Confusões: «undercut/uppercut»

Só ao murro


      Claro que os desconchavos se encontram em jornais de outros países e línguas: «Con el cadáver aún caliente de la ciudadana Renee Nicole Good, acribillada a tiros por uno de sus agentes, Bovino irrumpió en las calles de Mineápolis con su corte de pelo uppercut a la moda de los años 30 y esa prenda, de verde oliva, charreteras y doble fila de botones dorados, retrotrae a las fotografías de los militares nazis de las SS llevando su offiziersmantel, de un corte similar pero en cuero negro» («Bovino: el abrigo como símbolo de autoritarismo», Alberto Rojas, El Mundo, 27.01.2026, p. 27).

      A confusão aqui é com undercut, que é um estilo de corte de cabelo associado ao período entreguerras e bastante popular nos anos 1930, até entre os militares (tanto nazis como soviéticos), caracterizado pelos lados rapados e no cimo da cabeça mais comprido. Esta acepção não estar nos dicionários bilingues só contribui para haver mais gente a dizer disparates como este, que já encontrei mais de uma vez. Bastava dizer ➜ undercut corte em que o cabelo é deixado comprido no topo da cabeça, enquanto os lados e a nuca são rapados ou cortados rentes.

[Texto 22 335]

Como se escreve nos jornais

Meteorologia popular e dicionário

      «O relâmpago, afinal, caiu duas vezes no mesmo sítio» («Pearl Jam e o ‘grunge’ em filme vinte anos depois», Rui Pedro Tendinha, Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 47).
      Depois do relâmpago de Filomena Naves, o relâmpago de Rui Pedro Tendinha. Como é que se pode confundir raio com relâmpago? Este é apenas o clarão vivo e rápido que acompanha a descarga eléctrica — o raio propriamente dito. Difícil? A deturpação de Rui Pedro Tendinha alude à crendice popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
[Texto 498]

Endereço electrónico

@ de razão

      Na sua crónica de hoje, Nuno Pacheco ocupa-se de uma questão que já aqui foi tratada: a publicação, pelo Ministério da Educação e Cultura do Brasil, de uma obra, Por uma Vida Melhor, em que se defende o indefensável. Escreve, a determinado passo, Nuno Pacheco: «No endereço electrónico do ministério, a polémica favorece o livro. A professora que o escreveu é bem-intencionada, os que criticam o livro não o leram bem, etc.» («O caçador caçado», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 20.06.2011, p. 3).
      É uma confusão já nossa conhecida: quer escrever-se «sítio» e sai «endereço electrónico». Ou terá sido porque, querendo evitar — o que é mais que louvável — o anglicismo site, pensou em «página electrónica»? Há-de ser lapso, mas, para o caso de subsistir alguma dúvida, deixo a definição da Infopédia: «Endereço utilizado para envio de mensagens pela Internet. É constituído pelo nome do utilizador, o símbolo @ (“arroba”), seguido do nome do fornecedor de serviços de acesso à Internet e o símbolo . (“ponto”) com a zona. Exemplo: utilizador@fornecedor.pt».
[Texto 188]

«Aura/áurea/auréola»

Imparável

      Avisada embora, Mafalda Lopes da Costa prossegue o seu inexacto labor linguístico: «Mas inicialmente os ídolos não tinham sequer a áurea de carne e osso que têm hoje» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, 17.06.2011).
      Anda, nos últimos tempos, tudo muito confundido: «aura», «áurea», «auréola». A atmosfera que rodeia ou parece rodear alguém ou alguma coisa tem o nome de aura. Corrigida neste sentido, porém, nem assim a frase de Mafalda Lopes da Costa me parece fazer sentido.
      «Estacou diante da grande Bíblia de bordas douradas e seixas de couro pendentes como chapelões, fechada em seu suporte de madeira lavrada e irradiando de repente uma aura mágica» (O Sorriso do Lagarto, João Ubaldo Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991, p. 47).

[Texto 173]

«Invocar/evocar»

E os revisores, senhores?

      «Quem defende a extinção do MC [Ministério da Cultura] evoca muitas vezes o argumento da transversalidade» («Um ministério ou uma secretaria de Estado é só uma questão de palavras?», Lucinda Canelas, Público, 26.05.2011, p. 7).
      Se os jornalistas consultassem mais os dicionários, as gramáticas e fossem estudando a língua, sua ferramenta de trabalho, não erravam tanto, ou pelo menos em aspectos tão básicos. Sim, alguns sabem e acertam: «O argumento da falta de um “relatório social” e de uma “perícia sobre a personalidade” do arguido já tinha sido invocado na Relação e no Supremo Tribunal de Justiça (STJ)» («Isaltino alega nulidade por falta de perícia sobre a personalidade», José António Cerejo, Público, 26.05.2011, p. 13).

[Texto 61]

«Bramir/brandir»

Ao vêr-te brandir o alphange

      A secção «O Público errou», nos actuais moldes, e com meia dúzia de linhas, é ridícula. Hoje ficámos a saber que, afinal Lobo Xavier não participou na arruada com Paulo Portas no Porto, como ontem o jornal divulgara. Disparates de alto coturno como confundir «brandir» com «bramir» nunca lá os veremos: «Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes» («Luta de classes», Pedro Lomba, Público, 26.05.2011, p. 40).
      «É o mesmo povo que durante séculos brandiu o estandarte da União Árabe» (Dois Caminhos da Revolução Africana, Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, p. 26).
[Texto 55]

«Implantação/implementação»

Não aprendem

      Isso de tudo ter limites não se aplica à estupidez, acho eu. Todos ou quase todos os jornais têm uma secção ou mesmo um suplemento dedicado ao todo-poderoso sector do imobiliário. O meu também tem, claro. Ultimamente, os jornalistas trocam, confundem — agarrem-se bem! — «implantação» com «implementação». Um exemplo real: «A X anunciou o arranque da comercialização do Y em Cascais. O empreendimento é composto por 12 edifícios de apartamentos integrados numa área de implementação de 20 000 m2.» Ora, meus caros colegas e grandes melgas, a área de implantação de um edifício corresponde à área do solo (compreendido no lote) que é ocupada pelo volume total desse edifício. O que sobra, se sobrar, de espaço ao ar livre que não seja ocupado por esse volume denomina-se logradouro. Não me parece é que, como em tantos outros casos, os dicionários expliquem isto muito bem.

[Post 4684]

Ternura/tenrura

Ei-las

      «A lavagem dos cérebros existe. Há um trio de iguarias com fama de serem melhores quando são congeladas: os polvos, as framboesas e as ervilhas. Como em todos os exercícios de propaganda, há um elemento de verdade. O polvo, de facto, ganha acrescida ternura se for congelado» («Eis as ervilhas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.04.2011, p. 41).
      Em espanhol, um bife é tierno, «tenro», como uma pessoa é tierna, «terna». Azar o deles. Nós, inventivos e inteligentes, do mesmo étimo latino formámos duas palavras divergentes: «terno» e «tenro». E assim temos ternura e tenrura. As ervilhas que ontem cozeram no Café das Patrícias, nas Azenhas do Mar, por grandes afectos que tenham provocado nos comensais, só se podiam distinguir de outras, congeladas ou não, pela tenrura.

[Post 4668]

«Ave/pássaro»

Devia ser medonho, sim

       está a confusão entre pássaro e ave: «Reza a lenda que um dia surgiu nos céus de Aguiar da Beira um pássaro gigantesco parecido com uma cegonha mas infinitamente mais medonho. O povo ficou aterrorizado com tal criatura, e mais aterrorizado ficou quando o pássaro resolveu escolher a torre da igreja matriz para aí fazer o seu ninho. Conta-se que foi tal o susto, que até o pároco fugiu da igreja e se recusou a lá voltar. Os anos foram passando e a população continuava a viver com o credo na boca por causa do enorme pássaro a que deram o nome de cabicanca por causa da grande bica que tinha, ou seja, o grande bico» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 9.03.2011).
      Não é fácil imaginar um «pássaro» do tamanho de uma cegonha, a não ser por mutação genética...
      A lenda diz ainda que foi um almocreve, Martinho Afonso, o Escorropicha, que deu um tiro na cabicanca. Tiro com uma funda, talvez... municiado com copos de três. E a propósito de Escorropicha, lembrei-me disto.

[Post 4545]

«Evocar/invocar», outra vez

Isto não acaba

      Carla Bernardino, do Diário de Notícias, entrevistou Jel, um dos Homens da Luta. «Há quem evoque, contra a vossa participação, razões de carácter político. O Festival da Eurovisão não permite a candidatura de temas desta natureza. Teme que isto possa acabar mal?»“Se não nos deixarem concorrer, apanhamos o avião e vamos”», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.03.2011, p. 56). Perguntou mal. É o confusionismo endémico. E, neste caso, não é falta de escolinha, como afirma Montexto, mas falta de uso do dicionário (ou, segundo outros, do cérebro).

[Post 4543]

«Posar/pousar»

Deixa-os pousar...

      «No centro histórico de Havana, velhas cubanas pousam para os turistas com os seus vestidos coloridos e um charuto junto à boca. Mas são poucas aquelas que os fumam verdadeiramente. E se o cenário é assim em Cuba, pior é no resto do mundo, onde a imagem de uma mulher a fumar charutos ainda é menos comum. Mas não por muito tempo, se os planos correrem bem à estatal Habanos S. A. que de olho no público feminino acaba de lançar os Julieta» («‘Julieta’, um charuto só para mulheres», Susana Salvador, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      Este é, para muitos, um caso menor, comezinho, desculpável, etc. Será, será. Contudo, se é assim tão insignificante, menos desculpa terão para tal deslize. Pousar, cara Susana Salvador, é diferente de posar. A não ser que objecte, à semelhança de certo professor universitário, que escreve assim para evitar o galicismo...

[Post 4534]

«Mandado/mandato»

N.º tal, mas ordem

      «Renato Seabra pode ser extraditado para Portugal? Embora penda já sobre o ex-manequim um mandato para deportação [n.º 88441941], tal só terá efeito quando for libertado» («Dúvidas jurídicas ensombram o futuro de Renato Seabra», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 69).
      Só não aprende quem não quer, e alguns jornalistas recusam-se a aprender. Julgam que aprenderão fazendo. Tudo o que outros já pensaram é-lhes irrelevante. Quantas vezes já aqui falei da confusão entre «mandato» e «mandado»? E mais: não deveria ser ordem de deportação?


[Post 4528]

Sob/sobre

Eloquente

      Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, J.-M. Nobre-Correia começa por afirmar que a presença da Igreja Católica deixou «marcas duráveis no analfabetismo dos indivíduos, primeiro, e no seu iletrismo, em seguida». Exemplos? Ah, isso agora... Mas continua: «Se há país onde o ascendente do clero sobre a sociedade é evidente é a Itália. E como se isso não bastasse, já lá vão trinta anos que a Itália vive sobre a alçada de uma televisão berlusconiana que foi adquirindo um estatuto hegemónico no plano sociocultural» («Esta trágica paixão criminal», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 67).
      Caro J.-M. Nobre-Correia, não se diz, neste contexto, «sobre a alçada», mas sob, debaixo da alçada. E «alçada» aqui vale por esfera de acção.

[Post 4458]


Como se fala na rádio

Com olhos de ver

      aqui tínhamos visto que devemos usar a locução à vista desarmada em vez de a olho nu. Agora, temos algo de novo.
      Naufrágio de uma embarcação do Sanas — Associação Madeirense de Socorro no Mar. Um morto e um ferido. A repórter da Antena 1 Helma Vieira explicou tudo: «O segundo, felizmente, e pelo que foi visto, não posso confirmar a gravidade dos ferimentos, mas mexia, o corpo não apresentava grandes mazelas, pelo menos a olho visto, e neste momento encontra-se hospitalizado.» A repórter fez confusão com outra locução semelhante: a olhos vistos, isto é, de forma clara, evidente, manifesta. No contexto, talvez devesse ter dito «à primeira vista».

[Post 4438]

«Descrição/discrição»

Regresso ao básico

      «A confirmar-se, optaram por deixar cair o apelido Bardem, optando pelo segundo apelido do actor, cujo nome completo é Javier Ángel Encinas Bardem. Mantiveram, contudo, a tradição espanhola, de o último apelido ser o da mãe. […] A escolha da clínica [Cedars-Sinai] não foi feita ao acaso, já que é conhecida pela sua descrição, evitando que as informações mais íntimas cheguem às mãos da comunicação social» («Leo é o nome do filho de Penélope Cruz e Bardem», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 53).
      «Optaram optando»? Hum... E quando é que entra na cabeça dos jornalistas que têm de recorrer aos dicionários, já que, pelo visto, não atinam com a diferença entre «descrição» e «discrição»? E a pontuação também precisa de ser revista.

[Post 4420]


«Evocar/invocar», de novo

Sem formação?

      «Os tradutores estão sujeitos a normas estabelecidas nos códigos penais, prestam juramento, não podem faltar quando convocados, a não ser que evoquem motivos atendíveis. Isto é: não dominar suficientemente o Português ou não ter condições para o fazer, como, por exemplo, um outro trabalho que os impeça de prestar aquele serviço» («Tradutores e intérpretes sem receber desde Setembro», Clara Vasconcelos, Jornal de Notícias, 7.02.2011, p. 8).
      Cá está a confusão entre evocar e invocar. Os tradutores e intérpretes jurídicos, sei agora, ainda não têm uma associação, mas no próximo mês, com a criação da Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes Jurídicos (APIJUR), isso vai mudar. Acrescenta a jornalista: «Ninguém sabe quantos existem. Eles são nomeados pelos tribunais e recrutados através de empresas que os indicam ou mesmo através de “candidaturas” que enviam para os tribunais. Não precisam de qualquer tipo de formação.»

[Post 4408]

Confusões

Confusões antigas


      Mandado e mandato: «Os mandatos de prisão foram levantados e ambos foram postos em liberdade» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83). Toga e beca: «Os juízes vestiram as suas togas na sala de deliberações, um dos jurados atrasou-se alguns minutos e o guarda teve de ser substituído, depois de se queixar de dores de dentes» (idem, ibidem, p. 59).

[Post 4316]

«Evocar/invocar»

Culpem a polícia


      «Por fim, combinámos que eu informava a polícia sobre a recuperação da taça e dos relógios. Naturalmente, Tanata não me perguntou quem tinham sido os autores, assim como eu me abstive de lhe perguntar sobre Pocol e Wagner. Só a polícia colocou questões; eu pude evocar a minha obrigação profissional de guardar segredo para proteger os meus clientes» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 39).
      A polícia às vezes faz grandes estupidezes, e essa de «colocar as questões» é mais uma. Se isto já chegou aos livros revistos, é porque estamos mesmo perdidos. E o narrador, que é advogado, a «evocar a obrigação profissional de guardar segredo», também não é coisa inesperada — só errada. E palavrosa. Invocar, queriam o tradutor e a revisora escrever. E aqui o segredo pode transmutar-se em sigilo.

[Post 4313]

Doutor e licenciado

Nem na Floresta Negra


      «Claro que Fähner passou os seus exames com distinção, doutorou-se e conseguiu o primeiro emprego no hospital da comarca de Rottweil» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 14).
      Hoje lembrei-me deste excerto desta obra quando ouvi a entrevista de Fernando Nobre na Antena 1. Dizia o candidato presidencial a determinada altura que o pai queria que ele fosse professor de Cirurgia. Nem mais. Ora bem, o nosso Fähner na página 13 ainda era «estudante de medicina em Munique» (a história da vida da personagem, na verdade bem contada, está condensada em meia dúzia de páginas). Não sei o que está no original, reparem, mas algo me diz que o futuro assassino da mulher não se doutorou — licenciou-se. Algum leitor que conheça o original, Verbrechen, por favor, diga-me alguma coisa.
      Depois de tanta confusão, os dicionários tiveram de passar a registar o vocábulo doutor também como tratamento que, nas relações sociais, se dá a um bacharel ou licenciado. Os verdadeiros doutores, isto é, as pessoas habilitadas com o doutoramento, é que não devem apreciar muito. Entre tese e dissertação também há, como já aqui vimos duas vezes, confusões.

[Post 4311]

«Estudante/aluno»

Agora sim


      Todos temos mais ou menos a noção de que os vocábulos «aluno» e «estudante» não são intermutáveis em todas as circunstâncias. No entanto, ultimamente tenho visto grandes confusões. Exemplifiquemos com uma frase. Digam-me qual dos vocábulos usariam na seguinte frase: «Segundo o seu único ___________ sobrevivente, Luís Seixas, o Professor Brotas era um leitor compulsivo de obras sobre música.»
      Um pouco a propósito: parece que no Brasil se ensina em algumas escolas que «aluno» provém do latim a + lun, este adulteração de lumen,inis, «luz». Ou seja, «sem luz». Que disparate vergonhoso! Alumnis, em latim, significa criança de peito, e ter-se-á formado a partir do verbo alere, «alimentar». Mais tarde, sem surpresa nenhuma, passou a significar, em sentido figurado, pupilo.

[Post 4296]

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