«Exames extras»

Na senda

      E o Diário de Notícias continua a fazer o que mais de uma vez já aqui elogiei: «Os peritos do Instituto de Medicina Legal (IML) de Lisboa precisam de mais elementos para perceber se o chamado “violador de Telheiras” deve ser declarado imputável. Henrique Sotero terminou na quarta-feira o quarto exame em psiquiatria forense que lhe tinha sido marcado no IML, mas, ao contrário do que foi noticiado ontem por um jornal diário, este não será o seu último teste. “Foram agendados mais exames extras para este mês. Só não sei ao certo as datas porque não tenho de acompanhar o meu cliente nestas diligências”, afirmou ao DN o advogado de Henrique Sotero, Pereira da Silva» («Sotero vai fazer perícias extras», Rute Coelho, Diário de Notícias, 11.12.2010, p. 29).
[Post 4188]

«Ultravioletas», de novo

Obrigado, vulcão islandês


      Em relação a certas matérias, não é suficiente fazer actualizações aos posts. É o caso de ultravioleta. O repórter Luís Ochoa, em Bruxelas, disse: «O Instituto Real de Meteorologia [RMI] anuncia que a nuvem de cinzas de erupção vulcânica na Islândia atingirá plenamente a Bélgica amanhã de manhã e que essa nuvem se encontra a 10 km do solo, não tendo influência sobre a camada de ozono, que nos protege dos raios ultravioletas» (noticiário das 15 horas na Antena 1).

[Post 3344]

«Raios UV»

In Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 16

São dos poucos


      No Diário de Notícias, continuam a escrever raios ultravioletas. E poucas vozes estão de acordo, mas entre elas conta-se a da professora Maria T. Camargo Biderman, docente na UNESP (Universidade Estadual Paulista), do Campus de Araraquara, que escreve no estudo «Unidades Complexas do Léxico»: «raios ultravioletas — ultravioletas — Os ultravioletas podem causar danos à pele.» Se foi por lapso, ela virá certamente aqui um dia dizer-no-lo.

Sobre adjectivos e «extrabula»

No entanto, há

      E a propósito: medicamentos extrabula ou medicamentos extrabulas? Algumas gramáticas escolares afirmam que todos os adjectivos variam em número e grau, mas alguns são invariáveis em género. Não é verdade. Há, por muito controversa que possa ser a sua existência, adjectivos invariáveis em número. E, no pouco uso que temos deste adjectivo, extrabula parece enquadrar-se na categoria. Não nos esqueçamos de que, nos adjectivos compostos por justaposição, quando o último elemento é um nome, permanecem ambos invariáveis: cavalo puro-sangue/cavalos puro-sangue. Também em relação à flexão dos adjectivos compostos designativos de cores, se um deles for um substantivo, nenhum elemento varia — vestidos amarelo-canário; saias verde-mar; blusas azul-petróleo; chapéus verde-alface; paredes azul-turquesa; papéis branco-marfim… —, mesmo que só surja o nome do animal ou coisa: calções rosa, sofás marfim.      Embora eu não concorde em relação a todos*, e não estou só, alguns outros adjectivos, que não meramente os relativos às cores, são classificados como invariáveis, como extra, extrabarreiras, ultravioleta…infravermelho, por exemplo, admite feminino e plural. Para quem defende estas excepções, a argumentação usada é a seguinte: infravermelho varia porque o adjectivo «vermelho» varia sempre: cartão vermelho/cartões vermelhos; saia vermelha/saias vermelhas. Logo, raio infravermelho/raios infravermelhos. Em relação a ultravioleta, já é, propugnam, diferente: como substantivo adjectivado, «violeta» também não varia: batôn violeta/batôns violeta; blusa violeta/blusas violeta. Logo, para os defensores desta opinião, raio ultravioleta/raios ultravioleta. E, finalmente, quando se indica a cor com a expressão cor de, expressa ou subentendida, também não se faz a flexão do qualificador: paredes (cor de) gelo, camisas (cor de) creme, saias (cor de) vinho, sapatos (cor de) violeta.


      * O que eu e outros dizemos é que extra é a forma reduzida do adjectivo «extraordinário» (e já abordei aqui várias vezes as formas reduzidas de nomes, como metro, porno…), e por isso, o prefixo passou a ter também o sentido do adjectivo. Nesse caso, a sua flexão é normal, como a de qualquer outro adjectivo: «hora extra», «horas extras». É o que, consciente ou inconscientemente, leva, com o meu aplauso, alguns jornalistas a flexionarem o vocábulo: «Ministro proíbe gastos extras às direcções dos hospitais» (Público, 20.08.2006, p. 26). «Os gastos extras, para saídas, por exemplo, avaliam-se um a um, para que se aprenda a dar valor ao dinheiro e à poupança» («Crise não afecta famílias habituadas a poupar muito», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 18).

Raios: ultravioleta ou ultravioletas?

É do calor

      O leitor Hugo Santos escreveu-me a alertar para o facto de os nossos jornalistas ora dizerem «raios ultravioleta» ora «raios ultravioletas». Quer saber a minha opinião. Nada de frases de tafetá, que eu também estou impaciente com o calor: isto é pura tontice. Há, é verdade, aspectos da língua controversos, há variantes, opções estilísticas, questões dúbias — mas a concordância dos adjectivos com os substantivos mantém-se tão inalterável como o fluir das estações. Hoje mesmo ouvi no noticiário das 7 da manhã, na TSF, um jornalista dizer «radiações ultravioletas», o que está correcto. De seguida, outro jornalista voltou a alertar para os «raios ultravioletas», acabando, menos de um minuto depois, por enfatizar o perigo que constitui a exposição aos «raios ultravioleta». Em que ficamos? Sejamos claros: pior do que um critério errado, só mesmo falta de critério. Minutos depois, na Antena 1, foi a vez de um jornalista referir os «raios ultravioleta».
      Este erro levou-me a recordar outro, semelhante e muito comum, e que consiste em não fazer concordar o adjectivo «extra» com o substantivo que qualifica: «O meu marido ficou hoje a fazer horas extra no emprego.» Está tudo dito: como adjectivo, tem de concordar com o substantivo que qualifica: «horas extras», «serviço extra», «trabalhos extras».
      Não estropiem a língua — ela é de todos. Senhores jornalistas, mais cuidado.

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