Hífen

Sendo assim


      «Dois irmãos com mais de 80 anos e um operador de manobras que acorreu para os ajudar a atravessar a linha férrea na estação de Riachos, em Torres Novas, morreram ontem trucidados pelo Sud-Expresso. Mais um acidente para somar ao número de vítimas dos caminhos-de-ferro, que em 2009 totalizaram 49 acidentes e causaram 17 mortos. Este ano, já são seis as mortes» («Acidentes nas vias férreas causaram 17 mortes em 2009», João Baptista, Diário de Notícias, 10.06.2010, p. 6).
      Este é o excerto ideal para o que pretendo dizer, pois tem os vocábulos e locuções linha férrea, via férrea e caminho-de-ferro. Cada vez é mais comum ver as duas primeiras hifenizadas. Em relação a «caminho-de-ferro», desde sempre se viu metade das ocorrências sem hífen. Tudo junto, mostra bem a confusão das nossas regras em relação a esta matéria — e a ignorância dos falantes. Quanto aos dicionários, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista «via-férrea» e «caminho-de-ferro», exactamente como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nenhum deles, contudo, regista «linha férrea», e, se o fizessem, supomos que grafariam com hífen, «linha-férrea», pois decerto que só por analogia chegaram — e erradamente — a «via-férrea». Erradamente porquê?, perguntará toda a gente (em que se incluem, apesar de tudo, os anónimos). Pois porque já o termo que originou a analogia, «caminho-de-ferro», tem uma grafia excepcional, uma vez que, de acordo com o Acordo Ortográfico de 1945, as locuções substantivas (alma de cântaro, cabeça de motim, cão de guarda, criado de quarto, moço de recados, sala de visitas) não são hifenizadas. Desde quando é que em linha férrea e via férrea o conjunto tem um sentido particular que transcende a soma dos seus elementos? Muito juízo no momento de usar da analogia. (Recomendação extensível aos que propugnam «presidenta».)

[Post 4187]

Ortografia: «Ilinóis»

Porque mais próximo de «urinóis»?


      Eu pensava que se podia contar para sempre que o Diário de Notícias escrevia Ilinóis e não Illinois. «Na altura, o então senador pelo Ilinóis encarregou vários membros da sua equipa de combater os rumores que se começavam a multiplicar» («Fé de Obama confunde americanos», C. R. F., Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 28). Eis que na edição de ontem leio: «Antes da decisão de ontem, havia o plano para manter numa prisão de Illinois estes prisioneiros e os que acabassem por ser condenados. A lei de projecto de finanças de 2011, aprovada por 212 votos contra 206, afirma claramente que “nenhum fundo pode ser fornecido ao Departamento de Justiça para adquirir uma prisão com o objectivo de ali encarcerar os detidos da base naval de Guantánamo, Cuba”» («Barack Obama sem dinheiro para acabar com Guantánamo», Luís Naves, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 24).

[Post 4186]

Como se escreve nos jornais

Outra vez não!


      A Fundação José Saramago realizou ontem na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Até aqui, tudo normal. E quem esteve presente? O Diário de Notícias conta: «A iniciativa da Fundação José Saramago contará com a presença da mulher do escritor e presidenta da instituição, bem como de vários amigos que o autor convidou então para estarem presentes na entrega do Nobel em Estocolmo. A sessão terá início pelas 18.30, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias» («Fundação evoca prémio a Saramago», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 45).
      Um escritor quer que lhe escrevam o nome com minúsculas, e a imprensa escreve. O presidente de uma fundação, por acaso mulher, quer que a designem por «presidenta», e a imprensa, genuflecta, obedece. Aonde é que isto vai parar? Onde estão o discernimento, o critério, a independência?

[Post 4185]

Como se escreve nos jornais

Falta de sensibilidade


      As trufas voltaram ao Diário de Notícias. (São notícias repetidas, mas só para os leitores regulares...) Desta vez, a jornalista (não sabemos se a mesma, mas Nysse Arruda já a conhecemos de outros balanços) acertou no topónimo: «Apreciada desde os tempos dos sumérios, em torno de 1700-1600 a.C., a trufa branca tem sido considerada um fruto precioso e raro e motivado lendas e tendências em todas as épocas — para os gregos era um fruto tão valioso que os cozinheiros que inventassem novas receitas mereciam a cidadania; durante a Idade Média chegou a ser considerado um alimento do Diabo ou dos bruxos e feiticeiros, porque não se conseguia perceber se a trufa era um animal ou vegetal; mais tarde, os nobres e a realeza europeia consideravam-na como o melhor produto gourmet, especialmente na região do Piemonte, Norte de Itália» («Trufa-branca, a iguaria mais rara», Nysse Arruda, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 48). Mas depois, sai isto: «O requintado jantar começa com um quase etéreo prato de topinambour (uma espécie de alcachofra conhecida como alcachofra-de-Jerusalém) e girolles (um delicado cogumelo) com trufa-branca”, seguido por um ravioli de pecorino e parmesão com caldo de trufa-branca”» (idem, ibidem).
      Como brasileira que é, a jornalista devia estar alerta: há ali uma palavra do tupi disfarçada de francesa. Topinambour, exactamente. Em português diz-se topinambo, topinambor, tupinamba, tupinambo. Chega? Quero lá saber como dizem os chefes. Eu também não lhes digo como devem preparar as trufas. E mais: é alcachofra-de-jerusalém.

[Post 4184]

Tradução: «back-office»

Fala cristão


      «“Com um grande número de trabalhadores sazonais a trabalhar nas lojas, nos armazéns, em centros de distribuição e no back-office do retalho virtual, os gestores das lojas devem estar cientes do aumento do potencial de furto durante este período”, alerta o estudo, patrocinado pela empresa de gestão Checkpoint Systems» («Roubos no período de Natal valem 68 milhões», Rute Coelho, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 18).
      É um excerto de um estudo britânico chamado «Shoplifting for Christmas 2010». A dificuldade de traduzir o termo back-office (que eu só ouço aos empregados da Worten) não empancou o fluxo tradutológico da jornalista — ou não fosse jornalista. Vê-se que desconhece o exame Vieira (de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público): «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?» «Rute, fala cristão», recomendar-lhe-iam.

[Post 4183]

Cultura

Tem pilhas de graça


      «O candidato presidencial apoiado pelo PS e BE, Manuel Alegre, revelou ontem que está “muito mais bem preparado que Cavaco Silva”. Razões: “Conheço a História e sei há muito tempo, desde pequeno, quantos cantos têm Os Lusíadas”, destacou» («Alegre é melhor por “saber quantos cantos têm ‘Os Lusíadas’», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 12).
      Este é um segredo mau de suster, por isso, lá vai: o revisor antibrasileiro julgava que se podia ser candidato a presidente da República com 18 anos. Ora, com adversários desta idade, Manuel Alegre não podia bazofiar, pois conhecem-se mesmo resumos do poema épico e nem é raro saber-se o número de estrofes. O estudante mais cerebrino nem ignora que as últimas duas palavras d’Os Lusíadas são «ter enveja».

[Post 4182]

Anglicismos

Para acabar


      «Facto é que, mesmo reduzindo o prize money, de 150 mil para 100 mil euros, a prova portuense bateu recordes em termos de pedidos de inscrição, tendo listas de espera em vários países» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Para terminar, o jornalista tinha de usar a expressão inglesa prize money. Deve ser na esperança de Athina Onassis ler o artigo... Se tivesse escrito prémio monetário, o marido dela, o cavaleiro Álvaro Miranda, que é brasileiro, traduzia para ela entender, e o jornalista não nos mandava para cima com mais inglesias desnecessárias. Vamos lá ver, agora mais a sério: se é mais ou menos compreensível que a organização use esses termos, mesmo em programas escritos em português, já não se passa o mesmo com o jornalista. São públicos diferentes.

[Post 4181]

Anglicismos

Olha, olha


      «Nos últimos dias, os pavilhões do salão de exposições nortenho ganharam a forma de um hipódromo em grande escala de modo a acolherem a maior prova hípica indoor que se realiza em Portugal: ao todo, foram transportados 60 camiões TIR de areia, 12 toneladas de palha e feno e 300 boxes para receberem os mais de 250 cavalos, avaliados em 18 milhões de euros, que vão participar na prova portuense, que este ano desceu um patamar em termos de prestígio competitivo como resultado da crise» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Eu sei que se costuma dizer e escrever — mas usar o termo indoor parece-me subserviência no último grau, e até apetece dizer umas vernaculidades aliviadoras acerca disso. Então agora imaginem que eu traduzia «indoor training ring» por «picadeiro indoor». Qual é que era o homem sério que não deixaria escapar, pelo menos, um frouxo de riso? Boxes também já é um caso perdido. Os Ingleses, desimaginativos, têm caixas para os cavalos. Nós só cavalos de brincar enfiamos em caixas, quanto aos outros, é, e há muito tempo, em baias.

[Post 4180]

Arquivo do blogue