Ilhas Britânicas

Um caso


      Estava aqui a ler (vocês não querem saber onde) que Álbion era a «designação antiga das ilhas Britânicas». E no Guia de Estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors pode ler-se: «Utilizar “Reino Unido” para designar o Estado-Membro e não “Grã-Bretanha” (constituída pela Inglaterra, Escócia e País de Gales). O Reino Unido, para além destas três entidades, inclui também a Irlanda do Norte. O termo puramente geográfico “ilhas Britânicas” compreende também a Irlanda e as dependências da Coroa (ilha de Man e ilhas anglo-normandas que fazem parte do Reino Unido).»
      Habitualmente, entende-se que a locução é um todo; logo, como topónimo que é, com o vocábulo «ilha» a ser grafado com maiúscula inicial. Afinal, não se vai para as *Britânicas como se vai, por exemplo, para as Seicheles ou para as Maurícias. «Concordámos ambos que Scabius era o cabrão mais sortudo da escola, para não dizer das Ilhas Britânicas» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 46). «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (idem, ibidem, p. 401).

[Post 3579]

Sápido/insípido

Acento erótico


      Entre nós, sápido é um termo usado quase exclusivamente pelo crítico gastronómico José Quitério. E quem é que, assim de repente, se lembra logo que o antónimo é insípido? Pois é, o mesmo fenómeno fonético ocorre no par sapiente/insipiente (e este a ser confundido, demasiadas vezes, com incipiente). Umas tinturas de latim, e temos logo os poetas a escreverem in-sápido e in-sapiente. Os poetas, convencionou-se, podem escrever como quiserem. Ainda recentemente, o revisor (e também poeta!) Levi Condinho, na tal conversa na Católica, lembrava que Herberto Helder escrevera «cona» com acento circunflexo. Da fama não se livram eles.

[Post 3578]

Concordância verbal

Gostos e desgostos


      «O homem que nunca muda de opinião é como água estagnada e gera répteis da mente», William Blake. Mas ainda é cedo para mudar de opinião. Só quero dizer isto (e, estranhamente, os leitores estranham sempre que me pronuncio sobre os meus gostos): detesto a palavra «pedaço» para me referir ao tempo. «Durante um bom pedaço cada um disse e repetiu as loucuras que lhe vinha à mente sem que nada lhe parecesse asneira» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 122). «Valia mais que dissesse alguma coisa de substancial sobre a frase», estarão a murmurar alguns leitores mais exigentes. É para já: o verbo tem de estar no plural: «as loucuras que lhe vinham à mente».

[Post 3577]

Léxico: «puxada»

Outra


      «A eléctrica Escom, que dispensou os seus quadros brancos e deixou de investir na renovação tecnológica, tem agora uma gigantesca campanha contra as “puxadas” de electricidade, que se tornaram praga nacional» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 94).
      Mais uma acepção ignorada pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Temos de consultar o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa para a encontrar: «Desvio ou prolongamento de um ponto de fornecimento de água, electricidade, telefone, etc.»
      E nenhum dicionário ainda regista, é um neologismo, o substantivo eléctrica para designar a empresa produtora de energia eléctrica. Ultimamente, a EDP é apresentada como a «eléctrica nacional».

[Post 3576]

Léxico: «tijolo»

E porquê?


      «Lá de fora, chegam-me os acordes da banda de King Jury a tocar o clássico de jazz da township, Emsengeni, através de um “tijolo” rouco com duas colunas incorporadas» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 87).
      O vocábulo tijolo, nesta acepção — radiogravador com duas colunas incorporadas, a pilhas, do tamanho de um tijolo — continua ausente dos dicionários gerais da língua. E não sei porquê. Consultemos o respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista um sentido figurado: «livro muito volumoso». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa julga resolver tudo de outra forma: «Infrm. Objecto quadrangular pesado.»

[Post 3575]

Léxico: «badana da tenda»

Acampados


      «A gritaria acordou toda a gente, ressoaram vozes estremunhadas, acenderam-se lanternas aqui e além. A badana da tenda que pertencia à Ísis abriu-se de repelão e perante o grupo atónito surgiu Rosalita» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 56).
      Nunca tinha lido ou ouvido, mas parece-me bem. No plural, badanas são as partes compridas e estreitas que pendem de uma roupa. Logo, por extensão de sentido também pode designar as abas das entradas das tendas de campismo.

[Post 3574]

Léxico: «terruço»

Agora em mirandês


      Ainda Uma Aventura no Egipto. Ema Lagarto, arqueóloga, encontrara nas escavações do Vale das Rainhas, na margem ocidental do rio Nilo, um gato de madeira com aplicações de ouro. Guardara-o no cofre, mas agora tinha sido furtado. Explica agora à filha e às outras pessoas: «— Um gato envolto em terruço, compreendem? Fiquei louca de alegria, trouxe-o aqui para casa, retirei a terra e limpei a peça com mil cuidados» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 58).
      Conhecia «terriço», registado em todos os dicionários e que julgo corresponder exactamente ao mesmo: «Terra formada pela decomposição de substâncias animais e vegetais misturadas com o solo ordinário» (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Terruço, pelo contrário, só vejo registado no Dicionário Mirandês-Português de Amadeu Ferreira e José Pedro Cardona Ferreira: «terruço s. m. (dim. de tierra) Terra de fraca qualidade, nomeadamente aquela que aparece quando se abre uma cova para plantar: al scabar solo me salie a modo un ~ i you lhougo bi que l’oulibeira nun me iba a pegar

[Post 3573]

Tradução: «conducteur de travaux»

A língua no estaleiro


      «Charpentiers, ingénieurs, maçons, conducteurs de travaux, grutiers et couvreurs…» Como traduzir conducteurs de travaux? Responsável de obra? Demasiado amorfo, demasiado neutro. Num texto brasileiro, ao conducteur de travaux fazem corresponder a designação, que a nós não nos diz nada, de «tecnólogo». Para grutier, temos operador de grua e gruista, este ainda não registado nos dicionários gerais da língua. Para couvreur temos também tradução inequívoca: telhador (e a melhor definição é a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Não é director de obra, porque, em francês, o conducteur de travaux depende daquele. Preparador de obra traduzirá bem o conceito?

[Post 3572]

Actualização em 13.06.2010

      A tradução/sugestão do leitor Francisco é a mais adequada: encarregado de obras. Ver, por exemplo, aqui.



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