Ortografia: assembleia geral

Pelourinho ou tiro no pé?     


      Nem de propósito: no Pelourinho de ontem, a consultora Maria Regina Rocha, cujas opiniões muito considero, quis elucidar o País sobre a regência do adjectivo «confiante» — o que é louvável. De caminho, deu uma machadada na ortografia oficial — o que é criticável. Veja-se:

«Estar confiante em»
Maria Regina Rocha

Pergunta* a Paulo Teixeira Pinto, a propósito da assembleia-geral do BCP: «Está confiante de uma assembleia-geral pacífica?»
O adjectivo confiante pede um complemento iniciado pela preposição em. Por isso: «Está confiante na realização de uma assembleia-geral pacífica?»

*Jornal da Noite, SIC, 28 de Maio de 2007
30/05/2007»

      E eu que pensava que o Ciberdúvidas advogava isto e isto. Ou a Prof.ª Maria Regina Rocha viu mesmo o hífen a projectar-se, insinuante, da boca do jornalista?

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Estrangeirismos

Está mal

É sabido: suplementos económicos dos jornais e jornais económicos só se podem ler com um dicionário de inglês ao lado. Estrangeirismos todos nós usamos, contudo, o que está em causa é se, sendo pouco comuns, os explicamos quando os usamos. «Nos negócios há empresários e raiders. Os primeiros constroem e alimentam empresas, criam riqueza e empregos. Têm em mente a criação de valor. Os segundos vivem da especulação. Não têm empresas, mas negócios. Compram e vendem a um ritmo marcado pelas cotações da bolsa. Estão focados na obtenção de mais-valias. Esta é a lição que aprendemos ontem, com a assembleia geral do BCP» («Raiders e empresários», Álvaro de Mendonça, OJE (O Jornal Económico), 29.05.2007, p. 2). Lá temos de recorrer ao dicionário de inglês: «Raider: An investor who aims to take control of a company by purchasing a majority stake in the firm.» No site do Banif, encontramos o vocábulo num glossário: «Raider: Pessoa individual ou colectiva que pretende assegurar o controlo da gestão de uma empresa através da compra de uma participação qualificada para o efeito.» Claro que também está em causa outro aspecto: a moderna e ominosa tendência laxista para não grafar os estrangeirismos em itálico.

Está bem

No mesmo jornal, também encontramos exemplos louváveis: o jornalista usa um estrangeirismo, mas explica-o. Devia ser esta a prática habitual dos jornalistas, não deixar o trabalho para o leitor. Sim, porque não vamos agora supor que todos os leitores deste jornal em concreto dominam todas as áreas do conhecimento, com o respectivo vocabulário. Nem todos os leitores, suponho, serão engenheiros. Este último exemplar trouxe-o do British Hospital. Não estou a ver a enfermeira Andrea, por exemplo, a saber que raio é isto do jet grouting. «A OPCA está a realizar uma importante obra de geotecnia no túnel do Terreiro do Paço, em Lisboa. Os trabalhos incluem a execução de 188 colunas de jet grouting que visa reforçar e consolidar os terrenos envolventes. O projecto é do professor António Correia Mineiro.» Mais à frente, o jornalista redime-se: «A técnica consiste na utilização, em profundidade, de um ou vários jactos horizontais de elevada velocidade e pressão que desagregam o terreno e permitem a penetração e a mistura de uma calda de cimento. Desta forma evita-se a remoção de grandes volumes de terras, permitindo realizar a injecção da calda de cimento, precisamente, nos pontos ou nas profundidades onde o terreno se revela menos consistente» («Geotecnia da OPCA para a Praça do comércio», OJE, 30.05.2007, p. VI).

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Léxico: halaca

Copiem menos

Quando o El País e o El Mundo publicaram a notícia sobre a Zara, também cá alguns jornais se referiram ao assunto. Vejamos o que disse o Jornal de Notícias: «Desconhece-se a genuína razão da proibição da mistura de têxteis. Segundo noticia o jornal espanhol El Mundo, alguns rabinos explicam que, na lei judaica, o conceito de “roupa híbrida” equipara-se à “halajá”, que proíbe relações sexuais entre animais de diferentes raças e a criação de novas espécies de fruta ou de plantas» («Zara pede desculpas aos judeus ortodoxos», Jornal de Notícias, 22.05.2007). Parece haver alguma macaqueação, porque halajá é a transliteração espanhola do hebraico הלכה. Entre nós — e dicionarizado, senhores polícias do léxico —, a transliteração deu halaca. Como se pode comprovar no Dicionário Houaiss e no Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado. Cito este último: «Halaca, s. f. Bíbl. A lei oral judaica, suposta por muitos de valor igual à lei escrita. Deve ser considerada comentário didáctico ao Pentateuco.»

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O abuso do hífen

Hífenmania

Hífen-mania

Hífen...

      Subitamente, a palavrinha «geral» deixou de poder atravessar o papel sozinha: tem agora de dar a mãozinha à palavra à sua esquerda. Sinistro! Deixou mesmo de haver assembleias gerais, agora só se realizam assembleias-gerais. Nunca estamos, agora, à vontade, temos de estar, contrafeitos, à-vontade. Nos livros, as personagens tomaram um ar pernóstico e já não dizem bom dia, mas apenas bom-dia. Não nos podemos sentir proactivos: alguém logo nos dirá que se for a favor, é pró, pró-activo. E ficamos reactivos. Se queremos comprar um objecto em segunda mão, há encolheres de ombros, risinhos, porque, finos, só conhecem objectos de segunda-mão. Se chegamos a um beco, não conseguimos fazer marcha atrás: somos obrigados a fazer marcha-atrás. Se perguntarmos, por escrito!, onde é a casa de banho, ninguém sabe, e não é por não saberem ler. O que é isso?, logo perguntam. Servirá uma casa-de-banho? Os filmes deixaram de ter banda sonora. Se queremos ouvir, mesmo de má vontade (má-vontade?, inquirem), só banda-sonora. As mulheres, mesmo nas minisséries, já não usam minissaias: usam, nas mini-séries, mini-saias. Deixámos igualmente de poder comer alimentos poliinsaturados: se queremos, também temos de engolir o hífen: poli-insaturados. De boa vontade acabava aqui, mas não me deixam, querem que seja de boa-vontade. Acabo.

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Uso da maiúscula

πρoφήτης


      Um leitor, todo abespinhado, mandou-me uma mensagem em que se insurge por eu ter escrito, no post sobre a Zara e o Beurger King Muslim, «profeta Maomé». Queria que eu tivesse escrito «profeta» com maiúscula — Profeta Maomé. E porquê, pergunto eu? Mais profetas tem o cristianismo — Daniel, Elias, Ezequiel, Isaías, Jeremias, Ageu, Amós, Habacuque, Joel, Jonas, Malaquias, Miqueias, Naum, Obadias, Oseias, Simeão, Sofonias, Zacarias… — e todos, maiores ou menores, são «profetas». Tomemos o pobre Obadias, o quarto dos doze profetas menores judeus: mesmo que o nome dele tenha a variante Abdias, e por isso valha por dois profetas, ou por um maior, vá lá, nunca vi escrito «Profeta Obadias». Também não aceito que se escreva «o Profeta». Como se Maomé fosse o profeta por antonomásia. Faz-me lembrar textos em que se fala sobre o Partido Comunista: aparece sempre «o Partido». Porquê? Ou escrevemos «o Partido Comunista» ou «o partido», se esta última palavra surge isolada.
      Vejam lá, agora não confundam o Assim Mesmo com o Jyllands-Posten.

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«Mcjob»

A importância das palavras

A filial britânica da multinacional McDonald’s iniciou uma campanha para mudar a definição pejorativa do termo «McJob» que se encontra registada, desde Março de 2001, no Oxford English Dictionary (OED) e que o define como «um trabalho mal pago, carente de estímulos e com poucas perspectivas de futuro» («an unstimulating, low-paid job with few prospects, esp. one created by the expansion of the service sector»). A multinacional empreendeu uma campanha através de um livro de assinaturas nos seus restaurantes, uma página na Internet (changethedefinition.com) e um sistema de envio de SMS para alterar a definição. O termo foi usado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1980 e tornou-se popular em 1991 ao ser usado no romance Geração X (publicado entre nós pela Editorial Teorema, em 1994), de Douglas Coupland. Fonte da Oxford University Press, responsável pelo dicionário, afirmou, naturalmente, que os verbetes seguem as mudanças que ocorrem na língua e que essas mudanças são reflectidas nas definições, de acordo com as provas que vão surgindo.

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Zara e Beurger King

Ala que se faz tarde!

A notícia é do El País: a Zara pediu desculpa aos judeus ultra-ortodoxos por ter incorrido naquilo que a comunidade considera um grave pecado: ter misturado, nos seus artigos de vestuário, algodão e linho, o que está proibido pelo judaísmo por atentar contra as leis da natureza. Isto faz-me lembrar, pelas implicações religiosas, outro caso, o nome de um restaurante de comida rápida francesa: Beurger King Muslim. Não lhe soa a algo familiar? Claro, é um trocadilho. Neste restaurante, em Clichy-sous-Bois (onde Ségolène Royal obteve 61,70% dos votos), um subúrbio a leste de Paris, a comida é halal, isto é, preparada de acordo com os rituais islâmicos e inspeccionada três vezes por dia. Qual o trocadilho? Beur é a palavra do calão francês por que são tratados os norte-africanos franceses de segunda geração (a palavra resulta da inversão da ordem das sílabas da palavra arab: a-ra-beu, beu-ra-a). Isto é que é humor. Além disso, os clientes podem ver um filme sobre o profeta Maomé enquanto comem. Imagino que bebam Mecca Cola ou Qibla Cola, ao mesmo tempo que insultam o capitalismo.

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Tradução: «colour gamut»

Arco-íris

Um leitor, N. S., quer saber como se traduz a expressão técnica inglesa colour gamut. Já agora, devo começar por explicar do que se trata. É a gama de cores abarcada por qualquer sistema de captação de imagem (como as câmaras), de registo (como os gravadores) ou de reprodução (como os ecrãs). Os Brasileiros, práticos, já resolveram a questão: é o gamute de cores. Nós resistimos, e, embora já tenha lido a expressão «gabarito cromático», que considero correcta, para traduzir o inglês, não é raro ver a expressão por traduzir ou algo mais abstruso como «range de cores». Barbarolexia.

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Tradução: «messiah-hood»

O Ungido

Uma leitora pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa messiah-hood. Para traduzir esse vocábulo inglês temos em português as palavras «messiado», «messianato» e até um antigo «messiádego». É só escolher.

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Cassetete


Cabeças partidas

É interessante ver como o casse-tête francês parte a cabeça não apenas literalmente, como o maciço cassetete da nossa querida polícia *, mas também esmifra os próprios miolos, não é? O casse-tête começou por ser uma «massue en pierre ou en bois utilisée comme arme guerrière par certaines peuplades sauvages». Por analogia de forma, passou a ser também a «arme portative constituée par un bâton flexible ou nerf de bœuf à extrémité plombée». Por metonímia, o casse-tête francês, a partir de determinada altura (no século XIX), passou também a ser o «jeu de patience qui consiste à reconstituer un dessin à l’aide d’éléments épars», como estes aqui. Este segundo é o nosso «quebra-cabeças», que na verdade por fora as deixa intactas, e que alguns cosmopolitas poliglotas (ou trogloditas?) só conhecem por puzzle. O que, na verdade, desafia a minha compreensão: então mal sabem português e andam a estropiar as línguas dos outros? Andam a ler Eça…

* Confesso: o Dicionário Houaiss também regista a acepção de jogo de paciência no verbete «cassetete», mas dá-a como obsoleta, e eu não quero confundir os meus leitores.

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Por sua alta recreação

A Bárbara e o bardo


      Vítor Nobre, professor universitário e radialista, foi ao Páginas Soltas, na Sic Notícias, falar sobre os seus audiolivros. Bárbara Guimarães pergunta: «Vítor, e depois começa a gravar por auto-recreação a seguir, com a sua voz, poemas, poetas que vai conhecendo…» Vítor, nobre, respondeu ainda assim, mas podia ter dito: «Desculpe, Bárbara, mas diz-se por sua alta recreação, isto é, espontaneamente, por sua livre vontade. Mas agora não deixe de voltar a convidar-me para o seu programa só porque eu sou tão frontal.»

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Léxico: docudrama

Outros dramas

Uma leitora pergunta-me se existe em português e, existindo, o que significa a palavra «docudrama». Existe: até já está registada, por exemplo, na MorDebe. Os jornais também a usam, como se pode ver na citação seguinte, em se dá a própria definição: «Sá Carneiro A Força de Viver é o título do docudrama (documentário em que algumas cenas são reconstituídas por actores) que a RTP1 exibe às 21.45 de hoje, data que assinala os 25 anos sobre o desastre de avião que matou Francisco Sá Carneiro» («O último dia de Sá Carneiro», João Pedro Pereira, Diário de Notícias, 4.12.2005). Vem do inglês docudrama, uma amálgama de docu(mentary) com drama.

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Léxico

Palavras malditas

Se algum dia fizesse — e até pode ser que faça, pois sou, já viram, um espírito sistemático — uma lista das palavras que detesto, e nunca me fizeram mal, coitadas, à frente estaria, sem dúvida, a palavra (deixem-me fazer figas) «atempadamente». Bem me podem torturar: nunca a usarei. A tempo o digo: só a título demonstrativo, como agora, pois claro.

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Apostila ao Ciberdúvidas: galderice

O verbete pe(r)dido

Um consulente do Ciberdúvidas queria saber se as palavras «galdeirice» e «galdenice» existem. O consultor Carlos Rocha argumenta, e muito bem, que a forma mais correcta é «galderice», «seguindo o modelo de vigarice, palavra que tem por base vigário». Acrescenta ainda, e acha «curioso», que no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa se empregue «galderice no verbete de galdério, adje(c)tivo, numa das respectivas acepções: “que anda sempre na pândega, na galderice.” No entanto, o substantivo em causa não tem entrada própria nesse dicionário». E não há outros dicionários de língua portuguesa, pergunto eu? Porque é que vamos logo citar um que tem estas «curiosidades» (vulgo incongruências)? O Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, por exemplo, regista: «Galderice (è), s. f. Qualidade de galdério.»

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Idêntico

Desconversas de botica

      Numa farmácia em Benfica, asseguraram-me, e agora já se arrependeram, que «a glicerina é muito idêntica à vaselina». «De química», respondo fleumaticamente, «não percebo nada, mas uma coisa lhe digo: a identidade não comporta graus, ao contrário da competência linguística. E mais: questiono-me se será mesmo assim. Isto é, se a glicerina é muito semelhante à vaselina.» «Desculpe: podia repetir?» «Perguntava onde é a farmácia mais próxima.» Pois, a língua evolui...


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Semântica: «ladrão»

Língua pérfida

Antigamente, só havia ladrões no exército. Agora, há-os em todo o lado. É uma injúria, esta afirmação, diz? E o leitor acha que eu sou ingénuo? Explico (e quebro o protocolo de leitura): os mercenários que faziam parte da escolta dos imperadores romanos chamavam-se latro (latronis), e servir no exército dizia-se latrocinare. Como é que de soldados, latrones, é certo, passaram a ladrões propriamente ditos? Com a dissolução do Império Romano, o salário (salário porque eram pagos em sal, tal como os cartéis da droga pagam em cocaína aos seus mercenários) destes mercenários começou por ser irregular, até que deixou de ser pago. Nesta altura, e porque tinham o direito de usar armas e necessidade de se alimentarem como todos os mortais, passaram a salteadores, ficando assim fixado o significado actual da palavra «ladrão». Percebem agora a afirmação inicial? Já muito diferente é a frase, que joga com a ambiguidade, que me enviaram recentemente: «Os autarcas portugueses são os mais católicos do mundo: não assinam nada sem levar um terço.»

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Caixa automático (ATM)

Imagem: http://download.humor.orange.es/

O caixa da caixa


      Recentemente, alguém me deixou aqui nos comentários a estranheza por se dizer «o caixa automático» (a ATM, Automatic Teller Machine) e não «a caixa automática». Como acabei de ver o mesmo erro numa tradução do espanhol, aproveito e dou a minha opinião. «Los cajeros automáticos han cambiado notablemente la forma de trabajar del sector bancario.» O tradutor verteu, autorizado pelo Dicionário Houaiss e pelo Dicionário da Academia: «As caixas automáticas mudaram notavelmente a forma de trabalhar do sector bancário.» A explicação para se usar o masculino estará, como sugere o consultor do Ciberdúvidas Carlos Rocha, no facto de durante muito tempo ser uma profissão desempenhada maioritariamente por homens, pelo que seriam os caixas. Logo, quando se automatizou o serviço, bastou acrescentar o adjectivo: o caixa automático. Já não concordo é com o argumento de que deve mudar-se para «caixa automática» porque «máquina» é do género feminino. Curiosamente, também os Espanhóis têm cajeros (do latim capsarĭus) e cajeras, e quase de certeza mais cajeras que cajeros, e a expressão deles é cajero automático. Mas claro que há caixas automáticas: um vizinho meu tem um Citröen C5 com caixa (de velocidades) automática.

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Apostila ao Ciberdúvidas: derivação

Leiam-se

      Um estudante de Luanda, Celso Corte Real Correia, quis saber a diferença entre derivação regressiva e derivação progressiva, e acrescentou: «Parece-me que a essência de ambas é a mesma, ou seja, de verbos derivam os nomes.» No dia 10 de Abril, teve resposta da consultora do Ciberdúvidas Carla Viana, que, em relação concretamente à derivação progressiva, afirmava: «Na derivação progressiva incluem-se a derivação sufixal (por exemplo, os substantivos formados a partir de verbos pelo acréscimo de um afixo, como conhecimento = conhecer + -mento, com alteração da vogal temática -e > -i), a derivação prefixal e a derivação parassintética.» O mesmo estudante voltou a consultar o Ciberdúvidas sobre o mesmo assunto e a resposta do consultor Carlos Rocha foi surpreendente: «A expressão “derivação progressiva” não está consagrada nos estudos gramaticais, embora se consiga compreender que será o contrário de derivação regressiva: esta consiste em fazer derivar uma palavra de outra através da perda de elementos (por exemplo, desinências), enquanto aquela será o processo que acrescenta elementos a uma palavra para formar uma nova.»
      Não está consagrada? Com a resposta da consultora Carla Viana ficáramos com a convicção de que estava. Leio no Dicionário Prático para o Estudo do Português, da autoria de Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo (Edições Asa, Porto, 2003): «A derivação própria pode ser progressiva ou regressiva:
— ao processo de adição de um prefixo ou sufixo dá-se o nome de derivação progressiva: trabalhotrabalhador; cultoinculto; nacionalizardesnacionalização.» (p. 161).

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Léxico: «Macaronésia»

Ilha do Macarrão


      Cara Luísa Pinto, a Macaronésia existe mesmo, ainda que num mapa vulgar não a veja indicada. A região biogeográfica conhecida pela região da Macaronésia, designação atribuída no século XIX pelo geógrafo e botânico inglês Philip Baker Webb, inclui as ilhas Selvagens e os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e a costa de Cabo Verde, o chamado «enclave macaronésio africano». É um termo usado sobretudo pelos estudiosos da natureza (mas ultimamente também por políticos no sentido de região com interesses económicos comuns) para expressar um conceito fundamentalmente biogeográfico e botânico, pois, ao que parece, toda esta região partilha muitas características biológicas e contém comunidades de plantas e animais únicas. Há mesmo um Centro de Estudos da Macaronésia — Ciências da Vida e da Terra (CEM), o que demonstra bem a importância do conceito. O étimo do vocábulo «Macaronésia», esse encontramo-lo no grego makáron, «feliz, afortunado» e nesoi, «ilhas», isto é, «ilhas Afortunadas», o termo usado por antigos geógrafos para as ilhas a oeste do estreito de Gibraltar. O historiador Plínio, o Velho (23-79), identificou, na obra História Natural, as ilhas Afortunadas com as Canárias.

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Apostila ao Ciberdúvidas

Não ligue

«Il a raison, mais il n’est pas des nôtres. Silence»
Montherlant

Uma professora de Aveiro, Maria Vitória Bóia Mouro, perguntou, em má hora, ao Ciberdúvidas se existia a palavra «responsabilizante». Resposta do consultor, F. V. da Fonseca: «Não encontro registado o termo, sem dúvida sinónimo de responsabilizador, “que responsabiliza ou que implica responsabilidade”.» Que eu saiba, no Brasil fala-se português, e o excelente, e sem paralelo em Portugal, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que pode consultar aqui, regista: «responsabilizante adj. 2g


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Tradução: «médecine douce»

Disparates suaves

Desta vez, o tradutor teve consciência de que a tradução que propunha não seria a mais correcta, assinalando então a vermelho a palavra «suaves». O que estava em causa era a tradução da expressão francesa «médecine douce». «Les médecines douces», dizia o original. «As medicinas suaves», atirou, a medo, o tradutor. Mas não. «Médecine douce/officielle. Cette autre médecine existe (...) on l’appelle médecine douce parce que, à la différence des traitements d’urgence que privilégie la médecine officielle, elle veut aller dans le sens de ce que le corps réclame (Le Nouvel Observateur, 7 avr. 1980)» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). É a nossa medicina alternativa. «L’Altra Medicina» dos Italianos. A «Heilpraktik» dos Alemães.

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Tradução: «carotte»

Imagem: http://www.dt.insu.cnrs.fr/carottier/

A importância das cenouras


      O texto tinha como título «La mémoire de la glace» e dizia: «Dans les échantillons de glace (carottes) prélevés par les chercheurs se trouvent conservées les traces de l’histoire climatique de la planète : périodes de réchauffement, de refroidissement, teneur en gaz carbonique, en oxygène, etc. L’Antarctique est ainsi un gigantesque laboratoire pour étudier l’évolution des climats, et pour comprendre, et peut-être prévenir, les conséquences des pollutions atmosphériques causées par les pays industrialisés.» O tradutor — e que Deus lhe valha! — verteu assim: «Nas amostras de gelo («cenouras») recolhidas pelos investigadores encontram-se conservados vestígios da história climática do planeta: períodos de aquecimento, de arrefecimento, nível de dióxido de carbono, de oxigénio, etc. A Antárctida é assim um gigantesco laboratório para estudar a evolução dos climas e para compreender, e talvez prevenir, as consequências das poluições atmosféricas causadas pelos países industrializados.» «Cenouras»? Nem com aspas as engolimos. Mas sim, podia ser, pois «les carottes, naguère mal protégées, s’érodaient à la remontée et prenaient une forme légèrement conique : d’où la similitude avec la racine et le nom» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). Mas em francês, não em português. Qualquer dicionário bilingue — e o que cito é o Grande Dicionário Francês/Português, editado pela Bertrand — dirá: «carotte s. f. Massa de terra extraída pelos instrumentos de sondagem». Pois em português também é simples: carote. Sem ser engenheiro, conheço a palavra e o conceito há muitos anos. Em certas estruturas, extraem-se carotes de betão para análise. Dos fundos marinhos, extraem-se carotes de sedimento para análise.
      De vez em quando, fala-se da falta de maturidade, apesar das regras no acesso ao Centro de Estudos Judiciários, dos juízes. Contudo, não é só com estes profissionais (embora as decisões destes tenham repercussão na vida dos indivíduos e da sociedade em si) que nos devíamos preocupar. Um recém-licenciado que leu mal (ou mal leu) três livros e se põe a traduzir também é perigoso.

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Tradução. Nortenho e nortista

Perderam a tramontana


      Pode não ser somente um erro das traduções, mas é nestas que o encontrei já diversas vezes. Está-se a falar, por exemplo, da Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão (1861-65). Esta opôs, como se sabe, o Norte, abolicionista, ao Sul, escravagista. Opôs, pois, os sulistas aos… os sulistas aos… aos nortenhos!? Em espanhol sim, o vocábulo norteño refere-se ao que pertence ou está situado no Norte de qualquer país. Em português, não é assim. Se dessem uma olhadela num qualquer dicionário da língua portuguesa, leriam: «Nortenho, adj. Relativo ao Norte de Portugal.│S. m. Natural ou habitante do Norte de Portugal.» Ainda temos os norteiros, os nortenses e os nortistas — mas cada um no seu sítio. Isto faz-me lembrar um outro caso de tradução que me foi relatado. Tratava-se de um romance inglês, ambientado na Inglaterra do século XIX. Pois o tradutor pôs a personagem principal a passar não por agruras mas «as passinhas do Algarve». Ainda se fosse do Allgarve…

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Incongruências gráficas; o trema

Tremuras

      «“Está fora de questão retirar a minha candidatura”, garantiu ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros turco e candidato do partido islamita (AKP, no poder) às presidenciais, Adullah Gül, horas antes de um protesto que reuniu um milhão de pessoas em Istambul» («Gül mantém candidatura apesar de manifestação em Istambul», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 30.4.2007, p. 30). «O ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Abdullah Gul, retirou ontem a sua candidatura à presidência da República» («Ministro islamita retira candidatura presidencial», Armando Rafael, Diário de Notícias, 7.5.2007, p. 29). Este texto é sobre a incoerência. Do ministro, perguntam-me? Do jornal. Porque grafou, num intervalo de dias, de formas diferentes o nome do ministro? Em nomes turcos, só há uma forma correcta de os grafar: usar o que pode parecer um trema, mas não é. Nesta língua, não se trata de um diacrítico, mas de uma letra que tem aquele coroamento — para nós, um carácter especial. Por isso o nome Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) não o dispensa. Já em alemão, por exemplo, é diferente: se embirrarmos com o trema (Umlaut, em alemão), podemos substituí-lo por e, como no nome Schröder → Schroeder. E tudo fica bem. Ainda há dias me surgiu o nome (Arnold) Schoenberg, que emendei para Schönberg. Sim, defendo que se deve respeitar escrupulosamente a grafia dos antropónimos estrangeiros. Sim, mesmo que seja Martinů.
      Convenho: os jornais ditos de referência vão deixando de o ser, pelo menos no que diz respeito à língua portuguesa, e têm problemas mais graves para resolver. Só não percebo porque não os resolvem.


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Léxico: biscainha

Imagem: http://www.elmundo.es/

Devolvam-me a biscainha


      Criança ainda, muito antes de conhecer a locução «boina basca», a txapela, a palavra que ouvia e usava para designar essa mesma peça de vestuário era «biscainha». Quando ontem usei, por acaso, a palavra, o meu interlocutor ficou boquiaberto. Como por vezes acontece, precipitei-me para o dicionário mais próximo. Em vão. Nenhum dicionário regista o vocábulo «biscainha». Na Internet, só no TemaNet (Wordnets Temáticas do Português) o encontrei.

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Informação

Jogo da Língua Portuguesa

Desde 18 de Dezembro de 2006, a Rádio Renascença também tem um Jogo da Língua Portuguesa, e melhor do que outro de outra rádio. Pode consultar todos os textos aqui. Deixo também um exemplo, para os meus leitores aquilatarem do seu valor:

«Como escreve? Como diz?
“açorianos” ou “açoreanos”?
A resposta é AÇORIANOS. É esta a correcta grafia do nome gentílico dos naturais dos Açores e do adjectivo que qualifica tudo o que é dos Açores. Embora o topónimo Açores se escreva com e, açoriano escreve-se com i. Eis a explicação do Prof. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia: “Escrevem-se com i, e não com e, antes de sílaba tónica, os adjectivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos por i pertencente ao tema”. Ou seja, açoriano, camoniano, cabo-verdiano, por analogia com horaciano, italiano, etc.»

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Informação

Imagem: http://www.estgm.ipb.pt/

Sobretudo para quem tem filhos ou alunos pequenos, recomendo vivamente o site História do Dia. Como o nome sugere, publica todos os dias uma história (bilingue: português e inglês) ilustrada. A versão portuguesa pode ser também ouvida. Apesar de ser muito mais conhecido do que este blogue, há-de haver muitos leitores que me agradecerão.

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O vocábulo «arguido»

Levante-se o réu!

      Escreve Joaquim Shearman de Macedo, na edição de ontem do Oje: «Assim, acaba por ser caricato verificar que a supressão do termo ‘réu’ do processo penal (motivado em boa medida pelo teor acintoso e o anátema social que o mesmo inadvertidamente foi colhendo ao longo dos tempos) e a sua substituição por ‘arguido’ não resistiu ao passar do tempo. Actualmente, a carga negativa passou toda para a expressão [sic] ‘arguido’... Com os efeitos que se conhecem» («Arguidos e acusados», p. 4). Realmente, grande parte da culpa desta situação pode atribuir-se à comunicação social, que delira com esta palavra plena de possibilidades de manchetes e escândalos — mesmo quando o jornalista não percebe notoriamente nada da matéria. Claro que o vocábulo «arguido» traz ainda outras dificuldades à comunicação: mesmo alguns professores catedráticos de Direito não a sabem pronunciar. Ignoram que se trata de uma excepção, com outras, à regra segundo a qual nas sequências qu- e gu- seguidas de e ou de i o u não se lê (são, nesses casos, dígrafos). Vê-se isto com frequência. Faz-nos falta o trema: argüido, freqüência, seqüência. E muita leitura nas escolas e em casa.


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Léxico: «merinaque»

Mulheres crinoladas



      Caro Luísa Costa, a peça de vestuário que antigamente se usava para dar volume ao traje feminino designava-se merinaque, termo que vem do espanhol meriñaque ou miriñaque. Que o Diccionario de la Real Academia define assim: «Zagalejo interior de tela rígida o muy almidonada y a veces con aros, que usaron las mujeres.» O vocábulo teve uso corrente em Portugal. Veja-se este trecho do romance A Queda dum Anjo, publicado em 1866, de Camilo Castelo Branco: «Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem, D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n’isto havia encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se; apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!» (pp. 261-62 da edição original)
      Há, na língua portuguesa, outro termo para designar o mesmo: crinolina: saia entufada revestida de tecido forte ou assente sobre círculos paralelos de aço ou de barbas de baleia para dar maior roda ao vestido. «Mulher crinolinada» era a que usava saia retesada por crinolina.


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Ortografia: garnisé e granisé

Coisas de cacaracá

Cara M. L. T.: sim, também se escreve «granisé», mas pessoalmente prefiro a forma «garnisé». São ambos adjectivos: galinhas garnisés. Designam uma espécie de galinha pequena. E porque é que prefiro a segunda forma, pergunta? Pois porque foneticamente estará mais próxima do étimo: Guernesey, a ilha do canal da Mancha. É mais um caso de derivação imprópria: de substantivo próprio passou a substantivo comum. Este tipo de derivação obriga sempre ao uso de minúscula inicial. Felizmente os nossos intelectuais não se ocupam de galinhas, ainda que cosmopolitas como estas, pois corríamos o risco vê-las maiusculizadas. Um cálice de porto para isso.

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Tradução: «black-letter law»

A imaginação fora do poder!

«Whereas hard law (sometimes called black-letter law) is the law of the courts, soft law is informal law, setting forth ideals that constrain our behavior and may in time become hard law.» «Ao passo que a lei rígida (por vezes chamada lei gótica) é a lei dos tribunais, a lei fraca é informal, declarando ideais que limitam o nosso comportamento e que com o tempo poderão vir a tornar-se lei rígida.» Podia ser, até porque se supõe que «the term probably derives from the practice of publishers of encyclopedias and legal treatises to highlight principles of law by printing them in boldface type». Mas, calma!, para nós nada significa. A tradutologia há muito que assinalou que há vocábulos intraduzíveis, não funcionando as equivalências formais ou exactas porque não existem, mas somente uma explicação. Modestamente, proponho: «Ao passo que a lei rígida (por vezes chamada black-letter law [direito positivo]) é a lei dos tribunais, a lei fraca é informal, declarando ideais que limitam o nosso comportamento e que com o tempo poderão vir a tornar-se lei rígida.» Propus depois de saber (afinal só a compreensão conduz à traduzibilidade) que black-letter law é «a term used to describe basic principles of law that are accepted by a majority of judges in most states». Claro que é preciso saber também que o sistema jurídico norte-americano é completamente diferente do português, e isto já releva do contexto extralinguístico.

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Género de «aluvião»

Opiniões & sensações

      Antigamente, qualquer apaga-lampiões sabia que a palavra «aluvião» era do género feminino. Depois, com o decurso do tempo, um número significativo de falantes — e alguns já não eram apaga-lampiões — passou a fazer o mesmo, o que obrigou os dicionaristas, que a sabiam historicamente do género feminino, como em latim, aluvio,onis, a admitir os dois géneros. Agora, já há quem jure que é «só» do género masculino. Assim evoluem as línguas. Mas claro, são meras opiniões de leigos. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, «os pareceres são como os raios laser: emitem-se. Cada português é um emissor privado. Privado de bom senso».



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Léxico: corsa


Imagem: http://www.nesos.net/

Carros de cesto?

Sempre que se fala, na imprensa mas não só, nos carros de vime da Madeira, verdadeiros ex-líbris da ilha, nunca se vê referido o nome que têm. De facto, «carros de vime» ou «carros do Monte» são mais descrições do que outra coisa. Contudo, há muitos anos que conheço a palavra «corsa» para os designar. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, por exemplo, regista: «Corsa, f. Espécie de veículo, puxado por gente, e em que se transportam pessoas, na ilha da Madeira.» São feitos de vime e assentes em duas tiras de madeira ensebada e terão aparecido em 1849. Descem do Monte até ao Funchal por uma calçada estreita e muito íngreme, manobrados por dois carreiros, trajados de calças e camisa branca e chapéu de palha. Há, actualmente, 87 carros em serviço. Curiosamente, a imagem de cima, pertencente, tal como a de baixo, ao Museu Photographia Vicentes, tem como legenda «“Corsa” junto ao portão da “Villa Victória”, anexo do Reid’s Palace Hotel. Estrada Monumental, Sítio do Salto do Cavalo, Funchal. Posterior a 1894. Fotógrafo: Perestrellos Photographos», ao passo que a legenda da fotografia de cima é «“Carro de cesto”. Rua de Santa Luzia, Funchal (vendo-se à direita o muro do Convento da Encarnação). Primeiro quartel do século XX. Fotógrafo: Vicentes Photographos». Imagino que o autor das legendas desconheça que o vocábulo «corsa» também se aplica aos carros de cesto. Vamos dizer-lhe?

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Tradução: «enforceable»

Língua desmandada


      Isto faz-me lembrar a questão da etimologia do vocábulo «mandarim» e da suposta influência do verbo português «mandar» na sua grafia. Dizia o original: «We need enforceable international law to help regulate our behavior.» «Precisamos de uma lei internacional mandatória para ajudar a regulamentar o nosso comportamento», verteu o tradutor. Nenhum dicionário, que eu conheça, regista o termo «mandatório»: quase todos saltam de «mandato» para «manda-tudo». Os melhores, pelo menos, porque os outros dão saltos maiores. O vocábulo «mandatório» que, de facto, vejo ser utilizado com alguma frequência, só pode ser o aportuguesamento desnecessário do inglês mandatory (com étimo no latino mandatorius). Em português dir-se-á, mais vernaculamente e neste âmbito jurídico-legal, «executória». Ou, se quisermos, «obrigatória».




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Etimologias

Imagem: http://www.georgianindex.net/

A imprensa mordaz e o dicionário mendaz

      Há na língua espanhola, e alguns tradutores já se terão deparado com ele, o vocábulo «ridículo» para designar uma bolsa exterior que no início do século XIX, com a moda dos vestidos de estilo império, e até mesmo um pouco antes, com o chamado estilo directório, se impôs. Na verdade, este nome foi-lhe posto, pela extravagância que lhe viam, pela mordaz imprensa francesa, pois o nome que adequadamente lhe tinham dado era «retícula» (réticule), do latim reticulum. Logo em 1812, o Dictionnaire Universel Boiste acrescentava esta acepção ao verbete «ridicule», como se pode ver aqui. Até aqui, nada de extraordinário, pois podia até pensar-se que estávamos perante mais um caso de deturpação popular. O que é estranho, isso sim, é que o conceituado Diccionario de la Real Academia registe que ridículo, na acepção da bolsa, tem como étimo o latim reticŭlus, «bolsa de red». Bem explicadas, as coisas não são assim, e ninguém pede tanta simplificação.


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Tradução: «virtual»

Mundos paralelos

«Halliburton and other companies have security forces in Iraq now, virtual armies to help defend their people and property.» Parece simples — e é, de facto. O tradutor, contudo, complica: «A Halliburton e outras empresas têm hoje em dia forças de segurança no Iraque, exércitos virtuais para ajudar a defender as suas pessoas e as suas propriedades.» É essa mesmo a pergunta, caro leitor: o que é um «exército virtual»? Estamos a falar de videojogos ou a brincar? A acepção de «quase completo», «praticamente total» (na formulação do Dicionário Houaiss) é relativamente recente e semanticamente anglicizante. Não precisamos dela para nada. Sob pena de ninguém saber o que estamos a dizer. A não ser, evidentemente, que seja esse o nosso desiderato.

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Léxico: jingoísmo


Por Júpiter!

Ignorance never settles a question.
Benjamin Disraeli (1804-1881)


      Cara Luísa Pinto, o vocábulo «jingoísmo» existe realmente e significa nacionalismo agressivo e belicoso. A origem do vocábulo está na Grã-Bretanha e no que parece ser um hipocorístico de Jesus entre os Ingleses do século XVIIIJingo — usado na interjeição By Jingo! Mais tarde, durante a Guerra Russo-Turca (1877–78), o compositor inglês George Hunt compôs uma canção cujo refrão, que se tornou popular, dizia: «We don’t want to fight/but by jingo if we do.../We’ve got the ships, we’ve got the men,/and got the money too!» A própria imprensa inglesa ajudou a difundir o vocábulo jingo (tal como jingoist e jingoism) para designar os nacionalistas exacerbados, sobretudo depois da intervenção inglesa na guerra, quando o primeiro-ministro Benjamin Disraeli enviou a armada em defesa de Constantinopla. A 3 de Março de 1878, a guerra acabou, tendo sido assinado o Tratado de Paz de San Stefano (actualmente, Yeşilköy) entre a Rússia e o Império Otomano, para formalizar o novo statu quo. O vocábulo «jingo» teve melhor futuro.
      Por curiosidade, transcrevo um trecho de uma das Crónicas de Londres, publicadas por Eça de Queirós numa «folha do norte», A Actualidade, em que o autor se refere ao tratado:

«Finalmente ontem, pelas três horas da tarde, em San Stefano, a paz entre a Turquia e a Rússia foi assinada. Ontem era na história imperial da Rússia um dia ilustre: era o aniversário da emancipação dos servos, do nascimento do imperador e da sua subida ao trono: e por um refinamento de vaidade czariana foi ontem o dia escolhido para completar, por uma assinatura num papel, o fim do Império Turco. Devia ter sido decerto para Alexandre II um momento de orgulho hiperbólico ouvindo debaixo da janela do Palácio de Inverno milhares de vassalos cantarem, com a cabeça descoberta, como no respeito de uma celebração religiosa, o hino do czar — o pensar que no dia em que fazia vinte e três anos que seu pai Nicolau vencido e humilhado morria de despeito, ele tomava a desforra das derrotas passadas, recuperava as províncias perdidas, rasgava o ofensivo Tratado de Paris, destruía o Império Otomano, humilhava grandes potências e ganhava um lugar entre os grandes conquistadores do século. Nesse momento verdadeiramente pôde crer na missão da Santa Rússia.
De resto em Sampetersburgo, ao que dizem os telegramas desta manhã, o entusiasmo tomou as proporções de um delirium tremens. O imperador levou três horas a ir do palácio ao teatro, no meio de uma multidão fanática uivando o hino imperial, ébria de orgulho nacional, aclamando Alexandre, o Libertador. Em San Stefano, o grão-duque Nicolau passou uma revista de cerimonial às tropas, e os arautos anunciaram, ao som das músicas triunfais, o fim da campanha. Depois te Deum, jantares, champanhe e hurras pela Santa Rússia! De resto, os Turcos, com a passividade e a resignação da raça fatalista, aceitam a derrota, que é uma determinação de Alá, e não parecem ter conservado rancor aos Russos. Os correspondentes citam como perfeita a confraternização dos soldados russos e turcos: vêem-se, junto às linhas de demarcação, conversando, jogando, cantando, dançando, fumando, numa patuscada de bons amigos: um correspondente telegrafa que anteontem, na estrada de Pera, encontrara dois fortes destacamentos de tropas russas e turcas, que, tendo-se encontrado no mesmo caminho, faziam a passeata em fileiras misturadas, os oficiais em grupo, formando adiante, as bandas unidas tocando com denodo A Filha de Madame Angot. Os Turcos não parecem protestar: de Istambul vêm todos os dias a San Stefano milhares de curiosos ver os Russos, apertar-lhes a mão, dar-lhes os parabéns de boa chegada: de resto, os negociantes de Constantinopla estão encantados com a presença daqueles milhares de consumidores, que duplicarão os preços dos géneros.
A única criatura viva que em San Stefano protestou foi um jumento. Este ilustre descendente do amigo de Sancho e do amigo de Maomet mostrou desde o começo das negociatas da paz uma inquietação que bem depressa se definiu num ódio asinino contra os Russos. E o burro de um cangalheiro — e apenas pressente um uniforme russo afila a orelha, firma-se nas patas dianteiras e escouceia com um patriotismo que deve fazer corar o sultão e os paxás. E, dizem os correspondentes, a grande curiosidade de San Stefano, e faz o divertimento dos oficiais de sua alteza o grão-duque Vitorino. Debalde se tem procurado convencê-lo da nova vantagem e do novo progresso que a Turquia, ou o bocadito da Turquia que resta, vai gozar sob o protectorado russo; o jumento, com a teima que faz a honra e a força da sua raça, responde com coices aos argumentos. Este jumento ficará na história. É, depois de Osman Paxá, a única alma viril do império. É o último patriota turco!» (excerto da Crónica XIII, datada de Londres, 5 de Março de 1878).



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Léxico: «psi»

Mas existe
     


      Há, fora dos dicionários, palavras muito mais vivas e usadas do que milhares de outras que jazem nesses vastos cemitérios que são justamente os dicionários. A inclusão de determinado vocábulo nos dicionários e vocabulários, já o tenho aqui defendido, não pode ser o único nem sequer o principal critério para aferirmos da legitimidade do seu uso. Abra-se qualquer dicionário no verbete «psi». Que podemos ler aí? Pois que psi é um substantivo masculino e significa a vigésima terceira letra do alfabeto grego ψ Ψ. No quotidiano, o que podemos ver é que «psi» também se usa — é ouvir-se o Prof. Júlio Machado Vaz, por exemplo — no sentido de qualquer (psi) ou todos (psis) os terapeutas da psique: psicólogos, psicanalistas e psicoterapeutas. A imprensa também usa o vocábulo neste sentido, embora ainda com o escusado cordão sanitário das aspas: «Na cultura popular, o uso e abuso do sexo terá uma explicação científica. Ironicamente, o pai da psicanálise decidiu praticar a abstinência após o nascimento dos seus seis filhos, como medida de controlo de natalidade. Para os “psis” com tradição analítica, a sexualidade banalizou-se (ao ponto de se discutir quantas vezes se deve fazer) e é usada como arma de arremesso ou antídoto falível para afugentar o mal-estar» (Clara Soares, Visão, n.º 686, de 27 de Abril de 2006). O uso de psi nesta acepção teve origem na língua francesa, muito atreita a reduções, como já aqui referi. Começou, nesta língua, por se usar somente no registo familiar, e muitas vezes com um sentido irónico ou pejorativo. Mais tarde, no início da década de 1970, passou a significar «spécialiste de psychologie; en partic., spécialiste de psychothérapie, de psychiatrie» (in TLFI). Sem ironia.


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