Sobre a necessidade de revisão

Por um triz

O jornalista talvez até tenha frequentado Fonética e Fonologia, mas não foi por aí que as coisas falharam. Jesualdo Ferreira, a propósito da suspensão aplicada ao jogador Lisandro López, disse que tinha sido «o jogador imolado para dar corpo a uma lei», mas o jornalista escreveu que o jogador tinha sido «emulado para dar corpo a uma lei». O revisor estava lá e impediu o disparate. Como não o terá impedido (porque o jornal não tem revisores?) num artigo de opinião do Prof. Freitas do Amaral, que, a propósito da edição do mais recente livro de Almeida Santos, Que Nova Ordem Mundial?, escreveu: «Se não vivêssemos num país cada vez mais inculto e embiocado, já teria havido inúmeras reclusões, elogios e críticas, ou até debates» («A ordem mundial de Almeida Santos», Diogo Freitas do Amaral, Diário de Notícias, 19.03.2009, p. 10). Sim senhor, já tem havido reclusões a propósito da publicação de livros, mas não terá sido em países cultos e desembiocados.

«Imediatamente antes»

Passado imediato

Quantas vezes não acontecerá: pergunta-se alhos e responde-se bugalhos? Um consulente do Ciberdúvidas perguntou: «Faz sentido dizer “imediatamente antes”? Ou aquele advérbio tem apenas uma indicação de sequência para diante?» Respondeu F. V. P da Fonseca: «Antes é diferente de imediatamente antes. Se eu disser, p. ex., ele chegou imediatamente antes de mim, quer dizer que mais ninguém veio no meio, entre nós. Se, porém, me limitar a dizer antes, pode haver uma ou mais pessoas que chegaram de permeio.» Ontem um colega discutiu comigo esta questão. Imaginem que a frase em apreço era: «O jogador já tinha sido advertido imediatamente antes do treino.» A avaliar pelo significado — em seguida; logo; logo a seguir; sem a mínima demora —, o advérbio «imediatamente» apenas se reporta ao futuro e não ao passado. Escrever-se-ia então: «O jogador já tinha sido advertido antes do treino.» Ou: «O jogador já tinha sido advertido mesmo antes do treino.» Ou: «O jogador já tinha sido advertido uns momentos antes do treino.»

Sobre «virar»

Um brasileirismo naturalizado


      Da imprensa, má, assim-assim e boa, às traduções, passando por obras de autores portugueses, o brasileirismo «virar» («tornar-se») veio para ficar. Veio, é verdade, há muito tempo, mas agora está aí em força. Quase todos os dias o vejo. A língua não pára, e não serei eu a pôr-me à sua frente e virar purista morto. Num estudo, datado de 1976, sobre os brasileirismos lexicais em Angola, o autor, o russo Aleksandr Jarushkin, já assinalava o uso de virar nesta acepção. Isto prova duas coisas, pelo menos: primeiro, que os Russos não mandaram apenas aviões Antonov, metralhadoras AK-47 (que, no caso de Moçambique, até está representada na bandeira) e soldados para Angola e, segundo, que a televisão não é a única porta de entrada das influências linguísticas. «Há um antigo centro comercial que virou concorrido templo religioso» (Diário de Notícias, 3.01.2009, p. 5). «História dos Kennedy vai virar minissérie» (Diário de Notícias, 2.04.2009, p. 52). «Cláudia Borges vira assessora» (Destak, 26.2.2008, p. 10). «Soro de leite vira alimento» (Meia Hora, 20.5.2008, p. 2). «Semanário ‘O Eco’ vira mensário gratuito» (Diário de Notícias, 3.04.2009, p. 60). «Professores dizem estar a virar técnicos informáticos» (Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 12).

«Foredge painting»

Pintura do corte da frente

Por uma reportagem do Diário de Notícias, ficámos a conhecer uma nova técnica de ornamentação dos livros: «A pintura é a grande auxiliar da encadernação e a sua forma mais subtil de colaboração é o foredge painting. Técnica que consiste em pintar a aguarela o corte da frente das folhas do livro, num plano inclinado, e depois dourá-la no plano vertical, escondendo a pintura sem a estragar. A técnica foi inventada em Inglaterra, no século XVII e, por ser de difícil execução, foi praticada em muito poucos países. Existirão apenas dez mil volumes e a Invicta Livro é um dos quatros ateliers do mundo a produzir obras com foredge painting» («‘Alfaiates’ do livro restauram obras de todas as épocas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 31.03.2009, p. 27).

Aplicação do Acordo Ortográfico

Para se habituarem

Quando dá jeito, também o Diário de Notícias já aplica as novas regras ortográficas: «Com apenas 17 milímetros de comprimento, esta nova espécie de rã, de nome científico Albericus sp, foi descoberta na Papua-Nova Guiné, no decurso de uma expedição promovida em 2005 pela Conservation International. Existe apenas numa montanha chamada Montane, na região de Kaijende» («Minirrã», texto de apoio ao texto «Descobertas 56 novas espécies», Filomena Naves, Diário de Notícias, 31.03.2009, p. 28). Segundo o Acordo Ortográfico de 1990, não se usa hífen «nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal como biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia». Logo, minirrã.

Preposições «de» e «desde»

Não espanholize, Luís

      «Até agora o colectivo de juízas de Oeiras ouviu sete testemunhos, um dos quais por vídeo conferência desde o Tribunal de Ansião, concelho onde viveu a sogra do arguido» («Isaltino satisfeito com testemunhas», Luís Galrão, Diário de Notícias, 1.04.2009, p. 9). Talvez pudéssemos, com alguma prestidigitação, subentender ali um «até», mas é mais correcto dizer e escrever «de»: «do Tribunal de Ansião». Os repórteres desportivos é que gostam de transmitir «desde o Estádio Municipal de Braga, a Pedreira», «desde o Estádio da Luz, a Catedral», «desde o Estádio Algarve, em Faro», e por aí fora. Vão para Espanha falar assim, se fazem favor.

Prefixos re- e co-

Corrector incorrecto


      No início de Janeiro, a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançou a 2.ª edição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Foram 56 as alterações, todas referentes aos prefixos co- e re-, que fez em relação à 1.ª edição. Nesta, estavam registadas palavras como re-edificação, re-edificar, re-editar, re-educação, re-educar, re-eleger, re-eleição, re-eleito, re-embolsar, re-embolso, re-encarnação, re-encarnar, re-encontrar, re-encontro, re-engenharia, re-entrância, re-entrante, re-entrar, re-enviar, re-erguer, re-escalonamento, re-escalonar, re-escrever, re-escrito, re-estruturação, re-estruturar, re-estudar, re-exame e re-examinar. Na 2.ª edição, o hífen desapareceu, como já tínhamos referido aqui. Também escrevemos então que alguns dicionários portugueses difundiam o erro. E não só dicionários, comprovei-o ontem: também o corrector ortográfico Flip 7, da Priberam. Como os computadores da secção de revisão do Record o têm instalado, experimentei-o. Escrevi: «Reencontram-se na terra de ninguém entre a memória e o esquecimento, os tempos e os espaços em que o futuro foi uma realidade.» A ferramenta sublinhou a vermelho a palavra «re-encontram-se». Abro as opções e vejo que correcto é escrever «re-encontram-se». Agora vamos ver, como diria um tecnocrata enfatuado, o time lag da Priberam, o tempo que decorre entre a correcção no Brasil e a necessária (e mais barata) correcção a fazer cá. É que em algumas editoras já se vai usando o corrector ortográfico como se de uma autoridade se tratasse.

Grafia dos nomes próprios

Questão homérica

Ao ler agora o texto «Ruy, a Águya de Haya», que faz parte da obra What língua is esta?, de Sérgio Rodrigues (Gradiva, 2009), não pude deixar de pensar no leitor Pedro Bingre e na acusação de que eu também dormitei, qual Homero. Quandoque bonus dormitat Homerus. Felizmente já estou habituado a elogios, caso contrário poderia fazer-me mal ser comparado a um génio. Só uma coisa me desagrada na comparação: Homero, e Pedro Bingre, professor na Escola Superior Agrária de Coimbra, não há-de ignorá-lo, poderá nunca ter existido. Mas voltando a Sérgio Rodrigues. Resumo o texto: os descendentes de Rui Barbosa (este sim, um génio) querem recuperar o ípsilon que ele perdeu na reforma ortográfica de 1943. Escreve Sérgio Rodrigues: «Como se sabe, a lei de 1943, regulamentada por decreto presidencial dois anos e meio depois, foi prontamente acatada nos dicionários, nas escolas, na imprensa, por todo lado. Nos cartórios é que não houve jeito de pegar. O professor Celso Pedro Luft admite, em seu Novo guia ortográfico, que “a tradição entre nós (…) tem contrariado a lei”. Tem mesmo, e como. Uma discreta mas tenaz desobediência civil acabou se impondo na questão dos nomes próprios. Vez por outra, algum escrivão radical ainda tenta fazer valer o manual, mas a causa parece perdida. Luiz Inácio Lula da Silva, para citar um exemplo ilustre, se insere nessa tradição de contrariar a lei de 1943, segundo a qual todo Luís deveria ser escrito com s e acento» (p. 180).

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