Léxico: «argiloterapia»

É canja

      Filomena Crespo informou logo no início: «Isto hoje, como dizem as criancinhas, é de canja, canjinha de galinha.» Hoje, no Jogo da Língua, a pergunta era sobre o que significa «talassoterapia»: «terapia à base de argila ou de água do mar?» Respondeu «a nossa especialista em língua portuguesa»: «Fiz uma pesquisa. Efectivamente, não há um substantivo em português que designe uma terapia à base de argila.»

[Texto 345]

Aportuguesamentos

Depende de nós

      «He’s still on the tennis court», lê-se no original. E está traduzido como «corte de ténis», como se lê sempre no jornal Record. Um disparate. Em português, basta dizer «campo de ténis». E a propósito de aportuguesamentos, hoje li no sítio da RTP «pírcingue», de que tinha somente a vaga ideia de que existia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, mas remete para pircing. Que se pode dizer? Bem, não é pior do que «icebergue».

[Texto 344]

Tradução: «BB gun»

Mas ferem

      O adolescente foi lá para fora «to shoot things with a BB gun». «A dar tiros com uma arma de fulminantes», verteu o tradutor. E «fulminante», comprova-se em qualquer dicionário, é o «explosivo das espingardas de criança». Inofensivo, então, só ruído. Em Janeiro deste ano, a fotógrafa Dana Smillie foi atingida, ao que parece, por doze tiros de uma BB gun disparados por polícias egípcios. O adolescente continua lá fora — e ouvem-se fulminantes a rasgar as folhas das árvores. Uma BB gun é uma pressão de ar — espingarda ou pistola.

[Texto 343]

Tradução: «clam fried»

E a especialidade é?...

      É uma das iguarias típicas da Nova Inglaterra: fried clams. E qual a tradução? Aqui alguém verteu como «amêijoas». Os dicionários bilingues não registam mais do que isto: amêijoa; castanhola; pés-de-burro, vénus-casina. Uma coisa é certa: o nome científico é Mya arenaria. Na Fiskbasen, pode ler-se que clam é em português clame de areia. Neste documento da Marinha portuguesa, o nome inglês para a Mya arenaria (clame-de-areia) é sand gaper, outro nome para clam.
      A nossa personagem gostava particularmente de comer clam fried em certo restaurante à beira da estrada, porque «they’re just the necks, no bellies». Não estou a ver podermos destrinçar estas partes nas nossas amêijoas comuns. Alguém tem alguma ideia?
[Texto 342]

«Casa-barco/barco-casa»

Serve inverter os termos?

      A propósito do plural de «barco-casa», o leitor Montexto comentou: «Eu esse tipo de palavras evito-as.» O que me parece é que, se eu quisesse fazer o mesmo, me era impossível. O exemplo de hoje não implica o uso do plural, mas lá aparece a palavra: «One day in my grandfather’s rowboat she points to a red boathouse across the lake.» Como podia o tradutor evitar a palavra? Como poderia eu fazê-lo? Bem, o tradutor pelo menos inverteu a ordem dos elementos: «Um dia no barco a remos do meu avô, aponta para uma casa-barco vermelha do outro lado do lago.»
[Texto 341]

Ortografia: «casa de banho»

Agora e sempre

      «Os motoristas da Carris enfrentam diariamente dificuldades para irem à casa-de-banho porque não existem instalações próprias nos terminais. Para contornar esta situação, a empresa estabeleceu protocolos com alguns cafés em troca de passes gratuitos» («Carris dá passes em troca de casas-de-banho», Marina Almeida, Diário de Notícias, 22.07.2011, p. 21).
      Há quem pense que é preciso aderir às novas normas ortográficas para nos vermos livres desta palermice (só de pensar que têm o aval de pares meus me arrepia) dos hífenes em vocábulos como este. Ora, isto nunca teve pés nem cabeça.
[Texto 340]

Ortografia: «terra-nova»

A terra pelo cão 

      O pai da nossa personagem principal pôs «the last Newfoundland back in its bed of shavings». O tradutor verteu «o último Terra Nova na respectiva caminha de aparas de madeira». Quanto a «respectiva», já se deixa ver que é desnecessário. Quanto à raça canina, já duas vezes, pelo menos, tratei da matéria (aqui e aqui). Escrever-se-á correctamente terra-nova, que pluraliza (ah sim, outro erro comum) em terra-novas.
[Texto 339]

Acordo Ortográfico

O que fazia falta

      A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu ontem, domingo, acabei de ouvir na Antena 1. «Em 2008», lê-se na edição em linha do Público, «por ocasião do encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, manifestou-se publicamente contra o novo acordo ortográfico. “Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira”, sustentou na altura.»
      É esta, parece-me, a grande e simples verdade. Se algo era preciso fazer, era seguramente uma reforma ortográfica bem estudada.
[Texto 338]

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