Autor e tradutor

Traductor non auges

      A primeira vez que deparei com uma análise etimológico-semântica da palavra «autor» foi em Camilo. Lembrei-me agora disso quando li em Vítor Aguiar e Silva (Teoria da Literatura, 8.ª ed. Coimbra: Livraria Almedina, 2000, p. 206), a propósito da distinção entre as designações «autor», «escritor» e «poeta», uma análise semelhante: «[…] autor é aquele que está na origem de algo, aquele que faz produzir e crescer e que é também, em conformidade com o uso jurídico do lexema, o garante (do vocábulo latino auctor, derivado de augere, “aumentar”, “fazer progredir”, “produzir”)» (p. 206). Consultemos agora, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: que perspectiva sobre a formulação autoral está nesta definição de «autor»: «aquele a quem se deve uma obra literária, científica ou artística»? E como algumas (não todas) coisas estão ligadas entre si, lembrei-me também de ter lido na edição de 31 de Outubro da revista Actual uma recensão da obra O Símbolo Perdido, de Dan Brown, assinada por José Mário Silva em que se lia na ficha bibliográfica «trad. de AAVV». Apesar de, na definição daquele dicionário, «tradutor» ser o «autor de uma tradução», será correcto abreviar desta maneira os nomes de vários tradutores? Mesmo que fosse (ou seja, vá…), somente em relação às obras de referência com vários autores se usa a abreviatura AAVV (ou AA. VV), para obras de outra natureza usa-se a expressão latina et al. depois do nome do primeiro autor.

[Post 2785]

Pronomes pessoais

Já que falamos nisso

      Há algo de comum entre a maioria dos alunos que chega ao 2.º Ciclo e os maus tradutores: usam demasiado os pronomes pessoais. Só neste aspecto, professores e revisores têm muito que fazer. É, contudo, habitualmente o mais fácil: é só cortar. Como ando agora muito ocupado com o latim (e que melhor forma de conhecermos bem a nossa língua que reflectirmos, comparando, com outra?), vejo que, tal como em português, os pronomes pessoais latinos não têm, e eu nunca antes tinha pensado nisto, nenhuma indicação de género. Ora, não há dúvida que seria útil que a tivessem.

[Post 2784]

Duplo sentido de «sancionar»

Ambiguidades

      Um leitor ouviu na TVI 24 «um comentador desportivo dizer que sancionava os adeptos que invadem instalações desportivas». E pergunta-me: «Será que queria dizer que reprovava ou que aprovava?» Pois, é essa a questão. Não sei. O verbo sancionar (tal como o substantivo sanção) tem essa ambiguidade semântica. Mas não etimológica, confirmei-o mais uma vez. O étimo do nosso sancionar é o verbo sanciō, -cīre, -xī, -ctum, que significa «ratificar solenemente; confirmar (lei, acordo, etc.); prescrever por lei». Sobre a mesma dúvida, o consultor do Ciberdúvidas Carlos Rosa afirma que a definição de sanção («acto pelo qual uma decisão ou uma lei se torna executória ou definitiva») do Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, «por si só é já ambígua». Não concordo. A definição é, antes, absurda e escusadamente técnica, só inalcançável para o cidadão comum, não, quero crer, para qualquer intérprete do Direito. O que recomendo é que, nestas circunstâncias, se use outro termo equivalente.

[Post 2783]

Verbo «querer»

Só um exemplo


      Decerto que cheio de boa vontade, um anónimo deixou um comentário ao meu texto «4.ª classe adiantada», assegurando-me que, com a «Democracia do 25 de Abril», o «ensino está muito melhor». Tanta certeza só pode advir de ter conhecido bem o ensino antes do 25 de Abril, o que se confirma, de alguma maneira, não acertando na ortografia do verbo querer, pois escreve: «Se quizer confirmar o que lhe digo, favor pesquise no “Youtube”.» Algumas gramáticas e manuais previnem o leitor de que as formas do verbo querer nunca se escrevem com z. Habitualmente, os erros surgem com a conjugação de compostos a partir de verbos irregulares, no caso, requerer.

[Post 2782]

Tradução: «executive order»

Nada de ordens


      Não tenho aqui à mão o meu manual de Direito Comparado, mas tenho quase a certeza de que executive order não tem correspondência no nosso decreto-lei, como vi o tradutor fazer. Também não se traduz por ordem presidencial. O que vejo por aqui e por ali, em textos oficiais, é decreto presidencial, o que até quadra melhor com um sistema político presidencialista.

[Post 2781]

Elementos compositivos -géneo/-génio

Imagem: http://www.indymedia.org/

De ir às lágrimas


      O tradutor verteu «tear-gas canisters» por «granadas de gás lacrimogénio». (Sim, canisters e não grenades. Reparem na imagem: são mesmo latas.) O problema não é de tradução, mas de português. Ora, o elemento de composição pospositivo usado nos adjectivos, ainda que substantivados, é -géneo, como em lacrimogéneo, homogéneo, halogéneo… O elemento -génio, por sua vez, postula substantivos: aglutinogénio, mitogénio… Ainda que a distinção, é verdade, tenha surgido já no português, se o tradutor soubesse latim, quase de certeza não teria dado semelhante erro. Pior ainda, apesar de tudo, é ver professores de Português que nunca tiveram o Latim como língua obrigatória em toda a sua formação. Que país. Ainda estão, está o Governo, a tempo de corrigir este erro, tornando obrigatória a frequência de acções de formação nesta língua.

[Post 2780]

Léxico: «monociclo»

  

Habilidades


      «Vamos todos aprender a pintar a cara, andar de monociclo e a equilibrar-nos ora sobre uma perna ora sobre outra, como um cavalo a galopar — muito melhor do que fracções, testes de ortografia e ser a última a ser escolhida para a equipa de basquetebol» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 8). Quase sempre nos esquecemos do nome do velocípede de uma só roda, muito usado por acrobatas, e, no entanto, se nos ocorresse que o elemento de formação de palavras que exprime a ideia de um só, unidade é mono-, facilmente lá chegaríamos. Mas há equívocos evidentes: também uni- é o elemento de formação de palavras que exprime a ideia de um, um só, e numa das acepções de unissexo significa «para os dois sexos».


[Post 2779]

«Geografia», uma acepção

Outras latitudes

      Dizia o provedor do ouvinte da RDP, Adelino Gomes, na emissão da semana passada, a 54.ª, do programa Em Nome do Ouvinte: «Ficámos a perceber — e tem lógica — que a RDP África se dirige ao mesmo tempo a dois grandes públicos-alvo, situados em geografias e ambientes culturais muito diferentes — os africanos residentes nas regiões de Lisboa, Coimbra e Faro; e os africanos residentes nas diferentes ex-colónias portuguesas do continente africano. Assim como também, evidentemente, os portugueses ali residentes.»
      Fez de imediato lembrar-me um conhecido meu que, português embora, «vive em francês», e, em vez de contactos, nos pede «coordenadas». Sou o primeiro a dizer que a língua não se resume aos dicionários — nem a um só nem a todos juntos. Este sentido figurado de «geografia» soa-me estranho, mas talvez se possa estabelecer analogia com o vocábulo «latitude», de que os dicionários registam o sentido figurado «região». Claro que o provedor poderia ter dito «espaços geográficos». Este programa, já viram?, é disponibilizado em áudio e num guião, caminho que deveria ser seguido por outros.

[Post 2778]

Actualização em 20.2.2010

      Talvez se vá tornando uma acepção comum: «As restantes etnias da geografia russa vão dos cossacos aos tártaros, dos povos da Tuva aos evens e aos tungus, dos povos do Cáucaso aos mordovos, dos Qoriaques, de origem mongol, aos vepsios — todos integram aquele que é o maior país do mundo em área, com os seus 17 075 200 quilómetros quadrados» («Do Ducado de Moscovo a grande potência», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.2.2010, p. 18).

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