Escoteiro/escuteiro

Por escote


      «O fundador do movimento internacional de escoteiros, Robert Baden-Powell, foi convidado a encontrar-se com Hitler para estabelecer ligações entre o seu movimento e as Juventudes Hitlerianas, segundo documentos desclassificados pela secreta inglesa (MI5)» («Baden-Powell convidado para reunião com Hitler», Global Notícias, 10.3.2010, p. 7).
      Afinal, parece que Baden-Powell apenas tomou chá (no País das Maravilhas bebe-se muito chá) com Hartmann Lauterbacher (1909-1988), chefe de Estado-Maior das Juventudes Hitlerianas. O que me interessa, porém, é o vocábulo escoteiro. É conhecida a questão em torno de escoteiro/escuteiro.
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, escoteiro é apenas aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote (quota individual para uma despesa comum) nas estalagens, e pioneiro, ao passo que escuteiro é o indivíduo pertencente a uma associação praticante do escutismo. Já para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, trata-se de variantes gráficas homófonas. De maneira geral, na acepção de indivíduo pertencente ao movimento criado pelo militar inglês Robert Stephenson Smyth Baden-Powell (1857-1941), há um relativo consenso sobre a variante escoteiro ser mais usada no Brasil, onde se considera lusismo a variante escuteiro.
      Ainda assim, entre nós, a distinção entre escoteiro e escuteiro faz-se: usa-se o primeiro para designar os membros da Associação de Escoteiros de Portugal (AEP), movimento que se diz «independente, interconfessional e multiétnico», e os membros do Corpo Nacional de Escutas (CNE), que é um movimento da Igreja Católica. A meu ver, só há um problema: os dicionários não acolherem esta distinção.

[Post 3230]

Sobre «Bosquímanos»

Comedores de peixe


      Muito me surpreende que nestes tempos de hipocrisia e do politicamente correcto os jornais ainda continuem a usar a designação Bosquímano (e todas as variantes: Bosquimanos, Bosquímanes, Boxímanes, Boximanes, Boxímanos, Boximanos...), com etimologia no africânder (ou africâner) boschjesman, este derivado do holandês bosjesman, «homem da floresta». Daí o Bushman dos Ingleses. O texto que acabei de rever dizia: «Na mais escondida África, no profundo deserto do Calaári, vive um povo peculiar, que nos idos anos de 1980 foi retratado num filme inesquecível [Os Deuses Devem Estar Loucos]. São os Bosquímanos. As filmagens realizaram-se nas paisagens do Botsuana, um dos novos países prósperos da África Austral.» Lembro-me sempre dos Esquimós, palavra que vem do algonquino e que de vez em quando nos querem desabituar de usar — por ser ofensiva, dizem. Digam Inuítes, recomendam-nos paternalmente.

[Post 3229]

Pronomes de tratamento

Eu também fico


      Rapto na Escola Primária (The Priory School, no original), com tradução de Florinda Lopes. Lorde Saltire, filho do duque de Holdernesse, foi raptado da Escola Priory. Sherlock Holmes é contratado pelo director da escola, o Dr. Huxtable. Sherlock Holmes estranha que o director só passados três dias do rapto o contacte. «Sua Graça fica horrorizada com a ideia de a infelicidade da família ser exposta em praça pública», responde Huxtable, que não sabe português (e não é aqui o único). Primeiro, a forma de tratamento de um duque é Vossa/Sua Alteza (Your/His Grace, em inglês). Segundo, com pronomes de tratamento, e é a segunda vez que aqui o escrevo, dá-se sempre a silepse de género: Vossa Senhoria é estúpido. Vossa Excelência é mau. Vossa Majestade é um bom avaliador. Vossa Alteza é muito bondoso. Sua Alteza fica horrorizado.

[Post 3228]

«Empenhativo»: sim ou não?

São Google


      Tive de rever um texto em que se falava do 47.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a celebrar a 25 de Abril próximo, IV Domingo de Páscoa. Citava-se nele um excerto da mensagem papal para este dia: «O testemunho pessoal, feito de opções existenciais e concretas, há-de encorajar, por sua vez, os jovens a tomarem decisões empenhativas que envolvem o próprio futuro.» Nunca tinha visto a palavra «empenhativo», pelo que fui pesquisar. Nada. Por precaução, um pouco escusada no caso, consultei o sítio do Vaticano. Não sei se as mensagens são originalmente redigidas em língua italiana e só depois traduzidas para as outras línguas, mas suponho que sim, e encontro aqui a explicação para a tradução. Em italiano, a frase é: «La testimonianza personale, fatta di scelte esistenziali e concrete, incoraggerà i giovani a prendere decisioni impegnative, a loro volta, che investono il proprio futuro.» Em francês: «Le témoignage personnel, fait de choix existentiels et concrets, encouragera les jeunes à prendre, à leur tour, des décisions exigeantes qui engagent leur avenir.» Em espanhol: «El testimonio personal, hecho de elecciones existenciales y concretas, animará a los jóvenes a tomar decisiones comprometidas que determinen su futuro.» Em alemão: «Das persönliche Zeugnis, das aus konkreten Lebensentscheidungen besteht, wird die Jugendlichen ermutigen, ihrerseits anspruchsvolle Entscheidungen über die eigene Zukunft zu treffen.» Em polonês, perdão, polaco: «Osobiste świadectwo, oparte na konkretnych decyzjach życiowych, dodaje młodym odwagi, by także oni zdobyli się na decyzje wymagające zaangażowania na całą przyszłość.» Em inglês: «Personal witness, in the form of concrete existential choices, will encourage young people for their part to make demanding decisions affecting their future.»
      Em 2007, uma consulente do Ciberdúvidas, advogada e tradutora (a vida está má), queria saber se podia usar a palavra. Ou melhor, como ela explica, precisava de a usar... «Preciso de usar a palavra “empenhativo” numa tradução para português; a mim parece-me correcta, mas, por segurança e como de costume, verifico pelo Google se é frequente ou não a utilização da palavra. Desta vez encontrei muito poucas utilizações de “empenhativo” e, por isso, me veio a dúvida. Podem por favor esclarecer se está correcta?» É um método nada científico, mas cada um tem os seus. Fiz a busca e o Google devolveu-me 2300 ocorrências. A verdade é que, seja qual for o disparate, está na Internet. Vamos fiar-nos no número de ocorrências? Por outro lado, quantas ocorrências é necessário registar para acolhermos os novos vocábulos? Coincidência ou não, algumas ocorrências são de sítios de instituições religiosas.

[Post 3227]

Léxico: «imprimadura»

Primeira demão


      O Dicionário Houaiss di-lo registado pela primeira vez na língua portuguesa em 1767, mas não fique triste, caro leitor, cheguei a tempo: «O resto eram traços a carvão, simples linhas pretas esboçadas sobre a imprimadura branca da parede» (O Pintor de Batalhas, Arturo Pérez-Reverte. Tradução de Helena Pitta. Porto: Edições Asa, 2.ª ed., 2008, p. 9). Usado no âmbito das artes plásticas, imprimadura é o acto ou efeito de imprimar e a primeira demão de tinta em tela, madeira, etc.

[Post 3226]

Advérbio «abaixo»

Pelo cano...


      Vamos ver se tenho a sorte de poder contribuir de novo para a gramática poética de Fernando Venâncio. Lê-se, e é a última vez que aqui a citarei (se conseguir resistir a abordar outros erros e acertos que encontrei nela), na obra que tenho vindo a analisar: «Possivelmente, Alexandra Fiodorovna rasgou-a e deitou-a pia a baixo, qualquer coisa deste tipo, mas era de certeza dessa Anna Virubova, a amiga caluniada» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 147). Tanto quanto sei, a baixo só se usa em locuções adverbiais como de alto a baixo e de cima a baixo. Abaixo não significa em sentido descendente? Então? Passou na RTP 2 uma série de desenhos animados cujo título original é Staines Down Drains, traduzido para Pelo Cano abaixo. Com esta tradutora e revisor, seria Pelo Cano a baixo.

[Post 3225]

Léxico: «sincronicidade»

Digitus Dei


      O professor de Psiquiatria Mário Simões, que foi ontem um dos convidados do programa Câmara Clara, falou do conceito de sincronicidade, tendo lembrado que foi «mais uma palavra criada por Carl Jung [1875–1961]», para quem «isso seria o digitus Dei, a “impressão de Deus”». Paula Moura Pinheiro deu um exemplo de sincronicidade (também chamada coincidência significativa pelo fundador da psicologia analítica): «Está a tratar de um determinado assunto e, de repente, imensos dados sobre esse assunto lhe são servidos por aquilo que está à sua volta.» O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista o vocábulo, ao contrário do Dicionário Houaiss e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Post 3224]

Ortografia: «jardim-de-inverno»

Mesmo no Astoria


      «Sentada no jardim de Inverno do Hotel Astoria, Kate Semionov quase não reparava no extravagante almoço de caviar e blini, esturjão fumado e champanhe, que tinha à sua frente» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 273).
      Ainda nunca entrei num Hotel Astoria, mas faço fé que os jardins-de-inverno serão como os de todos os outros hotéis que os tenham — ou não? O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo, registam jardim de inverno. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa esqueceu-se do verbete. O Dicionário Houaiss regista jardim-de-inverno, que acho ser a grafia mais adequada. E porquê? Se se deu (refiro-me aos dicionários publicados em Portugal, pois as estações do ano já eram grafadas com minúscula inicial no Brasil — e cá ainda não são, pois até os maiores defensores do Acordo Ortográfico de 1990 estão a recuar) o passo de grafar com minúscula o vocábulo inverno, então acho que o mais correcto é usar hífenes.

[Post 3223]

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