Ortografia: «intra-ocular»

Engano o vosso


      «A mulher intervencionada aos dois olhos em simultâneo (para a colocação de lentes intraoculares) ainda vai ser operada, mas o prognóstico é muito reservado, informou ontem o hospital lisboeta» («Três doentes operados no Algarve perderam parcialmente a visão», Cláudia Ferreira, Público, 10.08.2010, p. 6).
      Nos últimos dias, tenho lido quatro diários, e o Público, e esta edição em concreto, é o único que grafa assim o vocábulo. Incorrectamente, contudo, pois ao prefixo intra- segue-se hífen antes de vogal, h, r ou s. Logo, intra-ocular.

[Post 3772]

Como se escreve nos jornais

Pós de desleixo


      «Morreu Tony Judt, o historiador da Europa do pós II Guerra Mundial», titulava ontem o Público um texto da autoria de João Manuel Rocha (Público, 9.08.2010, p. 11). Só que jornalista, editor e copidesque esqueceram-se de que pós- é um prefixo que se liga ao elemento seguinte por meio de hífen. Mas há mais: «Nascido numa família de judeus seculares em Londres, em 1948, passou Verões da adolescência em kibutz e tornou-se um fervoroso defensor de Israel.» Há quem o preconize, mas não eu: o plural dos estrangeirismos deve ser feito de acordo com as regras da língua a que pertencem. A mesma notícia no Diário de Notícias: «Sionista convicto quando adolescente (passou vários Verões a trabalhar nos kibbutzim (aldeias comunitárias), a posição de Judt foi-se alterando ao longo dos anos» («Historiador judeu que escrevia sobre a Europa e criticava Israel», Diário de Notícias, 9.08.2010, p. 39). Aqui, o jornalista só se atrapalhou com os parênteses, mas vejam o parágrafo de abertura: «A obra [Pós-Guerra — História da Europa desde 1945], publicada em 2005 e editada em Portugal pelas Edições 70, foi finalista do prémio Pulitzer e foi classificada por Louis Menand na revista New Yorker como “virtualmente suprahumana”» (idem, ibidem). Se isto é português, vou ali e já volto.

[Post 3771]

Léxico: «agueiro»

No mar


      «O aumento de agueiros é confirmado pela pescadora Lina Carvalho, de 53 anos, para quem o maior problema da Caparica é, porém, a falta de nadadores-salvadores» («“Novo” mar da Caparica assusta cada vez mais», Sandra Brazinha, Jornal de Notícias, 6.08.2010, p. 17).
      Há anos que o vocábulo é usado nos jornais, e a acepção ainda não foi dicionarizada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista quatro acepções: «1. sulco ou rego por onde corre a água das estradas e dos caminhos; 2. cano em que se reúnem as águas dos telhados; 3. cada um dos orifícios, nos muros das propriedades rústicas, pelos quais entram as águas aproveitáveis na cultura; 4. sulco por onde passa a água da rega (nas hortas e nos prados)». Talvez esteja na hora.
      No Correio da Manhã, continuam a grafar, estranhamente, nadador-salvador sem hífen. Talvez também esteja na hora de alguém avisar pelo menos os revisores. «Marta é nadadora salvadora na praia da Saúde, na Costa de Caparica, Almada» («“Vi o Edilson a afundar-se”», Miguel Curado, Correio da Manhã, 6.08.2010, p. 14).

[Post 3770]

«Glaciar»/«glacial»

Não percebo


      Há muitas pessoas que confundem o substantivo «glaciar» com o adjectivo «glacial», erro de que já aqui falei. Que se pode fazer? Eu costumo dizer-lhes que estão enganadas. A mais conspícua das últimas foi o subdirector-geral da Saúde, José Robalo: «É do conhecimento geral que o nosso planeta, ao longo do tempo, sofreu alterações climáticas significativas por causas consideradas naturais, como os fenómenos vulcânicos e as eras glaciares» («Alterações climáticas — impacte na saúde», José Robalo, Diário de Notícias, 5.08.2010, p. 51).

[Post 3769]

Selecção vocabular

Nós não


      Habituámo-nos a ver os presidentes da República a agraciar personalidades e instituições, como antes o faziam os reis. Na última crónica de Pedro Lomba no Público — uma crónica nada original sobre a dificuldade de escrever uma crónica, aquela crónica —, ficámos a saber que aquele cronista faz o mesmo quando sai à rua: «Outro tema possível: estes amigos dos nossos amigos são o quê, pertencem a que categoria? Não são nossos amigos, mas também não são simples conhecidos, daqueles a quem agraciamos na rua por polidez» («A angústia do guarda-redes antes do penalty», Pedro Lomba, Público, 5.08.2010, p. 36).
      Não vejo, em todos os dicionários que consultei, acepção que se aproxime daquela que o texto pretende significar. E, de resto, vejo que andamos a ler o mesmo: Economia Portuguesa, as Últimas Décadas, de Luciano Amaral, um ensaio publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, justificadamente citado nos últimos tempos. E custa menos que uma revista: 3,15 euros.

[Post 3768]

Léxico: «lenticular»

Imagem daqui

A língua na estrada


      «O prólogo, assim como qualquer contra-relógio, requer condições técnicas diferentes. A bicicleta normal de estrada dá lugar a uma bicicleta especial, carinhosamente tratada por “cabra” na gíria do pelotão — o nome herdou-o do formato do guiador, que se assemelha a “cornos de cabra” —, com umas rodas especiais (a dianteira com raios espessos e soldados, a traseira com lenticulares), que podem custar entre 500 e 800 euros (a bicicleta oscila entre os 7000 e os 8000), e com uma aerodinâmica especial» («Um prólogo entre “cabras” aerodinâmicas», Ana Marques Gonçalves, Público, 5.08.2010, p. 31).
      Não sabia que à roda traseira igual à da bicicleta da imagem se dava o nome de lenticular. O termo vem do latim lenticulāris,e, «de lentilha». Em forma de lente; lentiforme ou relativo a lentícula, registam todos os dicionários.

[Post 3767]

Ortografia: «papanicolau»

Inconsistências estivais


      «No primeiro telefonema, além do susto de saberem que têm um cancro, as vítimas são desarmadas pelo conhecimento que as falsas médicas demonstram ter de pormenores da sua história clínica, como a existência prévia de um nódulo, um quisto, a utilização de um dispositivo intra-uterino ou a realização de um teste “papanicolau”. Não se conhece relação entre as abordadas, mas o JN sabe que várias são dadoras de sangue» («Falsas médicas usam IPO do Porto em tara sexual», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 6.08.2010, p. 2).
      Pois é, mas alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, já regista o nome comum papanicolau, a designação para o exame citológico vaginal de um esfregaço colhido no colo do útero, para rastrear a existência de cancro ou outras doenças. A jornalista Inês Schreck, porém, achou que era necessário usar as aspas. Mas isso foi na página 2, já que na página 3 decidiu experimentar outra via: «“Suposta doutora disse o meu nome completo, conhecia o número dos meus dois telemóveis, sabia que vivia em Vizela e que tinha feito um Papanicolau há pouco tempo”, contou ao JN» («Obedeceu e filmou o corpo com o telemóvel», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 6.08.2010, p. 3).

[Post 3766]

Ortografia: «Margem Sul»

Na margem errada

     
      O Ignoto escreveu «margem Sul». Veja lá que não é assim. Que no Diário de Notícias também tinham essa dúvida, afirmou em defesa (?) o revisor antibrasileiro. Esqueceu-se apenas de dizer como a resolviam. Contudo, agora, lembrei, escrevem «Margem Sul». Às vezes, e mal, também «Margem Sul do Tejo». É um topónimo, logo deverá grafar-se Margem Sul. No Abrupto, de Pacheco Pereira, encontrei este texto: «Dia na Margem Sul, assim mesmo, com maiúsculas. Porque não é a margem sul do Tejo, mas a Margem Sul da história social e política portuguesa, uma combinação sem paralelo do único projecto industrial português do século XX com dimensão europeia, de uma cultura operária que não existe em mais lado nenhum, de uma população que forjou a sua identidade contra o salazarismo tendo sido primeiro anarquista e sindicalista e depois comunista.»

[Post 3765]

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