Léxico: «platina»

É tudo o mesmo, hã?


      Na edição de 11 de Abril da revista Domingo, do Correio da Manhã, foi publicada uma reportagem de Bruno Contreiras Mateus e fotos de Sérgio Lemos sobre as mulheres da GNR que fazem guarda ao Palácio de Belém. Uma das fotografias é a que, com a devida vénia, está acima. Tem interesse pelo léxico, naturalmente. A única novidade (nem mesmo encontrei o termo em nenhum dicionário) era, ao que me parecia, o vocábulo platino: «Agulhetas: Cordões que pendem desde os platinos metálicos e prendem no dólman.» Não encontrei e com razão. É que os dicionários registam platina: «presilha na camisa de trabalho ou no blusão, onde os militares seguram as correias, as divisas ou os galões», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, platina é a «presilha ou pestana que os soldados têm no ombro do casaco ou jaleco para segurar as correias». Os únicos platinos que os dicionários conhecem são os naturais ou moradores de La Plata, a capital da província de Buenos Aires. No sítio da GNR, podemos ver anúncios de contratos de «aquisição de calças, calções, saias, platinas e agulhetas», como este. Vem do francês platine.

[Post 3337]

Casar ou casar-se?

Não precisa de ser oficiante


      Escreve-me um leitor: «Escritor de sucesso imparável e irrequieto apresentador de telejornais, disse José Rodrigues dos Santos: “Elizabeth Taylor vai casar.” Não disse quem nem o quê. Nem isso será importante.»
      A verdade é que os dicionários já vão apresentando este verbo, casar, não apenas como pronominal, mas também como intransitivo. A eliminação do se, que, neste caso, não é reflexo, como muita gente afirma, mas inerente, vai sendo comum, em parte devido à lei do menor esforço, mas também graças a fenómenos de analogia e cruzamento. De uma maneira geral, os falantes já não estranham a supressão do pronome nestes casos. Aliás, José Rodrigues dos Santos, que disse de facto o que o leitor transcreve, também disse — e até antes — isto: «Elizabeth Taylor vai-se casar pela nona vez.»
      Mais: se contrario, sempre que posso, a omissão do se no verbo ir — nunca sancionaria uma frase como esta: «Finalmente, o chefe local que tinha sido o seu principal apoio, Omach, também teve de ir embora com a sua gente.» —, nada faço em relação a casar. Espero que não me comparem agora ao médico que, podendo salvar o doente, deixa a doença seguir o seu curso.

[Post 3336]

Títulos: adequação e mentira

Inépcia de principiante


      Muito havia a dizer sobre coesão textual nos textos jornalísticos, assim como acerca da adequação dos títulos. Num artigo publicado na edição de domingo do Correio da Manhã, lê-se este título: «Chefe da PSP detido por agredir juíza». O leitor atira-se logo à leitura com uma só ideia: conhecer rapidamente o motivo deste acto de lesa-autoridade. Ainda saliva quando começa a ler o primeiro parágrafo: «Um chefe da Polícia foi ontem detido em flagrante, no Porto, pelo crime de violência doméstica.» Se era para enganar o leitor — que é o que configura o título, um engano, um embuste —, para quê o anticlímax logo no primeiro parágrafo?

[Post 3335]

Águas-furtadas, trapeira, mansarda

Furtadas a quem?


      As águas-furtadas, e a etimologia parece-me ser evidente para todos, é uma maneira de aproveitar a área de sótão para habitação, também por vezes designadas por trapeira. Começou por surgir nos palácios e destinar-se a quartos da criadagem — não é por acaso que outro sinónimo, mansarda, significa, numa extensão de sentido, morada miserável. Alguns falantes que diríamos qualificados desconhecem que é uma palavra composta. Um só exemplo: «Abandonada por ele, e por quase toda a gente, presa à cama numas águas furtadas, descobre em si mesma um inesperado sentido de humor» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira, revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 11). Em 5.ª edição...
      Ainda sobre os sinónimos. Mansarda chegou-nos, ao que parece ainda no século XVIII, do francês mansarde, e este provém de um nome próprio: François Mansart (1598–1666), o arquitecto francês que concebeu o telhado (também conhecido por telhado francês) em que cada água é quebrada em dois caimentos, um quase vertical, o outro, quase horizontal. Ainda recentemente aqui falámos dos telhados mardelianos.

[Post 3334]

Como se escreve nos jornais

Diga 3333


      Numa notícia («Um país unido parou para rezar e chorar os seus mortos», assinada pela jornalista Maria João Guimarães) publicada hoje no jornal Público, a propósito da morte do presidente polaco, lê-se: «Varsóvia transformou-se numa gigantesca igreja, com flores e velas, num sofrimento consensual por uma figura controversa». Sofrimento consensual — como se a dor moral fosse algo de voluntário a respeito da qual pudéssemos fazer pactos e negociar. Vá lá, agora vamos todos ter pena. Os jornalistas relêem o que escrevem? Os revisores relêem o que revêem?

[Post 3333]

Crase

À pedrada


      Não me esqueci da sua pergunta, caro Paulo Araujo. A propósito de um título, «Atacam polícia à pedrada antes de bater em agente», em que se usa a crase (e crase é vocábulo que poucos falantes portugueses conhecem), este leitor pergunta: «Supondo-se substituir pedrada por pontapé ou chute, não seria necessário imaginar ao pontapé ou ao chute; por isso, não vejo motivo para a crase. Desculpe a insistência.» Os Portugueses não somente quase desconhecem o vocábulo — raramente se debatem com a dificuldade que aos Brasileiros parece inerente ao conceito. Mas voltando atrás: crase é o nome que se dá à contracção da preposição a com o artigo a (ou no plural, as), grafada à, às, e, por extensão de sentido, ao acento grave que marca na escrita essa contracção.
      Ontem, na redacção, um jornalista pensou em voz alta: «Volta a Turquia ou Volta à Turquia?» Lembrou-se, decerto, de Volta a França e Volta a Espanha, e hesitou. Tirando este caso, só me estou a lembrar da hesitação, mais do mundo académico, em torno de ensino a distância/ensino à distância. Há, não nego, algumas subtilezas no uso da crase, mas parece-me que, de uma maneira geral, não escapam ao comum falante português. Não é que o diagnóstico seja útil, mas creio que é algo idiossincrático, muito próprio dos falantes brasileiros. Razão insuficiente para dizermos que estamos perante outra língua, pois claro.

[Post 3332]

Ortografia: «juiz-conselheiro»

Colendos juízes-conselheiros


      «O juiz-conselheiro falava durante o lançamento do livro ‘Justiça 2009’, escrito por si, pelo ministro da Justiça, Alberto Costa, pelo bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, e pelo procurador-geral da República, Pinto Monteiro» («Crise pode voltar a entupir tribunais», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 18). «De acordo com o presidente do TC, Rui Moura Ramos, dos treze juízes conselheiros, dois votaram contra. José Borges Soeiro e Benjamim Rodrigues foram os únicos a considerar que o casamento homossexual viola a Constituição» («Casamento gay recebe luz verde», Ana Patrícia Dias, Correio da Manhã, 9.4.2010, p. 24).
      Eles são assim, um pouco inconstantes, hesitantes, abjurantes.

[Post 3331]

Quirguistão, Quirguizistão, Quirguízia

Esqueceram-se, mudaram de opinião?...


      «A oposição da Quirguízia anunciou ontem ter tomado o poder após uma sangrenta rebelião que pode ter feito mais de cem mortos. Foi decretado o estado de emergência e o presidente Kurmanbek Bakiyev abandonou a capital, Bishkek, palco de violentos confrontos entre apoiantes da oposição e militares» («Revolta sangrenta», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 8.4.2010, p. 33). «A tomada do poder pela oposição no Quirguistão dividiu os presidentes americano e russo» («Acordo histórico selado em Praga», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 9.4.2010, p. 33).
      Eu sei que se pode dizer Quirguistão, Quirguizistão ou Quirguízia, mas não se fala de vez em quando nos –stãos de que a Rússia se começou a apropriar no século XIX? A melhor variante, para mim, é a primeira, pela razão apontada e por ser mais curta do que a segunda. Contudo, não é a minha preferência que está em causa, mas a inconstância de uma jornalista e de um jornal. Da noite para o dia, abandonam a forma como se referem a um país. Há toda a vantagem em mantermo-nos fiéis a uma forma de dizer referir as coisas.

[Post 3330]

Arquivo do blogue