso, a mais importante. A outra metade é que só por um curto período, de 1806 a 1810, o país se chamou oficialmente Reino da Holanda (Koninkrijk Holland), com Luís Bonaparte, irmão de Napoleão, como rei. Em 1810, Napoleão anexou directamente o território ao Império Francês. Desde 1815, após a derrota de Napoleão em Waterloo, o nome do país é Reino dos Países Baixos (Koninkrijk der Nederlanden). Pelas minhas contas, ainda nenhum de vocês tinha nascido. Dito isto, Porto Editora, parece-me difícil justificar que em «holandês» continues a afirmar que é a «língua falada na Holanda». Ainda por cima sem nenhuma nota que explique o uso sinedóquico (Holanda é somente o nome de duas das doze províncias do país — era como chamar Alentejo a todo o Portugal) nem referência ao termo mais correcto: neerlandês.

[Texto 22 423]

Confusões: «undercut/uppercut»

Só ao murro


      Claro que os desconchavos se encontram em jornais de outros países e línguas: «Con el cadáver aún caliente de la ciudadana Renee Nicole Good, acribillada a tiros por uno de sus agentes, Bovino irrumpió en las calles de Mineápolis con su corte de pelo uppercut a la moda de los años 30 y esa prenda, de verde oliva, charreteras y doble fila de botones dorados, retrotrae a las fotografías de los militares nazis de las SS llevando su offiziersmantel, de un corte similar pero en cuero negro» («Bovino: el abrigo como símbolo de autoritarismo», Alberto Rojas, El Mundo, 27.01.2026, p. 27).

      A confusão aqui é com undercut, que é um estilo de corte de cabelo associado ao período entreguerras e bastante popular nos anos 1930, até entre os militares (tanto nazis como soviéticos), caracterizado pelos lados rapados e no cimo da cabeça mais comprido. Esta acepção não estar nos dicionários bilingues só contribui para haver mais gente a dizer disparates como este, que já encontrei mais de uma vez. Bastava dizer ➜ undercut corte em que o cabelo é deixado comprido no topo da cabeça, enquanto os lados e a nuca são rapados ou cortados rentes.

[Texto 22 335]

«Fronteiro/fronteiriço»

Parecido, sim

      «“Parecer [sic] ser um espaço muito agradável, calmo e sossegado”, concorda Antónia Fonseca, elogiando a forma como a estrutura [Passeio dos Clérigos] foi inserida na paisagem fronteiriça da Torre dos Clérigos» («Oliveiras em jardim suspenso nos Clérigos», Hermana Cruz, Jornal de Notícias, 15.11.2013, p. 22).
      Será mesmo «fronteiriça» — que fica na fronteira — ou «fronteira» — situada em frente? Que acha, cara Hermana Cruz?
[Texto 3521]

«Júri/jurado»

A confusão continua

      «De fora ficaram assim componentes kitsch como comboios, ciclistas e réplicas de Amália, mas o britânico Pravin Patel, júri do Guiness, confessou-se ainda assim “absolutamente fascinado por todas as peças do presépio [de S. Paio de Oleiros, Feira]”» («Presépio bate recorde do Guiness como o maior do mundo em movimento», Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 20).
      Também dito Praveen Patel aqui e ali — é jurado, não júri. É, não a mais deletéria, mas uma das mais persistentes confusões na imprensa.
[Texto 3502]

«Preferir ... a/antes querer»

Como sai

      Sobre Rui Moreira, recém-eleito presidente da Câmara Municipal do Porto, no «Sobe e desce» de hoje no Público: «Não apresentou uma agenda de projectos em carteira, como muitos autarcas fazem, preferiu antes afirmar o seu desejo de voltar a puxar pelo poder local» (p. 56).
      Eles sabem vagamente como é, é inegável, mas nem sempre acertam. E por isso misturam, confundem, enganam-se, atrapalham-se.
[Texto 3427]

«Recriar/recrear»

Da pressa, hem?

      «Sob um céu cinzento, os soldados avançam em linha enquanto decorrem escaramuças de cavalaria e se ouvem disparos de artilharia. Foram cerca de seis mil figurantes a recrearem no fim de semana, nos arredores de Leipzig, o confronto que ditou o fim da influência de Napoleão na Europa: a Batalha das Nações, que opôs 185 mil franceses a 320 mil alemães, russos, austríacos e suecos entre 16 e 20 de outubro de 1813» («Alemanha. 200 anos da Batalha das Nações», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 8).
      Quando têm de escrever «recrear», escrevem «recriar». Eles dirão que é da pressa; alguns até me perguntam, estocada final, se já trabalhei num jornal.
[Texto 3414]

«Estrato socioeconómico»

E agora um médico

      Pois desta vez foi um médico a escrever o grande disparate: «extracto socioeconómico»! Caramba, será que nunca viu a expressão nem o vocábulo «extracto» num dicionário? Tudo é possível. É estrato socioeconómico, porque se refere aos grupos ou camadas da sociedade. Agora só falta que prescreva o *estrato de alguma planta...
[Texto 3301]

«Quota/cota»

De outiva não vamos lá

      «Outra das suas forças é a existência de uma obra “emblemática” de derivação de um ribeiro desde o monte Córdova, sobranceiro à cidade, que abastecia o edifício e os terrenos envolventes através de um complexo sistema hidráulico. A água vinha do monte até um grande tanque que ainda hoje se preserva, e depois era encaminhada para os chafarizes dos jardins, de onde ia descendo para as quotas inferiores» («Santo Tirso propõe à UNESCO mosteiro que o ajudou a ser concelho», Samuel Silva, Público, 26.08.2013, pp. 12-13).
      Errado, caro Samuel Silva: à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência dá-se o nome de cota, não de quota. São palavras divergentes e, o que mais interessa no caso, só parcialmente sinónimas.
[Texto 3236]

«Rectificar/ratificar»

Era o ano de 2013


      À saída da audiência em que Vale e Azevedo foi condenado a dez anos de prisão efectiva, disse a sua advogada, Luísa Cruz: «Este julgamento violou uma convenção internacional, e que foi feito violando a Convenção [Europeia] de Extradição, que Portugal rectificou, portanto, é evidente que vou pôr em causa.»
Dantes, só os jornalistas caíam nestes erros crassíssimos. Agora até os advogados — os advogados! Rectificar é corrigir, emendar; ratificar é confirmar o que ficou dito ou escrito, validar, comprovar. Se não quiserem aprender comigo, aprendam com Camilo: «Era o anno de 1717. Deter-nos-hemos algumas paginas para rectificar erros de historia» (A Caveira da Mártir, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Tavares Cardoso & Irmão, 1902, 2.ª ed., p. 73). «A ama percebeu-o, e abaixou os olhos em gesto de ratificar o que jurara. Não se demorou ao lado da mãe, que se espantou do porte glacial do filho» (O Demónio do Ouro, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1970, p. 103).
      Nesta mesma notícia, que vi no Telejornal, a jornalista Lígia Veríssimo contribuiu para outra confusão já clássica: entre mandado e mandato.
[Texto 3044]

«Corretor/corrector»

Confusão total

      Está consumada a confusão total: «De acordo com a polícia, monsenhor Scarano foi o cérebro do plano com a ajuda de um corrector, Giovanni Carenzio, e de um agente dos serviços secretos, Giovanni Maria Zito, que foi suspenso há três meses da AISI, os serviços secretos domésticos italianos. A operação falhou porque Carenzio, o corrector, renegou o acordo, segundo os advogados» («Vaticano. O Monsenhor, o banqueiro e o espião presos por lavagem de dinheiro», Sérgio Soares, i, 29.06.2013, p. 32).
      A imprensa em língua inglesa afirma que Giovanni Carenzio é broker ou financier. Será corretor, financeiro.
[Texto 3031]

«Mandado/mandato»

Era só saber ler

      «A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying, considerou ontem “sem fundamento” as acusações de que Pequim teria “deliberadamente” deixado fugir Edward Snowden de Hong Kong, apesar de ter sido emitido um mandato pela sua captura e cancelado o seu passaporte» («China rejeita acusações “sem fundamento”», Diário de Notícias, 26.06.2013, p. 24).
      Lá continuam os jornalistas a confundir, e assim será enquanto o mundo for mundo, mandado com mandato, palavras divergentes e com significado diferente e bem preciso.

[Texto 3024]

«Quando muito»

Posso continuar a repetir-me

      «Para melhor observar o fenómeno, basta abrir os olhos, não há nenhuma dica especial. “Aliás, nem é recomendável observar a lua cheia com telescópio, porque fica demasiado brilhante e encandeia quem observa. Como esta até será mais brilhante do que o normal, é recomendável não observar com telescópio. Quanto muito, podem observar com binóculos”, avisa Ricardo Reis [do CAUP, Centro de Astrofísica da Universidade do Porto]» («Céu oferece uma super-lua cheia em noite de festa de São João», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.06.2013, p. 31).
      Já vimos mais de uma vez que está errado, só pode ser confusão. É uma expressão quantitativa e escreve-se quando muito, ou seja, «no máximo».
[Texto 3005]

Sobre «humanitário»

Confusão

      «Até ao fim de 2013, estima-se que dez milhões de pessoas, metade da população da Síria, dependam da assistência humanitária para sobreviver» («ONU denuncia a pior crise humanitária do mundo na Síria», Rita Siza, Público, 8.06.2013, p. 25).
      Ou seja, para a maioria dos jornalistas, «humanitário» significa uma coisa e o contrário dela. Sim, há vocábulos assim na língua portuguesa, mas não é o caso deste.

[Texto 2943]

«Por cento/porcento»

Pensai, ó homens, pensai

      Hoje, numa prova de Português realizada numa escola deste lindo país, no cabeçalho via-se um espaço para a nota (ou cotação, como se diz na gíria académica) e, à frente, entre parênteses, isto: «porcento». Ou seja, os infelizes que fizeram a prova, professores de Português, pois com certeza, julgam que «por cento» e «porcento» são sinónimos. E não devia haver centros de reeducação para esta gente?

[Texto 2931]

«Proeminente/preeminente»

Como é parecido...

      «Eleito [Rafsandjani] para presidente do parlamento, em 1980, foi a figura proeminente do Conselho de Guerra durante o conflito armado com o Iraque (até 1988)» («O exportador de pistachos é a esperança do Ocidente», Albano Matos, Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 22).
      Mas Rafsandjani é assim tão gordo? Ná. «Além disso, por outro lado, estes modernizavam-se, tentando a conciliação do Ghetto com a civilização moderna que os cercava, como na reforma de Mendelsohn — um judeu de Berlim, compatriota de Lessing, ele próprio filósofo e figura preeminente do Iluminismo alemão» (Estudos de História do Direito, vol. 3, Luís Cabral de Moncada. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1948, p. 84).
[Texto 2913]

«Precursor/percussor»

Só faltou percursor

      «“Em 1991, o Curso de Chinês na Missão de Macau era quase o único existente em Portugal, mas hoje em dia, os cursos de chinês encontram-se por todas as partes de [sic] país. Recebo constantemente pedidos para ensino de mandarim, por parte de instituições ou particulares”, conta a docente universitária Wang Suoying, que em conjunto com o marido[,] Lu Suoying, foram percussores do ensino da língua chinesa em território nacional a partir do início da década de 90» («Mandarim, uma língua do futuro», Liliana Duarte, Público, 25.05.2013).
      Não temos de memorizar os milhares de caracteres do mandarim, mas alguma coisa temos de memorizar. Percussor é o que percute, o que bate, e precursor é o que vai adiante, o que anuncia ou faz algo com antecipação. Os Suoyings foram precursores do ensino do mandarim, porque foram os primeiros a ensinar, em Portugal, esta língua.
[Texto 2893]

«Eminente/iminente»

Mais por demérito alheio

      «Confiar nele é um perigo eminente: dá rapidamente a volta ao texto e exulta com melodrama» («Marcelo», Mário Dias Ramos, i, 29.04.2013, p. 14).
     Marcelo é tão importante, mas tão importante, que mesmo como perigo não ameaça cair sobre alguém ou sobre alguma coisa — simplesmente sobreleva os outros. Nunca medíocre. Medíocres, só os jornalistas.
[Texto 2793]

«Despensa/dispensa»

Dispensamos

      «A advertência sempre me assustou um pouco. Sempre me fez lembrar uma espécie de anúncio de uma catástrofe que se advinha: “Ui, nem sabes o que aí vem... Depois não digas que eu não avisei.” Como se tivéssemos de encher a dispensa de enlatados e preparar-nos para o pior» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 12).
      Para Tristão da Cunha Portugal, na sua Orthographia da Lingoa Portugueza, é que «adivinhar» ou «advinhar» era igual. Mas isso foi em 1856. Já quanto à confusão entre «despensa» e «dispensa», nem ao século XIX se pode ir buscar desculpa.
[Texto 2786]

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